La Niña e o RS: O Racismo Ambiental Tem Sede
O Rio Grande do Sul, um estado cuja identidade geopolítica e cultural foi forjada na tensão entre o pampa e a fronteira, encontra-se hoje no epicentro de uma crise climática que transcende a meteorologia para revelar as fraturas expostas de sua estrutura social.
Ainda cicatrizando as feridas abertas pela devastação hídrica de maio de 2024 — um evento que redefiniu o conceito de catástrofe no sul global —, o território gaúcho prepara-se para enfrentar o extremo oposto do pêndulo climático: a sede. A confirmação pela Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA) e pela MetSul Meteorologia do retorno do fenômeno La Niña, estendendo-se até o verão de 2026 , não é apenas um dado técnico para o planejamento das safras de commodities; é um aviso de sentença para as populações que historicamente carregam o peso das desigualdades socioambientais no Brasil.
Enquanto o agronegócio se blinda com o aparato estatal, subsídios vultosos e tecnologias de irrigação que transformam rios públicos em reservatórios privados, as aldeias indígenas e as áreas de retomada, preparam-se para enfrentar a escassez de água potável como uma crise humanitária de proporções incalculáveis.
A tese central que permeia esta análise é que a seca que se avizinha não é um fenômeno democrático. Ela possui endereço, cor e classe social. O racismo ambiental, conceito cunhado na década de 1980 por Benjamin Franklin Chavis Jr. e tragicamente atualizado pelas enchentes de 2024 3, manifestar-se-á com renovada crueldade na gestão da escassez. A análise a seguir dissecará as engrenagens políticas, econômicas e climáticas que garantem a “segurança hídrica” para a soja e o arroz 4, enquanto condenam comunidades originárias à dependência de caminhões-pipa, à água contaminada e à violência de conflitos territoriais exacerbados pela disputa por recursos naturais minguantes.6
Diante de um cenário onde a “normalidade” climática se tornou uma lembrança distante, substituída por uma alternância violenta entre dilúvios e secas — o que a ciência contemporânea denomina de “weather whiplash” ou chicotada climática —, é imperativo questionar: quem tem o direito de beber quando o rio seca? A resposta a essa pergunta, infelizmente, já foi escrita séculos atrás nas políticas de exclusão que formaram o estado, mas é reescrita diariamente nas outorgas de água e nos projetos de lei que tramitam em Brasília.
O Pêndulo Climático: Da Lama à Poeira
O Retorno do La Niña: Mecanismos de um Resfriamento Global
A atmosfera terrestre opera como um sistema de conexões globais intrincadas, onde o resfriamento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, característico do fenômeno La Niña, reverbera com força particular e devastadora no sul do continente americano. Segundo os dados mais recentes processados pela NOAA e interpretados pela MetSul Meteorologia, as anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Central-Leste (região Niño 3.4) atingiram patamares de -0,5ºC, o limiar técnico que define o início do fenômeno.8 As projeções indicam, com 55% de probabilidade, que estas condições persistirão de dezembro de 2025 até fevereiro de 2026, cobrindo exatamente o período crítico do verão austral.

Embora as análises iniciais sugiram um evento de curta duração e fraca intensidade — em contraste marcante com o “triplo La Niña” que castigou a região entre 2020 e 2023 9 —, a vulnerabilidade ecológica e hidrológica do território gaúcho amplifica exponencialmente qualquer anomalia negativa de precipitação. O mecanismo físico é bem conhecido pelos climatologistas: o resfriamento das águas superficiais no Pacífico altera a circulação de Walker, célula de circulação atmosférica zonal, deslocando as zonas de convecção tropical para o oeste. Para o Rio Grande do Sul, essa alteração macroscópica traduz-se em bloqueios atmosféricos persistentes que impedem o avanço regular de frentes frias e sistemas de instabilidade, resultando em estiagens prolongadas e ondas de calor intensas durante os meses de verão.9
O Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA), baseando-se em modelos do International Research Institute for Climate Society (IRI) e do Climate Forecast System (CFSv2) da NOAA, corrobora a previsão de um déficit de precipitação generalizado para o trimestre dezembro de 2025 a fevereiro de 2026 em praticamente todo o estado.10 A exceção possível seria a faixa leste, que poderia apresentar precipitações próximas da normalidade apenas em fevereiro, mas tal alívio pontual é insuficiente para reverter os déficits hídricos acumulados no solo e nos reservatórios.
A “Chicotada Climática” (Weather Whiplash) no Contexto Gaúcho
É fundamental compreender que este novo episódio de La Niña não ocorre em um vácuo ecológico. Ele incide sobre um sistema ambiental profundamente estressado e alterado. O conceito de “weather whiplash”, ou chicotada climática, descreve a alternância abrupta e violenta entre extremos hidrológicos. O Rio Grande do Sul tornou-se, tragicamente, um laboratório global para a observação desse fenômeno. Em um intervalo de menos de dois anos, o estado transitou da maior enchente de sua história, que afetou mais de 2,3 milhões de pessoas, destruiu infraestruturas críticas e devastou territórios indígenas em maio de 2024 11, para uma perspectiva iminente de seca agrícola e hidrológica severa.

Para as comunidades indígenas e populações vulneráveis, essa oscilação não é apenas um desafio logístico; é uma catástrofe cumulativa. Durante as cheias de 2024, as retomadas localizadas em áreas ribeirinhas ou de preservação permanente — muitas vezes os únicos nichos territoriais onde a ocupação indígena foi “tolerada” pelo avanço do latifúndio ou onde conseguiram resistir — foram submersas e erodidas. O solo, a vegetação ciliar e os cursos d’água sofreram alterações drásticas.11 A erosão das margens, o assoreamento dos leitos dos rios e a destruição da mata ciliar reduziram drasticamente a capacidade de retenção hídrica do solo, a chamada “esponja” natural da paisagem.
Portanto, mesmo uma “seca fraca” ou moderada, como preveem alguns modelos para 2026, pode ter efeitos hidrológicos desproporcionalmente devastadores. O solo compactado e lavado pelas enchentes anteriores perdeu permeabilidade e matéria orgânica, dificultando a infiltração da pouca chuva que cairá e acelerando o escoamento superficial. Para as aldeias que dependem de poços rasos e fontes superficiais, a resposta hidrológica será imediata: o secamento das fontes. A resiliência ecológica necessária para suportar a estiagem foi erodida pela enchente, criando um ciclo vicioso de vulnerabilidade onde cada evento extremo deixa o território mais frágil para o próximo.
O Monitoramento da Seca e a Invisibilidade dos Dados
Os dados oficiais de monitoramento, como os fornecidos pela Defesa Civil e pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), focam predominantemente nos impactos macroeconômicos e na infraestrutura urbana.13 Os boletins de estiagem contabilizam municípios em situação de emergência, perdas na safra de soja e níveis de reservatórios de hidrelétricas. No entanto, há um apagão de dados específicos sobre a segurança hídrica nas Terras Indígenas e comunidades tradicionais.

Enquanto a MetSul e a NOAA fornecem mapas coloridos de anomalias de temperatura do mar 8, não existe um monitoramento público equivalente e em tempo real sobre a disponibilidade de água potável nas aldeias Guarani Mbya ou Kaingang. Essa invisibilidade estatística é o primeiro passo para a negligência política: o que não é medido, não é gerido. A seca nas aldeias só se torna visível quando atinge o nível de calamidade humanitária, exigindo intervenções de emergência tardias e insuficientes, como a distribuição de cestas básicas ou o envio esporádico de caminhões-pipa.14
A Engenharia da Desigualdade: Água para Quem?
O Agronegócio e a Privatização dos Recursos Hídricos
A narrativa oficial do estado do Rio Grande do Sul, e em grande medida a do Brasil, trata a água primariamente como um insumo produtivo, uma commodity líquida essencial para a fabricação de outras commodities. Diante da ameaça de seca confirmada para o verão de 2026, a máquina estatal mobiliza-se com uma eficiência impressionante, não para garantir o abastecimento humano universal, mas para assegurar que a “indústria a céu aberto” do agronegócio não pare suas engrenagens. O arroz e a soja, carros-chefes da economia gaúcha e responsáveis por uma fatia substancial do PIB estadual e das exportações nacionais 4, demandam volumes colossais de água. O arroz irrigado, em particular, depende da manutenção de lâminas d’água constantes em extensas áreas de várzea, competindo diretamente e ferozmente com outros usos da água em momentos de crise hídrica.

A resposta governamental à recorrência das estiagens — exacerbada pelas mudanças climáticas — tem sido a facilitação agressiva da construção de reservatórios privados e a expansão da irrigação. O programa “Irriga+RS”, peça central das ações do plano “Supera Estiagem”, exemplifica essa política. O Estado oferece subvenções financeiras diretas que podem chegar a 20% do valor do projeto, com um teto de R$ 100.000,00 por produtor rural, para a implantação de sistemas de irrigação e a construção de açudes e reservatórios.15
Embora a retórica oficial revista esses programas com o manto da “segurança alimentar” e da “resiliência climática”, na prática, trata-se de um financiamento público massivo para a privatização da água. Ao incentivar o represamento de nascentes, córregos e cursos d’água nas cabeceiras e dentro de propriedades privadas, o Estado reduz a vazão disponível para os usuários a jusante. Esses usuários “finais” são, frequentemente, pequenas comunidades rurais, assentamentos da reforma agrária e, crucialmente, aldeias indígenas que dependem do fluxo natural e contínuo dos rios para sua sobrevivência física e cultural. A água que é retida no açude do agronegócio para garantir a produtividade da soja é a mesma que deixa de correr na bica da aldeia vizinha.
A Ofensiva Legislativa: PL 2168/2021 e o Fim das APPs
A ameaça mais insidiosa à segurança hídrica das populações vulneráveis, contudo, não reside apenas na gestão administrativa, mas na esfera legislativa. O Projeto de Lei 2.168/2021, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, representa um ataque frontal e estratégico ao Código Florestal Brasileiro (Lei 12.651/2012).17 De autoria do deputado José Mário Schreiner (DEM-GO) e impulsionado pela bancada ruralista, o projeto propõe uma alteração semântica com consequências devastadoras no mundo real: classifica obras de infraestrutura de irrigação e de dessedentação animal como sendo de “utilidade pública”.19

No ordenamento jurídico ambiental brasileiro, a supressão de vegetação em Áreas de Preservação Permanente (APPs) — as faixas de proteção ao longo de rios, nascentes, encostas e topos de morro — é restrita a casos excepcionalíssimos de utilidade pública, interesse social ou baixo impacto. Ao enquadrar barramentos para gado e irrigação de monoculturas como “utilidade pública”, o PL 2168 autoriza, de forma generalizada, a intervenção e a destruição dessas áreas vitais.5 As APPs são fundamentais para a recarga de aquíferos, a filtração de sedimentos e poluentes, e a manutenção da qualidade e quantidade da água nos rios.
O Observatório do Código Florestal e diversas entidades ambientalistas e científicas alertam que essa medida agravará a crise hídrica a médio e longo prazo.20 Destruir a vegetação ciliar para construir represas é uma estratégia míope que canibaliza o futuro: remove-se a proteção natural que garante a perenidade dos rios para armazenar água temporariamente em lagos artificiais sujeitos a alta evaporação e assoreamento. Para as comunidades indígenas, que historicamente habitam as margens preservadas ou dependem da biodiversidade dessas áreas para caça, pesca, coleta de remédios e materiais rituais, o PL 2168 é uma sentença de morte cultural e física. Transforma-se a floresta sagrada e protetora das águas em mera infraestrutura de concreto e terraplanagem a serviço da monocultura.
Flexibilização das Outorgas e Licenciamento no Nível Estadual
Paralelamente à ofensiva legislativa federal, o governo estadual do Rio Grande do Sul tem operado mudanças infralegais silenciosas, mas profundas, para agilizar o acesso do agronegócio à água. Decretos executivos e resoluções do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) atualizaram e flexibilizaram os procedimentos de licenciamento ambiental para empreendimentos de irrigação.15
Foram criadas figuras jurídicas como a “outorga emergencial”, destinada a situações de calamidade, e a dispensa de outorga para empreendimentos considerados de “baixo impacto”, que agora necessitam apenas de um cadastro simplificado no Sistema de Outorga de Água (Siout-RS).21 Além disso, obras visando à “segurança de barragens” foram dispensadas de autorização prévia em certos contextos.
Essa desburocratização, celebrada como modernização e eficiência pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) e por setores econômicos 4, na realidade, diminui drasticamente o controle público e técnico sobre o balanço hídrico das bacias hidrográficas. Em um cenário de La Niña, onde cada litro de água é crítico, a falta de um monitoramento rigoroso, centralizado e cumulativo das outorgas pode levar ao colapso funcional de bacias inteiras. A água retirada a montante por dezenas de bombas “dispensadas de outorga” ou operando sob “licença emergencial” fará falta na torneira — ou na bica — da aldeia situada quilômetros abaixo, criando zonas de sacrifício hídrico não declaradas.
As Raízes Históricas do Racismo Ambiental no Rio Grande do Sul
Para compreender por que a seca de 2026 afetará desproporcionalmente os povos indígenas, é necessário escavar as camadas geológicas da história política do Rio Grande do Sul. O racismo ambiental que hoje se manifesta na distribuição desigual da água tem suas raízes na formação do estado e nas políticas de eugenia e exclusão territorial dos séculos XIX e XX.
A Constituição de 1824 e o Projeto de Embranquecimento
O Rio Grande do Sul orgulha-se de sua herança imigrante, celebrando a colonização alemã e italiana como motores do desenvolvimento. No entanto, essa narrativa oculta a exclusão deliberada das populações negras e indígenas. A primeira Constituição Brasileira, outorgada em 1824, e as políticas subsequentes do Império, estabeleceram uma hierarquização da cidadania baseada na raça. A Decisão nº 80, de 31 de março de 1824, que criou a colônia alemã de São Leopoldo, explicitava a preferência por “gente branca, livre e industriosa” e proibia a presença de negros na região, chegando a determinar a transmigração forçada dos que ali residiam.11
Esse projeto de “embranquecimento” da população via imigração europeia foi acompanhado pelo genocídio sistemático e pelo confinamento dos povos indígenas. As terras mais férteis, as encostas de rios e os vales foram distribuídos aos colonos imigrantes, enquanto os povos originários — Guarani, Kaingang, Xokleng — foram empurrados para áreas marginais, reduzidos a pequenas reservas ou forçados a viver como “intrusos” em suas próprias terras ancestrais. O racismo ambiental, portanto, não é um acidente contemporâneo, mas a estrutura fundiária sobre a qual o estado foi construído.
A Dívida Histórica e a Luta Contemporânea
Hoje, essa estrutura reflete-se na localização das comunidades indígenas. Muitas aldeias e retomadas situam-se em “sobras” de terras, em faixas de domínio de rodovias (como a Tekoa Araçaty na RS-040) ou em áreas periurbanas degradadas, onde o acesso a recursos naturais de qualidade, como água limpa, é extremamente difícil.23 O agronegócio, herdeiro direto da concentração fundiária histórica, ocupa as bacias hidrográficas nobres e detém o poder político para moldar a legislação a seu favor.
A população negra e indígena no Rio Grande do Sul, embora represente uma parcela significativa dos extratos mais pobres da sociedade (pretos e pardos são 32,3% entre os mais pobres, apesar de serem 18,9% da população total 3), permanece sub-representada nos espaços de decisão sobre gestão hídrica e ambiental. As políticas públicas de “segurança hídrica” são desenhadas por e para os proprietários de terras, perpetuando o ciclo de exclusão. Quando a seca chega, ela encontra essas populações desarmadas de infraestrutura e capital, transformando um evento climático em uma tragédia social.
O Racismo Ambiental Tem Sede: Estudos de Caso da Vulnerabilidade
O conceito de racismo ambiental ganha rosto, nome e endereço nas aldeias e retomadas do Rio Grande do Sul. A seguir, analisamos dois casos emblemáticos que ilustram como a seca de 2026 incidirá sobre comunidades já devastadas pela negligência estatal e pela violência privada.
Estudo de Caso I: O Cerco da Sede na Retomada da Ponta do Arado
A comunidade Mbya Guarani da Ponta do Arado, situada na Zona Sul de Porto Alegre, vive um paradoxo cruel e ilustrativo da gestão hídrica no capitalismo periférico. Localizada em uma península sobre o Lago Guaíba — um dos maiores corpos d’água da região —, a comunidade está cercada de água por todos os lados, mas luta diariamente pelo acesso a um copo de água potável.

O Conflito Territorial e Hídrico
O território, ancestralmente ocupado pelos Guarani conforme atestam sítios arqueológicos locais 24, é alvo da Arado Empreendimentos Imobiliários, que projeta a construção de um condomínio de luxo com 1.600 unidades habitacionais, incluindo lagos artificiais e paisagismo exuberante.24 Para viabilizar o empreendimento, a empresa e seus seguranças privados têm utilizado a privação de água como tática de guerra.
Relatos documentados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e reportagens investigativas descrevem um cerco sistemático. Em 2019, homens encapuzados atiraram contra os barracos; posteriormente, cercas foram erguidas para impedir o acesso dos indígenas à orla do Guaíba e às fontes de água.24 Em outubro de 2024, mesmo amparados por uma decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) que garante o usufruto da área e o livre trânsito até a demarcação final, os indígenas continuaram sofrendo ameaças diretas. Funcionários da fazenda, montados a cavalo, intimidam as famílias com ordens expressas: “não busquem água potável”, “não façam roças”.26
A Ironia da Infraestrutura Pública
A perversidade do racismo ambiental atinge seu ápice na atuação do poder público municipal. A Prefeitura de Porto Alegre e o Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) estão investindo cerca de R$ 250 milhões na construção do novo Sistema de Abastecimento de Água (SAA) Ponta do Arado. A Estação de Tratamento de Água (ETA) está sendo erguida vizinha à retomada, projetada para captar água do Guaíba, tratá-la e abastecer a Zona Sul da capital, beneficiando mais de 300 mil pessoas e, crucialmente, viabilizando a infraestrutura para os futuros condomínios de luxo projetados para a região.27
O Estado constrói uma obra faraônica de saneamento, rasgando o território ancestral com tubulações e maquinário pesado, para levar água tratada aos futuros moradores de classe alta. Enquanto isso, os Guarani que ali residem, e cujos direitos territoriais são anteriores ao próprio município, são deixados à margem dessa infraestrutura, dependendo da solidariedade de apoiadores e de poços precários que secam ou salinizam durante o verão. A água passa por eles, mas não é para eles.

Estudo de Caso II: Tekoa Araçaty e a Vulnerabilidade Pós-Enchente
Na Tekoa Araçaty, localizada no município de Capivari do Sul, a seca prevista para 2026 chegará a um solo ainda traumatizado e a uma comunidade exaurida. Esta aldeia ilustra a vulnerabilidade das retomadas localizadas em áreas de risco ambiental, empurradas para as margens por falta de demarcação de terras adequadas.
O Ciclo Enchente-Seca
Em maio de 2024, o rio Capivari transbordou violentamente, invadindo as casas da comunidade. As famílias Guarani viram suas camas, roupas e estoques de alimentos serem destruídos pela lama. O cacique Rafael Cáceres relatou o dilema angustiante vivido durante a cheia: a necessidade de fugir da água versus o medo de abandonar o território retomado e vê-lo ocupado ou destruído por fazendeiros vizinhos ou pelo Estado durante a ausência dos indígenas.23 “Sair do território pode significar não retornar”, resumiu o líder, expondo como a insegurança fundiária amplifica o risco climático.
Agora, com a chegada do La Niña, o rio Capivari, que foi o algoz na enchente, torna-se a única tábua de salvação, porém envenenada. A bacia do Capivari é intensamente explorada pela orizicultura (cultivo de arroz), que utiliza pesadas cargas de agroquímicos. Durante a estiagem, a vazão do rio diminui drasticamente, concentrando os poluentes e tornando a água imprópria para consumo humano e perigosa até para o banho.28
A Dependência Humilhante
Sem acesso a fontes limpas e sem território suficiente para perfurar poços profundos (que requerem maquinário e licenças caras), a comunidade Tekoa Araçaty torna-se refém de caminhões-pipa fornecidos pela prefeitura ou pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Essa dependência coloca a comunidade em uma posição de subalternidade política extrema. A água torna-se moeda de troca política. Em anos não eleitorais, ou sob administrações hostis à causa indígena, a frequência dos caminhões pode diminuir, ou a qualidade da água entregue pode ser duvidosa. A autonomia hídrica, fundamental para a dignidade e a saúde da aldeia, é inexistente.
A Cosmovisão Guarani vs. A Narrativa da Commodity
A disputa pela água no Rio Grande do Sul não é apenas uma disputa material por H2O; é um choque de civilizações, uma guerra entre duas formas irreconciliáveis de ver e estar no mundo.
A Água como Recurso e “Utilidade Pública”
O discurso hegemônico, ancorado no PL 2168/2021, nas políticas da Farsul e na gestão estatal dos recursos hídricos, opera sob a lógica cartesiana e capitalista. A água é vista como um “recurso”, um insumo produtivo que deve ser “gerido”, “reservado” e “otimizado” para maximizar a produção de commodities. A natureza é uma externalidade a ser dominada e controlada.
Dentro dessa lógica, o conceito de “utilidade pública” é distorcido para servir ao lucro privado. A “utilidade” é medida em toneladas de soja exportada, em superávit primário e em dólares que entram no país. Se para aumentar essa “utilidade” for necessário destruir uma APP, barrar um rio ou deixar uma aldeia sem água, o sistema justifica tais ações como “custos necessários” do desenvolvimento.5 A eficiência hídrica é sinônimo de eficiência econômica para o agronegócio.
Teko Porã: A Água como Parente
Em contraposição absoluta, a cosmovisão Guarani Mbya, expressa no conceito de Teko Porã (o Bem Viver), entende a água (Y) não como um recurso, mas como um ente vivo, sagrado e indissociável da mata (Ka’aguy) e do território (Tekoa). Para os Guarani, a água tem espírito (Ngen) e é um parente que exige respeito e reciprocidade.29
Nos encontros de lideranças, como o realizado na Tekoa Tapé Porã em fevereiro de 2025, os caciques e xamãs denunciam que a seca não é apenas um fenômeno meteorológico aleatório, mas um sintoma do desequilíbrio causado pelo modo de vida Juruá (não indígena). “Os brancos têm sede de poder, riqueza e só pensam em dinheiro e nos meios para consumir o solo, as águas, a natureza”, afirma o documento final do encontro.7

A destruição das matas ciliares e o envenenamento dos rios são vistos como agressões diretas ao corpo da Terra e aos espíritos que a habitam. A falta de água nas aldeias impede não apenas a sobrevivência física, mas a realização de rituais essenciais, o batismo das crianças e a manutenção da alegria comunitária, componente central da saúde mental Guarani. “Nesse tempo de temperaturas elevadas nos sentimos sufocados com a falta de água. Não há água limpa nas Tekoas para o banho de nossas crianças”, relata o documento, expondo a dor de ver a infância indígena crescer na aridez imposta.7
Para os Guarani, a solução para a crise climática não reside em mais obras de engenharia, barragens de concreto ou transposição de rios, mas na demarcação das terras, na recuperação das florestas sagradas e no respeito aos ciclos naturais. As retomadas são, portanto, atos de cura da terra e das águas.
Projeções para 2026: Colapso e Resistência
Com a confirmação do La Niña até o verão de 2026, o cenário que se desenha para o Rio Grande do Sul é de agravamento severo dos conflitos socioambientais. A redução das chuvas coincidirá com o pico da demanda hídrica das lavouras de verão e com as temperaturas mais altas do ano, criando uma tempestade perfeita de escassez.
A Explosão dos Conflitos pela Água
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) já registrou em 2023 o maior número de conflitos no campo desde o início da série histórica em 1985, com um aumento preocupante nas disputas motivadas pela água.30 No Rio Grande do Sul, a tendência é de que esses números explodam em 2025 e 2026.
Com os rios em níveis críticos, a captação maciça de água por bombas de irrigação do agronegócio, amparadas ou não por outorgas flexibilizadas, deixará o leito seco para as comunidades situadas a jusante. Isso levará inevitavelmente à judicialização do uso da água e, muito provavelmente, a confrontos diretos em campo. As comunidades, desesperadas pela falta de água para beber e para seus animais, poderão tentar impedir a captação predatória, enfrentando a segurança privada das fazendas. A água será o novo petróleo do pampa, e o sangue poderá correr onde a água faltar.
Insegurança Alimentar e Saúde Pública
As roças tradicionais Guarani, base da soberania alimentar e da cultura (como o cultivo do milho avaxi colorido, sagrado para os rituais), sofrerão perdas totais sem a possibilidade de irrigação. Diferente do agronegócio, que conta com o Proagro (seguro agrícola) e renegociação de dívidas, as famílias indígenas não têm seguro para suas roças de subsistência. A perda das colheitas aumentará a dependência de cestas básicas estatais, que muitas vezes são nutricionalmente inadequadas, desrespeitam a cultura alimentar e chegam com irregularidade.31
Na saúde, a escassez de água potável é vetor direto de surtos de doenças diarreicas, hepatite e infecções de pele. Além disso, a desidratação em idosos e crianças durante as ondas de calor será um risco mortal em aldeias sem infraestrutura de refrigeração ou água abundante. O relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA) já alertou para a precariedade da saúde indígena no pós-enchente; a seca aprofundará esse abismo sanitário.32
A previsão do La Niña para o verão de 2026 não é um acidente geológico ou um castigo divino; é um evento climático extremo que incidirá sobre uma estrutura social arquitetada meticulosamente para concentrar a água nas mãos do capital e socializar a sede entre os pobres e os povos originários. A seca que atingirá o Rio Grande do Sul revelará, mais uma vez, que o racismo ambiental é um projeto político de gestão do território.
A análise detalhada dos dados meteorológicos, dos projetos legislativos como o PL 2168/2021 e da realidade vivida nas retomadas demonstra que a crise hídrica nas aldeias não é fruto apenas da falta de chuva, mas da falta de justiça. A água que faltará na torneira da comunidade indígena é a mesma que sobrará nos pivôs de irrigação do latifúndio, desviada por canais licenciados por um Estado cúmplice e protegida por leis que transformam a devastação ambiental em “utilidade pública”.
Para reverter esse cenário de barbárie hídrica, medidas urgentes e estruturais são necessárias, transcendendo o assistencialismo dos caminhões-pipa:
- Rejeição e Arquivamento do PL 2168/2021: A sociedade civil e o parlamento devem barrar a tentativa de flexibilizar a proteção das APPs. As matas ciliares são a infraestrutura natural de segurança hídrica do país e não podem ser sacrificadas no altar da irrigação.
- Suspensão de Novas Outorgas de Irrigação em Bacias Críticas: Em períodos de La Niña, o Estado deve decretar moratória para novas captações de grande porte e revisar as outorgas existentes, garantindo a vazão ecológica dos rios.
- Prioridade Real para o Abastecimento Humano: A Lei das Águas (9.433/97) estabelece a prioridade do consumo humano e da dessedentação animal em situações de escassez. O Estado deve fazer valer essa lei, fiscalizando e restringindo o uso agrícola e industrial quando as aldeias e cidades estiverem sem água.
- Demarcação Imediata das Terras Indígenas: A segurança territorial é a base da segurança hídrica. Territórios demarcados e protegidos pelos povos indígenas são as áreas mais preservadas e resilientes às mudanças climáticas.
- Programa Emergencial de Saneamento Indígena: Investimento massivo, desburocratizado e direto na perfuração de poços artesianos, construção de cisternas e sistemas de tratamento de água nas aldeias e retomadas, com controle social das comunidades.
Enquanto a Revista Caipora continuar a narrar essa história, a memória da sede não será apagada. A luta pela água no Rio Grande do Sul é a luta pela vida em sua essência mais profunda. E no verão de 2026, essa luta será travada gota a gota, palavra por palavra, retomada por retomada.
Referências citadas
- ((o))eco | Jornalismo Ambiental, acessado em dezembro 21, 2025, https://oeco.org.br/
- Revista Caipora – Etnomídia Indígena Insurgente, acessado em dezembro 21, 2025, https://caipora.org/
- Rio Grande do Sul: o que as enchentes têm a ver com racismo ambiental? – Fundo Brasil, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.fundobrasil.org.br/blog/rio-grande-do-sul-o-que-as-enchentes-tem-a-ver-com-racismo-ambiental/
- Tragédia no Rio Grande do Sul afeta produções de arroz e soja; entenda a importância do estado no agro | G1, acessado em dezembro 21, 2025, https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2024/05/09/tragedia-no-rio-grande-do-sul-afeta-producoes-de-arroz-e-soja-entenda-a-importancia-do-estado-no-agro.ghtml
- Resumo Executivo – PL n° 2168 de 2021, acessado em dezembro 21, 2025, https://fpagropecuaria.org.br/2021/07/07/cd-pl-2168-2021/?pdf=33928
- Memória do caos: o Rio Grande do Sul depois da maior catástrofe ambiental | Cimi, acessado em dezembro 21, 2025, https://cimi.org.br/2025/05/memoria-enchentes-rs/
- Após encontro, povo Guarani Mbya do RS divulga documento: “as retomadas são a esperança de nossas famílias”, acessado em dezembro 21, 2025, https://cimi.org.br/2025/02/encontro-mbya-guarani-rs-2025/
- La Niña está de volta com impactos no clima do Brasil e mundo, anuncia NOAA, acessado em dezembro 21, 2025, https://metsul.com/2025-10-09-la-nina-noaa/
- Retorno do La Niña deve reduzir chuvas na região – A Hora do Sul, acessado em dezembro 21, 2025, https://ahoradosul.com.br/conteudos/2025/10/15/retorno-do-la-nina-deve-reduzir-chuvas-na-regiao/
- Cresce a possibilidade de estabelecimento da La Niña no Oceano Pacífico Equatorial, acessado em dezembro 21, 2025, https://irga.rs.gov.br/cresce-a-possibilidade-de-estabelecimento-da-la-nina-no-oceano-pacifico-equatorial
- RACISMO AMBIENTAL E INSEGURANÇA ALIMENTAR NAS ENCHENTES DO RIO GRANDE DO SUL EM 2024 – Proceedings.Science, acessado em dezembro 21, 2025, https://proceedings.science/enpssan/enpssan-2024/papers/racismo-ambiental-e-inseguranca-alimentar-nas-enchentes-do-rio-grande-do-sul-em?lang=en
- Avaliação dos Efeitos e Impactos das Inundações no Rio Grande do Sul – Portal Gov.br, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.gov.br/mdr/pt-br/noticias/cheias-do-rio-grande-do-sul-agilidade-federal-evita-impacto-negativo-de-1-1-ponto-percentual-no-pib-do-estado/AvaliaodosefeitoseimpactosdasinundaesnoRioGrandedoSulNov2024.pdf
- Estiagem 2025 – Defesa Civil do Rio Grande do Sul, acessado em dezembro 21, 2025, https://defesacivil.rs.gov.br/estiagem-2025-67a5eb443f81f
- Governo já investiu quase R$ 7 bilhões para reconstrução do RS um ano após enchente histórica, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.edp.rs.gov.br/governo-ja-investiu-quase-r-7-bilhoes-para-reconstrucao-do-rs-um-ano-apos-enchente-historica
- Estado anuncia novas regras para irrigação e investimento em sistema de gestão de água, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.sema.rs.gov.br/estado-anuncia-novas-regras-para-irrigacao-e-investimento-em-sistema-de-gestao-de-agua
- Programa de Irrigação – Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.agricultura.rs.gov.br/programa-de-irrigacao
- [Combate Racismo Ambiental] Meses após desastre no RS, Câmara aprova projeto que agrava crise climática e hídrica – Observatório do Código Florestal, acessado em dezembro 21, 2025, https://observatorioflorestal.org.br/combate-racismo-ambiental-meses-apos-desastre-no-rs-camara-aprova-projeto-que-agrava-crise-climatica-e-hidrica/
- [Brasil de Fato] CCJ da Câmara aprova projeto de lei que permite barramento de curso d’água em áreas protegidas – Observatório do Código Florestal, acessado em dezembro 21, 2025, https://observatorioflorestal.org.br/brasil-de-fato-ccj-da-camara-aprova-projeto-de-lei-que-permite-barramento-de-curso-dagua-em-areas-protegidas/
- PL 2168/2021 – Câmara dos Deputados, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2286627&fichaAmigavel=nao
- NOTA DE POSICIONAMENTO OCF – Projeto de Lei (PL) nº 2.168/2021 – Observatório do Código Florestal, acessado em dezembro 21, 2025, https://observatorioflorestal.org.br/nota-de-posicionamento-ocf-pl-2168-2021/
- Leite anuncia medidas para enfrentamento da estiagem durante a abertura da 25ª Expodireto Cotrijal – Portal do Estado do Rio Grande do Sul, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.estado.rs.gov.br/leite-anuncia-medidas-para-enfrentamento-da-estiagem-durante-a-abertura-da-25-expodireto-cotrijal
- Governo Leite investirá R$ 2 milhões em projetos produtivos em comunidades quilombolas e indígenas – Portal do Estado do Rio Grande do Sul, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.estado.rs.gov.br/governo-leite-investira-r-2-milhoes-em-projetos-produtivos-em-comunidades-quilombolas-e-indigenas
- Indígenas no Rio Grande do Sul temem perder terras na inundação – Agência Pública, acessado em dezembro 21, 2025, https://apublica.org/2024/06/no-rio-grande-do-sul-indigenas-temem-deixar-suas-casas-pela-inundacao-e-perder-territorio/
- Em conflito contra megaprojeto, famílias Guarani Mbya são ameaçadas de morte, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.brasildefato.com.br/2019/02/06/em-conflito-contra-megaprojeto-familias-guarani-mbya-sao-ameacadas-de-morte/
- Fazenda do Arado em debate: ‘Não estão mais nem disfarçando a simulação de participação’ – Sul 21, acessado em dezembro 21, 2025, https://sul21.com.br/noticias/geral/2021/06/fazenda-do-arado-em-debate-nao-estao-mais-nem-disfarcando-a-simulacao-de-participacao/
- Comunidade Mbya Guarani da Ponta do Arado continua sofrendo ameaças de empreendimento imobiliário em Porto Alegre (RS) – Conselho Indigenista Missionário | Cimi, acessado em dezembro 21, 2025, https://cimi.org.br/2024/10/mbya-ponta-arado-ameacas/
- Obras do Sistema de Abastecimento de Água Ponta do Arado são vistoriadas | Prefeitura de Porto Alegre, acessado em dezembro 21, 2025, https://prefeitura.poa.br/gp/noticias/obras-do-sistema-de-abastecimento-de-agua-ponta-do-arado-sao-vistoriadas
- DADOS PARCIAIS 2024: Violência no campo faz menos vítimas, mas os conflitos continuam em níveis elevados no 1º semestre – Comissão Pastoral da Terra – CPT, acessado em dezembro 21, 2025, https://cptnacional.org.br/2024/12/02/dados-parciais-2024/
- As retomadas Mbyá-Guarani como modo de resistência diante do Antropoceno, acessado em dezembro 21, 2025, https://journals.openedition.org/horizontes/9712
- Conflitos no campo: levantamento da CPT marca recorde no Brasil – Agência Pública, acessado em dezembro 21, 2025, https://apublica.org/2024/04/conflitos-no-campo-atingem-maior-numero-ja-registrado-no-brasil-desde-1985/
- SECA HISTÓRICA NA AMAZÔNIA – Conselho Indigenista Missionário | Cimi, acessado em dezembro 21, 2025, https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2023/12/Porantim-460_Nov-2023.pdf
- Impactos das enchentes no Rio Grande do Sul, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.oas.org/pt/cidh/relatorios/pdfs/2025/informe_redesca_brasil_pt.pdf
- Esforços de reconstrução pós-enchentes no RS precisam de um olhar de justiça climática, diz relator da OEA – Brasil de Fato, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.brasildefato.com.br/2025/05/12/esforcos-de-reconstrucao-pos-enchentes-no-rs-precisam-de-um-olhar-de-justica-climatica-diz-relator-da-oea/
- Impacts of the floods in Rio Grande do Sul – Organization of American States, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.oas.org/en/iachr/reports/pdfs/2025/informe_redesca_brasil_en.pdf