Comunidades da Resex Riozinho do Anfrísio pedem socorro há três dias sem resposta do Estado, enquanto fumaça das queimadas cobre a capital amazonense
Pelo menos três comunidades da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, no Pará, já foram atingidas pelos incêndios que avançam sem controle há três dias. Em Boa Saúde II, cinco casas foram destruídas, entre elas a escola onde estudavam Franciely e Herculano. Duas casas queimaram na comunidade Morro Verde e uma em Novo Paraíso. São as próprias famílias que tentam conter as chamas, enquanto um financiamento coletivo arrecada recursos para reconstrução e apoio emergencial.
Antonio Matos, morador da Boa Saúde II e presidente da Associação de Moradores da Reserva, relata que 4 mil pés de cacau e roças de mandioca já queimaram. “Estamos com três dias pedindo socorro, e ninguém chega pra nos socorrer”, afirma. Segundo a assessoria técnica das associações das Resex da Terra do Meio, o Corpo de Bombeiros de Altamira não tem aeronave disponível para chegar à região, e o ICMBio local não conta com brigadistas suficientes para os múltiplos focos de incêndio. O órgão informou que identificou as famílias afetadas, fez reconhecimento aéreo nesta sexta-feira e enviará kits de ajuda humanitária repassados pela Defesa Civil de Altamira.
O colapso climático fez o nível do Riozinho do Anfrísio baixar drasticamente, com trechos que antes exigiam travessia de barco agora atravessáveis a pé. A chuva não aparece há mais de três meses. Edileno Camilo, que acompanha a reserva desde sua criação em 2004, diz nunca ter testemunhado tragédia semelhante, que atinge castanhais, áreas de caça e coleta de sementes. A Resex teve pico de desmatamento entre 2019 e 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, e o entorno da Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu é hoje o mais desmatado da Amazônia.
Em Manaus, a qualidade do ar atingiu nesta sexta-feira o pior índice do país segundo a plataforma IQAir, com concentração de material particulado fino 7,7 vezes acima da referência da Organização Mundial da Saúde. A Prefeitura suspendeu aulas da rede municipal, e Ufam e Ifam interromperam atividades presenciais. Nos municípios de Careiro e Careiro da Várzea, dados do Sistema Selva registraram concentrações até 11,7 vezes superiores ao recomendado. O cenário reedita a crise de outubro de 2023, quando a capital amazonense também esteve entre as piores do mundo em poluição atmosférica.
Dados do Inpe mostram que o Amazonas já registrou 782 focos de calor nos primeiros nove dias de outubro, quase igualando todo o mês de outubro de 2025. Em setembro, o estado teve crescimento de 296% nos focos em relação ao mesmo mês do ano anterior. O Pará liderou os registros no bioma Amazônia, e juntos os dois estados concentraram 71% de todos os focos de calor registrados em setembro. Incêndios também atingiram a Terra Indígena Apyterewa, de onde invasores foram retirados em 2025, e as reservas extrativistas Jaci-Paraná, em Rondônia, e Chico Mendes, no Acre.
Fonte: SUMAÚMA
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de SUMAÚMA e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

