ANP arrematou 49 blocos e áreas do pré-sal em meio ao Super El Niño de 2026, sem debate sobre clima e dependência fóssil
A Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) realizou em 7 de outubro dois leilões simultâneos que ampliam a fronteira petrolífera do Brasil. No 6º Ciclo da Oferta Permanente de Concessão, 49 blocos foram arrematados entre 308 ofertados, somando pouco mais de R$ 3 bilhões em bônus de assinatura. A exploração avançou sobre a Amazônia: na Bacia do Tacutu, em Roraima, na fronteira com a Guiana, a brasileira Aguila Energy comprou os dois blocos ofertados, além de outras dez áreas nas bacias Potiguar e Recôncavo.
No 4º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha, sete das 13 áreas do pré-sal ofertadas nas bacias de Campos e Santos foram arrematadas por Petrobras, Prio, CNOOC, Sinopec, Equinor e Galp, rendendo R$ 530,5 milhões à União. Das seis petrolíferas vencedoras, quatro são estrangeiras: CNOOC e Sinopec, da China; Equinor, da Noruega; e Galp, de Portugal. O leilão ocorre no mesmo ano em que o Super El Niño de 2026 ameaça atingir proporções bíblicas, fenômeno agravado pela queima de combustíveis fósseis, segundo o alerta da ciência citado pelo ClimaInfo.
Para Carolina Marçal, coordenadora de projetos do ClimaInfo, a abertura de novas áreas exploratórias pode aprofundar a dependência econômica de uma atividade sujeita a riscos climáticos, ambientais, financeiros e geopolíticos. Segundo ela, o Brasil precisa avaliar se essa expansão fortalece sua capacidade de enfrentar os desafios das próximas décadas ou se acirra dependências e fragilidades. Marçal defende que soberania energética não significa aprofundar a dependência dos combustíveis fósseis, mas construir uma economia mais resiliente e preparada para a transição energética.
Projeções do Plano Nacional de Energia 2055, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, indicam que a exportação do excedente das reservas atuais de petróleo poderia gerar cerca de US$ 1 trilhão até 2050, com a abertura de novas áreas somando mais US$ 1,1 trilhão em exportações potenciais. No entanto, segundo Marçal, os ganhos financeiros tendem a ser compartilhados entre empresas e investidores de diferentes países, enquanto os impactos de eventuais acidentes e a degradação dos ecossistemas se concentram nos territórios onde a exploração acontece — expondo comunidades locais, povos indígenas e populações tradicionais a riscos sem garantia de participação na renda gerada.
A guerra no Oriente Médio, que fez disparar os preços do petróleo, do gás e de derivados, é apontada pelo ClimaInfo como o mais recente exemplo de que segurança energética e combustíveis fósseis não combinam. O debate sobre a expansão da fronteira fóssil brasileira, segundo a organização, deveria ir além da arrecadação potencial e considerar se essa trajetória compromete as próximas gerações diante da emergência climática.
Fonte: ClimaInfo
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de ClimaInfo e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

