Watu kuem: o rio Doce morreu

Dez anos após o maior crime ambiental da história do Brasil, o povo Krenak, “Borum do Watu”, vive exilado em sua própria terra. O rio que era seu avô está morto, a comida está envenenada e a “reparação” se revela um novo capítulo da colonização. Mas na margem de um rio de lama tóxica, a resistência ancestral se recusa a silenciar.

O Luto de Laurita

Laurita Krenak nasceu e foi criada na beira do Rio Doce. Para ela, o rio não era uma paisagem ou um “recurso hídrico”. Ele era Watu. O Avô. Um ser vivo, um parente que provê, ensina e protege. Laurita era uma das poucas que mantinha a habilidade ancestral de “conversar com o rio”, um diálogo que fluía como a própria correnteza.

No dia 5 de novembro de 2015, a 400 quilômetros de distância, em Mariana, a barragem de Fundão, operada pela Samarco – uma joint venture das gigantes globais da mineração Vale e BHP Billiton – rompeu.1 O mundo de Laurita, e de todo o povo Krenak, estava prestes a acabar.

Antes que a onda de 62 milhões de metros cúbicos de lama tóxica chegasse fisicamente à aldeia, em Resplendor (MG), o Watu se despediu.

“Me mataram. Estou morrendo.”

Foi isso que Laurita ouviu.

Laurita: “Comia peixe sempre, e agora não tem mais” (Foto: Patrik Camporez/Agência Pública)

Sua filha, Ni Krenak, hoje com 47 anos, conta a resposta da mãe ao avô moribundo: “Se você está morrendo, quero ir junto. Leva toda minha força”.

Três anos depois, em 2018, Laurita Krenak faleceu. Ela se foi, mas o rio não voltou. O luto de Laurita tornou-se o luto de um povo.

A morte de Laurita não foi apenas uma tragédia pessoal; foi o símbolo de um rompimento ontológico. Para os Krenak, que se autodenominam Borum do Watu – “Gente do Rio” – a identidade e a existência estão entrelaçadas com o rio de uma forma que o pensamento ocidental mal consegue assimilar.2 O Watu não é “natureza” separada do “ser humano”. Ele é um ser humano, um ancestral, um ente sagrado.2

“Minha mãe benzia as pessoas, indígena ou branco de fora, e a primeira coisa que ela falava era pra ir ao Watu, tomar um banho e voltar”, relembra Ni. A água do rio era o remédio, o batismo, o sagrado. “Quando tive meu primeiro filho, a procurei para saber como batizava, e ela falou que, quando ele fizesse 1 ano, era para eu e o Ailton [Krenak] o mergulhar no Watu três vezes enquanto ela falava as palavras”.

Quando a lama chegou, espessa, cor de ferrugem e morte, os Krenak não viram poluição. Viram o assassinato de seu parente mais velho.2 A cena na aldeia, naqueles dias de novembro de 2015, era de desolação. Homens, mulheres, crianças e anciãos choravam à beira do rio, realizando um ritual fúnebre para o Watu.3 Viam, incrédulos, a enxurrada de peixes e animais mortos que desciam na avalanche de lama.3 Watu kuem: o rio Doce morreu, diziam os mais velhos.2

Ailton Krenak, renomado escritor e esposo de Ni, descreve esse sentimento como um “luto silencioso, terrível”.4 É um trauma que, segundo ele, se instala no longo prazo, “como se as pessoas perdessem a fé na vida”.4

O Watu, explica a cosmologia Krenak, é a morada dos Marét, os espíritos da natureza que oferecem proteção e sabedoria.3 Quando o chauara – o veneno da mineração 6 – soterrou o leito do rio, ele não matou apenas peixes e plantas. Ele desalojou os espíritos. Ele quebrou a aliança.

“O rio Doce está em coma”, diria Ailton Krenak anos depois, em uma fala que ecoou globalmente.4 “Ele é o Watu, o nosso avô. Só que é o nosso avô em coma”.4

Para o povo Krenak, o crime não aconteceu apenas em 2015. Ele acontece todos os dias. É como se fosse ontem.

O Gosto do Veneno: Viver Exilado em Casa

Antes da lama, a vida Krenak fluía com o rio. O casal Burum Rim, de 73 anos, e Nomia, de 66, senta-se hoje em sua casa, cercado por um amontoado de garrafas plásticas de água mineral, e lembra de um mundo que parece extinto.

Garrafas se tornaram parte da decoração (Foto: Patrik Camporez/Agência Pública)

“Nossa vida quase era o rio”, conta Burum Rim, com a voz marcada pelo tempo e pela perda. “Vivia da pesca, vivia da caça. No rio tinha muito peixe, eu pescava até com a mão. Tinha muita capivara também”.

Essa vida de abundância e autonomia foi substituída por uma dependência humilhante. A água, que antes era buscada no Watu e purificada em filtros de barro – uma água que, segundo eles, “nunca adoeceu ninguém” – hoje chega em caminhões-pipa ou em garrafas plásticas. A logística é precária. Em dias de chuva, os caminhões não conseguem transitar pelas estradas de terra da Terra Indígena, deixando a comunidade sem água para necessidades básicas.3

A imagem dos Krenak, a “Gente do Rio”, cercada por pilhas de plástico, esperando por um caminhão que lhes traga água potável, é a imagem mais cruel do etnocídio.3 Eles estão, como define a análise do desastre, “exilados em seu próprio território”.3

Mas a lama não trouxe apenas a sede. Ela trouxe o veneno e o silêncio.

Nomia, que tem 25 netos e cinco bisnetos, se lembra com saudade dos rituais na beira do Watu. “Acabou com o ajuntamento”, lamenta ela. O rio era o centro da vida social e espiritual da comunidade. “Às vezes, ia todo mundo para a beira do rio para cantar, fazer nossa cultura lá. Comia peixe assado, dançava. Era como se fosse a nossa religião, e isso se perdeu”.

A perda é profunda, uma morte ontológica que atinge o cerne do que é “ser Krenak”.3

“Nós tínhamos cânticos agradecendo o Watu por ele ter água boa, ter bastante peixe para gente comer”, conta Nomia, com a voz embargada. “Até isso eles tiraram da gente, o direito nosso de cantar, da nossa religião”.

A preocupação de Nomia agora se volta para o futuro. Ela teme que seus netos e bisnetos jamais possam conhecer o Watu como ela conheceu, que jamais possam usar o rio. As crianças Krenak que nasceram depois de 2015 crescem com uma proibição que redefine sua cultura: elas não podem tocar na água do avô.

“Tem 9 anos que as crianças estão sendo ensinadas que eles não podem botar a mão dentro da água do rio”, explicou Ailton Krenak.4

O Watu não é mais fonte de vida; tornou-se fonte de medo e doença. A lama que se depositou no leito do rio não é inerte. Ela é uma presença tóxica e constante. Na região de Galileia, próxima à terra Krenak, o ribeirinho Edgar Silvio Guimarães, 60, descreve as mudanças físicas: “Depois do rompimento, assoreou muito o leito do rio. Com qualquer ‘aguinha’ nas cabeceiras, o rio está entornando aqui para baixo”. O assoreamento agravou as enchentes, trazendo a lama contaminada para dentro das casas e das plantações.7

A destruição da base material da vida Krenak – a pesca, a caça, a coleta, a agricultura de vazante – levou à insegurança alimentar e à desnutrição.8 Mas a fome mais profunda é a espiritual. A supressão dos rituais, da medicina tradicional que dependia da água, e dos cânticos de agradecimento, é uma tentativa de apagar a própria existência desse povo.3

A Ciência da Omissão

O que os Krenak sentiram no corpo e na alma, a ciência ocidental levou quase uma década para confirmar. E quando o fez, as autoridades tentaram silenciar.

Um estudo crucial da perícia judicial (AECOM), realizado entre março de 2022 e outubro de 2023. Detalhado nos Relatórios nº 58 e 59, não era uma pesquisa qualquer. Era uma perícia judicial, nomeada pela 4ª Vara Federal, para avaliar a segurança dos alimentos na bacia do Rio Doce.9

Os resultados são categóricos. Os peritos da AECOM concluíram que existe um “nexo de causalidade” direto entre o rompimento da barragem de Fundão e as concentrações de metais pesados encontradas em produtos agropecuários.

A lista do veneno é extensa e assustadora. A perícia encontrou níveis lesivos à saúde humana de:

  • Bário: Em abacate, abacaxi, banana, café, feijão e milho.11
  • Chumbo: Em limão e maracujá.11
  • Cobre: Em café, feijão e fígado de galinha.11
  • Níquel: Em café, feijão e milho.11
  • Titânio: Em café, feijão, milho e, crucialmente, no leite de vaca.11

Outras substâncias detectadas nos alimentos e pescados incluem cianeto, cromo VI, metilmercúrio e arsênio.11

O Laudo 59 foi claro: existe “insegurança” no consumo desses alimentos, especialmente para os “altos consumidores” – ou seja, as próprias famílias ribeirinhas e indígenas que dependem dessa terra para sobreviver.11 O risco foi identificado em frutas, legumes, grãos, leite, ovos, carnes e vísceras.11 Apenas verduras e mel foram considerados seguros.11

Esse veneno, agora parte da cadeia alimentar, afeta diretamente a saúde das comunidades. Na Terra Indígena Krenak, em Resplendor, os impactos na saúde física são relatados há anos, incluindo doenças de pele, diarreias e problemas respiratórios ligados à contaminação do solo e da água.12

A parte mais grave desse crime científico é a que vem a seguir. Tanto os laudos da AECOM quanto uma Nota Técnica do Ministério da Saúde (Nº 21/2023) foram taxativos: os resultados “são suficientes para evidenciar um risco sanitário que não pode ser negligenciado”.11 Ambos os documentos continham “expressas recomendações de ampla divulgação” junto à população.11

O laudo da AECOM chegou a detalhar que a comunicação deveria ser “assertiva e pautada em saúde”, usando “linguagem acessível”, cartilhas e gráficos para audiências leigas.11

No entanto, dez anos após o crime, esses documentos permanecem “silenciados”.11 Os governos federal, estaduais, municipais e, principalmente, a Fundação Renova – o braço de “reparação” das mineradoras – falharam em alertar a população.11

Como denunciou a atingida Luciana Souza de Oliveira, de outra comunidade afetada, essa omissão viola o próprio Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), que exigia comunicação clara e acessível.11

O silêncio é uma estratégia. Manter a população no escuro sobre o veneno que come é garantir que a “normalidade” – e os lucros da mineração – possa ser retomada o mais rápido possível. É a continuação do crime, agora sob a forma de negligência informacional.

A Reparação como Insulto e Impunidade

Para os Krenak, a resposta das empresas e do Estado ao crime foi um segundo desastre, uma farsa burocrática que aprofundou as feridas.

O texto-base de José Vítor Camilo aponta a crítica de Ni Krenak aos “projetos de reparação”. A Fundação Renova, entidade criada pela Samarco, Vale e BHP para gerenciar a reparação – uma manobra que, na prática, colocou os criminosos para gerir a cena do crime 13 – ofereceu ao povo Krenak projetos de criação de gado, porcos e galinhas.

A resposta de Ni é um resumo da inadequação colonial dessa “solução”: “Tive que cercar a minha casa inteira, pois os bois ficavam entrando e comendo as plantas todas. Não adianta dar gado, porco, galinha. Tinha era que reflorestar, cuidar das nascentes, para a gente voltar a ter água aqui, ter caça”.

A crítica de Ni expõe a mentalidade. O sistema de vida Krenak, baseado na relação com o rio e a floresta, foi destruído. A “reparação” oferecida foi a pecuária, um dos principais vetores históricos de desmatamento e degradação da bacia do Rio Doce.9 É substituir um etnocídio por um ecocídio em menor escala, disfarçado de “desenvolvimento”.15

Essa lógica da “farsa da recuperação” é sistêmica.13 A Fundação Renova foi desde o início, como apontam críticos, um artifício para preservar a imagem das empresas.13 A entidade, embora se apresente como “terceiro setor”, é permeada por funcionários das mineradoras e opera sob a lógica da desresponsabilização.13

Até mesmo as iniciativas aparentemente positivas são questionadas. O fotógrafo Sebastião Salgado, aclamado por seu projeto de reflorestamento através do Instituto Terra, tornou-se um parceiro da Fundação Renova.13 Críticos apontam que, embora o reflorestamento seja vital, a parceria serve como “publicidade verde” para as mineradoras.13 Logo após o crime, Salgado fez declarações polêmicas, minimizando o desastre ao afirmar que a degradação do rio era anterior e que as empresas “primam pela preocupação ecológica”.13 Essa narrativa, que a Renova chama de “desastre silencioso” 13, convenientemente ofusca a “morte instantânea” do rio causada pela lama tóxica.13

Enquanto a reparação real falha, a reparação financeira é celebrada pelo Estado e pelas empresas como um sucesso. Em outubro de 2024, foi homologado um “Novo Acordo” de R$ 170 bilhões.17 O Ministério Público comemorou o acordo como um “marco histórico” que reconheceu novas áreas atingidas e previu indenizações de R$ 35 mil para atingidos em geral e R$ 95 mil para pescadores e agricultores.17

Mas este acordo, negociado por três anos e meio, tem uma falha fundamental: foi feito “sem a participação dos atingidos”.1 Organizações como a Justiça Global denunciam o acordo como um “retrocesso”, pois ele extingue mecanismos de participação social, como o Comitê Interfederativo (CIF), e troca “obrigações de fazer” (como limpar o rio) por “obrigações de pagar” (entregar dinheiro aos cofres públicos).1

Para os Krenak, o dinheiro não traz o Watu de volta. Não restaura os Marét. Não devolve a religião que Nomia perdeu.

O capítulo final desta farsa é a impunidade. Em novembro de 2024, quase exatamente dez anos após o crime, a Justiça Federal absolveu todos os réus do processo criminal, incluindo gestores e diretores da Samarco, Vale e BHP.19 A juíza alegou “falta de provas suficientes” para individualizar a culpa.19

Dez anos. Dezenove mortos. Um rio assassinado. 400 km de destruição. E nenhum culpado.

A impunidade, como disseram manifestantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), “segue como a lama que desceu pelo Rio Doce, sujando pela vergonha a história do país”.19

Um Crime de 500 Anos

Para entender o que aconteceu em 2015 e a impunidade que se seguiu, é preciso entender que o crime não começou ali. A tragédia de Mariana não é um evento isolado. É o ápice de um modelo e a continuação de uma história.

O modelo é o do “capitalismo dependente” e do “extrativismo predatório”.20 É um sistema que vê Minas Gerais não como um lar, mas como um poço de recursos a ser esvaziado, onde a “superexploração da força de trabalho e a destruição ambiental” são fundamentos, não efeitos colaterais.24

Nessa lógica, o povo Krenak sempre esteve no caminho.

Antes de serem “Krenak”, eles eram parte dos “Botocudos”, um termo pejorativo usado pelos colonizadores portugueses para desumanizá-los.21 Já no século XIX, eram caçados para “limpar” o Vale do Rio Doce para a exploração. O discurso colonial da época, capturado em filmes antigos, os descrevia como “silvícolas brasileiros, especialmente os famigerados botocudos do rio doce”, e celebrava o “progresso” que chegava: “onde o índio era um ser desprezível e bruto, hoje é uma enfermaria e uma escola”.21

A história se repetiu com uma brutalidade sistemática durante a Ditadura Militar (1964-1985). O território Krenak, em Resplendor, foi transformado em um campo de concentração indígena.26 O “Reformatório Krenak” e a “Fazenda Guarani” eram prisões para onde indígenas de todo o país, considerados “rebeldes” pelo regime, eram levados.26

Décadas de relatórios e testemunhos, hoje parte de uma ação de reparação histórica, confirmam o que os Krenak sempre souberam: tortura, espancamentos, trabalho forçado e confinamento solitário eram práticas comuns.26 O “crime” podia ser qualquer coisa: beber álcool, ficar “ocioso” ou, o mais grave, “resistir às invasões de fazendeiros”.26

Enquanto os homens eram torturados no Reformatório, famílias Krenak inteiras foram removidas à força de suas terras e levadas para a Fazenda Guarani, para que fazendeiros pudessem tomar seu território.26 A população Krenak foi reduzida a cerca de 50 pessoas.26 Foi uma tentativa deliberada de extermínio.

O retorno ao território, na década de 1970, só foi possível, segundo a cosmologia Krenak, por uma intervenção do Watu. Uma grande enchente em 1979 foi interpretada pelos anciãos como uma mensagem do Avô, que “se levantou” e “limpou” a terra dos invasores, permitindo que seus parentes, os Borum do Watu, pudessem voltar.2

O rio que os salvou uma vez, hoje está morto por obra dos mesmos interesses. A lama da Samarco/Vale/BHP é a continuação, com novas ferramentas, do fuzil do bandeirante e do chicote do capitão do mato no Reformatório.

“Atos violentos que perpetuam até hoje na negação de nossas terras, de nossos direitos, na poluição do meio ambiente e na exclusão dos povos originários”, como escreveu a liderança Krenak, Douglas Krenak.29

É por isso que Ailton Krenak é tão cético em relação às estruturas de poder: “Eles não respeitam nem os seres humanos que são mais ou menos parecidos com eles, imagina se vão respeitar um rio”.30 A mineração, para ele, é um sistema sem honra. “A mineração não tem dignidade nenhuma não”, disse ele em entrevista. “Ela paga salário porque é obrigado, se ela pudesse, continuaria escravizando as pessoas”.30

A Casa da Mãe e o Canto que Fica

O que fazer quando seu deus está morto, sua terra envenenada e seus opressores são absolvidos?

O povo Krenak responde com a única arma que a lógica extrativista não pode comprar, nem compreender: a memória e a espiritualidade.

Ailton Krenak fala da necessidade de uma “imaginação política”.31 Não a política dos palácios e tribunais, que se mostrou inútil, mas a política que “produz afetos”.31 A política de imaginar e construir outros mundos possíveis, mesmo sobre as ruínas de um mundo destruído por um “capitalismo sem relações de afeto”.1

É essa imaginação política que move Ni Krenak.

Assim como sua mãe, Laurita, Ni também “conversa com o Watu”. Mas agora, ela o ouve em sonhos. E foi em um desses sonhos que ela recebeu a instrução para o futuro.

“A gente perdeu o rio e precisava desse lugar sagrado, para poder entrar, sentir aquela bênção”, explica Ni.

Próximo à margem do rio morto, coberto de lama seca e vegetação fantasma, Ni Krenak está construindo uma Kiem Iupu – uma “Casa de Mãe” na língua Borun.

“Eu chamo de Casa de Mãe, que é aquele primeiro lugar que a gente procura quando está mal”, diz ela.

Esta casa não é um monumento ao luto. É um centro de cura. É um ato de resistência cultural e espiritual. Ali, Ni e as outras mulheres Krenak estão buscando e plantando ervas medicinais no entorno, recriando o nexo entre a terra e o corpo que o veneno da mineração tentou destruir. A Kiem Iupu é a prova de que, mesmo que o rio físico tenha sido assassinado, a ontologia relacional dos Krenak – a teia de vida que os conecta aos humanos e não-humanos – persiste.32

Ailton Krenak, ao olhar para a tragédia, recusa a narrativa do fim do mundo. Ele propõe “ideias para adiar o fim do mundo”, que, na verdade, são ideias para sobreviver ao fim de um mundo – o mundo do extrativismo predatório, da ontologia “fast food” que “come o mundo”.33 A sobrevivência está em afirmar a existência de “mundos plurais”.33

Dez anos depois, o crime de Mariana não é passado. É um presente contínuo. A lama secou, mas o veneno está na terra, na água, no sangue e na alma.11 A impunidade dos executivos, selada em 2024, prova que para o capital, o Watu não tinha valor.19

Mas para os Krenak, a luta não terminou. Ela apenas mudou de forma. Eles se vestem de resistência para defender a própria história.35

“Rio Doce não morreu, não”, brada um ancião Krenak, “nós vamos levantar ele para cima. As crianças aqui, ó, aqui vai levar”.36

É um eco do que Ni Krenak pede ao seu povo, um ato de fé e de insurgência política:

“A gente tem que estar sempre cantando, não abandonar o Watu. Ele morreu aqui, mas o espírito dele está vivo. Temos que passar um pouco da força que temos para que os meus bisnetos consigam o encontrar limpo”.

Referências citadas

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  2. rio doce: mais que um patrimônio, um ser ancestral | mpmg, acessado em novembro 11, 2025, https://www.mpmg.mp.br/data/files/D3/12/B1/9F/BB7C191041383A19760849A8/Rio%20doce_mais%20que%20um%20patrimonio_%20um%20ser%20ancestral.pdf
  3. Tragédia do Povo Krenak pela Morte do Rio Doce / Uatu, no Desastre da Samarco / Vale/ BHP, Brasil, acessado em novembro 11, 2025, https://revistas.unievangelica.edu.br/index.php/fronteiras/article/download/2444/2077/6773
  4. Ailton Krenak II: “o rio Doce está em coma. Ele é o Watu, o nosso avô, só que é o nosso avô em coma” – YouTube, acessado em novembro 11, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=Vli08msNfcY
  5. Narrativas Pessoais – Margem Filmes, acessado em novembro 11, 2025, https://www.margemfilmes.com.br/narrativas-pessoais
  6. Ailton Krenak: “O Campeonato do Fim do Mundo” e o Ecocídio da …, acessado em novembro 11, 2025, https://ecocidio.com.br/ailton-krenak-o-campeonato-do-fim-do-mundo-e-o-ecocidio-da-terra-mundo/
  7. Relatório: – Agência Minas Gerais, acessado em novembro 11, 2025, https://www.agenciaminas.mg.gov.br/ckeditor_assets/attachments/770/relatorio_final_ft_03_02_2016_15h5min.pdf
  8. MG – Povo indígena Krenak segue lutando por reconhecimento e demarcação total de seu território tradicional, acessado em novembro 11, 2025, https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/mg-povo-indigena-krenak-segue-lutando-por-reconhecimento-e-demarcacao-total-de-seu-territorio-tradicional/
  9. Documentos divulgados por Peritos Judiciais do Caso Samarco …, acessado em novembro 11, 2025, https://ifz.org.br/documentos-divulgados-por-peritos-judiciais-do-caso-samarco-apontam-contaminacao-de-alimentos-em-municipios-da-bacia-do-rio-doce/
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  30. Ailton Krenak: “A mineração não tem dignidade, se pudesse continuaria escravizando” – Brasil de Fato, acessado em novembro 11, 2025, https://www.brasildefato.com.br/podcast/brasil-de-fato-entrevista/2020/11/06/ailton-krenak-a-mineracao-nao-tem-dignidade-se-pudesse-continuaria-escravizando/
  31. Proyecto Ballena 2023 | Despertar del coma colonial: diálogo de saberes | Ailton Krenak, acessado em novembro 11, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=dq9yzH9OKjU
  32. A INCOMENSURABILIDADE DAS FORMAS DE HABITAR A TERRA …, acessado em novembro 11, 2025, https://periodicos.ufjf.br/index.php/geografia/article/download/48226/29323/220375
  33. “Totalitarianism does not support many worlds, genders, species”, comments Ailton Krenak, acessado em novembro 11, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=EP0oCKurRYg
  34. CASO SAMARCO: ANÁLISE DE NARRATIVAS À LUZ DA TEORIA, acessado em novembro 11, 2025, https://repositorio.uel.br/bitstreams/819f9d0a-acf7-4422-87a4-3e7f86041f8f/download
  35. Krenak, Uma História de Resistência – YouTube, acessado em novembro 11, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=HTo8PHpcTAE
  36. Os Krenak e a Morte do Watu (Rio Doce) (Eduardo Marinho e Kenny Mendes 2015), acessado em novembro 11, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=foyVOqNvXas