Mulheres Kaingang mobilizam Território do Guarita contra feminicídio e pelo cuidado da juventude

Em Tenente Portela (RS), 5ª Mobilização das Mulheres Kaingang debate machismo nas aldeias e crise de saúde mental entre jovens indígenas

A 5ª Mobilização das Mulheres Indígenas Kaingang do Território do Guarita reuniu mulheres, jovens e a comunidade nos dias 26 e 27 de agosto de 2026, no Centro Cultural de Tenente Portela (RS), com o tema “Entre memória e movimento, construindo redes de cuidado para as juventudes indígenas”. O encontro contou com participação de indígenas da Terra Indígena Apucaraninha, no Paraná, e teve apoio da equipe docente do curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal de Santa Maria, Campus Frederico Westphalen.

Sob a bandeira de transformar o “luto em luta”, o Grupo de Trabalho Guarita reafirmou a atuação na prevenção da violência de gênero dentro do território, que abrange os municípios de Tenente Portela, Redentora e Erval Seco e reúne cerca de 7 mil pessoas em mais de 23 mil hectares, a maior terra indígena do Rio Grande do Sul. “Nenhum tipo de violência faz parte da cultura indígena”, afirmaram integrantes de uma das mesas do evento, ao apontar o machismo estrutural como reflexo do processo de colonização infiltrado nas aldeias.

O encontro também colocou em pauta a crise de saúde mental entre os jovens Kaingang. Segundo o Relatório Violência Contra Povos Indígenas no Brasil – 2025, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), houve aumento nos conflitos por direitos territoriais, assassinatos, suicídios e mortalidade infantil, com 215 suicídios registrados entre indígenas em um único ano. Milena Jynhpó, da TI Guarita e estudante de Direito, relacionou a ausência de esperança entre os jovens a séculos de apagamento e violência, e cobrou atendimento em saúde mental adaptado à cosmovisão indígena, além de mais psicólogos e formação de médicos indígenas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI).

Para a historiadora Gilda Kuitá, da TI Apucaraninha, o adoecimento mental da juventude está ligado à perda da espiritualidade, da cultura, da identidade indígena e ao preconceito com o idioma do povo. Ela defende que professores resgatem essa cultura junto aos jovens, lembrando que, na cosmovisão Kaingang, o povo surgiu da montanha sagrada e mantém a terra como parte de si.

O evento celebrou ainda iniciativas educacionais como a Rede Nacional de Cursinhos Populares e destacou a urgência de mais jornalistas indígenas — hoje apenas 63 formados no país, segundo dado citado no encontro — para disputar a narrativa pública. Foi lançado também o piloto da Caderneta da Mulher Kaingang, documento em construção sobre direitos, violência e saúde. Para a intérprete Roselaine Emília Amaral, o maior desafio das mulheres indígenas é o preconceito, e o caminho passa por fortalecer os mais jovens: “a ancestralidade nos trouxe até aqui”.


Fonte: cimi.org.br

Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de cimi.org.br e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.