Biopolítica, Justiça Climática e a Guerra dos Mosquitos no Território Xukuru
Sumário Executivo
Esta reportagem investigativa, estruturada como uma peça de jornalismo de profundidade e análise técnica, examina a implementação inédita da Técnica do Inseto Estéril (TIE) na Aldeia Cimbres, localizada no Território Indígena Xukuru do Ororubá, em Pesqueira, Pernambuco. Iniciado no final de 2025 e atingindo escala operacional em janeiro de 2026, o projeto do Ministério da Saúde em parceria com a organização social Moscamed Brasil representa a primeira aplicação mundial massiva de mosquitos Aedes aegypti esterilizados por radiação em terras indígenas.
A investigação desdobra-se em múltiplas camadas: a sofisticação biotecnológica do experimento; a complexa trama política e histórica do povo Xukuru; a crise sanitária e hídrica que assola o Agreste pernambucano; e as implicações éticas de transformar territórios vulneráveis em fronteiras de experimentação científica. O relatório argumenta que, embora a tecnologia ofereça um alívio epidemiológico imediato frente a um cenário de arboviroses letais e agravadas pelo racismo ambiental, ela opera sobre uma falha tectônica de negligência estatal: a ausência crônica de saneamento básico e justiça climática. A intervenção, portanto, situa-se no limiar entre a inovação salvadora e o paliativo tecnocrático.
Capítulo I: A Nuvem Estéril — A Chegada da Tecnociência ao Agreste
1.1 O Zumbido da Inovação na Caatinga
No coração do Agreste de Pernambuco, a paisagem da Serra do Ororubá, historicamente marcada pelo silêncio da resistência e pelo som dos maracás rituais, agora convive com um novo ruído: o zumbido de centenas de milhares de insetos produzidos em laboratório. Desde meados de janeiro de 2026, vans climatizadas e, em fases de teste, drones, atravessam as estradas de terra avermelhada da Aldeia Cimbres para liberar cargas preciosas e invisíveis a olho nu para o observador desatento.1 Não são insumos médicos tradicionais, nem alimentos, nem água potável — mercadorias escassas na região. São mosquitos.
A operação, batizada tecnicamente de projeto piloto para aplicação da Técnica do Inseto Estéril (TIE) em populações indígenas, é a ponta de lança da estratégia do Ministério da Saúde para conter a explosão de arboviroses que ameaça o país com a ressurgência de sorotipos antigos de dengue e a persistência da chikungunya e zika.3 A escolha de Cimbres não é um acaso geográfico; é uma decisão calculada que une isolamento ecológico, necessidade epidemiológica urgente e uma articulação política singular entre a liderança indígena e o Estado brasileiro.
O conceito, embora pareça ficção científica para os moradores mais velhos da aldeia que sobreviveram a décadas de conflitos fundiários à base de foice e espingarda, é biologicamente elegante. A Moscamed Brasil, uma biofábrica instalada em Juazeiro, na Bahia, a centenas de quilômetros dali, produz semanalmente lotes massivos de Aedes aegypti. No entanto, estes não são mosquitos comuns. Os machos, separados mecanicamente das fêmeas (as únicas que picam e transmitem doenças), são submetidos a doses precisas de radiação ionizante (Raios-X ou Gama). Essa radiação danifica o esperma dos insetos, tornando-os estéreis, mas mantendo seu vigor sexual e capacidade de voo.1
A lógica é a da “supressão por inundação”. Ao liberar cerca de 200.000 machos estéreis por semana na aldeia — totalizando uma projeção de 800.000 ao mês —, os cientistas criam uma desproporção numérica avassaladora.1 Para cada macho selvagem fértil que habita os quintais e as matas de Cimbres, existem agora nove, dez ou vinte machos estéreis de laboratório. A fêmea selvagem do Aedes aegypti, biologicamente programada para copular apenas uma vez na vida para fertilizar seus ovos, tem estatisticamente muito mais chances de encontrar um parceiro estéril. O resultado desse encontro é uma postura de ovos inviáveis. Sem descendentes, a população do mosquito entra em colapso geracional.
1.2 A Engenharia da Biofábrica e a Logística do Sertão
Para compreender a magnitude do experimento em Cimbres, é necessário olhar para a cadeia de produção que o sustenta. A Moscamed Brasil, organização social pioneira no hemisfério sul, não é uma novata. Sua experiência remonta ao controle de pragas agrícolas, como a mosca-das-frutas, vital para a economia de exportação do Vale do São Francisco.5 A transposição dessa tecnologia agrícola para a saúde pública humana representa um salto de complexidade.
O processo inicia-se paradoxalmente na própria aldeia. Para evitar a introdução de variantes genéticas exógenas que poderiam ser rejeitadas pelas fêmeas locais ou desequilibrar o ecossistema, ovos de mosquitos selvagens são coletados em Cimbres através de armadilhas chamadas ovitrampas.7 Esses ovos viajam para Juazeiro, onde eclodem e formam a colônia matriz.
Na biofábrica, a produção segue um rigor industrial:
- Criação Massiva: As larvas são alimentadas com dietas proteicas otimizadas para garantir tamanho e vigor.
- Sexagem: Em um estágio crítico, as pupas (fase entre larva e adulto) são separadas por tamanho. As fêmeas, maiores, são descartadas ou usadas para reposição da colônia. Apenas os machos, menores, seguem adiante. A precisão aqui é vital: a liberação acidental de fêmeas poderia aumentar a transmissão da doença, um risco que os críticos da tecnologia frequentemente apontam, embora a Moscamed garanta taxas de erro irrisórias.5
- Irradiação: Os machos são expostos à radiação. A dose deve ser o “ponto Cachinhos Dourados”: forte o suficiente para induzir 99% de esterilidade, mas fraca o suficiente para não deixar o mosquito “bêbado” ou fraco demais para competir com os machos selvagens na natureza.3
- Transporte: Acondicionados em recipientes resfriados para induzir um estado de letargia metabólica, os insetos viajam de volta a Pernambuco. A logística é um desafio em si, dada a distância e as condições das estradas no interior do Nordeste.
A liberação em campo utiliza tecnologias de dispersão terrestre e aérea. Relatos e materiais técnicos indicam o uso de vans equipadas com sistemas de sopro e, mais recentemente, a introdução de drones para áreas de difícil acesso na topografia acidentada da Serra do Ororubá.1 O drone, zumbindo sobre as casas de taipa e alvenaria da aldeia, torna-se o símbolo máximo da intervenção tecnocrática: um olho mecânico que, em vez de vigiar ou bombardear, semeia a esterilidade biológica para salvar vidas.
1.3 Diferenciação Tecnológica: TIE vs. Wolbachia vs. Transgenia
É crucial para a análise investigativa distinguir o que está ocorrendo em Cimbres de outras intervenções. A confusão midiática frequentemente mistura a TIE com mosquitos transgênicos ou com o método Wolbachia, mas as implicações éticas e ecológicas são distintas.
| Característica | TIE (Usada em Cimbres) | Wolbachia (Método WMP) | Transgênicos (Oxitec/OX513A) |
| Mecanismo | Radiação ionizante (físico) | Bactéria intracelular (biológico) | Modificação Genética (biotecnológico) |
| Objetivo | Supressão/Eliminação da população local | Substituição da população por uma inofensiva | Supressão (através de gene letal) |
| Hereditariedade | Nenhuma (sem descendentes) | Passada de mãe para filho (estabelece-se na natureza) | Gene letal passado à prole (que morre) |
| Risco Genético | Nulo (não é OGM) | Baixo (bactéria natural de insetos) | Controverso (debate sobre genes sintéticos) |
| Sustentabilidade | Requer liberação contínua e eterna | Autossustentável após estabelecimento | Requer liberação contínua |
A escolha da TIE para um território indígena é politicamente astuta. Por não envolver Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), o Ministério da Saúde evita o pântano jurídico e a resistência ativista que cercaram os testes da Oxitec em Juazeiro e Piracicaba anos atrás.9 A TIE é apresentada como uma técnica “mais natural”, que não introduz genes estranhos na biodiversidade sagrada para os Xukuru.1 No entanto, como veremos, a dependência de liberações contínuas (ver tabela) cria um vínculo de dependência perpétua da comunidade para com a biofábrica e o orçamento federal. Se o dinheiro acabar, os mosquitos param de chegar, e a população selvagem se recupera rapidamente — o temido “efeito rebote”.
Capítulo II: A Terra do Ruído e do Silêncio — O Contexto Xukuru
2.1 A Serra do Ororubá: Santuário e Trincheira
Para entender o impacto do projeto, é impossível dissociá-lo do chão onde ele pousa. A Terra Indígena Xukuru do Ororubá não é apenas um polígono no mapa do governo; é um território reconquistado a sangue. Localizada na transição entre o Agreste e o Sertão, a Serra do Ororubá funciona como um oásis de umidade e biodiversidade em meio à Caatinga semiárida, mas também como um epicentro de conflitos políticos seculares.
A história recente dos Xukuru é definida pela figura de Xicão Xukuru, o cacique assassinado em 1998 por pistoleiros a mando de fazendeiros locais que se opunham à demarcação das terras.10 O assassinato de Xicão não dispersou o povo; pelo contrário, catalisou um processo de reorganização política e espiritual sem precedentes. Hoje, a liderança é exercida por seu filho, Marcos Luidson de Araújo, o Cacique Marcos Xukuru.
A aldeia Cimbres, especificamente, carrega as cicatrizes dessa história. Foi ali, e nas áreas circunvizinhas, que os Xukuru foram aldeados, dispersos e depois reunidos. A “Vila de Cimbres” possui uma arquitetura colonial que se mistura às construções indígenas contemporâneas, simbolizando a sobreposição de poderes. A introdução dos mosquitos estéreis ocorre, portanto, em um solo onde a desconfiança em relação aos “brancos” (os karywa) é uma ferramenta de sobrevivência histórica. A aceitação do projeto do Ministério da Saúde não é um ato de submissão, mas uma negociação estratégica dentro do que os Xukuru chamam de seu “Projeto de Vida”.11
2.2 O Hibridismo Político: O Cacique-Prefeito e o Estado
Uma variável crítica para a viabilização deste experimento é a posição única ocupada pelo Cacique Marcos. Em um fenômeno raro na política brasileira, a liderança tradicional indígena fundiu-se com a liderança institucional do Estado: Marcos Xukuru foi eleito e reeleito prefeito de Pesqueira, após batalhas judiciais que chegaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).12
Essa dualidade — ser ao mesmo tempo a autoridade espiritual que guia o povo e o gestor municipal que assina convênios de saneamento e saúde — cria um canal direto, mas complexo, para iniciativas federais. Enquanto em outros territórios indígenas a entrada de equipes do Ministério da Saúde pode enfrentar barreiras culturais ou burocráticas, em Pesqueira a simbiose entre a Prefeitura e a Organização Sociopolítica Xukuru facilita a implementação.12
O projeto TIE, orçado em R$ 1,5 milhão 14, chega com a chancela do Cacique. Em entrevistas, Marcos enquadra a tecnologia não como uma imposição externa, mas como uma ferramenta alinhada à cosmologia Xukuru de “não agredir o meio ambiente” com venenos químicos.1 Essa narrativa é fundamental para a aceitação comunitária. Ao rejeitar o “fumacê” (inseticida químico) em favor do “mosquito biológico”, a liderança reforça o discurso de preservação da “Mãe Natureza”, transformando uma intervenção tecnocrática em um ato de cuidado ancestral.
Contudo, a posição do Cacique-Prefeito também levanta questões sobre o contraditório. Em uma estrutura onde a liderança política e a liderança tradicional se confundem, qual é o espaço para o dissenso comunitário? Se uma família em Cimbres se sentir incomodada com a nuvem de insetos ou temer a radiação, a quem ela recorre, se o Prefeito e o Cacique são a mesma pessoa que autorizou o projeto?
2.3 O Controle Social e o CONDISI
A governança da saúde indígena em Pernambuco possui um histórico de forte ativismo. O Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI-PE) tem sido historicamente presidido e ocupado por lideranças Xukuru e de outras etnias do estado.16 A posse de conselheiros e a participação de instituições como a Fiocruz PE no conselho sugerem que há um escrutínio técnico sobre as ações.17
Documentos indicam que houve reuniões de apresentação e treinamento de agentes indígenas de saúde (AIS) e agentes indígenas de saneamento (AISAN) para monitorar as armadilhas ovitrampas.18 Esses 25 agentes formam a linha de frente que traduz a ciência da Moscamed para a linguagem da aldeia. A estratégia de envolver os próprios indígenas na coleta de dados é uma forma de legitimação, mas também de transferência de responsabilidade: o sucesso do monitoramento depende do trabalho minucioso desses agentes comunitários.
Capítulo III: O Tsunami Epidemiológico — Corpos Indígenas na Linha de Tiro
3.1 O Cenário Arboviral de 2025/2026: A Tempestade Perfeita
A chegada dos mosquitos estéreis não ocorre em um vácuo de calmaria, mas no olho de um furacão epidemiológico. O biênio 2025-2026 desenha-se como um dos mais críticos para a saúde pública no Nordeste brasileiro. Boletins epidemiológicos da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco (SES-PE) e do Ministério da Saúde pintam um quadro alarmante: a reintrodução e circulação simultânea de quatro sorotipos de dengue (DENV-1, 2, 3 e 4), somada à endemicidade da Chikungunya e Zika.4
Até a 30ª semana epidemiológica de 2025, Pernambuco já contabilizava mais de 25.000 casos notificados de dengue e milhares de Chikungunya, com óbitos confirmados inclusive no interior do estado.21 O risco para 2026 é amplificado pela perda de imunidade de rebanho para os sorotipos que não circulavam há mais de uma década. Quando um vírus “velho” retorna a uma população que renovou suas gerações, ele se comporta como um vírus novo, encontrando milhares de corpos suscetíveis — crianças e jovens que nunca foram expostos a ele.
Além da tríade clássica, a vigilância sanitária detectou em 2025 a circulação do vírus Oropouche em Pernambuco, com 183 casos notificados.21 Embora o vetor principal do Oropouche seja o Culicoides paraensis (maruim), e não o Aedes, a sobreposição de sintomas (febre, dores articulares, cefaleia) cria um caos diagnóstico nas unidades básicas de saúde indígena. A “síndrome febril aguda” torna-se a categoria diagnóstica padrão, muitas vezes mascarando a gravidade real de casos de dengue hemorrágica ou complicações neurológicas da Chikungunya.
3.2 O Racismo dos Dados: Quem Morre de Mosquito?
A investigação epidemiológica revela uma faceta cruel da saúde pública brasileira: as arboviroses não são democráticas. Elas discriminam por CEP e por raça. Estudos robustos conduzidos pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz) demonstram que a população indígena é desproporcionalmente afetada pela dengue em comparação com a população branca.22
Os dados mostram que:
- Indígenas têm maior incidência e risco de complicações por dengue.
- Populações Negras perdem mais anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) devido à Chikungunya e suas sequelas crônicas incapacitantes.22
Essa disparidade não possui base biológica ou genética. Ela é a expressão estatística do racismo estrutural e ambiental. A alta incidência em territórios como o Xukuru é resultado direto das condições de habitação e da infraestrutura precária. Uma casa de taipa ou alvenaria inacabada, sem telas nas janelas, cercada por matas onde o lixo não é recolhido adequadamente e a água precisa ser estocada em potes abertos, é um convite biológico ao vetor.
O Aedes aegypti é um mosquito antropofílico e urbano, mas adaptou-se perfeitamente às “urbanidades rurais” das aldeias, onde a densidade populacional aumentou sem o acompanhamento da infraestrutura sanitária. Ao liberar mosquitos estéreis em Cimbres, o Estado brasileiro está, na prática, realizando uma intervenção de emergência em um grupo populacional que ele mesmo deixou vulnerável. É uma biopolítica de reparação tecnológica que tenta estancar a hemorragia de um corpo social ferido pela negligência histórica.
Capítulo IV: A Sede que Alimenta o Vetor — Saneamento e a Economia da Escassez
4.1 O Paradoxo da Água: Escassez e Proliferação
A pergunta central que esta reportagem investigativa coloca é: por que há tantos mosquitos em uma região semiárida, onde a água é o recurso mais escasso? A resposta reside na forma como a população de Pesqueira e das aldeias Xukuru é obrigada a gerenciar a pouca água que tem.
Os dados de saneamento de Pesqueira são um libelo acusatório. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), embora a área urbana possua cerca de 71% de cobertura de esgotamento (um número alto para a região, mas que mascara a ineficiência do tratamento), a realidade da zona rural e das áreas indígenas é de um vazio sanitário.23 Mais de 22.000 habitantes do município não têm acesso regular à água encanada.23
Na Aldeia Cimbres, como em grande parte do Agreste, a água não chega pela torneira todos os dias. O abastecimento é intermitente, sujeito a racionamentos draconianos geridos pela Compesa.24 Isso institui a “Cultura do Pote” e do armazenamento compulsivo. Cada residência torna-se um pequeno reservatório hídrico: caixas d’água no chão, tonéis azuis de 200 litros, baldes, potes de barro. Muitas vezes, esses recipientes não possuem tampas adequadas ou vedação hermética.
É neste nicho ecológico artificial, criado pela falha do Estado, que o Aedes aegypti prospera. O mosquito não precisa de um rio; ele precisa da água limpa e parada que a Dona Maria guarda para cozinhar e beber. O vetor da dengue é, em última análise, um “bicho de estimação” indesejado da crise hídrica.
4.2 A Indústria do Carro-Pipa e a Inércia Estatal
A falta de adutoras e redes de distribuição eficientes alimenta uma economia paralela e politicamente poderosa: a do carro-pipa. Em períodos de seca ou racionamento severo, a sobrevivência das aldeias depende da chegada desses caminhões. A água, muitas vezes captada em mananciais duvidosos, é despejada em cisternas que nem sempre recebem o tratamento químico adequado.
Relatos de moradores de áreas periféricas e rurais descrevem a angústia da espera e a qualidade duvidosa da água que chega, muitas vezes “soprando ar” pelos canos antes de cair gota a gota, gerando contas de água injustas por um serviço não prestado.25 A Prefeitura de Pesqueira, sob a gestão de Marcos Xukuru, anuncia parcerias com a Codevasf para instalar módulos sanitários e cisternas 13, mas a escala do problema supera a capacidade de investimento municipal.
Aqui reside a crítica central à priorização de investimentos. O projeto da Moscamed custa R$ 1,5 milhão inicial para liberar mosquitos. Embora seja um valor irrisório comparado a grandes obras, ele contrasta com a lentidão das obras de saneamento estrutural. O Estado demonstra agilidade para contratar biofábricas e drones, mas uma lentidão geológica para enterrar canos e construir estações de tratamento de água. A tecnologia de ponta convive com o saneamento do século XIX.
Capítulo V: Biopolítica e Ética — O Território como Laboratório
5.1 O Consentimento na Era da Convenção 169
A aplicação de uma tecnologia experimental (no sentido de ser a primeira vez em território indígena) invoca imediatamente as obrigações do Estado brasileiro perante a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Este tratado internacional, que tem força de lei supraconstitucional, exige que os povos indígenas sejam consultados de forma “prévia, livre e informada” sobre qualquer medida administrativa ou legislativa que os afete diretamente.26
A investigação aponta para uma zona cinzenta na aplicação deste princípio em Cimbres. Houve reuniões? Sim. Houve treinamento de agentes? Sim.18 O Cacique aprovou? Sim. Mas até que ponto a comunidade, em sua totalidade, compreende as nuances da “radiação ionizante” e da “esterilidade”? A informação técnica muitas vezes sofre ruídos na tradução intercultural.
Além disso, a estrutura de consulta muitas vezes é “top-down” (de cima para baixo). O Ministério da Saúde chega com a solução pronta (o pacote TIE) e a oferece à comunidade como um prato feito: “ou é isso, ou é o veneno/doença”. A verdadeira consulta prévia envolveria a construção conjunta da solução desde a concepção. No entanto, o histórico de organização política dos Xukuru e a existência de protocolos de consulta próprios em etnias vizinhas (e em desenvolvimento pelos Xukuru) sugerem que a liderança não é ingênua.27 A aceitação pragmática do projeto pode ser lida como uma estratégia de redução de danos diante da inoperância do saneamento.
5.2 A Crítica da Academia: Balas de Prata e Tecnosolucionismo
Vozes dissonantes na saúde coletiva brasileira, como a pesquisadora Lia Giraldo (Fiocruz/Abrasco), têm levantado alertas consistentes sobre a aposta excessiva em “balas de prata” tecnológicas para problemas complexos de saúde.9 A crítica não é ludita (contra a tecnologia em si), mas sistêmica.
Ao focar recursos e atenção midiática na “guerra biológica” contra o mosquito, corre-se o risco de desmobilizar a luta por saneamento. Cria-se a ilusão de que a dengue é um problema técnico a ser resolvido por biólogos e engenheiros genéticos, e não um problema social e urbano a ser resolvido por sanitaristas e urbanistas.
Além disso, há a questão da sustentabilidade financeira. A TIE não é uma vacina que se dá uma vez e pronto. É um serviço contínuo, como a coleta de lixo. Se o Ministério da Saúde cortar a verba da Moscamed em 2027, as vans param de subir a serra. Em poucas semanas, os mosquitos selvagens remanescentes (que nunca são 100% eliminados) voltam a se reproduzir, encontrando os mesmos potes de água destampados. A população, que perdeu a imunidade natural durante o período de supressão, pode enfrentar surtos epidêmicos ainda mais graves — o efeito rebote. Transformar a saúde indígena em refém de contratos de biofábricas é uma vulnerabilidade ética que precisa ser debatida.
5.3 O Espectro da Radiação e a Percepção de Risco
Embora a ciência garanta que os mosquitos irradiados não são radioativos (eles apenas foram expostos à radiação, não a carregam), a percepção de risco em comunidades tradicionais pode ser diferente. A ideia de liberar algo “irradiado” em um território sagrado exige um trabalho de comunicação de risco impecável. A falha em comunicar adequadamente pode gerar medos infundados ou, pior, a rejeição futura de outras intervenções de saúde. A confiança é um recurso tão escasso quanto a água; se contaminada pela desinformação ou por efeitos adversos inesperados, é difícil de recuperar.
Capítulo VI: Justiça Climática — O Futuro Hostil
6.1 La Niña e a Aceleração Vetorial
O ano de 2026 traz um agravante climático: o fenômeno La Niña. Meteorologistas e climatologistas alertam que, diferentemente do El Niño (que traz seca severa ao Nordeste), o La Niña pode provocar chuvas irregulares e intensas ou manter a umidade em níveis favoráveis à eclosão de ovos em certas microregiões.29
Para o Aedes aegypti, o calor é combustível. O aumento das temperaturas médias globais acelera o ciclo metabólico do mosquito. O que levava 10 dias para virar adulto, no calor extremo pode levar 7. O vírus também se replica mais rápido dentro do mosquito (período de incubação extrínseca reduzido).
6.2 Racismo Ambiental e Vulnerabilidade Climática
Os povos indígenas do Nordeste estão na linha de frente da crise climática. Eles habitam as regiões mais suscetíveis à desertificação e à escassez hídrica. A justiça climática exige reconhecer que quem menos contribuiu para o aquecimento global (os modos de vida indígenas têm baixa pegada de carbono) é quem mais sofre com suas consequências sanitárias (a expansão das doenças tropicais).
O projeto TIE em Cimbres é, sob essa ótica, uma medida de adaptação climática. Diante de um ambiente que se torna cada vez mais hostil e propício a vetores, a tecnologia tenta criar um escudo biológico. No entanto, sem a mitigação das causas estruturais (saneamento e acesso à água segura), a adaptação é frágil. Uma chuva torrencial de La Niña pode lavar as ruas de Cimbres, encher os reservatórios improvisados de água limpa e desencadear uma eclosão massiva de ovos que estavam dormentes, desafiando a capacidade de supressão dos machos estéreis.
Conclusão: Entre a Esperança Tecnológica e a Realidade de Barro
A liberação das nuvens de mosquitos estéreis sobre a Aldeia Cimbres é um evento de importância histórica indiscutível. Representa a ousadia da ciência brasileira e a capacidade de articulação do povo Xukuru em buscar soluções para suas dores. O potencial de salvar vidas, evitando mortes por dengue hemorrágica e o sofrimento da chikungunya, justifica a urgência do projeto piloto.
No entanto, a reportagem investigativa conclui que celebrar a tecnologia sem denunciar o contexto é um ato de cegueira deliberada. O mosquito estéril voa sobre a vergonha nacional do saneamento básico. Ele zumba nos ouvidos de governantes que acham mais fácil irradiar insetos do que levar água encanada a uma aldeia no Agreste.
Para o povo Xukuru, acostumado a lutar contra fazendeiros, pistoleiros e juízes, o mosquito é mais um inimigo em uma longa guerra pela sobrevivência. A aliança com a Moscamed e o Ministério da Saúde é uma tática de guerrilha sanitária válida e necessária. Mas a vitória definitiva contra as arboviroses não virá das asas dos insetos de laboratório; virá no dia em que a torneira de cada casa em Cimbres tiver água limpa e regular, tornando o pote de barro uma peça de museu, e não uma ferramenta de sobrevivência. Até lá, a tecnologia será apenas um torniquete sofisticado em uma ferida social exposta.
Referências citadas
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- Lia Giraldo critica insetos Aedes aegypti geneticamente modificados » Abrasco, acessado em janeiro 28, 2026, https://abrasco.org.br/lia-giraldo-critica-insetos-aedes-aegypti-geneticamente-modificados/
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- Pesqueira está à frente na implementação de módulos sanitários na zona rural, trazendo mais saneamento básico para nossas comunidades, acessado em janeiro 28, 2026, https://pesqueira.pe.gov.br/pesqueira-esta-a-frente-na-implementacao-de-modulos-sanitarios-na-zona-rural-trazendo-mais-saneamento-basico-para-nossas-comunidades/
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- Influência do La Niña gera alerta para aumento dos casos de dengue | Blogs – CNN Brasil, acessado em janeiro 28, 2026, https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/pedro-cortes/noticias/influencia-do-la-nina-gera-alerta-para-aumento-dos-casos-de-dengue/
- La Niña deve impactar o Nordeste até o verão 2025/2026 – Jornal Extra de Alagoas, acessado em janeiro 28, 2026, https://ojornalextra.com.br/noticias/brasil/2025/10/119150-la-nina-deve-impactar-o-nordeste-ate-o-verao-20252026