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Os Tikmũ’ũn, povo que os não indígenas chamam de Maxakali, vivem em quatro terras no Vale do Mucuri, em Minas Gerais. Em 2022, 5 dos 75 bebês nascidos entre eles morreram antes de completar 1 ano, uma taxa parecida com a do Brasil de 1980. Só 2,4% do povo tem 60 anos ou mais. Em julho, a Justiça Federal mandou União, Funai, governo de Minas e prefeituras agirem. Em outubro, o fogo atingiu boa parte da terra principal.
Deb Haaland, do povo Laguna Pueblo, é a primeira mulher indígena eleita governadora de um estado dos Estados Unidos. A vitória é histórica e merece festa. Também merece memória: o território de onde ela vem foi envenenado por urânio, e o estado que vai governar vive do petróleo.
Em Belém, o Munduruku Porakê lança o livro TAYBIT, que analisa a cultura pop e propõe retomada lírica contra o apagamento indígena.
Um ano depois da primeira versão desta reportagem, a comunidade Guarani e Kaiowá de Guyraroká, em Caarapó (MS), continua vivendo em cerca de 50 dos 11,4 mil hectares que o Estado declarou terra indígena em 2009. A ação que pode desfazer a anulação da demarcação está há 2.036 dias sem julgamento no Supremo Tribunal Federal. Nesse tempo vieram a Tropa de Choque, uma trégua que os indígenas dizem não ter sido cumprida, um acordo na Justiça, novos ataques e a mesma chuva com veneno.
Onde a soja avança, aldeias, quilombos e comunidades tradicionais são atacados. A Revista Caipora mapeou 15 casos de violência, ameaça e disputa por terra em 6 estados e levantou o que fizeram governadores e prefeitos em cada um: operações policiais contra retomadas, ações na Justiça contra demarcações, leis contra ocupações e declarações que tratam a luta pela terra como crime. A violência atravessa governos de partidos diferentes. O voto é parte do contexto, não a explicação.
Editorial da Caipora critica a apropriação da pauta indígena nas redes e defende que a comunicação sobre os povos seja feita pela APIB e pelas bases.
Em 2026, o fogo voltou ao Norte com outro mapa. Primeiro cercou Manaus e as terras do povo Mura; depois explodiu no oeste do Pará, em volta de Santarém e das terras indígenas do Xingu. A Revista Caipora reuniu os dados do Inpe, do Ministério do Meio Ambiente, da Coiab, do Ministério Público Federal e dos distritos de saúde indígena até 30 de outubro para mostrar onde o fogo queimou, quem respirou a fumaça e o que o Estado fez.
Há cem anos, o Estado brasileiro cercou os Guarani e Kaiowá em oito pequenas reservas e entregou o resto do território a colonos e fazendeiros. A Constituição de 1988 mandou demarcar as terras indígenas em cinco anos. Trinta e três anos depois do prazo, as demarcações estão paradas em gabinetes e tribunais, e quem volta ao tekoha encontra pistoleiros, polícia e veneno.
Em três dias, as denúncias se concentraram em Mato Grosso do Sul, onde Flávio Bolsonaro teve 59,6% e as seções indígenas deram 89% a Lula. A Caipora checou cada caso em informações policiais, documentos oficiais e boletins de urna. A ameaça de Tacuru foi confirmada pela própria prefeitura. A Apib denuncia assassinatos e atropelamentos de indígenas, que ainda não têm registro oficial, e acusa a polícia de omissão.
No estado mais bolsonarista do país, as seções indígenas deram 64% a Lula. Mas Roraima concentra 22 dos 50 locais de votação indígenas em que Flávio Bolsonaro venceu no Brasil. Os boletins de urna mostram onde: nas comunidades do garimpo, perto da cidade que cresce sobre a terra indígena e nas terras pequenas cercadas pela soja.
Levantamento do TSE mostra que Lula venceu em 608 dos 658 locais de votação indígenas no Brasil, superando Flávio Bolsonaro no 2º turno.
Pessoas ouvidas pela Revista Caipora dizem que o cacique Darci Borges atirou em Álvaro Ferreira, do grupo de oposição, diante de policiais; a Brigada Militar diz que o crime ocorreu depois de sua guarnição deixar o local. Horas mais tarde, dois indígenas morreram numa ação do Batalhão de Choque. A polícia diz que reagiu a tiros; pessoas ouvidas dizem que eles foram mortos depois de se render.

