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Áudios ameaçam nova invasão da Terra Indígena Apyterewa

Áudios avisam lideranças Parakanã que fazendeiros aguardam o segundo turno para invadir a Terra Indígena Apyterewa, no Pará.

Nesta reportagem

Mensagens enviadas a lideranças Parakanã dizem que fazendeiros esperam o segundo turno para ocupar o território. Em 2019, a promessa de rever demarcações bastou para o desmatamento na terra indígena mais que quadruplicar.

Os recados chegaram por WhatsApp, em áudio, nos últimos dias. Moradores do entorno da Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, avisaram lideranças do povo Parakanã que fazendeiros da região aguardam o segundo turno, em 25 de outubro, para entrar no território e abrir fazendas. Segundo as mensagens, eles contam com a vitória de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pela Presidência e com o governador eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos), para tirar a terra dos indígenas e repassá-la a pecuaristas.

São oito áudios, revelados pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (12). O jornal cruzou os metadados dos arquivos com um banco de dados e ouviu investigadores para confirmar que eles partiram de endereços nos arredores da terra indígena. As mensagens relatam mais motos e caminhonetes circulando e a compra de lonas e de material de roça. Orientam os indígenas a evitar áreas que estariam sendo preparadas para pasto e sugerem que deixem o lugar.

Não seria a primeira vez. Quando Jair Bolsonaro prometia rever demarcações, entre 2018 e 2019, a área desmatada dentro da Apyterewa saltou de 18,9 km² para 85,3 km² em um ano, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mais que quadruplicou. Em 2022, último ano daquele governo, o território homologado em 2007 bateu o recorde: 102,2 km² destruídos.

A Revista Caipora reuniu os dados de desmatamento do Inpe, os registros de invasões do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), as votações de Flávio Bolsonaro no Senado, suas declarações de campanha e as doações declaradas à Justiça Eleitoral. O retrato é o de um roteiro conhecido, em que a invasão chega antes de qualquer mudança na lei. Flávio votou para inscrever o marco temporal na Constituição, afirmou em abril que “nenhuma dessas reservas será demarcada” se depender de seu governo e recebeu, na semana passada, o apoio formal da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), com a promessa de que o setor indicará o ministro da Agricultura.

Operação de retirada de invasores na Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu (PA), em dezembro de 2025
Operação de desintrusão na Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu (PA), em dezembro de 2025. A ação reuniu MPI, Funai, Abin, Ibama, Força Nacional, as polícias Civil e Militar do Pará e a Adepará. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Os áudios: o que se sabe e por que não os publicamos

A Folha informou que não publicaria a transcrição dos áudios nem a identidade dos envolvidos, por razões de segurança. A Revista Caipora não teve acesso aos arquivos e também não os reproduz. Vozes, números de telefone e nomes poderiam expor tanto quem enviou os recados quanto as lideranças que os receberam, num território onde, desde 2023, houve emboscadas, pontes derrubadas e um assassinato.

Se novas gravações chegarem à redação, passarão por verificação de origem, data e integridade antes de qualquer uso, e ninguém será identificado sem consentimento e avaliação de risco. Áudios podem ser forjados: neste ano, o Aos Fatos desmentiu uma gravação falsa atribuída a Lula.

Esta reportagem se baseia em dados públicos, documentos oficiais e reportagens de outros veículos, todos indicados com link ao longo do texto.

Os recados e o que eles anunciam

Os áudios chegaram a um território que o governo federal tenta manter livre de invasores há três anos. Na quinta-feira (8), o Comitê de Desintrusão da Apyterewa se reuniu e, segundo o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), “deliberou pelo reforço das ações de segurança, incluindo o aumento do efetivo mobilizado, a fim de intensificar a manutenção da desintrusão e prevenir novas ocupações ilegais”. O ministério afirma monitorar o “aumento da pressão para a ocupação ilegal do território” e diz que a apuração sobre os áudios compete às autoridades policiais.

Um agente da Polícia Federal ouvido pela Folha sob anonimato classificou as informações de inteligência sobre a região como “sólidas e preocupantes”. A PF diz acompanhar a situação com a Funai e o Ibama. O Ibama afirmou que “também há evidências de mobilização em outras regiões da Amazônia, tanto em terras indígenas, quanto em outras áreas protegidas, com vistas à retomada das atividades de garimpo ilegal”.

Os focos de calor na região passaram de 41 em julho para 626 em agosto e 1.007 em setembro, segundo dados do Inpe compilados pelo Programa Xingu e citados pela Folha. Agosto e setembro são o auge da estação seca na Amazônia, e o número, sozinho, não prova invasão.

Procurada pela Folha desde quinta-feira, a campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu. O governo do Pará não se manifestou, e Dr. Daniel informou, por meio da assessoria, que não vai comentar. Veja, ao fim desta reportagem, o que dizem os citados.

Um território já tomado uma vez

A Apyterewa tem 773 mil hectares, cerca de cinco vezes a área do município de São Paulo. Ali vivem cerca de 1.400 Parakanã, povo de contato recente que se autodenomina awaeté, “gente de verdade”, segundo o Instituto Socioambiental (ISA). Os grupos da Apyterewa pertencem ao bloco ocidental do povo, contatado entre 1976 e 1984. A posse tradicional é reconhecida desde 1992, segundo o Ministério Público Federal (MPF). A terra foi declarada em 2001 e homologada em 2007.

A homologação não tirou os invasores. Em 2016, surgiu dentro da terra indígena a Vila Renascer, que cresceu durante o governo Bolsonaro e chegou a ter postos de combustível, hotéis e energia elétrica fornecida pela Equatorial, segundo a Repórter Brasil. Antes da retirada, viviam na área mais não indígenas (3 mil) do que indígenas (1,4 mil), e mais de 70 mil cabeças de gado foram contadas dentro do território, de acordo com o Brasil de Fato.

Infográfico

O desmatamento na Apyterewa mais que quadruplicou no primeiro ano de Bolsonaro

Área desmatada por ano na Terra Indígena Apyterewa, em km². Em 2025, depois da desintrusão, foram 7,5 km².

Desmatamento na Terra Indígena Apyterewa, em km²: 2018, 18,9; 2019, 85,3; 2022, 102,2; 2023, 20,6; 2025, 7,5. Anos de 2019 a 2022 no governo Jair Bolsonaro; desintrusão a partir de outubro de 2023.Governo Jair Bolsonarodesintrusãoout/20232018: 18,9 km²18,920182019: 85,3 km²85,32019202020212022: 102,2 km²102,220222023: 20,6 km²20,6202320242025: 7,5 km²7,52025
Fonte: Inpe (Prodes), via Folha de S.Paulo e Jornal de Brasília. O Prodes mede o desmatamento de agosto a julho. Traço sem barra: valor anual não publicado nas fontes consultadas. Arte: Revista Caipora.

A corrida começou entre o fim de 2018 e o início de 2019, quando Bolsonaro prometia rever a demarcação, mostrou reportagem da Folha publicada em 2020 em parceria com o Climate Home News. Moradores ouvidos pelos repórteres diziam esperar que o presidente cumprisse a promessa de reduzir a terra indígena. Numa estrada, uma placa crivada de balas exibia um adesivo de Bolsonaro. A prefeitura de São Félix do Xingu apoiava associações que pediam a redução do território, e, em maio de 2020, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu que a União considerasse uma conciliação.

O calendário importa. A corrida começou entre a eleição e a posse, antes de o novo governo assinar qualquer ato. O Prodes, sistema do Inpe que fornece a taxa oficial de desmatamento, mede o período de agosto a julho, e o salto de 2019 inclui esses meses. Em 2026, os recados marcam a ocupação para o dia seguinte ao segundo turno.

Ainda em 2020, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709, movida pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o então ministro do STF Luís Roberto Barroso determinou que a União retirasse os invasores da Apyterewa. A ordem não foi cumprida durante o governo Bolsonaro.

A retirada e a reação

A desintrusão começou em outubro de 2023, com mais de 300 servidores da Funai, do Ibama, da Força Nacional, da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), além do Exército e da Polícia Rodoviária Federal. A reação foi violenta: emboscadas contra operações de retirada de gado, pontes derrubadas e queimadas, objetos pontiagudos espalhados nas estradas. Um servidor da Funai foi baleado. Em fevereiro de 2024, representantes do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) visitaram a área e atestaram o resultado da operação, segundo o Brasil de Fato.

O desmatamento caiu para 20,6 km² em 2023 e para 7,5 km² em 2025, segundo o Inpe, citado pela Folha e pelo Jornal de Brasília. Em março deste ano, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) manteve extinta uma ação popular que questionava a retirada dos invasores, informou o MPF.

Equipes da operação de desintrusão na Terra Indígena Apyterewa, em dezembro de 2025
Operação na Terra Indígena Apyterewa em dezembro de 2025, dias depois do assassinato de um vaqueiro contratado pelo Ibama. Foto: Gilvan Alves/TV Brasil

Os invasores tentaram voltar. Em 2024, a Repórter Brasil documentou incêndios atribuídos a grileiros na Apyterewa e na vizinha Trincheira Bacajá, desocupada naquele mesmo ano. “Não adianta o governo fazer a desintrusão da terra, expulsar os fazendeiros, e eles retornarem”, disse à época Nenexiga Parakanã. Depois da desintrusão, os Parakanã denunciaram oito ataques a aldeias, entre eles um indígena baleado na perna e um atentado contra o carro da Associação Tato’a, que representa o povo, segundo o Jornal de Brasília.

Em 15 de dezembro de 2025, o vaqueiro Marcos Antônio Pereira da Cruz, de 38 anos, contratado pelo Ibama para retirar gado ilegal da terra indígena, foi morto com um tiro no pescoço numa emboscada, enquanto conduzia cerca de 350 cabeças. A Funai suspeita de “antigos moradores da TI, que ainda invadem o local para criação ilegal de gado”, e a Polícia Federal em Redenção investiga o caso, segundo a Agência Brasil. No mesmo mês, o Ministério da Justiça reforçou a Força Nacional na área com efetivo especializado e drones. O cacique-geral Mamá Parakanã afirma que as ameaças persistem.

Linha do tempo

Apyterewa, da homologação aos áudios

invasão ou violência proteção eleição

  1. 1992A posse tradicional do povo Parakanã sobre a área é reconhecida.
  2. 2007A Terra Indígena Apyterewa é homologada, com 773 mil hectares.
  3. 2016Surge a Vila Renascer dentro do território, com postos de combustível e hotéis.
  4. Fim de 2018Corrida de invasores depois da promessa de rever a demarcação.
  5. 2019O desmatamento salta de 18,9 km² para 85,3 km².
  6. 2020Na ADPF 709, o STF manda retirar os invasores. A ordem não é cumprida até o fim do governo.
  7. 2022Recorde de destruição: 102,2 km².
  8. Out/2023Começa a desintrusão, com mais de 300 servidores federais.
  9. Fev/2024Representantes do STF e do CNJ visitam a área e atestam o resultado.
  10. 2024Incêndios atribuídos a grileiros e tentativas de retorno.
  11. 15/12/2025Vaqueiro contratado pelo Ibama é morto em emboscada durante a retirada de gado.
  12. 2025O desmatamento cai para 7,5 km².
  13. 22/4/2026Flávio Bolsonaro, em Mato Grosso: “nenhuma dessas reservas será demarcada”.
  14. 8/10/2026O Comitê de Desintrusão decide reforçar a segurança no território.
  15. 12/10/2026A Folha revela oito áudios que anunciam invasão depois do segundo turno.
  16. 25/10/2026Segundo turno da eleição presidencial.
  17. 5 e 6/1/2027Posse do presidente e do governador do Pará.
Fontes: MPF, ISA, Repórter Brasil, Folha de S.Paulo/Climate Home News, Inpe (via Folha e Jornal de Brasília), Brasil de Fato, Agência Brasil, InfoMoney e MPI. Arte: Revista Caipora.

O que aconteceu entre 2019 e 2022

A Apyterewa não foi exceção. Nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, nenhuma terra indígena foi homologada, segundo o Cimi. Os casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio em terras indígenas registrados pela entidade somaram 1.133, contra 321 nos quatro anos anteriores, alta de 252%, segundo levantamento do Observatório do Clima com base nos relatórios do Cimi.

O desmatamento acompanhou. A média anual de destruição em terras indígenas da Amazônia passou de 14 mil hectares em 2015–2018 para 36 mil hectares em 2019–2022, alta de 157%, segundo nota técnica do ISA com dados do Inpe. Cinco terras da bacia do Xingu (Apyterewa, Cachoeira Seca, Ituna/Itatá, Trincheira/Bacajá e Kayapó) responderam por 59,4% do desmatamento registrado em terras indígenas, de acordo com a nota.

Infográfico

Sob Jair Bolsonaro, invasões e desmatamento em terras indígenas dispararam

Comparação entre os quatro anos do governo (2019–2022) e os quatro anos anteriores (2015–2018).

Invasões, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio em terras indígenas (casos por ano)

Casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio em terras indígenas registrados pelo Cimi: 256 em 2019, 263 em 2020, 305 em 2021 e 309 em 2022, contra média de 80 por ano entre 2015 e 2018.2019: 256 casos25620192020: 263 casos26320202021: 305 casos30520212022: 309 casos3092022média 2015–201880 por ano

Desmatamento médio anual em terras indígenas da Amazônia (mil hectares)

Desmatamento médio anual em terras indígenas da Amazônia: 14,0 mil hectares em 2015–2018 e 36,1 mil hectares em 2019–2022, alta de 157%.2015–2018: 14,0 mil hectares por ano14,02015–20182019–2022: 36,1 mil hectares por ano36,12019–2022+157%na média anual
Fontes: relatórios do Cimi compilados pelo Observatório do Clima (1.133 casos em 2019–2022, contra 321 em 2015–2018); nota técnica do ISA com dados do Prodes/Inpe. Arte: Revista Caipora.

As regras também mudaram. Em 2020, a Instrução Normativa nº 9 da Funai passou a permitir a certificação de imóveis rurais sobrepostos a terras indígenas ainda não homologadas. Até meados de 2022, 415 fazendas, somando 239 mil hectares, haviam sido certificadas dentro dessas áreas, segundo a Agência Pública.

A violência cresceu junto. Os assassinatos de indígenas registrados pelo Cimi somaram 651 no período, 30% a mais que nos quatro anos anteriores, de acordo com o mesmo levantamento do Observatório do Clima. Na Terra Indígena Yanomami, tomada pelo garimpo ilegal, a crise sanitária levou o governo seguinte a declarar emergência em saúde pública em janeiro de 2023.

A comparação não absolve o governo atual. Na Terra Yanomami, foram registradas 363 mortes em 2023, contra 343 em 2022, segundo a Gazeta do Povo, e a ministra Sonia Guajajara reconheceu que a crise não estava resolvida. O governo Lula homologou 20 terras indígenas entre 2023 e novembro de 2025, segundo a Funai, mas adiou outras homologações em 2024, sob críticas do movimento indígena. E o marco temporal não é bandeira exclusiva da oposição: na derrubada do veto presidencial, em 2023, até um ministro de Lula ajudou, segundo o Congresso em Foco.

O que Flávio diz, vota e promete

Flávio Bolsonaro fala com jornalistas após missa na Catedral de Brasília
Flávio Bolsonaro (PL) fala com jornalistas após missa na Catedral Metropolitana de Brasília, em 12 de outubro de 2026. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Flávio Bolsonaro não esconde a posição. Em 22 de abril, na feira Norte Show, em Sinop (MT), afirmou: “Se depender do nosso governo, nenhuma dessas reservas será demarcada porque a vocação do Mato Grosso é a produção”. Doze dias antes, em Campo Grande (MS), havia defendido o marco temporal, a criação de gado e a mineração em terras indígenas: “demarcou, tá demarcado, e não demarcou, acabou”, segundo o InfoMoney.

No Senado, votou “sim” nos dois turnos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 48/2023, que inscreve o marco temporal na Constituição, aprovada em 9 de dezembro de 2025 por 52 votos a 14 e 52 a 15, segundo o Extra Classe e a Agência Senado. Dois anos antes, em dezembro de 2023, votou pela derrubada do veto de Lula à lei do marco temporal, derrubado no Senado por 53 votos a 19, segundo o Congresso em Foco.

Plenário do Senado durante a votação da PEC do marco temporal
Sessão do Senado que aprovou em dois turnos a PEC do marco temporal, em 9 de dezembro de 2025. Foto: Agência Senado

A tese do marco temporal, segundo a qual os povos indígenas só teriam direito às terras que ocupavam em 5 de outubro de 1988, foi rejeitada pelo STF em 2023. Em dezembro de 2025, o tribunal formou maioria para reafirmar a inconstitucionalidade, e o ministro Flávio Dino afirmou que nem uma emenda constitucional poderia instituí-la, segundo a Alma Preta. Aprovada no Senado, a PEC foi enviada à Câmara dos Deputados.

DataO que fez ou disseFonte
14/12/2023Vota pela derrubada do veto de Lula à lei do marco temporal. O Senado derruba o veto por 53 a 19.Congresso em Foco
9/12/2025Vota “sim” nos dois turnos da PEC 48/2023, que inscreve o marco temporal na Constituição (52 a 14 e 52 a 15).Extra Classe; Agência Senado
10/4/2026Em Campo Grande (MS), defende o marco temporal, a criação de gado e a mineração em terras indígenas.InfoMoney
22/4/2026Em Sinop (MT): “Se depender do nosso governo, nenhuma dessas reservas será demarcada”.InfoMoney; O Liberal
6/10/2026Recebe o apoio formal da FPA e promete que o setor indicará o ministro da Agricultura.Canal Rural; Times Brasil
Flávio Bolsonaro e os povos indígenas: votos e declarações. Levantamento: Revista Caipora.

Flávio terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16%, segundo o TSE. Dois dias depois, recebeu o apoio formal da FPA para o segundo turno, informou o Canal Rural, e prometeu que o setor indicará o ministro da Agricultura, segundo o Times Brasil. O deputado Pedro Lupion (PP-PR) aparece como favorito ao cargo, segundo o The AgriBiz.

No Pará, Daniel Santos, o Dr. Daniel (Podemos), foi eleito governador no primeiro turno, com 51,36% dos votos válidos, por uma coligação que inclui o PL, partido da vice, Ellayne D’Almeida. Teve o apoio de Flávio, segundo O Liberal e TNH1. Toma posse em 6 de janeiro de 2027, um dia depois do presidente.

A desintrusão da Apyterewa é federal, mas não só. A operação de dezembro de 2025 reuniu MPI, Funai, Abin, Ibama e Força Nacional com as polícias Civil e Militar do Pará e a Agência de Defesa Agropecuária do estado (Adepará), responsável pelo controle do trânsito de gado, segundo a Agência Brasil. As forças estaduais passam ao comando do novo governador em janeiro. Questionado pela Folha sobre os áudios, Dr. Daniel não quis comentar.

Quem paga a conta: o dinheiro e o boi

Até o início de outubro, a campanha de Flávio havia declarado R$ 62 milhões em receitas à Justiça Eleitoral. Desse total, R$ 55,2 milhões vieram do PL, incluindo recursos dos fundos eleitoral e partidário, segundo levantamento do Brasil em Folhas com dados do TSE. O maior doador individual era o empresário Luiz da Rocha Salles Filho, com R$ 1 milhão.

Entre os doadores privados, o agronegócio se destaca. Sete empresários do setor (Walter Schlatter, Ernst Ferter, Peter Ferter, Paulo Junqueira, Inacio José Webler, Beny Maria Haddad e Antonio Morais dos Santos Junior) doaram ao menos R$ 1,5 milhão à campanha, segundo a coluna de Igor Gadelha no Metrópoles. A coluna comparou os doadores dos dois candidatos e concluiu que Flávio recebe mais do agro, e Lula, de empresários de seguros e de ministros.

Infográfico

89% das receitas de Flávio vieram do PL; o agro doou ao menos R$ 1,5 milhão

Receitas declaradas pela campanha à Justiça Eleitoral até o início de outubro de 2026. Dados parciais.

Receitas declaradas pela campanha de Flávio Bolsonaro até o início de outubro de 2026: R$ 62 milhões, dos quais R$ 55,2 milhões (89%) vieram do PL; sete empresários do agronegócio doaram ao menos R$ 1,5 milhão.Total declarado até o início de outubro: R$ 62 milhõesRepasses do PLdemais receitasPL: R$ 55,2 milhões (89%)Sete empresários do agro: ao menos R$ 1,5 milhãoDemais doações e receitasR$ 55,2 mi · 89%ao menos R$ 1,5 mide sete empresários do agro
Fontes: TSE, via Brasil em Folhas (3/10) e coluna de Igor Gadelha no Metrópoles (4/10). Os repasses do PL incluem recursos dos fundos eleitoral e partidário. A prestação de contas final vai até 14 de novembro. Arte: Revista Caipora.

Em reais, o dinheiro do agro é pequeno diante dos recursos que o partido repassa. O peso do setor aparece em outro lugar: no apoio da maior bancada temática do Congresso e na promessa de indicar o ministro da Agricultura.

Há precedente também aqui. Em 2022, o observatório De Olho nos Ruralistas identificou 41 fazendeiros com imóveis sobrepostos a terras indígenas que doaram, juntos, R$ 1.163.385 à campanha de Jair Bolsonaro. Eles controlavam 107.847,99 hectares em 23 terras indígenas. Nenhum deles doou para Lula.

Não há indício de que os doadores de 2026 citados nesta reportagem tenham relação com os áudios ou com a Apyterewa. As prestações de contas finais devem ser entregues ao TSE até 14 de novembro, 20 dias depois do segundo turno, e a Revista Caipora vai atualizar estes números. As receitas podem ser consultadas na página do candidato no TSE.

O que está em jogo a partir de 2027

Os áudios descrevem uma aposta, não um fato consumado. O histórico, porém, permite medir o risco. A Revista Caipora identificou cinco frentes em que a eleição de 25 de outubro pesa sobre a Apyterewa e sobre os povos indígenas do país.

  • A promessa como sinal. Em 2018, a corrida pela terra começou antes da posse. Em 2026, os recados marcam a ocupação para o dia seguinte à eleição. Nos dois casos, quem invade não espera mudança de lei: aposta que o Estado deixará de agir.
  • A manutenção da desintrusão. Tirar os invasores não encerrou o trabalho. Manter a terra livre exige presença permanente de Força Nacional, Polícia Federal, Ibama e Funai, todos sob o governo federal. A ADPF 709 segue no STF, mas a ordem de 2020 ficou sem cumprimento até o fim do governo Bolsonaro.
  • O governo do estado. As polícias e a Adepará, que controla o trânsito de gado, passam em janeiro ao comando de um governador eleito com apoio de Flávio e que não quis comentar os áudios.
  • O marco temporal. O STF considera a tese inconstitucional, mas a PEC aprovada pelo Senado foi enviada à Câmara. Um governo apoiado pela FPA teria peso para fazê-la avançar e reabrir o conflito entre Congresso e Supremo. Na Apyterewa, a incerteza bastou para atrair invasores.
  • As demarcações. Jair Bolsonaro terminou o mandato sem homologar nenhuma terra indígena. Flávio já anunciou que, se depender dele, “nenhuma dessas reservas” em Mato Grosso será demarcada.

O que dizem os citados

  • Campanha de Flávio Bolsonaro: procurada pela Folha desde 8 de outubro, não respondeu.
  • Dr. Daniel (Podemos): informou à Folha, por meio da assessoria, que não vai comentar.
  • Governo do Pará: não se manifestou à Folha.
  • Ministério dos Povos Indígenas: informou que o Comitê de Desintrusão reforçou a segurança e que a apuração sobre os áudios compete às autoridades policiais.
  • Polícia Federal e Ibama: afirmam acompanhar a situação.

O espaço segue aberto para manifestações.

Em 2020, quando os invasores avançavam à espera de que o presidente cumprisse a promessa, a liderança Surara Parakanã avisou que, se o Estado demorasse, devolveria ao seu povo uma terra vazia, relatou o Climate Home News. Os Parakanã voltaram a ocupar o território depois da desintrusão, e o desmatamento caiu mais de 90%. Os recados que chegaram às aldeias nos últimos dias marcam outra data: 25 de outubro.


Esta reportagem será atualizada se os citados se manifestarem e quando o TSE divulgar as prestações de contas finais das campanhas.

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