Marisqueiras de Sergipe resistem à perda de acesso aos manguezais
Avanço de obras urbanas e queda na quantidade de mariscos levam mulheres do litoral sergipano a lutar por reconhecimento e autonomia territorial
O Movimento das Marisqueiras de Sergipe (MMS) denuncia a perda progressiva de acesso aos manguezais do litoral sergipano, em especial na região do rio Vaza-Barris, próxima a Aracaju. As coletoras de mariscos relatam queda na quantidade de moluscos e crustáceos disponíveis, enquanto obras de pavimentação, drenagem e expansão imobiliária avançam sobre áreas onde vivem e trabalham há gerações.
As marisqueiras passam horas na lama para coletar cada vez menos. Práticas tradicionais, como os cantos usados na captura do aratu, deixam de ser transmitidas em algumas famílias. Lideranças como Adriana Hora dos Santos, que catou mariscos ao lado da mãe e hoje mantém uma petiscaria para complementar a renda, afirmam que o rio deixou de garantir a sobrevivência das comunidades: “o rio já não é mais nosso”, diz ela, segundo relato reproduzido pela reportagem.
O movimento nasceu dentro do Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (Peac), exigência do Ibama para que a Petrobras mantivesse licenças de exploração de petróleo e gás na Bacia de Sergipe-Alagoas. A partir de um diagnóstico de vulnerabilidades feito entre 2013 e 2014, que revelou impactos específicos sobre as mulheres — mais pobreza, mais violência e perda de território quando o marisco escasseava —, surgiu o projeto que deu origem ao MMS, hoje coordenado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) em parceria com a Fapese.
Segundo a professora Sandra Oliveira, coordenadora do projeto, existe uma contradição estrutural no fato de o movimento ter nascido de uma política de mitigação que é, ela própria, condicionante da licença da Petrobras para continuar explorando esses territórios. As lideranças, afirma Sandra, hoje compreendem essa contradição e buscam autonomia, inclusive financeira, em relação à empresa. A pesquisadora Gislei Lazzarotto, autora de estudo sobre o tema com estágio no Peac, destaca que as marisqueiras enfrentam uma estrutura patriarcal que historicamente não reconhecia o trabalho feminino no manguezal como parte da pesca artesanal, tratando-o como ajuda doméstica complementar ao trabalho dos homens.
A mudança legal começou com a Lei da Pesca de 2009, que passou a considerar as etapas de pré e pós-captura como parte da cadeia produtiva da pesca artesanal. Ainda assim, benefícios como o seguro-defeso continuam de acesso complexo para essas trabalhadoras. Articuladas ao Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, as marisqueiras reivindicam hoje reconhecimento como categoria própria, e não apenas como “pescadoras artesanais”, numa disputa por identidade e direitos que se soma à luta pela permanência no território.
Fonte: Notícias ambientais
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Notícias ambientais e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.