“Dubai Brasileira” financia espetáculo enquanto confina indígenas à beira da rodovia
Investigação detalha a contradição de Balneário Camboriú: uma cidade que gasta R$ 16 milhões em festas de fim de ano, mas alega “falta de recursos” para cumprir ordem judicial de abrigar famílias indígenas. Documentos históricos e arqueológicos revelam que os arranha-céus de luxo se erguem sobre cemitérios ancestrais destruídos.
Na virada de 2025 para 2026, o céu da Praia Central de Balneário Camboriú foi iluminado por um espetáculo pirotécnico de 15 minutos que custou aos cofres públicos R$ 4,2 milhões.1 Em terra, mais de um milhão de turistas brindavam o réveillon na cidade que ostenta o metro quadrado mais caro do país, cercada por arranha-céus que desafiam a engenharia.

A poucos quilômetros dali, longe das luzes da orla e da vista dos turistas, um grupo de cerca de 200 indígenas — incluindo crianças de colo e idosos — tentava dormir sob o barulho incessante de caminhões. Empurrados pela prefeitura para uma área residual às margens da rodovia BR-101, no km 129, famílias dos povos Kaingang, Xokleng e Guarani amontoavam-se em barracos de lona e tapumes de obra, sobre um chão de terra que as chuvas de verão transformam em lamaçal.2

Este cenário de segregação espacial não é um acidente; é um projeto. Uma investigação sobre os gastos públicos, processos judiciais e o histórico de ocupação da região revela que a “Dubai Brasileira” opera uma política sistemática de apagamento. Enquanto a administração municipal, sob a gestão da recém-empossada prefeita Juliana Pavan (PSD), investe milhões para vender uma imagem de ordem e progresso, trava-se uma batalha jurídica para impedir que os povos originários ocupem o território que, arqueológica e historicamente, lhes pertence.
A Contabilidade da Exclusão: Fogos sim, Direitos não
A crise humanitária explodiu no início de janeiro de 2026, quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) negou um recurso da Prefeitura de Balneário Camboriú e manteve a obrigação do município de fornecer abrigo digno para os indígenas que descem ao litoral para a venda sazonal de artesanato.4

Nos autos do processo, a Procuradoria do Município utilizou um argumento contábil para tentar se eximir da responsabilidade: alegou que o acolhimento geraria “alto impacto financeiro não previsto” e que o dinheiro público não poderia “fomentar atividade econômica privada” (o artesanato).4
Os dados do Portal da Transparência, contudo, desmentem a narrativa da escassez. O orçamento municipal aprovado para 2026 supera a cifra de R$ 2,3 bilhões.5 Apenas para o projeto “Viva Natal BC” e o show de fogos da virada, a prefeitura empenhou cerca de R$ 16 milhões — valor suficiente para construir e manter um centro de acolhimento permanente por anos.7
A decisão do TRF4 foi dura: o desembargador João Batista Pinto Silveira rechaçou a tese da prefeitura, afirmando que a dignidade humana e a integridade física das famílias expostas ao relento prevalecem sobre questões patrimoniais.4 Mesmo assim, a resposta do executivo municipal foi o improviso: um acampamento na beira da estrada, invisível para quem passeia na Avenida Atlântica, utilizando tapumes de obras públicas para improvisar paredes.2
A Política Higienista e o Vídeo Viral
A hostilidade institucional contra a presença indígena em Balneário Camboriú ganhou contornos de política de segurança pública. Vídeos que circulam nas redes sociais, impulsionados por figuras políticas locais e influenciadores, retratam a presença de vendedores ambulantes e populações vulneráveis como uma “sujeira” que macula a estética da cidade-vitrine.
A própria prefeita Juliana Pavan protagonizou vídeos de operações de “limpeza” urbana, abordando moradores de rua com um discurso de “tolerância zero” que viralizou. Em um dos registros, ela afirma: “Aqui em Balneário Camboriú, a gente não vai aceitar ninguém na rua”. Embora o alvo explícito sejam pessoas em situação de rua, a lógica aplicada atinge diretamente os indígenas: o corpo que não consome e não se adequa à estética do luxo deve ser removido.
Para os indígenas, essa lógica ignora que a descida sazonal da serra para o litoral (o movimento pendular histórico dos povos Jê e o Oguata Guarani) é uma prática cultural milenar, anterior à fundação do município em 1964, anterior à colonização europeia, e protegida pela Constituição Federal.8
Arqueologia do Crime: Prédios sobre Ossos
A narrativa de que o indígena é um “invasor” que vem “de fora” atrapalhar o turismo cai por terra quando se escava — literalmente — a história da cidade. Balneário Camboriú foi erguida sobre um vasto complexo arqueológico.
A região da Barra Sul, onde hoje se erguem as torres gêmeas do Yachthouse e outros ícones da especulação imobiliária, era local de assentamento de populações sambaquieiras há mais de 5.000 anos. Estudos arqueológicos, como os conduzidos pelo Padre João Alfredo Rohr na década de 1970, identificaram na vizinha Praia de Laranjeiras sambaquis com mais de 165 sepultamentos humanos.10

Esses monumentos de conchas, que serviam como marcadores territoriais e cemitérios sagrados, foram sistematicamente destruídos. Primeiro, moídos para fazer cal nas construções coloniais; depois, terraplanados para dar lugar às fundações de concreto da “Dubai Brasileira”.11
Denúncias recentes levadas ao Ministério Público Federal (MPF) apontam que obras de “reurbanização” na orla continuam a revirar solo arqueológico sem o devido cuidado. Em Laranjeiras, máquinas da prefeitura foram acusadas de remover terra preta e conchas — vestígios de milênios de ocupação — como se fossem entulho, sob a justificativa de “revitalização” turística.10 Quem compra um apartamento de milhões na Barra Sul está, em muitos casos, morando sobre a memória apagada de uma civilização inteira.

O Genocídio como Antecedente da Especulação
A violência que empurra os indígenas para a margem da BR-101 hoje é a continuação burocrática de um extermínio físico ocorrido há pouco mais de um século. A região do Vale do Itajaí e o litoral norte catarinense foram palco da atuação dos “bugreiros” — mercenários contratados pelo governo e por companhias de terras para caçar e matar os povos Xokleng e Kaingang.

Figuras como Martinho Marcelino de Jesus, o “Martin Bugreiro”, eram pagas por par de orelhas cortadas das vítimas. O objetivo era “limpar” a terra para a colonização europeia.13 Os sobreviventes foram confinados em reservas diminutas, como a Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ, que décadas depois seria novamente violada pela construção da Barragem Norte — uma obra feita para proteger as cidades “civilizadas” de enchentes, ao custo de alagar as aldeias indígenas.15
Conclusão: Quem é o Invasor?
Ao analisar o ciclo histórico — dos sambaquis destruídos aos bugreiros, da barragem que inunda a terra indígena aos arranha-céus que fazem sombra na praia — a inversão da narrativa torna-se evidente.
Os indígenas que vendem artesanato nas calçadas de Balneário Camboriú não são forasteiros pedindo esmola. São sobreviventes de um processo contínuo de espoliação, retornando a um território que guarda a memória genética e cultural de seus ancestrais.
O “invasor”, sob a ótica histórica, é o modelo de urbanização predatória que privatizou a paisagem, soterrou a história e agora tenta, via decretos e cercas, impedir o trânsito daqueles que caminhavam por estas areias milênios antes do primeiro turista chegar. A decisão judicial de 2026 obriga a cidade a fornecer um teto, mas a dívida histórica de Balneário Camboriú com os povos originários permanece impagável.
Referências citadas
- Show de fogos do Réveillon de Balneário Camboriú terá 15 minutos de duração e custará R$ 4,2 milhões – Página 3, acessado em janeiro 14, 2026, https://pagina3.com.br/cidade/show-de-fogos-do-reveillon-de-balneario-camboriu-tera-15-minutos-de-duracao-e-custara-r-42-milhoes/
- Justiça manda BC garantir abrigo a indígenas no verão – DIARINHO, acessado em janeiro 14, 2026, https://diarinho.net/materia/668281/Justica-manda-BC-garantir-abrigo-a-indigenas-no-verao
- Xokleng – Armazém Memória, acessado em janeiro 14, 2026, https://armazemmemoria.com.br/especial-xokleng/
- Balneário Camboriú deve garantir abrigo até março para 200 indígenas, decide TRF4 ao indeferir recurso – JusCatarina, acessado em janeiro 14, 2026, https://www.juscatarina.com.br/balneario-camboriu-deve-garantir-abrigo-para-200-indigenas-ate-marco-confirma-trf4-ao-indeferir-recurso/
- Audiência Pública debate projeto do orçamento municipal de 2026 – Prefeitura de Balneário Camboriú, acessado em janeiro 14, 2026, https://www.bc.sc.gov.br/imprensa_detalhe.cfm?codigo=40872
- Vídeo: Água de coco a R$ 20? Preços em Balneário Camboriú geram revolta na web, acessado em janeiro 14, 2026, https://aprovinciadopara.com.br/video-agua-de-coco-a-r-20-precos-em-balneario-camboriu-geram-revolta-na-web/
- Prefeitura vai investir R$ 16 milhões no Natal e no Reveillon de Balneário Camboriú, acessado em janeiro 14, 2026, https://pagina3.com.br/cidade/prefeitura-vai-investir-r-16-milhoes-no-natal-e-no-reveillon-de-balneario-camboriu/
- Entre as matas de araucárias: cultura e história Xokleng em Santa Catarina (1850-1914), acessado em janeiro 14, 2026, https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFSC_fff25a0f15a1a4ac00327fd607273e8f
- Um povo que caminha: notas sobre movimentações territoriais guarani em tempos históricos e neocoloniais* – Dialnet, acessado em janeiro 14, 2026, https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/3724732.pdf
- Obra na Praia de Laranjeiras pode estar danificando os sambaquis …, acessado em janeiro 14, 2026, https://pagina3.com.br/meio-ambiente/obra-na-praia-de-laranjeiras-pode-estar-danificando-os-sambaquis-patrimonio-cultural-da-uniao-e-de-balneario-camboriu/
- Sambaquis no Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre, acessado em janeiro 14, 2026, https://pt.wikipedia.org/wiki/Sambaquis_no_Brasil
- IPHAN e MP foram notificados sobre situação dos sambaquis de Laranjeiras – Página 3, acessado em janeiro 14, 2026, https://pagina3.com.br/geral/iphan-e-mp-foram-notificados-sobre-situacao-dos-sambaquis-de-laranjeiras/
- Memória Digital: Martinho Bugreiro – Prefeitura de Blumenau, acessado em janeiro 14, 2026, https://www.blumenau.sc.gov.br/secretarias/fundacao-cultural/fcblu/memaoria-digital-ao-revista-blumenau-em-cadernos-60-anos-ao-martinho-bugreiro72
- Xokleng: a história do povo quase dizimado que protagoniza caso histórico no STF – G1, acessado em janeiro 14, 2026, https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2023/06/07/xokleng-a-historia-do-povo-quase-dizimado-que-protagoniza-caso-historico-no-stf.ghtml
- Dos bugreiros à barragem, a saga do povo Laklãnõ-Xokleng por seu território | ISA, acessado em janeiro 14, 2026, https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/dos-bugreiros-barragem-saga-do-povo-laklano-xokleng-por-seu-territorio