Revista de jornalismo investigativo indígena Santa Maria (RS)
Apoie
Skip to main content Scroll Top

Documentário expõe ameaça a povo isolado no Amazonas

Cimi e CPT lançam documentário que reúne relatos, indícios de campo e a demora do Estado em proteger um povo indígena isolado ameaçado por madeireiras e prospecção de gás no Amazonas.

Nesta reportagem

Produção reúne relatos de ribeirinhos, indícios de campo e omissão do Estado diante de indígenas isolados entre Itapiranga e Silves

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançaram o documentário “Isolados: a floresta que ainda guarda um povo livre”, que reúne depoimentos de moradores ribeirinhos, registros de campo e falas de procuradores da República sobre a presença de um povo indígena isolado nos municípios de Itapiranga e Silves, no interior do Amazonas. Segundo o Cimi, moradores da região relatam há anos encontrar rastros, pegadas e ouvir sons humanos nos igarapés e matas onde pescam e caçam, além de já terem avistado pessoas isoladas na floresta.

Em 2023, agentes da CPT confirmaram os relatos ao avistarem diretamente adultos e crianças vivendo isolados na mata, durante levantamento cartográfico e étnico da região. A partir daí, o Cimi, por meio de sua Equipe de Apoio aos Povos Livres (Eapil), passou a sistematizar as informações junto com a CPT. Em 2024, a Funai foi acionada, realizou expedição à área e concluiu haver “grande probabilidade da existência de indígenas isolados” próximo ao igarapé Caribi, área que se avizinha à Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uatumã.

O que está em jogo é a proteção de um território pressionado por empreendimentos econômicos: segundo ofício da Funai ao Ministério Público Federal, a região dos avistamentos está dentro de lotes de manejo florestal da empresa Mil Madeiras Preciosas e a apenas 31 km em linha reta de área onde a Eneva S/A prospecta gás. Para o procurador da República Fernando Merloto Soave, que atua no caso, a opção pelo isolamento é fruto de uma história de violações e violências sofridas por esses povos, e constitui direito garantido pela Constituição Federal, pela Convenção 169 da OIT e pela Resolução 44/2020 do Conselho Nacional de Direitos Humanos.

O procurador Daniel Luís Dalberto, do Ofício de Povos Indígenas em Isolamento Voluntário do MPF, avalia que a Funai precisa avançar mais rápido, já que a demora pode significar chegar tarde demais para localizar e proteger o povo. Ele defende a emissão de uma Portaria de Restrição de Uso, instrumento que suspende atividades econômicas e restringe a circulação de terceiros na área enquanto estudos de comprovação são concluídos, sem significar demarcação do território. Até setembro de 2026, segundo o Cimi, essa portaria ainda não havia sido emitida, apesar de a própria Funai ter reconhecido em ofício a urgência de instrumentos ágeis de interdição.

A Funai reconhece oficialmente apenas 28 dos 114 registros de referências de povos indígenas isolados que possui no Brasil, segundo dados citados pelo Cimi. Isso significa que 86 povos vivem sem reconhecimento oficial nem proteção efetiva do Estado — entre eles, o povo avistado em Itapiranga e Silves, cuja existência a própria Funai classifica como de alta probabilidade.


Fonte: cimi.org.br

Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de cimi.org.br e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

Related Posts
Clear Filters

A APIB e suas sete organizações regionais divulgaram carta exigindo o reconhecimento do direito dos povos indígenas de declarar seus territórios livres de mineração, denunciando consultas de fachada e cobrando demarcação de todas as terras indígenas até 2030.

O presidente do TSE condicionou à autorização judicial prévia o uso de veículos da Funai, Sesai e MPI para transportar eleitores indígenas, após a Univaja ter conseguido acordo para apoio logístico no Amazonas.

Associações Yanomami denunciam que garimpeiros voltaram a contatar e invadir áreas da Terra Indígena Yanomami na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno.

Indígenas Kaingang da Terra Indígena Votouro, no Rio Grande do Sul, denunciam que um cacique bolsonarista matou um morador e perseguiu apoiadores do PT, enquanto ação policial posterior deixou mais duas vítimas fatais, em meio a um aumento de ameaças e violência política contra povos indígenas durante o período eleitoral.