Liderança Witoto recebeu 43.891 votos, superou 2022 e denuncia racismo e misoginia de setores progressistas do Amazonas
A liderança indígena Vanda Witoto, do povo Witoto, não se elegeu deputada federal pelo Amazonas no pleito de 4 de outubro, mas ampliou sua votação em relação a 2022: recebeu 43.891 votos, contra 25.545 na eleição anterior. A candidatura, filiada ao MDB, enfrentou atraso de 17 dias no repasse do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, recurso de 2.933 reais segundo a própria candidata, o que comprometeu o início do período de viagens pelo interior do estado, segundo relato de sua equipe à SUMAÚMA.
Para superar a limitação de recursos e a extensão territorial do Amazonas, maior estado da Região Norte e o mais indígena do Brasil, a campanha se organizou pela chamada “estratégia da formiga”: apoiadoras e apoiadores, em sua maioria mulheres, jovens e professores, levaram o nome de Vanda a municípios distantes enquanto a candidata permanecia concentrada em Manaus. O nome da estratégia remete ao clã Derequine, de Vanda, que significa “formiga brava” na língua Witoto. Panfletos foram impressos também em Tikuna, levando a campanha a línguas indígenas pouco presentes no processo eleitoral.
Vanda integra a Bancada do Cocar, lista de 57 candidaturas endossadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). Do total, apenas Juliana Cardoso (PT-SP) e Sonia Guajajara (PSOL-SP) se reelegeram. Segundo a candidata, a escolha pelo MDB não foi abandono de suas convicções, mas saída construída coletivamente pelo movimento indígena diante da falta de espaço no PT estadual e na federação formada por PSOL e Rede no Amazonas, conforme relatou no SUMAÚMA Debate: Repovoar o Congresso.
Nas vésperas da votação, Vanda afirmou à SUMAÚMA ter enfrentado ataques nas redes sociais vindos do próprio campo progressista, que questionavam a viabilidade de sua candidatura em favor dos candidatos de direita Adail Filho e Saullo Vianna, ambos eleitos. “É uma grande covardia, racismo, misoginia”, declarou. Para ela, setores que defendem publicamente pautas indígenas resistem a ver uma mulher indígena ocupar espaço de poder: “Eles adoram usar nossas causas, nossas lutas, adoram fotografar ao nosso lado. Mas, na hora de nos colocar de fato no lugar de poder, a Vanda não serve para isso.”
Moradora do Parque das Tribos, primeiro bairro indígena do Amazonas, Vanda é técnica de enfermagem e atuou no atendimento a moradores durante a pandemia de covid-19, quando se tornou a primeira pessoa vacinada contra a doença no estado, em 18 de janeiro de 2021. O coronavírus matou mais de 14 mil pessoas no Amazonas, das quais 254 eram indígenas. Em 127 anos de existência do Congresso Nacional, apenas uma mulher indígena havia sido eleita deputada federal antes desta disputa: Joenia Wapichana, em 2018. Diante do resultado, a equipe de Vanda já projeta uma nova candidatura em 2028.
Fonte: SUMAÚMA
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de SUMAÚMA e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

