400 Anos de Farsa: O Sangue Guarani Sob as Ruínas das Missões

Enquanto o governo do Rio Grande do Sul investe R$ 50 milhões para celebrar o legado arquitetônico e turístico dos jesuítas, indígenas Mbya Guarani são resgatados de condições análogas à escravidão nas premiadas colheitas de azeite do estado e amargam a negação de seus territórios ancestrais.

A cena ocorreu em março de 2026, sob o frio úmido que costuma castigar as noites na região sul do Rio Grande do Sul. Quinze indígenas da etnia Guarani Mbya, com idades variando entre os 18 e os 47 anos, foram deixados à própria sorte na rodoviária da cidade de Pelotas.1 Estavam com as roupas sujas de terra e agrotóxicos, famintos e exaustos. Haviam passado as últimas duas semanas trabalhando na colheita manual de azeitonas na Fazenda Serra dos Tapes, no município vizinho de Canguçu, propriedade famosa por produzir um azeite de oliva extra virgem “premiado internacionalmente” e frequentemente associado a campanhas publicitárias sofisticadas com chefs de cozinha franceses.

A promessa feita pelos aliciadores modernos capitães do mato conhecidos como “gatos”, operando sob o CNPJ da empresa terceirizada Via Rural Serviços Especializados para Agricultura LTDA era de uma diária de R$ 150.1 No entanto, após dias dormindo em colchões finos atirados no chão duro, sem cobertores para suportar a madrugada, sendo forçados a tomar banho com água gelada da chuva e bebendo água de qualidade duvidosa, os trabalhadores foram descartados.1 Sob a perversa lógica da servidão por dívida, a empresa descontou do pagamento o transporte, os uniformes e as parcas cobertas fornecidas posteriormente. Dos R$ 1.800 prometidos, cada indígena recebeu apenas cerca de R$ 400.1 Reclamar resultava em violência psicológica: capatazes atiçavam outros peões para encurralar os Mbya em galpões, chamando-os aos gritos de “ladrões”.1

Enquanto esses corpos indígenas eram moídos pelas engrenagens do agronegócio de luxo no sul do estado, a poucas centenas de quilômetros dali, em Porto Alegre, os engravatados do Palácio Piratini articulavam uma festa milionária. Em 2026, o Rio Grande do Sul celebra com pompa e circunstância os 400 anos da fundação das Missões Jesuíticas Guaranis, iniciadas em 1626 com a Redução de São Nicolau. O governo gaúcho anunciou um investimento monumental de R$50 milhões em projetos turísticos, culturais e de infraestrutura na região missioneira. Programas como o “Conecta Missões”, séries de podcasts patrocinadas como o “Aconteceu no RS”, e eventos de nativismo se multiplicam para louvar o “encontro” entre a cruz europeia e os povos nativos.

A narrativa oficial, endossada por decretos e portarias da Secretaria da Cultura (Sedac), propõe exaltar o hibridismo cultural e a urbanização que supostamente moldaram pacificamente a identidade do povo sul-rio-grandense. Contudo, pesquisadores indígenas e lideranças contemporâneas enxergam a efeméride com desconfiança e dor. Para eles, trata-se de “uma data dos brancos”.2 O abismo entre a festa turística financiada pelo Estado e a realidade de miséria, negação territorial e escravidão contemporânea escancara a hipocrisia de uma sociedade que ama o índio morto, fossilizado em ruínas de arenito e estátuas de praça, mas que despreza, encarcera e escraviza o índio vivo que ousa exigir seus direitos no século 21.

Para compreender a ferida aberta que sangra no Rio Grande do Sul hoje, é necessário retirar o verniz romântico da história oficial. É preciso voltar 400 anos no tempo não para celebrar a catequização, mas para expor a brutalidade das invasões bandeirantes, o roubo da identidade cultural guarani para a invenção da figura do “gaúcho”, o massacre em Caiboaté, e a ininterrupta expropriação de terras que, do Império à aprovação do Marco Temporal, transformou os verdadeiros donos da terra em mão de obra cativa nas senzalas modernas.

A Invasão da Cruz, o Peixe Rebelde e o Terror Bandeirante (1626-1641)

O mito fundacional do Rio Grande do Sul, repetido à exaustão nos currículos escolares e nos centros de tradição, frequentemente retrata a chegada dos jesuítas como uma missão puramente celestial, um ato de amor desinteressado. A realidade, contudo, é que a fundação da primeira redução, a de São Nicolau, em 3 de maio de 1626, pelo padre Roque Gonzales, foi uma complexa e calculada manobra geopolítica da Coroa Espanhola (então unificada à portuguesa) e da Companhia de Jesus.3

O objetivo colonial era disciplinar, sedentarizar e extrair a força de trabalho das populações nativas, que viviam organizadas sob suas próprias lógicas cosmológicas e territoriais.3 Mas os indígenas nunca foram receptáculos vazios ou vítimas inertes. A própria toponímia da região revela essa insubordinação. São Nicolau recebeu o sufixo “Piratini”, que na língua Tupi significa “peixe rebelde”.3 A adoção da cultura europeia foi, segundo historiadores da Nova História Indígena, um intenso e muitas vezes violento processo de negociação, hibridismo e apropriação.5

O historiador Tau Golin, uma das vozes mais críticas ao “mito jesuítico”, argumenta que as missões, apesar de sua determinação colonial, acabaram formando uma “sociedade alternativa” de fronteira.6 Erguida sobre a propriedade coletiva da terra, essa sociedade entrava em choque com as cosmologias originais. O primeiro grande embate interno dos jesuítas não foi com feras selvagens, mas com os pajés (xamãs), os verdadeiros detentores da memória, da medicina e da espiritualidade da aldeia.6 Os caciques (morubixabas), vislumbrando nas tecnologias do ferro e na aliança com os padres uma forma de sobrevivência militar, acabaram alijando os pajés do poder, gerando uma fissura profunda e irreversível na estrutura social guarani.6

A aliança defensiva tinha um motivo aterrorizante: os paulistas. A historiografia oficial do Sudeste brasileiro passou o século 20 erguendo monumentos em granito para os Bandeirantes, tratando-os como heróis desbravadores. No Sul, entretanto, eles foram os algozes do primeiro grande holocausto indígena.

O terror bandeirante sobre as incipientes missões do Tape (no atual Rio Grande do Sul) foi uma empreitada paramilitar escravista metódica e cruel. Por volta de 1630, as bandeiras começaram a descer em peso. O modo de operação era covarde: grupos de 120 a 150 homens brancos armados com arcabuzes vinham acompanhados de cerca de mil indígenas tupis — inimigos históricos dos guaranis — para fazer o serviço sujo.7 Quando percebiam que as aldeias resistiriam, os bandeirantes recorriam à tática da terra arrasada, atirando flechas incendiárias contra as casas com telhados de palha, provocando pânico, mortes carbonizadas e a captura em massa dos sobreviventes.7

A fome de escravos dos paulistas era insaciável porque as missões concentravam, em um só lugar, milhares de indígenas já aculturados, habituados ao trabalho agrícola e falantes do guarani (que era similar à língua geral tupi falada em São Paulo).8 O extermínio foi potencializado pela guerra biológica involuntária; os indígenas concentrados nas missões caíam aos milhares vítimas das epidemias trazidas pelos europeus.8 Até 1641, os paulistas destruíram entre onze e catorze missões, escravizando assombrosos 33.000 a 55.000 indígenas, um dos maiores traumas demográficos do continente.8

A carnificina na redução de Jesus Maria é sintomática: cerca de 300 homens guaranis tentaram, em vão, defender seu lar ao lado de padres como Romero e Mola.9 A pressão insuportável levou ao dramático êxodo de 1639. Liderados por padres como o peruano Antonio Ruiz de Montoya, milhares de indígenas abandonaram o território sul-rio-grandense, atravessando o rio Uruguai para a margem direita em busca de refúgio.10 Foi necessária uma intensa articulação diplomática em Madri e Roma para permitir o impensável: armar os índios com armas de fogo europeias. Somente a criação dessa milícia guarani, que impôs uma derrota humilhante aos paulistas na Batalha de M’bororé em 1641, conseguiu estancar a sangria escravista no Sul.

A Expropriação da Identidade e a Farsa do “Gauchismo”

Quarenta anos após o êxodo provocado pelo escravismo bandeirante, em 1682, a estabilidade permitiu o retorno dos indígenas e jesuítas ao Rio Grande do Sul, fundando os famosos Sete Povos das Missões.4 Este período, que duraria até a expulsão dos jesuítas em 1768, é frequentemente descrito por europeus como Voltaire e Montesquieu como o “Primeiro Estado Industrial da América” ou o “Triunfo da Humanidade”.4 Eram cidades colossais de pedra, com fundições capazes de fabricar sinos de toneladas (como o “Miguelino”, fundido em 1726 e hoje preservado em Cruz Alta), prensas tipográficas, produção têxtil e observatórios astronômicos onde indígenas mapeavam os céus com precisão.3

Mas a verdadeira revolução operada pelos Sete Povos ocorreu nas vastidões do Pampa, e é aqui que reside um dos maiores roubos culturais da história do Brasil: a invenção do gaúcho.

O Rio Grande do Sul contemporâneo consolidou, através de seus Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e de uma literatura ufanista, a figura do gaúcho como um homem branco, ibérico, fazendeiro destemido e guerreiro de fronteira. Para historiadores como Mário Maestri e Luís Augusto Fischer, trata-se de uma “tradição inventada”.11 A base material, genética e cultural do Estado é inequivocamente indígena.4

Foram os guaranis missioneiros que, a partir de 1634, introduziram e dominaram a pecuária em escala colossal, administrando estâncias que englobavam dois terços do território atual do Estado.4 O manejo do couro, a lida campeira com o gado solto, a doma do cavalo, o consumo do chimarrão e o ethos resiliente da fronteira nasceram não com o estancieiro luso-brasileiro, mas com o índio “pelo duro”.11 O pesquisador José Roberto de Oliveira enfatiza que “o verdadeiro gaúcho nasce do sangue ‘pelo duro'” e que o alicerce fundamental do “jeito gaúcho de ser” pertence aos povos originários.11

Após a desestruturação das missões, com a debandada de milhões de cabeças de gado pelos pampas, os sobreviventes guaranis, destituídos de suas terras coletivas, viraram a mão de obra explorada nas estâncias dos brancos.6 Houve uma violenta “indianização” ou “guaranização” da cultura fronteiriça, onde as habilidades indígenas foram parasitadas pela elite nascente.6

Em contrapartida, os verdadeiros “gaudérios” — figura frequentemente romantizada pela cultura oficial — eram, na época colonial, vagabundos errantes, bandoleiros violentos, assaltantes e “sistemáticos inimigos” das reduções organizadas, responsáveis por saques e estupros contínuos contra as populações indígenas pacificadas.6 Ao apagar o índio da gênese do Estado e colocar o branco e o gaudério violento no pedestal heroico, a historiografia oficial cometeu um epistemicídio que reverbera até hoje no racismo estrutural da sociedade gaúcha.

Sepé Tiaraju, o Tratado de Madri e a Batalha pelo “Dono da Terra”

O projeto das Missões foi condenado à morte pelos burocratas de Lisboa e Madri. Em 1750, as coroas portuguesa e espanhola assinaram o Tratado de Madri, uma negociação de gabinete que redefiniu as fronteiras coloniais. Em troca da Colônia do Sacramento (no Uruguai), a Espanha cedeu o território dos Sete Povos a Portugal. O tratado exigia que cerca de 30 mil guaranis abandonassem suas terras ancestrais, suas casas de pedra, suas ricas lavouras e milhões de cabeças de gado, cruzando o rio Uruguai para entregar tudo intacto aos portugueses.12

Os indígenas, cientes de seus direitos, recusaram-se ao exílio. A deflagração da Guerra Guaranítica (1753-1756) não foi apenas uma insurreição militar; foi uma profunda declaração de soberania e autodeterminação.13 No centro desta resistência ergue-se a figura de Sepé Tiaraju, capitão guarani e corregedor (prefeito eleito por voto secreto) da cidade de São Miguel.12

Sepé Tiaraju tornou-se a antítese do mito do latifundiário patronal. Ele cunhou o grito de guerra e o fundamento teológico-político da resistência: “Esta terra tem dono”.11 Para os guaranis, a terra lhes fora dada por Deus e pelo direito do trabalho ancestral, invalidando os papéis assinados por reis estrangeiros a milhares de quilômetros de distância.13

A repressão foi avassaladora. Em fevereiro de 1756, as tropas conjuntas dos exércitos português e espanhol, fortemente armadas com artilharia pesada, aniquilaram a resistência. Sepé Tiaraju tombou em combate no dia 7 de fevereiro.14 Três dias depois, o horror atingiu seu ápice no Massacre de Caiboaté. No vale raso, mais de 1.500 indígenas foram encurralados e sumariamente exterminados pelo fogo de canhões europeus, numa chacina que contou com a participação sádica dos bandoleiros gaudérios.6

Ao final da carnificina, as coroas ibéricas justificaram a barbárie alegando que as missões representavam uma “perigosa autonomia” que ameaçava o colonialismo.6 Hoje, Sepé Tiaraju é reconhecido como “herói guarani missioneiro rio-grandense” e possui o nome inscrito no Livro dos Heróis da Pátria.11 Ele é um símbolo imortal da luta popular, a memória insurgente do peão sem-terra e do oprimido.12 No entanto, seu brado de que a terra tem dono continua a ser dolorosamente ignorado pelo sistema judiciário moderno.

Genocídio Contemporâneo: A Guerra Química e a Asfixia Territorial

A destruição das Missões não encerrou o processo de pilhagem; apenas modernizou as suas ferramentas. Se no século 17 usavam-se arcabuzes e no 18 canhões, nos séculos 19, 20 e 21 utilizam-se a grilagem oficial, a burocracia estatal, a Justiça Federal e os aviões de veneno.15

Após o Regulamento das Missões de 1845, durante o Império, as terras indígenas continuaram sendo saqueadas pelo próprio Estado. Na Terra Indígena Guarita, localizada na região noroeste do RS, que abriga populações Kaingang e Guarani (como a Tekoá Ka’aguy Porã), diretores governamentais atuavam como grileiros.15 Documentos históricos relatam o desespero do cacique Kaingang ao denunciar o diretor Rocha Loures, que exigia como propriedade particular as áreas sagradas onde os antepassados indígenas estavam enterrados: “Sor. Rocha nos ameaça perseguir-nos, não quer que moremos nos campos que ele chama de seus, e que são nossos, pois nele nascemos”.15

Essas políticas oitocentistas perduram intocadas na necropolítica agrária atual. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa do Palácio do Planalto em 2023 de braços dados com o Cacique Raoni, numa simbologia poderosa. Contudo, movimentos sociais e lideranças apontam que a lentidão do Executivo e a voracidade do Legislativo mantêm a insegurança jurídica crônica. O governo é responsabilizado por não promover demarcações suficientes, enquanto o Congresso ruralista insiste em validar o inconstitucional “Marco Temporal”, uma tese jurídica caduca que visa perenizar a exclusão.18 No Rio Grande do Sul, juízes chegaram a suspender demarcações de terras Kaingang usando o marco temporal como base, contrariando diretrizes do próprio Supremo Tribunal Federal (STF).19

O resultado dessa ineficácia estatal e agressão legislativa é sangue no solo. O relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), traça um retrato dantesco do país. Em apenas um ano, os assassinatos por conflitos fundiários explodiram, registrando um aumento alarmante de 100% (de 13 mortes em 2024 para 26 execuções em 2025).20 A maioria esmagadora (77%) dessas mortes tem o latifundiário na figura clara de mandante ou executor material.20

A violência vai além da pólvora, mergulhando na guerra biológica. A CPT registrou 127 casos de contaminação criminosa e sistêmica por agrotóxicos em 2025.16 Aviões do agronegócio despejam “chuvas de veneno” sobre aldeias e roças de subsistência, operando uma tática de guerra química destinada a forçar a expulsão das famílias nativas pelo terror e pelo adoecimento.16 Em todo o Brasil, foram 1.593 conflitos agrários registrados, com aumentos exponenciais em casos de cárcere privado (saltando de 1 para 105 ocorrências) e humilhação institucionalizada.20

No Rio Grande do Sul, comunidades lutam arduamente pela sobrevivência. Famílias Guarani Mbya enfrentam ataques paramilitares em retomadas em Terra de Areia, resistem bravamente em Itaara e batalham na justiça pelo sagrado direito de moradia e passagem na Ponta do Arado, em Porto Alegre.19 A omissão do Estado em demarcar territórios é tão flagrante que a Justiça Federal precisou condenar simultaneamente a União, a Funai e o governo do RS a fornecerem cestas básicas de emergência para impedir que comunidades inteiras morressem de inanição.19 É o estrangulamento pela fome como política pública.

2026: A Escravidão Guarani Servida com Azeite Extra Virgem

A consequência mais macabra da asfixia territorial que o Estado brasileiro impõe aos Guarani e Kaingang é a criação estrutural de um enorme contingente de mão de obra pauperizada, desesperada e vulnerável aos abutres do agronegócio.1 Impedidos de plantar, caçar ou viver em suas aldeias cercadas pela soja e pelo veneno, os indígenas são atirados na engrenagem criminosa das colheitas sazonais de luxo da serra e do sul gaúcho. Os bandeirantes do século 17 retornaram, desta vez munidos de grupos de WhatsApp, empresas de fachada e falsas promessas trabalhistas.

O horror revelado em março de 2026 chocou até os observadores mais cínicos. O Ministério Público do Trabalho (MPT), o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e procuradores da República precisaram agir frente a denúncias de que os netos de Sepé Tiaraju estavam sendo reduzidos à escravidão no coração do estado que lucra exibindo sua cultura.

Na Fazenda Serra dos Tapes, localizada em Canguçu, os 15 indígenas abandonados na rodoviária de Pelotas contaram um roteiro de suplício e crueldade.1 O “crime” deles foi buscar alimento para suas famílias. A terceirização, através da empresa “Via Rural Serviços Especializados para Agricultura LTDA”, serviu como o escudo jurídico perfeito para blindar os donos das terras bilionárias.1

O alojamento oferecido pela elite agrícola do RS beirava os campos de concentração. Sem fechamento nas janelas, os trabalhadores dormiam amontoados no chão de terra para fugir da hipotermia, já que a fazenda não forneceu cobertores. Foram forçados a passar três dias inteiros sem fornecimento de água potável, precisando se submeter à humilhação de tomar banho na chuva ácida e gelada dos pampas.1

A resposta policial inicial à denúncia foi uma bofetada racista: a Delegacia da Polícia Federal de Pelotas simplesmente recusou-se a lavrar o Boletim de Ocorrência dos indígenas resgatados, exigindo a intervenção direta e dura de procuradores do Ministério Público Federal (MPF) para que os agentes cumprissem com a sua obrigação legal básica.1 O vácuo institucional era imenso; até o plantão inicial do MPT falhou em acolher os vitimados com a urgência devida.1

Diante do escândalo, a pressão enérgica do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) forçou a convocação de uma audiência pública histórica no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4), em Porto Alegre, no dia 18 de março de 2026. Com a presença de 150 pessoas, entre desembargadores atônitos e ativistas com os olhos marejados, as lideranças indígenas puxaram o véu que escondia o porão das riquezas do sul.1

O cacique Eloir Werá Xondaro e Ariel Kuaray Ortega, figuras centrais na articulação Guarani, atestaram na tribuna que o caso da oliva em Canguçu não era uma falha pontual, mas o projeto operacional do sistema. Relataram que dezenas de aldeias sofrem o assédio incansável dos “gatos” para fornecer braços baratos, sem garantias e sem direitos, para as bilionárias safras da maçã, da uva e da cebola.1

A audiência no TRT4 expôs chagas que o Estado sempre tentou abafar.1 O depoimento de Aldo Benites Mariano revelou que a infância indígena é sistematicamente roubada pelo agronegócio. Hoje com 19 anos, ele relatou ter sido atirado ao trabalho excruciante da colheita com apenas 12 anos de idade. Narrou, engasgado, a obrigação de suportar pesos além de sua capacidade, trabalhando doente, com as mãos ardendo em feridas vivas e sob ameaças diárias.1 Havia um sistema de punição financeira tão sádico que os fiscais da fazenda multavam os meninos em até dois reais por cada minuto que ousassem parar para recuperar o fôlego à sombra.1

Ainda mais sombria foi a revelação da violência de gênero estrutural.1 O corpo da mulher indígena, relegado aos trabalhos de cozinha e limpeza dos alojamentos da colheita, é tratado como parte do espólio patronal.1 Uma jovem xondaro Guarani relatou aos juízes o terror diário: patrões que possuíam chaves-mestras dos quartos femininos, invadindo-os na calada da noite.1 Roupas íntimas eram rotineiramente roubadas dos varais. Ela mesma teve seu corpo e nádegas apalpados à força nos corredores estreitos da fazenda.1 A escravidão de 2026 carrega consigo os abusos sexuais do Brasil colônia, sem tirar nem pôr.

Especialistas e juristas na audiência confirmaram que todas essas práticas degradantes violam frontalmente o artigo 149 do Código Penal (redução à condição análoga à de escravo), rasgam o artigo 231 da Constituição Federal que protege os modos de vida originários, e ferem a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).1 Contudo, a roda da impunidade continua a girar, empurrada pela blindagem do trabalho terceirizado e pela inércia dos órgãos fiscalizadores.1

Conclusão: “Sem Território Não Há Saúde, Não Há Vida”

Nenhum evento comemorativo organizado pelo governo estadual gaúcho, nenhuma intervenção artística nas universidades (mesmo as bem-intencionadas, como as do artista Xadalu na Unisinos) 22, nenhum festival de música nativista será capaz de mascarar o fato de que os 400 anos das Missões Jesuíticas são, sob a lente dos sobreviventes, quatro séculos ininterruptos de desterro e sangue.2

A desconexão entre a realidade e o discurso público alcança as raias da esquizofrenia. Em 18 de junho de 2025, o Estado instalou formalmente a comissão de celebração, com o decreto 57.369/2023, prometendo “valorizar a história e reconhecer o legado” com polpudos editais da Sedac. Entretanto, ao transformar a dor guarani em atrativo turístico, o Estado promove a continuidade do apagamento histórico alertado pelos teóricos da perspectiva decolonial.5 Para os atuais Guarani Mbya, as ruínas das Missões, especialmente São Miguel Arcanjo, não são atração de fim de semana para brancos tirarem fotos. Trata-se da Tava (a Casa de Pedra), um repositório místico e contínuo de sua história sagrada.5 Reduzi-la a folclore e esconder as famílias miseráveis que vendem artesanato de taquara nas calçadas em torno do sítio arqueológico é reiterar o racismo fundante da pátria.5

As populações originárias recusam-se, contudo, a aceitar passivamente o extermínio. A resistência que ecoou nos canhões de M’bororé e nos campos banhados de sangue de Caiboaté respira e pulsa nos movimentos indigenistas de 2026. Em abril, durante a marcha do Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília, convocada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), milhares de rostos pintados com urucum e jenipapo confrontaram diretamente o Congresso Nacional, sob o lema inegociável de que “os territórios não estão à venda”.24 Lideranças apontaram o dedo para os governantes, advertindo que o genocídio agrícola é, na verdade, um crime contra o futuro de toda a humanidade.

A liderança Sineia do Vale, articulando forças internacionais para os painéis climáticos da COP30, foi cristalina ao vincular a salvação da biodiversidade à proteção dos corpos indígenas: “A demarcação de terras indígenas é uma política do clima”.25 No Fórum Permanente da ONU, a mensagem proferida não deixou espaço para a diplomacia vazia: “Para os povos indígenas, sem território não há saúde, não há vida”.26

A verdadeira celebração da cultura missioneira não reside nos monumentos erguidos pelos opressores, mas na força daquelas comunidades que insistem em manter vivas as chamas de sua cosmologia ancestral sob as mais adversas condições.5 Enquanto o país não pedir o devido perdão, estancando a violência rural, encarcerando o baronato agrícola criminoso 20 e efetivando de forma radical, inadiável e completa a demarcação das terras tradicionais usurpadas 18, celebrar as Missões será o equivalente a aplaudir a engenharia do próprio genocídio. O grito do capitão e mártir Sepé Tiaraju continua assombrando os corredores do Palácio do Planalto, ecoando nas fazendas escravocratas de Canguçu e retumbando através dos séculos: Esta terra tem dono. E os donos estão sangrando.

Referências citadas

  1. Guarani Mbya são abandonados após trabalho em condição …, acessado em maio 15, 2026, https://cimi.org.br/2026/03/guarani-mbya-escravidao-rs/
  2. “Uma data dos brancos”: o que pensam pesquisadores indígenas …, acessado em maio 15, 2026, https://www.nonada.com.br/2026/05/uma-data-dos-brancos-o-que-pensam-pesquisadores-indigenas-sobre-os-400-anos-das-missoes/
  3. Missões jesuíticas: Conheça a história da Redução de São Nicolau …, acessado em maio 15, 2026, https://alotatuape.com.br/missoes-jesuiticas-conheca-a-historia-da-reducao-de-sao-nicolau-piratini-que-completara-400-anos/
  4. ”Os Sete Povos são a marca do início do RS que … – IHU Online, acessado em maio 15, 2026, https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/3554-jose-roberto-de-oliveira
  5. MISSÕES JESUÍTICO-GUARANI E … – Lume – UFRGS, acessado em maio 15, 2026, https://lume.ufrgs.br/bitstream/10183/212491/1/001116222.pdf
  6. Missões jesuíticas do Paraguai: uma sociedade … – IHU Online, acessado em maio 15, 2026, https://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/3646-tau-golin
  7. BANDEIRANTES’ ATTACK ON THE MISSIONS – YouTube, acessado em maio 15, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=5sSnVH0ATk0
  8. Os brutos que conquistaram o Brasil | Super, acessado em maio 15, 2026, https://super.abril.com.br/historia/os-brutos-que-conquistaram-o-brasil/
  9. Primeiro ciclo missioneiro no território do atual Estado do Rio Grande do Sul, acessado em maio 15, 2026, https://grandeprojetomissoes.com.br/wp-content/uploads/2023/01/Reducoes-do-Primeiro-Ciclo-no-RGS-rev-2.pdf
  10. AVANTE GUERREIROS! AS BATALHAS DE CAAÇAPAGUAÇÚ E M’BORORÉ (1639 e 1641) – AWS, acessado em maio 15, 2026, https://jp-projeto-missoes.s3.amazonaws.com/wp-content/Publica%C3%A7%C3%B5es%20e%20artigos+%28diversos+autores%29/Avante_Guerreiros_as_batalhas_de_Caacapa.pdf
  11. O ethos gaúcho e o resgate do herói guarani missioneiro rio …, acessado em maio 15, 2026, https://www.ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/622241-o-ethos-gaucho-e-o-resgate-do-heroi-guarani-missioneiro-rio-grandense
  12. SEPÉ TIARAJU E A RESISTÊNCIA DOS GUARANI MISSIONEIROS …, acessado em maio 15, 2026, https://revistas.ufrj.br/index.php/mi/article/view/60446
  13. Missões jesuíticas dos Sete Povos e o Tratado de Madri (1750): protagonismo, resistência e autodeterminação dos índios na – Tellus, acessado em maio 15, 2026, https://www.tellus.ucdb.br/tellus/article/download/534/484/2401
  14. Guerra Guaranítica – Wikipédia, a enciclopédia livre, acessado em maio 15, 2026, https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Guaran%C3%ADtica
  15. Aldeamentos guaranis e kaingangs e a questão das terras indígenas no Rio Grande do Sul Imperial (1845-1870) | Revista de História, acessado em maio 15, 2026, https://revistas.usp.br/revhistoria/article/view/227339/216459
  16. Conflitos por Terra e Água continuaram a devastar territórios e vidas no campo brasileiro em 2025 – CPT NE2, acessado em maio 15, 2026, https://www.cptne2.org.br/noticias/noticias-por-estado/6638-conflitos-por-terra-e-agua-continuaram-a-devastar-territorios-e-vidas-no-campo-brasileiro-em-2025
  17. O processo histórico-social da Terra Indígena Guarita | Revista Brasileira de Educação do Campo, acessado em maio 15, 2026, https://periodicos.ufnt.edu.br/index.php/campo/article/view/8533
  18. Indigenous people await a statement from the Brazilian government regarding land demarcation on t… – YouTube, acessado em maio 15, 2026, https://www.youtube.com/watch?v=GfpWyasDjOU
  19. Rio Grande do Sul arquivo | Cimi, acessado em maio 15, 2026, https://cimi.org.br/tag/rio-grande-do-sul/
  20. Relatório anual da CPT aponta aumento de 100% no número de assassinatos no campo entre 2024 e 2025, acessado em maio 15, 2026, https://cimi.org.br/2026/04/relatorio-conflitos-cpt-2025/
  21. A luta das famílias Guarani Mbya por terra e território no município de Itaara (RS), acessado em maio 15, 2026, https://reporterpopular.com.br/a-luta-das-familias-guarani-mbya-por-terra-e-territorio-no-municipio-de-itaara-rs/
  22. Projeto inédito com artista indígena Xadalu marca o início das celebrações dos 400 anos das Missões na Unisinos, acessado em maio 15, 2026, https://www.unisinos.br/noticias/projeto-inedito-com-artista-indigena-xadalu-marca-o-inicio-das-celebracoes-dos-400-anos-das-missoes-na-unisinos/
  23. Após a Guerra Guaranítica: resistência Guarani através da venda artesanal, acessado em maio 15, 2026, https://historiaeculturaguarani.org/rede/inventando-editando-desterro-guarani/apos-a-guerra-guaranitica-resistencia-guarani-atraves-da-venda-artesanal/
  24. Em marcha, povos indígenas confrontam Congresso: os territórios indígenas não estão à venda | APIB, acessado em maio 15, 2026, https://apiboficial.org/2026/04/08/em-marcha-povos-indigenas-confrontam-congresso-os-territorios-indigenas-nao-estao-a-venda/
  25. ‘A demarcação de terras indígenas é uma política do clima’ – Intercept Brasil, acessado em maio 15, 2026, https://www.intercept.com.br/2025/08/29/entrevista-a-demarcacao-e-uma-politica-do-clima-diz-lideranca-sobre-plano-dos-indigenas-para-combater-a-emergencia-climatica/
  26. Em marcha, povos indígenas confrontam Congresso: os territórios indígenas não estão à venda – Conselho Indigenista Missionário | Cimi, acessado em maio 15, 2026, https://cimi.org.br/2026/04/marcha-indigenas-congresso-atl2026/
  27. Governo do Brasil avança na demarcação de dez terras indígenas – COP 30, acessado em maio 15, 2026, https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/governo-do-brasil-avanca-na-demarcacao-de-dez-terras-indigenas
  28. Terras Indígenas no Brasil – novembro 2024 | Acervo | ISA – | Instituto Socioambiental, acessado em maio 15, 2026, https://acervo.socioambiental.org/acervo/mapas-e-cartas-topograficas/brasil/terras-indigenas-no-brasil-novembro-2024