Indígenas percorrem rios e estradas por dias para votar enquanto territórios como o dos Xipaya seguem sem ponto de votação local
Neste domingo de eleições, Indígenas de diferentes povos da Amazônia enfrentaram longos deslocamentos para conseguir votar. Em Santarém, no Pará, o casal Francisco e Rosa da Conceição, de 86 anos, do Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, saiu de casa no sábado e pernoitou em outra comunidade para então seguir de moto até a urna. No Amazonas, Leôncio Bosco, do povo Baré, atravessou o Rio Jurubaxi e o Rio Negro de voadeira saindo da Terra Indígena Jurubaxi-Téa até a sede de Santa Isabel do Rio Negro.
Nem todos conseguiram votar. Kainári Xipaya, professora de língua materna na Aldeia Tukamã, na Terra Indígena Xipaya, em Altamira, no Pará, precisaria viajar três dias até a sede do município para chegar à sua urna, trajeto dificultado pela seca que compromete a navegação no Rio Iriri. “Eu não pude votar, tiraram esse direito de mim”, relata. O povo Xipaya reivindica a instalação de um ponto de votação dentro do território, assim como os Juruna, da Terra Indígena Paquiçamba, em Vitória do Xingu, onde Bel Juruna organizou um esquema de carona entre aldeias para levar eleitores até a comunidade São Francisco das Chagas.
Já o povo Khisêtjê, da Terra Indígena Wawi, em Mato Grosso, na Amazônia Legal, conquistou pela primeira vez um local de votação dentro do próprio território. Segundo a liderança Winti Suya, todo o povo se reuniu na aldeia grande para votar e declarou apoio à candidatura de Lula à Presidência. A luta agora, segundo ela, é pela manutenção das estradas de acesso, para que parentes de outras aldeias não fiquem presos em atoleiros no caminho até a votação.
Segundo dados citados pela reportagem, o número de eleitores indígenas saltou 84% entre as eleições municipais de 2024 e as eleições gerais deste ano, passando de cerca de 156 mil para mais de 287 mil pessoas, quase metade concentrada na Região Norte, que também registrou o maior crescimento proporcional de eleitorado do país entre 2022 e 2026. A reportagem associa esse cenário ao avanço do agronegócio, de igrejas evangélicas e do ideário de colonização sobre a região, fatores que, segundo a matéria, têm impulsionado o crescimento da extrema direita bolsonarista ali. Em Vitória do Xingu, Bel Juruna relata ainda que colonos tentam impedir que a Funai garanta a demarcação física do território Juruna.
Em Belém, na Vila da Barca, periferia da Amazônia urbana marcada pela pressão da especulação imobiliária sobre as palafitas, o morador Sebastião Lobato também foi votar pensando em melhores condições de vida para sua comunidade. Para esses povos e territórios, segundo a reportagem, o voto se tornou um meio de lutar contra o próprio apagamento.
Fonte: SUMAÚMA
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de SUMAÚMA e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

