A Guerra Colonial dos Grileiros de Luxo e a Milícia “Invasão Zero” contra o Povo Pataxó
No sul da Bahia, pistoleiros confessam pagamento da associação do agronegócio Agronex para “ajudar a matar” indígenas.1 Uma investigação da Revista Caipora expõe o cartel que une magnatas da especulação imobiliária 2, a milícia ruralista e a cumplicidade do aparato estatal para privatizar praias e executar uma limpeza étnica em terras já demarcadas.1
Abertura: A Confissão da Fazenda Pero Vaz – O Fio da Meada
A guerra colonial que o agronegócio trava contra os povos originários no extremo sul da Bahia deixou de ser uma denúncia para se tornar uma confissão.1 Em 1º de outubro de 2025, um ataque paramilitar contra a retomada Pataxó na Fazenda Pero Vaz, dentro da Terra Indígena (TI) Comexatibá, no município de Prado 1, foi frustrado pela chegada da Força Nacional.1 O saldo do ataque revelou a assimetria da guerra: o Cacique Xawã Pataxó foi baleado no braço e outro indígena levou um tiro de raspão na cabeça.1 Do grupo de 50 pistoleiros pagos para a execução, “ninguém… foi ferido”.1

O que se seguiu foi o desmoronamento da farsa que trata assassinatos sistemáticos como “conflitos agrários”. Impedidos de fugir, os pistoleiros foram interrogados e confessaram.1 Admitiram ter recebido valores entre 500 e 1000 reais para uma tarefa clara e brutal: “atacar e ajudar a matar os Pataxó”.1
A confissão foi ainda mais longe, fornecendo o nome do mandante e a estrutura do financiamento. O pagamento, segundo os executores, veio “do presidente da Associação do Agronegócio do Extremo Sul da Bahia (Agronex)”.1 Esta associação, por sua vez, está umbilicalmente ligada ao grupo ruralista de extrema-direita “Invasão Zero”.1
Este evento não é um fato isolado. É o “fio da meada” que esta reportagem puxa para expor a anatomia de um projeto de etnocídio. A confissão da Fazenda Pero Vaz é a prova cabal que conecta a linha de frente da violência (os pistoleiros) à sua retaguarda institucional (a Agronex) 1, ao seu braço paramilitar (o “Invasão Zero”) 1 e, em última instância, aos beneficiários finais: um cartel de grileiros de luxo e especuladores imobiliários que cobiçam as terras e praias paradisíacas Pataxó.2
O que acontece no sul da Bahia não é uma disputa por terra; é uma operação de limpeza étnica financiada, uma sociedade anônima (S.A.) do etnocídio, onde o assassinato se tornou um serviço terceirizado para garantir a especulação imobiliária.7
A Raiz do Ódio: Uma Guerra de 500 Anos
Para entender os assassinatos de 2025, é preciso retroceder décadas. A violência atual é um eco direto de massacres e esbulhos institucionais que nunca cessaram. O Povo Pataxó luta hoje pelas mesmas terras das quais foram brutalmente expulsos no passado.
O trauma fundante da história recente Pataxó é a “Guerra do Fogo” de 1951. Relatos de anciãos descrevem um massacre brutal perpetrado por forças policiais a mando de fazendeiros locais, que invadiram a Aldeia Mãe, Barra Velha, queimando casas, destruindo plantações e assassinando indígenas. O objetivo era “limpar” a área para a expansão agrícola. O terror foi tão extremo que, segundo pesquisadores, “silenciou parte das lembranças dos velhos” e forçou a dispersão do povo Pataxó por matas e regiões vizinhas, quebrando sua unidade territorial. A Barra Velha de hoje, epicentro da luta, é o símbolo da tentativa de retorno a esse local de origem violentado.
A segunda grande violência, mais sofisticada, veio sob o disfarce da proteção ambiental. Em 1961, em plena expansão da fronteira agrícola, o governo brasileiro criou o Parque Nacional do Monte Pascoal através do Decreto nº 242. A criação desta unidade de conservação foi um ato de etnocídio institucional: o Parque foi demarcado sobre a área de ocupação tradicional Pataxó, incluindo partes da própria Terra Indígena Barra Velha, que ainda não estava regularizada.
Os Pataxó, que haviam preservado aquela mata por séculos, foram subitamente transformados em “invasores” dentro de seu próprio lar. Foram expulsos, proibidos de caçar, pescar ou cultivar suas roças tradicionais, enquanto fazendeiros e madeireiras continuavam a explorar ilegalmente as bordas do território. O Estado, ao criar o Parque, não protegeu a natureza dos Pataxó; protegeu-a contra os Pataxó, roubando seu território e sua base de subsistência, e entregando-o a uma lógica de “conservação” que excluía seus habitantes originários. A criação do parque tornou-se, assim, um “eixo identitário” para a “mobilização etnopolítica” Pataxó.
A luta Pataxó pela terra, portanto, não é apenas contra o fazendeiro ou o grileiro; é uma luta contra o próprio Estado, que primeiro os massacrou com fogo em 1951 e depois os expulsou com a lei em 1961. A “autodemarcação” e as “retomadas” de hoje são a correção histórica, feita com os próprios corpos, desse duplo esbulho.

O Rastro de Sangue: Um Memorial para o Futuro
A confissão de outubro de 2025 é a chave para compreender o modus operandi de uma campanha de terror que, nos últimos anos, vem executando sistematicamente as lideranças e a juventude Pataxó.1 Os pistoleiros pagos pela Agronex são os mesmos que compõem o “Invasão Zero” e que, em conluio com agentes do Estado, vêm deixando um rastro de sangue. O objetivo é claro: quebrar a linha de sucessão da resistência, assassinar o futuro do povo Pataxó.

Nega Pataxó (Maria de Fátima Muniz): A Semente da Resistência (Janeiro de 2024)/
Nega Pataxó, cujo nome de registro era Maria de Fátima Muniz, não era apenas uma indígena; era uma liderança espiritual, parteira, artesã e símbolo da resistência Pataxó Hã-Hã-Hãe. Irmã do Cacique Nailton Muniz, ela foi brutalmente assassinada durante uma retomada na TI Caramuru-Paraguaçu. O crime foi executado diretamente pelo “Invasão Zero”, em uma ação que, segundo sobreviventes, teve a cumplicidade explícita da Polícia Militar da Bahia (PMBA).8 Testemunhas afirmam que a PM “abriu o caminho para fazendeiros matarem Nega Pataxó”.8
O Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública do Estado (DPE) foram taxativos: o assassinato tem ligação com uma “milícia formada por policiais militares”. O assassino, José Eugênio Fernandes Amoedo, filho de um latifundiário local, foi preso em flagrante e confessou o crime. A justiça, no entanto, mediu o valor da vida indígena: ele foi solto após pagar uma fiança de 28.240 reais.9 A memória de Nega Pataxó, hoje celebrada em murais universitários, tornou-se um símbolo da força das mulheres indígenas e da impunidade grotesca do Judiciário baiano.

Gustavo Pataxó (Gustavo da Silva Conceição): O Futuro Interrompido (Setembro de 2022)
O assassinato de Gustavo Pataxó, de apenas 14 anos, expôs a face mais cruel do conluio entre pistoleiros e o Estado.1 O adolescente, Gustavo da Silva Conceição, foi morto com um tiro na nuca 10 durante um ataque de “10 milicianos fortemente armados” 4 na retomada da Fazenda Therezinha, na TI Comexatibá 11, na madrugada de 4 de setembro de 2022.
Lideranças descreveram o ataque como um “serviço profissional” 10, com mais de 100 disparos e uso de granadas de gás lacrimogêneo de uso exclusivo das forças policiais. Uma foto de Gustavo, tirada pouco antes, viralizou: nela, o menino segura um cartaz simples que dizia “os Pataxó pede socorro”.
A “Operação Tupã”, conduzida pela Polícia Federal e pela Corregedoria da Secretaria de Segurança Pública da Bahia 4, prendeu dois policiais militares, Renato Martins do Carmo e Willer Diogenes Santos, pela execução.4 A investigação apontou que três PMs foram contratados por um fazendeiro para cometer o crime. A impunidade, no entanto, atua como política de Estado: em julho de 2023, o juiz federal Raimundo Bezerra Mariano determinou a soltura dos PMs acusados de assassinar o adolescente.4 O MPF e a DPU agora movem uma ação civil pública contra o Estado da Bahia, cobrando R$ 6,8 milhões em indenizações, argumentando que o crime é resultado direto da “omissão do estado em impedir o uso ilegal de policiais militares como seguranças privados”.

Samuel, Nawir e Vitor: A Juventude como Alvo (2023-2025)
A lista de mártires continua. Em 17 de janeiro de 2023, a violência ceifou a vida de Samuel Cristiano do Amor Divino, de 25 anos, e Nawir Brito de Jesus, de 17 anos. Ambos foram mortos a tiros quando retornavam para uma das áreas de retomada dentro da TI Barra Velha 5, no município de Itabela. As mortes ocorreram em meio a uma “onda crescente de ameaças e violência por milícias armadas organizadas por grupos de fazendeiros” 5, o mesmo cenário de terror que levaria ao assassinato de Nega.5
Em 11 de março de 2025, um ataque coordenado de pistoleiros às TIs Comexatibá e Barra Velha 9 resultou no assassinato de Vitor Braz Pataxó. O Conselho de Caciques Pataxó (CONPACA) denunciou o crime como um “ataque orquestrado por fazendeiros” 9, exigindo justiça e a localização de outros dois adolescentes que desapareceram no ataque.13
Essa sucessão de assassinatos de jovens—14, 17, 25 anos—não é aleatória.1 É uma tática de etnocídio deliberada. Ao mirar na juventude, os executores buscam exterminar os futuros guerreiros, as futuras lideranças e os herdeiros da luta, numa tentativa de matar a própria esperança do Povo Pataxó em seu território.
Anatomia dos Mandantes – O Cartel da Grilagem
A confissão dos pistoleiros em outubro de 2025 permite, pela primeira vez, mapear a cadeia de comando do etnocídio.1 Ela revela uma estrutura corporativa que vai desde os pistoleiros de chão de fábrica até os “grileiros de luxo” que se beneficiam dos assassinatos.2

O “Invasão Zero” se apresenta publicamente como um “movimento em defesa da propriedade privada”.14 Com CNPJ registrado na Bahia 15, o grupo organiza fóruns nacionais, como o realizado em Ilhéus em junho de 2025 14, e recebe aplausos e moções de louvor de deputados federais e estaduais de extrema-direita (como Coronel Meira, Capitão Alden, Dr. Diego Castro, e Coronel Zucco).8
Esta é a fachada legal. Na prática, o “Invasão Zero” é denunciado por lideranças indígenas, pelo MPF e por organizações de direitos humanos como uma “milícia”. O grupo é investigado pela Polícia Federal e é descrito por acadêmicos como uma “nova versão da União Democrática Ruralista (UDR)”, a infame organização ruralista dos anos 80, e que seu “caráter miliciano” se revela nos territórios. Como visto nos assassinatos de Nega Pataxó e nas ameaças na TI Comexatibá, seu modus operandi é paramilitar: reverter retomadas legítimas usando coação, terror e assassinato, executando a violência que os “proprietários” não podem assumir legalmente.
A “Associação do Agronegócio do Extremo Sul da Bahia” (Agronex) é a ponte que liga o capital à violência. Presidida por Matheus Bonfim 18, a Agronex funciona como a câmara de compensação financeira do crime. Em declarações públicas, Bonfim lamenta que “40 das 200 fazendas cadastradas” pela associação permanecem “invadidas”.18
A Agronex não é apenas “associada” do “Invasão Zero”; ela é sua financiadora e coordenadora operacional 1, agindo em conluio com a polícia estatal para intimidar e, como confessado, matar indígenas.1
Quem são os “proprietários de terra” e “fazendeiros” que a Agronex e o “Invasão Zero” tanto defendem? A investigação nas áreas de conflito mais intenso, como a TI Comexatibá em Prado, revela que o “agronegócio” tradicional (gado e eucalipto) se aliou a uma força econômica ainda mais poderosa: a especulação imobiliária de luxo.2
O texto-base da denúncia Pataxó é explícito: os objetivos dos invasores são “privatizar as praias e especular a terra através de loteamentos ilegais, promovendo o turismo predatório”.1 A TI Comexatibá é uma região paradisíaca 20, cobiçada por pousadas de luxo e condomínios fechados.2
Ator 1: O Magnata do Cacau “Sustentável”
Ernesto Ary Neugebauer, herdeiro da tradição chocolateira, é o rosto do “capitalismo verde” na região. Fundador das marcas Danke e Gencau, ele se promove como um visionário do cacau de “extrema qualidade”, com “origem assegurada”, “respeitando toda a cadeia de produção” e atuando de forma “sustentável”.
Contudo, sua empresa, a Calambrião Participações Ltda, criada em 2017 em sociedade com a filha, tem como atividade declarada o “loteamento de imóveis e a incorporação de empreendimentos imobiliários”.2 Neugebauer é apontado como dono de fazendas (Imbassuaba e Horto do Sol) sobrepostas ao território Pataxó e é acusado de bloquear acessos tradicionais às praias.2 Após a publicização dos conflitos, a assessoria da família Neugebauer negou as acusações, afirmando que o empresário “não possui qualquer relação com os conflitos”, “não é proprietário da Fazenda Imbassuaba” e “não praticou nem financiou bloqueios”.
Ator 2: O Construtor da “Privacidade” Armada
O pedido de reintegração de posse da Fazenda Imbassuaba (Pero Vaz) foi movido por Igor Guerra Ulhôa, sócio da Construtora Horto Ltda.2 O contrato de compra e venda que Ulhôa anexou ao processo, no valor de 8 milhões de reais, é em si uma confissão de grilagem: o documento afirma explicitamente que a maior parte da terra (139 de 144 hectares) não possui escritura.2 Ulhôa foi apontado pelos Pataxó como o responsável por bloquear o acesso à praia de Imbassuaba com “seguranças armados”.2 Questionado, ele afirmou que buscava apenas “privacidade” para “desfrutar com a família”.2
Ator 3: Os Grileiros “Influencers”
A família Lessa (Lucas Lessa e João Américo de Moraes Lessa) tem histórico de grilagem e comercialização ilegal de lotes do INCRA na região.2 Em 2024, foi Lucas Lessa quem, em um ato de intimidação direta, jogou uma caminhonete Hilux sobre o Cacique Xawã Pataxó por conta da abertura de outra praia, a do Calambrião (ligada a Neugebauer).21 Enquanto Lucas ataca caciques, seu irmão, João Moraes, tomou posse de uma área de preservação na beira da praia e publica vídeos no Instagram e Youtube divulgando os “segredos para uma vida mais saudável e prazerosa” diretamente do território roubado.21 Após o ataque a tiros de 1º de outubro de 2025, os pistoleiros foram vistos correndo exatamente na direção desta praia.21
Ator 4: Os Sócios Italianos e a Fachada “Ambiental”
A teia de interesses se aprofunda com nomes como Andrea Borghesi, empresário italiano, e a multinacional Maccaferri, vinculados à Fazenda Portal da Magia, outra propriedade sobreposta à TI Comexatibá.2 Borghesi, Neugebauer e outro italiano, Stefano Orsi, fundaram a “Associação para Preservação do Pólo do Descobrimento” (APPD). Lideranças indígenas denunciam a APPD como uma fachada para contestar a demarcação e tentar assumir a gestão do Parque Nacional do Descobrimento, unindo grilagem e uma falsa agenda ambiental.2
O pistoleiro que atira em um Pataxó na TI Comexatibá está, em última instância, prestando um serviço terceirizado. Ele está garantindo o “loteamento” de Neugebauer, a “privacidade” armada de Ulhôa e a grilagem dos Lessa. A Agronex é a gerente desse contrato de violência.
A Burocracia como Arma: A Guerra Legal e Ideológica
A violência financiada pela Agronex e pelos grileiros de luxo só pode existir por causa de uma arma muito mais poderosa, empunhada pelo Estado brasileiro: a omissão burocrática.
As “retomadas” Pataxó, criminalizadas pelo “Invasão Zero” e pela mídia ruralista, não são “invasões”.1 São um ato de desespero e um direito legítimo. Os Pataxó estão reocupando áreas que já foram oficialmente delimitadas pela Funai como território tradicional, em processos que se arrastam há décadas.
O Vácuo Jurídico Deliberado:
- TI Barra Velha de Monte Pascoal: O Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) foi publicado pela Funai em 2008. São mais de 16 anos de espera pela homologação presidencial, que é a etapa final.23 São 52,7 mil hectares de direitos suspensos. Desses, os Pataxó só têm a posse real de cerca de 9 mil hectares.24 Desde novembro de 2023, o processo aguarda a assinatura final no Ministério da Justiça.
- TI Comexatibá (Cahy-Pequi): O RCID foi publicado entre 2005 e 2015. O processo está paralisado há mais de 10 anos por 151 contestações judiciais (algumas fontes citam mais de 170) de fazendeiros, associações empresariais e pelo setor hoteleiro.
A morosidade não é um defeito do sistema; é o próprio sistema funcionando como arma. Essa paralisação de décadas é uma estratégia política. Ela cria um “vácuo jurídico” 2 que arma os grileiros. Neste limbo, especuladores como Neugebauer e Ulhôa conseguem consolidar ocupações, registrar propriedades sobrepostas (muitas sem escritura) e impulsionar a especulação.2
Se a burocracia é a arma lenta, a Lei do “Marco Temporal” (Lei 14.701/23) é a gasolina jogada no fogo do conflito. Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha declarado a tese inconstitucional, o Congresso ruralista a transformou em lei. No sul da Bahia, essa lei se tornou uma licença para matar.
Lideranças Pataxó denunciam que a violência escalou dramaticamente após a aprovação da lei. “O que se alega aqui na região é que não temos direito algum por conta do marco temporal”, denunciou a liderança Uruba Pataxó em uma viagem à Europa para expor os crimes contra seu povo. Segundo Dinamam Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), os conflitos no Brasil saltaram de uma média de 800 para cerca de 2000 após a aprovação da lei. A lei deu aos ruralistas e milicianos a justificativa “legal” que precisavam para invalidar as demarcações e intensificar os ataques, tratando os Pataxó como criminosos em suas próprias terras.
Paralelamente à violência física e burocrática, corre uma campanha de violência ideológica. O texto-base da denúncia Pataxó é cirúrgico: “Questionar a identidade do povo Pataxó é um ato de injúria racial, calunioso e difamatório usado apenas para produzir notícias falsas”.1
Essa é a tática da extrema direita 1 para desumanizar as vítimas e remover a base legal de seu “direito constitucional originário”.1 Nas narrativas dos ruralistas, os Pataxó “não são índios de verdade”, são “falsos índios, criminosos”. Se, na narrativa deles, os Pataxó não são indígenas, eles não têm direito à terra. O etnocídio—a destruição da cultura e da identidade 25—é, portanto, o parceiro jurídico do genocídio—a destruição dos corpos.
O Estado como Segurança Privada: O Conluio do Governo Baiano
O etnocídio Pataxó não seria possível sem a participação ativa ou a omissão deliberada do aparato estatal, em especial do Governo da Bahia e suas forças de segurança.27 O Estado não é um mediador neutro; ele se tornou a segurança privada do agronegócio.
A cumplicidade da Polícia Militar da Bahia (PMBA) é um padrão documentado, denunciado por indígenas, pelo MPF, DPU e organizações de direitos humanos. Os assassinos de Gustavo Pataxó eram policiais militares “prestando serviços extras” para fazendeiros. Dinamam Tuxá, da APIB, é direto:
“A justiça sabe quem assassinou, foi o Estado. E quando nós falamos que é o Estado é porque são policiais que mataram os nossos parentes. De dia eles são polícia e à noite eles são pistoleiros”.
No assassinato de Nega Pataxó, a PM, presente no local, “abriu o caminho” para os assassinos do “Invasão Zero”.8 Organizações de direitos humanos exigiram que o governador apurasse a conduta de seu efetivo, que foi “incapaz de conter o conflito”.28 O flagrante de 8 de agosto de 2025 é a prova definitiva. Duas viaturas da PMBA foram vistas escoltando o presidente da Agronex, Matheus Bonfim, e pistoleiros do “Invasão Zero” em uma ação de intimidação contra uma retomada Pataxó. A polícia, que deveria prender Bonfim (o financiador) e os pistoleiros, estava agindo como sua guarda-costas.
Em abril de 2025, uma reportagem da Repórter Brasil denunciou que o próprio Governo da Bahia utilizou sua “tropa” de elite e “balaclavas” (capuzes que escondem a identidade dos agentes) em ações de intimidação contra os Pataxó.29 O pistoleiro de balaclava da milícia e o policial de balaclava do Estado tornam-se indistinguíveis, pois servem ao mesmo projeto. Esta operação da polícia baiana, realizada em março de 2025, foi denunciada por lideranças Pataxó como mais uma ação de terror estatal, resultando em prisões arbitrárias, violência e cerco às comunidades.
O ciclo da violência é fechado pelo Judiciário, que garante a impunidade. O assassino confesso de Nega Pataxó foi solto sob fiança.9 Os policiais militares acusados de executar Gustavo Pataxó foram soltos por ordem de um juiz federal.4
Além disso, os grileiros exploram um caos de competência jurídica. Sendo terras indígenas, os crimes e disputas possessórias deveriam ser de competência da Justiça Federal. No entanto, a Justiça Estadual frequentemente interfere, emitindo ordens de reintegração de posse ilegais. Juízes estaduais chegam a alegar que a TI “está sem demarcação” como pretexto para agir contra os Pataxó. Essa confusão paralisa a justiça e protege os criminosos. A situação é tão caótica que a Comissão Nacional de Soluções Fundiárias do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em aliança com o TJBA e o TRF-1, teve que intervir para tentar mediar o conflito, um reconhecimento implícito da falha total do sistema de justiça primário em proteger as vítimas.
Conclusão: “Nós Anunciamos o Futuro”
O cenário no extremo sul da Bahia é o de uma guerra colonial em pleno século 21. “Enquanto o agronegócio ainda está em 1500, fazendo guerras coloniais, nós anunciamos o futuro”, afirmam os Pataxó.32
Esta investigação, baseada na confissão dos próprios pistoleiros e na análise de seus mandantes, expõe a inversão de valores que sustenta o etnocídio. A “organização criminosa” não é o movimento indígena, que legitimamente reivindica seu direito constitucional originário.1 Organização criminosa é a Agronex, que contrata pistoleiros para “ajudar a matar”.1 Organização criminosa é o “Invasão Zero”, que age como milícia ruralista. E criminosos são os “proprietários de terra” que, sendo os “verdadeiros invasores” de territórios já delimitados, financiam a violência para especular e privatizar as praias.1
Mas a resposta Pataxó transcende a própria violência. Onde o agronegócio deixa um rastro de fazendas degradadas, os Pataxó respondem com vida. Nas terras retomadas, eles iniciaram projetos de agroecologia, “reflorestando nascentes” e plantando “milhares de mudas de árvores nativas e frutíferas”.24 Eles produzem “uma alimentação saudável e livre de agrotóxicos”.24
A luta do povo Pataxó não é apenas por um pedaço de terra; é uma luta “pelo cuidado com a natureza, única resposta possível para a crise climática”.32 O assassinato sistemático de Gustavo, Samuel, Nawir, Nega e Vitor é a maior prova da ilegalidade daqueles que se dizem “proprietários”.32 A única resposta para o sangue derramado, a única justiça para os mártires Pataxó, e a única solução para o fim da guerra é a imediata e inadiável conclusão dos processos de demarcação.27
Os Povos Indígenas da Bahia precisam de demarcação!32
DEMARCAÇÃO JÁ!
Referências citadas
- geanini – APIB, acessado em novembro 12, 2025, https://apiboficial.org/author/geanini/
- Disputa entre fazendeiros e indígenas no sul da Bahia une grilagem …, acessado em novembro 12, 2025, https://www.cartacapital.com.br/justica/disputa-entre-fazendeiros-e-indigenas-no-sul-da-bahia-une-grilagem-especulacao-e-veto-a-praia/
- Associação do Agronegócio do Extremo Sul da Bahia contratou grupo que realizou o ataque contra o Povo Pataxó | Acervo | ISA, acessado em novembro 12, 2025, https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/associacao-do-agronegocio-do-extremo-sul-da-bahia-contratou-grupo-que-realizou-o
- #EmergenciaIndígena: Milicianos acusados de matar criança Pataxó são soltos pela Justiça da Bahia | APIB, acessado em novembro 12, 2025, https://apiboficial.org/2023/08/02/emergenciaindigena-milicianos-acusados-de-matar-crianca-pataxo-sao-soltos-pela-justica-da-bahia/
- Povo Pataxó pede socorro! Nota sobre o assassinato de dois jovens indígenas nesta terça (17) – Justiça Global, acessado em novembro 12, 2025, https://www.global.org.br/blog/povo-pataxo-pede-socorro-nota-sobre-o-assassinato-de-dois-jovens-indigenas-nesta-terca-feira-17/
- Povo indígena Pataxó de Comexatibá luta para acelerar processo de demarcação da TI, acessado em novembro 12, 2025, https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/povo-indigena-pataxo-de-comexatiba-luta-para-acelerar-processo-de-demarcacao-da-ti/
- Povos Indígenas – Conselho Indigenista Missionário | Cimi, acessado em novembro 12, 2025, https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2017/11/Cimi-40-anos_manifesto-contra-decretos-exterminio.pdf
- ‘Invasão Zero’: coordenadora de grupo suspeito de milícia deve R$ 26 milhões à União, acessado em novembro 12, 2025, https://www.brasildefato.com.br/2024/02/07/invasao-zero-coordenadora-de-grupo-suspeito-de-milicia-deve-r-26-milhoes-a-uniao/
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- Pataxó de 14 anos é assassinado em ataque na TI Comexatibá, na Bahia | Cimi, acessado em novembro 12, 2025, https://cimi.org.br/2022/09/pataxo-14-anos-assassinado-comexatiba/
- Dono de fazenda onde Pataxó foi morto pediu reintegração de posse no dia seguinte ao crime – Agência Pública, acessado em novembro 12, 2025, https://apublica.org/2022/09/dono-de-fazenda-onde-pataxo-foi-morto-pediu-reintegracao-de-posse-no-dia-seguinte-ao-crime/
- Ministério dos Povos Indígenas cria gabinete de crise para apurar morte de 2 Indígenas Pataxó – Mongabay Brasil, acessado em novembro 12, 2025, https://brasil.mongabay.com/2023/01/ministerio-dos-povos-indigenas-cria-gabinete-de-crise-para-apurar-morte-de-2-indigenas-pataxo/
- Ataque de pistoleiros na Terra Indígena Barra Velha de Monte Pascoal, mata mais um indígena do Povo Pataxó | APIB, acessado em novembro 12, 2025, https://apiboficial.org/2025/03/11/ataque-de-pistoleiros-na-terra-indigena-barra-velha-de-monte-pascoal-mata-mais-um-indigena-do-povo-pataxo/
- MOVIMENTO INVASÃO ZERO GANHA FORÇA NACIONAL EM DEFESA DA PROPRIEDADE RURAL – Bahia Economica, acessado em novembro 12, 2025, https://bahiaeconomica.com.br/wp/2025/06/09/movimento-invasao-zero-ganha-forca-nacional-em-defesa-da-propriedade-rural/
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- PF investiga ataques armados contra povo pataxó do sul da Bahia – Agência Brasil – EBC, acessado em novembro 12, 2025, https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-10/pf-investiga-ataques-armados-contra-povo-pataxo-do-sul-da-bahia
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- Associação do Agronegócio do Extremo Sul da Bahia contratou grupo que realizou o ataque contra o Povo Pataxó | APIB, acessado em novembro 12, 2025, https://apiboficial.org/2025/10/07/associacao-do-agronegocio-do-extremo-sul-da-bahia-contratou-grupo-que-realizou-o-ataque-contra-o-povo-pataxo/
- Em Brasília, delegação Tupinambá e Pataxó cobra demarcação de terras indígenas no sul e extremo sul da Bahia – Notícias – Indigenous Peoples in Brazil – | Instituto Socioambiental, acessado em novembro 12, 2025, https://pib.socioambiental.org/en/Not%C3%ADcias?id=229541
- Entre escassez e conflito, povo Pataxó transforma fazenda degradada em exemplo de agroecologia – Mongabay Brasil, acessado em novembro 12, 2025, https://brasil.mongabay.com/2025/05/entre-escassez-e-conflito-pataxos-transformam-fazenda-degradada-em-exemplo-de-agroecologia/
- Genocídio indígena e ecocídio no Brasil, acessado em novembro 12, 2025, https://pib.socioambiental.org/es/Not%C3%ADcias?id=209622
- MG – Povos indígenas Pataxó lutam por regularização fundiária, adequação jurídica do uso do território para fins sustentáveis e direitos indígenas básicos – Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, acessado em novembro 12, 2025, https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/mg-povos-indigenas-pataxo-lutam-por-regularizacao-fundiaria-adequacao-juridica-do-uso-do-territorio-para-fins-sustentaveis-e-direitos-indigenas-basicos/
- Jerônimo Rodrigues, governador da Bahia, negou ajuda da Força Nacional na proteção do Povo Pataxó | APIB, acessado em novembro 12, 2025, https://apiboficial.org/2023/02/16/jeronimo-rodrigues-governador-da-bahia-negou-ajuda-da-forca-nacional-na-protecao-do-povo-pataxo/
- Em repúdio ao ataque criminoso contra os Pataxó, no sul da Bahia | Conectas, acessado em novembro 12, 2025, https://conectas.org/noticias/em-repudio-ao-ataque-criminoso-contra-os-pataxo-no-sul-da-bahia/
- Governo da Bahia usa tropa e até balaclava em ação contra os Pataxó, acessado em novembro 12, 2025, https://memoriasulbahia.com.br/repositorio-digital-memorias-do-sul-da-bahia/governo-da-bahia-usa-tropa-e-ate-balaclava-em-acao-contra-os-pataxo/
- Post by @reporterbrasil.org.br — Bluesky, acessado em novembro 12, 2025, https://bsky.app/profile/reporterbrasil.org.br/post/3llrjmrafe22q
- Notícias – Pueblos Indígenas en Brasil – PIB Socioambiental, acessado em novembro 12, 2025, https://pib.socioambiental.org/es/Not%C3%ADcias?id=229976
- Agronegócio contrata pistoleiros e tenta promover etnocídio indígena no extremo sul da Bahia | APIB, acessado em novembro 12, 2025, https://apiboficial.org/2025/10/21/agronegocio-contrata-pistoleiros-e-promove-etnocidio-indigena-no-extremo-sul-da-bahia/