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O mapa da soja e da violência: os ataques a aldeias e o que fizeram governadores e prefeitos

Onde a soja avança, aldeias, quilombos e comunidades tradicionais são atacados. A Revista Caipora mapeou 15 casos de violência, ameaça e disputa por terra em 6 estados e levantou o que fizeram governadores e prefeitos em cada um: operações policiais contra retomadas, ações na Justiça contra demarcações, leis contra ocupações e declarações que tratam a luta pela terra como crime. A violência atravessa governos de partidos diferentes. O voto é parte do contexto, não a explicação.

Nesta reportagem

Série O mapa da pressão · Especial: o mapa da soja e da violência

Na tarde de 17 de junho deste ano, policiais militares chegaram à Fazenda Limoeiro, em Amambai, no sul de Mato Grosso do Sul, para retirar famílias guarani kaiowá que tinham voltado à área, sobreposta à Reserva Limão Verde. Os indígenas relataram gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de borracha; um homem foi preso. Na manhã seguinte, a juíza federal Amanda Duarte de Almeida Ferreira proibiu qualquer nova ação policial na fazenda sem decisão judicial prévia e sem a presença da Funai, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal (Campo Grande News).

Na mesma manhã, num evento da federação da agricultura do estado, o governador Eduardo Riedel (PP) falou sobre as ocupações indígenas. “Não tem um palmo de terra no estado de Mato Grosso do Sul onde o Estado não possa estar presente”, disse. Sobre famílias terena que tinham entrado em duas fazendas em Sidrolândia, na área da Terra Indígena Buriti, falou em “ato direto de agressão, de invasão” (Campo Grande News). Em 4 de setembro, os moradores do tekoha Tapy’i Kora, como os Guarani Kaiowá chamam a área de Amambai, relataram tiros, gás e uma casa queimada num ataque com policiais e homens armados (Cimi).

Amambai fica no cone sul de Mato Grosso do Sul, a região de Ponta Porã, Dourados e Maracaju, três dos maiores produtores de soja do estado. A Revista Caipora reuniu 15 casos de violência e conflito contra territórios em regiões de soja e de expansão agrícola de Bahia, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Roraima, a partir de relatórios do Cimi e da Comissão Pastoral da Terra, de ações do MPF, de decisões judiciais e de reportagens. Para cada caso, levantou quem governava e o que o poder público fez. Em 7 deles há ação da polícia estadual ou denúncia de participação de policiais.

O que a reportagem encontrou

  • A polícia na retomada. Em Mato Grosso do Sul, operações da PM deixaram um morto em Amambai (2022), um morto em Antônio João (2024) e feridos num protesto por água em Dourados (2024), pelo qual o MPF processa o estado. Em 2026, a Justiça Federal proibiu a PM de agir sem ordem judicial numa fazenda em Amambai.
  • Governos na Justiça contra territórios. O governo de Mato Grosso pediu ao STF que suspenda a ampliação da Terra Indígena Manoki. As prefeituras de Guaíra e Terra Roxa (PR) movem a ação que trava a demarcação dos Avá-Guarani, alvo de ataques armados.
  • Leis e discursos. Mato Grosso aprovou uma lei que cortava benefícios de quem ocupasse terra; o STF a suspendeu por unanimidade. O governador do Paraná chamou os Avá-Guarani de “índios paraguaios”; um ano depois, uma carta deixada ao lado de um jovem decapitado em Guaíra usava a mesma palavra.
  • A violência não muda com o partido. Na Bahia, governada pelo PT, sobreviventes dizem que a PM abriu caminho para os fazendeiros que mataram Nega Pataxó; o governo não esclareceu. O Maranhão, governado pelo PSB, lidera a violência contra quilombolas e os casos de contaminação por agrotóxico.
  • A demora é federal. Em 2025, o governo Lula homologou 7 terras indígenas; 897 aguardavam alguma providência e 582 nem tinham o processo iniciado, segundo o Cimi.
  • A soja. O Brasil colheu 165,3 milhões de toneladas em 2025. Os 133 municípios que mais produzem colhem metade da safra. Flávio Bolsonaro venceu nos nove estados onde a soja cobre mais de 5% do território.

Mapa interativo

O mapa dos ataques, das ameaças e de quem governa onde eles acontecem

15 casos de violência, ameaça e disputa contra terras indígenas, quilombos e comunidades tradicionais em 6 estados, com o que fez o poder público em cada um. Ao fundo, os maiores municípios produtores de soja. Filtre por tipo, aproxime as regiões e toque num caso.

caso de violência ou conflito (número na lista abaixo)terra indígena

ao fundo: município com 250 mil t de soja ou mais (tamanho = toneladas)

GOSPPEACAMMAPAROTOMSMGMTRSPRSCCEPIBARRAP123456789101112131415
  1. 1Tekoha Tapy’i Kora (Fazenda Limoeiro)Amambai (MS) · 2026 · ação policial, ataque armado
  2. 2Guapo’yAmambai (MS) · 2022 · ação policial
  3. 3TI Nhanderu MarangatuAntônio João (MS) · 2024 · ação policial, leis e justiça contra o território
  4. 4TI Panambi-Lagoa RicaDouradina (MS) · 2024 · ataque armado, ameaça, invasão e discurso
  5. 5Reserva Indígena de DouradosDourados (MS) · 2024 · ação policial
  6. 6TI BuritiSidrolândia (MS) · 2026 · ação policial, ameaça, invasão e discurso
  7. 7Áudio sobre envenenar a águaTacuru (MS) · 2026 · ameaça, invasão e discurso
  8. 8TI Tekoha Guasu GuaviráGuaíra (PR) · 2024–2025 · ataque armado, ameaça, invasão e discurso, leis e justiça contra o território
  9. 9TI ManokiBrasnorte (MT) · 2025 · leis e justiça contra o território
  10. 10TI Serra da MoçaBoa Vista (RR) · 2026 · agrotóxico
  11. 11Pulverização sobre comunidadesTimbiras (MA) · 2024 · agrotóxico
  12. 12Quilombo Jaibara dos RodriguesItapecuru Mirim (MA) · 2023 · ataque armado
  13. 13Quilombo GuerreiroParnarama (MA) · 2023 · ameaça, invasão e discurso
  14. 14Nega Pataxó (TI Caramuru-Paraguassu)Potiraguá (BA) · 2024 · ataque armado, ação policial
  15. 15Geraizeiros do Vale do Rio PretoFormosa do Rio Preto (BA) · 2019 · ataque armado, ação policial

15 casos. Toque num losango ou na lista para ver o que aconteceu, o que fez o poder público e as fontes. Os casos não esgotam a violência nessas regiões: são os registros que a reportagem conseguiu verificar.

Ver os dados em tabela
#CasoLocalAnoTipoO que aconteceuO que fez o poder públicoGoverno do estado
1Tekoha Tapy’i Kora (Fazenda Limoeiro)Amambai (MS)2026Ação policial, Ataque armadoRetomada numa fazenda sobreposta à Reserva Limão Verde, na área estudada para a TI Iguatemipeguá II. Homens que as famílias chamam de jagunços atacaram em 26/4. Em 4/9, moradores relataram tiros, gás e uma casa queimada, com policiais e homens armados.Em 17/6, a PM tentou retirar as famílias; os indígenas relataram gás, bombas e balas de borracha. No dia seguinte, a Justiça Federal proibiu qualquer ação policial na fazenda sem ordem judicial e sem Funai, MPF e PF. Na mesma manhã, o governador Eduardo Riedel disse que “não tem um palmo de terra” em MS onde o Estado não possa estar presente.Eduardo Riedel (PP)
2Guapo’yAmambai (MS)2022Ação policialDois dias depois de uma retomada, uma operação da PM deixou Vitor Fernandes, de 42 anos, morto com três tiros, e ao menos sete feridos. A Aty Guasu chamou o episódio de massacre.Segundo a Aty Guasu e a Apib, a PM agiu sem ordem judicial de reintegração de posse. O caso levou a Apib ao STF (ADPF 1059), com pedido de câmeras nas viaturas e nos uniformes e de um plano contra a violência policial; até setembro de 2024, o pedido não tinha sido julgado.Reinaldo Azambuja (PSDB)
3TI Nhanderu MarangatuAntônio João (MS)2024Ação policial, Leis e Justiça contra o territórioEm 12/9/2024, a PM reprimiu uma retomada e feriu três pessoas. Em 18/9, Neri Ramos, de 23 anos, foi morto numa ação da PM na Fazenda Barra, sobreposta à terra homologada em 2005 e suspensa por liminar do STF.A presença policial veio de processo movido por Luana Ruiz (PL), filha dos donos da fazenda e assessora especial da Casa Civil do governo de MS. A Secretaria de Segurança falou em “troca de tiros” e disse que os policiais foram recebidos “com flechas envenenadas”.Eduardo Riedel (PP)
4TI Panambi-Lagoa RicaDouradina (MS)2024Ataque armado, Ameaça, invasão e discursoAtaques em 3 e 4/8/2024 deixaram 11 Guarani Kaiowá feridos, segundo o Cimi, depois de boatos falsos de novas ocupações.O deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) falou, sem provas, numa “onda de invasão de propriedade privada”. Um candidato a vereador do PL em Douradina disse em vídeo que cruzes sagradas guarani eram ameaças de morte. A Pública cita relatório do MPF sobre milícias rurais armadas organizadas por fazendeiros e com apoio político.Eduardo Riedel (PP)
5Reserva Indígena de DouradosDourados (MS)2024Ação policialEm 27/11/2024, indígenas protestavam contra a falta de água potável na reserva.Segundo o MPF, a PM disparou balas de borracha a curta distância, granadas e spray de pimenta, feriu várias pessoas e entrou em casas sem mandado. Em outubro de 2025, o MPF processou o estado e pede ao menos R$ 5 milhões por danos coletivos e câmeras nos uniformes dos policiais.Eduardo Riedel (PP)
6TI BuritiSidrolândia (MS)2026Ação policial, Ameaça, invasão e discursoEm junho de 2026, famílias Terena entraram nas fazendas São Sebastião e Água Clara, na área da TI Buriti, cuja demarcação está na Justiça há mais de dez anos.A polícia agiu contra a ocupação e busca indiciar o que chamou de “líderes negativos”. O governador Riedel chamou a ação de “ato direto de agressão, de invasão” e disse que o estado “não vai tolerar nenhum tipo de desordem”.Eduardo Riedel (PP)
7Áudio sobre envenenar a águaTacuru (MS)2026Ameaça, invasão e discursoNa noite de 25/10/2026, dois servidores da prefeitura gravaram um áudio sobre pôr veneno na água das aldeias. Lula teve 62% dos votos válidos no município.Em 27/10, o prefeito Rogério Torquetti (PSDB) disse que repreendeu os dois, chamou o caso de mal-entendido e os proibiu de ir às aldeias, mas os manteve nos cargos. Depois que o MPF cobrou explicações em 48 horas, a prefeitura afastou um deles e abriu processo administrativo. A PF apura.Eduardo Riedel (PP)
8TI Tekoha Guasu GuaviráGuaíra (PR)2024–2025Ataque armado, Ameaça, invasão e discurso, Leis e Justiça contra o territórioEntre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, ataques armados feriram uma criança de 7 anos, um adolescente e dois adultos. Em julho de 2025, um jovem foi morto e decapitado ao lado de uma carta que chamava os indígenas de paraguaios e ameaçava matar mais.As prefeituras de Guaíra e Terra Roxa movem a ação que trava a demarcação dos 24 mil hectares, sobrepostos a 165 fazendas. Em julho de 2024, o governador Ratinho Junior chamou os ocupantes de “invasores” e “índios paraguaios”; deputados levaram a fala ao MPF como racismo.Ratinho Junior (PSD)
9TI ManokiBrasnorte (MT)2025Leis e Justiça contra o territórioEm novembro de 2025, Lula homologou a ampliação da terra de 46 mil para 252 mil hectares. Brasnorte é o 15º maior produtor de soja do país.O governo de Mato Grosso, com apoio público de Mauro Mendes, pediu ao STF que suspenda o decreto, com base na lei do marco temporal. Mendes disse que a ação não questiona direitos indígenas, só o desrespeito à lei.Mauro Mendes (União); hoje, Otaviano Pivetta (Republicanos)
10TI Serra da MoçaBoa Vista (RR)2026AgrotóxicoA soja chega a 250 metros da comunidade Morcego. Em setembro de 2026, a Justiça Federal condenou dois fazendeiros e uma empresa de aviação agrícola por pulverizar agrotóxico de avião sobre a terra.Leis estaduais de 2019 e 2022 facilitaram a compra de terras públicas com descontos de até 85% e reduziram a reserva legal de 80% para 50% da propriedade.Antonio Denarium (PP), na época das leis
11Pulverização sobre comunidadesTimbiras (MA)2024AgrotóxicoNa comunidade Manuel dos Santos, um trabalhador teve o corpo queimado por pulverização aérea sobre a roça e a casa. No 1º semestre de 2024, o Maranhão teve 156 dos 182 casos de contaminação por agrotóxico registrados pela CPT; houve pulverização perto do território quilombola de Cocalinho.A Secretaria de Meio Ambiente disse ter intensificado operações e que os casos estavam em análise. Um projeto de iniciativa popular pede proibir a pulverização aérea a até 10 km de terras indígenas e quilombos.Carlos Brandão (PSB)
12Quilombo Jaibara dos RodriguesItapecuru Mirim (MA)2023Ataque armadoJosé Alberto Moreno Mendes, presidente da associação do quilombo, no território Monge Belo, foi assassinado em outubro de 2023.O Maranhão lidera os conflitos com quilombolas: 626 casos de violência entre 2013 e 2023, segundo a CPT. O governo diz manter 172 pessoas sob proteção e ter emitido 71 títulos quilombolas.Carlos Brandão (PSB)
13Quilombo GuerreiroParnarama (MA)2023Ameaça, invasão e discursoMoradores relatam invasões e a venda de partes do território quilombola, numa região de expansão da soja, do eucalipto e do gado.Dos 1.826 processos de titulação quilombola em andamento no Incra, 419 são do Maranhão.Carlos Brandão (PSB)
14Nega Pataxó (TI Caramuru-Paraguassu)Potiraguá (BA)2024Ataque armado, Ação policialA pajé Maria de Fátima Muniz, a Nega Pataxó, foi morta em 21/1/2024 num ataque a uma retomada na Fazenda Inhuma. Um filho de fazendeiro, de 19 anos, e um policial aposentado foram presos.Sobreviventes disseram que a PM tirou as viaturas da frente, deixou passar fazendeiros e homens armados e também atirou. O governo de Jerônimo Rodrigues (PT) mandou apurar, atribuiu o ataque ao Invasão Zero e não esclareceu se houve participação de policiais.Jerônimo Rodrigues (PT)
15Geraizeiros do Vale do Rio PretoFormosa do Rio Preto (BA)2019Ataque armado, Ação policialComunidades que vivem há mais de 200 anos na área obtiveram na Justiça a manutenção da posse de 43 mil hectares disputados com o Condomínio Cachoeira do Estrondo. Seguranças armados atiraram em moradores em janeiro e em agosto de 2019. Formosa do Rio Preto é o 3º maior produtor de soja do país.A Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais acusa policiais locais de apoiar ilegalmente a segurança privada da fazenda.Rui Costa (PT), na época

Fontes dos casos: Cimi, CPT, MPF, Justiça Federal, Agência Pública, Brasil de Fato, Campo Grande News, Correio do Estado, Congresso em Foco, Ponto na Curva, Greenpeace, Folhapress e Jornal de Brasília (lista completa em cada caso). Fundo: IBGE (soja 2025), TSE via imprensa (2º turno), Funai (terras indígenas). Arte: Revista Caipora.

Mato Grosso do Sul: a polícia na retomada

Em junho de 2022, dois dias depois de uma retomada guarani kaiowá no Guapo’y, também em Amambai, uma operação da PM deixou Vitor Fernandes, de 42 anos, morto com três tiros, e ao menos sete feridos. A Aty Guasu, a grande assembleia guarani kaiowá, disse que não havia ordem judicial de reintegração de posse e chamou o episódio de massacre. A Secretaria de Segurança e a PM do governo de Reinaldo Azambuja (PSDB) não responderam ao jornal (Brasil de Fato). O caso levou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) ao STF, numa ação que pede câmeras nas viaturas e nos uniformes e um plano contra a violência policial. Para a Apib, operações sem ordem judicial são comuns no estado, e a PM “opera como milícia privada dos fazendeiros da região” (IHU).

Em setembro de 2024, já no governo de Eduardo Riedel, a PM reprimiu uma retomada na Terra Indígena Nhanderu Marangatu, em Antônio João, e feriu três pessoas. A Secretaria de Segurança disse que os policiais foram recebidos “com flechas envenenadas” (Brasil de Fato). Seis dias depois, Neri Ramos, de 23 anos, foi morto numa ação da PM na Fazenda Barra, sobreposta à terra, que foi homologada em 2005 e está suspensa por liminar do STF. A fazenda é de Roseli Maria Ruiz e Pio Queiroz Silva. A filha deles, a advogada Luana Ruiz (PL), então assessora especial da Casa Civil do governo do estado, moveu a ação que levou a PM à área. A Secretaria de Segurança disse que a morte ocorreu depois de troca de tiros (Brasil de Fato).

Dois meses depois, em 27 de novembro, indígenas da Reserva de Dourados protestavam contra a falta de água potável. Segundo o MPF, a PM disparou balas de borracha a curta distância, granadas e spray de pimenta, feriu várias pessoas e entrou em casas sem mandado. Em outubro de 2025, o MPF processou o estado e pede ao menos R$ 5 milhões por danos coletivos, indenização às vítimas e câmeras nos uniformes dos policiais em operações em terras indígenas (MPF).

Retomada guarani kaiowá na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, em Douradina (MS), em agosto de 2024
Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, em Douradina (MS), em 6 de agosto de 2024, dias depois do ataque que deixou Guarani Kaiowá feridos. A terra foi delimitada pela Funai em 2011 e segue sem demarcação concluída. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Em agosto de 2024, ataques na Terra Indígena Panambi-Lagoa Rica, em Douradina, deixaram 11 Guarani Kaiowá feridos, segundo o Cimi, depois de boatos falsos de novas ocupações. O deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) falou, sem provas, numa “onda de invasão de propriedade privada”; um candidato a vereador do PL em Douradina disse em vídeo que cruzes sagradas guarani eram ameaças de morte. A Agência Pública cita um relatório do MPF que descreve milícias rurais armadas organizadas por fazendeiros e com apoio político (Agência Pública).

Na noite da eleição, 25 de outubro, dois servidores da prefeitura de Tacuru gravaram um áudio sobre pôr veneno na água das aldeias. Dois dias depois, o prefeito Rogério Torquetti (PSDB) disse que os tinha repreendido, chamou o caso de mal-entendido e os proibiu de ir às comunidades, mas os manteve nos cargos (Correio do Estado). Só depois que o MPF cobrou explicações em 48 horas a prefeitura afastou um deles e abriu processo administrativo. A PF investiga (MPF; Jornal de Brasília).

Crime é crime, não interessa quem o faça, da maneira que o faça.

Eduardo Riedel, governador de Mato Grosso do Sul, sobre as ocupações indígenas, em 18 de junho de 2026 (Campo Grande News)

Paraná: “índios paraguaios”

No oeste do Paraná, a Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, dos Avá-Guarani, tem 24 mil hectares identificados pela Funai em 2018 e sobrepostos a 165 fazendas. A demarcação está parada por uma ação das prefeituras de Guaíra e Terra Roxa, aceita na primeira instância (Brasil de Fato). Em julho de 2024, quando os Avá-Guarani retomaram áreas e os ataques começaram, o governador Ratinho Junior (PSD) chamou os ocupantes de “invasores” e “índios paraguaios”. Deputados levaram a fala ao MPF como racismo, e o Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná a classificou como falsa (Congresso em Foco).

Cercados de verdade. Cercados por pistoleiros.

Liderança avá-guarani de Guaíra (PR), em janeiro de 2025 (Brasil de Fato)

Entre o fim de 2024 e o começo de 2025, a comunidade Yvy Okaju sofreu quatro ataques em sete dias; uma criança de 7 anos foi baleada no pé. Um dos ataques veio por uma estrada que a Força Nacional, enviada pelo governo federal, não vigiava (Brasil de Fato). Em julho de 2025, Everton Lopes Rodrigues, de 21 anos, filho do cacique de Yvyju Awary, foi morto e decapitado. Ao lado do corpo, uma carta chamava os indígenas de paraguaios e ameaçava: “nós vamos matar mais de vocês” (Brasil de Fato). Em julho de 2025, dezenove lideranças avá-guarani estavam no programa federal de proteção a defensores de direitos humanos.

Mato Grosso: a caneta

Em Mato Grosso, que colheu 30% da soja do país em 2025, os registros que a reportagem encontrou passam mais pela caneta do que pela bala. Em março de 2023, o governo de Mauro Mendes (União) lançou o programa Tolerância Zero contra invasões de terra, com a PM e os sindicatos rurais; até janeiro de 2025, a federação da agricultura comemorava 50 “tentativas de invasão” frustradas em 25 municípios (Notícias Agrícolas). Em fevereiro de 2024, Mendes sancionou a Lei 12.430, que proibia quem ocupasse terra de receber benefícios sociais do estado, ocupar cargos de confiança e fechar contratos com o governo. O autor foi o então deputado Cláudio Ferreira (PL), hoje prefeito de Rondonópolis. O MPF chamou a lei de “claramente inconstitucional” (Brasil de Fato). O STF a suspendeu por unanimidade em 2024 (Revista Cultivar).

Em novembro de 2025, Lula homologou a ampliação da Terra Indígena Manoki, em Brasnorte, de 46 mil para 252 mil hectares. O governo do estado pediu ao STF que suspenda o decreto, com base na lei do marco temporal; Mendes disse que a ação não questiona os direitos indígenas, só o desrespeito à lei (Ponto na Curva). Brasnorte colheu 1,19 milhão de toneladas de soja em 2025, o 15º maior volume do país. Desde 2026, o governador é Otaviano Pivetta (Republicanos), vice de Mendes durante todo esse período, empresário do agronegócio e reeleito em outubro com 60,8% (Itatiaia).

Bahia e Maranhão: a violência não muda com o partido

Em 21 de janeiro de 2024, a pajé Maria de Fátima Muniz, a Nega Pataxó, foi morta num ataque a uma retomada da Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, na Fazenda Inhuma, em Potiraguá, no sul da Bahia (CNN Brasil). Sobreviventes contaram ao Brasil de Fato que o comandante da PM mandou tirar as viaturas da frente e deixou passar fazendeiros e homens armados, que chegaram em mais de 30 carros, e que policiais também atiraram. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) mandou apurar e a Secretaria de Segurança atribuiu o ataque ao movimento Invasão Zero, mas o governo não esclareceu se houve participação de policiais (Brasil de Fato). Um ano antes, segundo o mesmo jornal, integrantes do Invasão Zero e PMs tinham cercado famílias do MST numa área de reforma agrária na Bahia (Brasil de Fato).

No oeste da Bahia, coração da soja no Nordeste, comunidades geraizeiras que vivem há mais de 200 anos no Vale do Rio Preto, em Formosa do Rio Preto, obtiveram na Justiça a manutenção da posse de 43 mil hectares disputados com o Condomínio Cachoeira do Estrondo. Em 2019, seguranças armados atiraram em moradores duas vezes, e a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais acusou policiais locais de apoiar ilegalmente a segurança privada da fazenda (Greenpeace). Formosa do Rio Preto é o terceiro maior produtor de soja do país.

O Maranhão, governado por Carlos Brandão (PSB), lidera os casos de violência pela terra registrados pela CPT em 2025, com 190 (CPT), e a violência contra quilombolas: 626 casos entre 2013 e 2023, três vezes mais que a Bahia, segundo a CPT. Em outubro de 2023, José Alberto Moreno Mendes, presidente da associação do quilombo Jaibara dos Rodrigues, em Itapecuru Mirim, foi assassinado. Na época, o governo dizia manter 172 pessoas sob proteção e ter emitido 71 títulos quilombolas (Folhapress, via Jornal de Brasília). No primeiro semestre de 2024, 156 dos 182 casos de contaminação de comunidades por agrotóxico registrados no país foram no Maranhão; em Timbiras, um trabalhador teve o corpo queimado por pulverização aérea sobre a roça e a casa. A secretaria de Meio Ambiente disse ter intensificado operações (Agência Pública).

Em Roraima, onde a soja já cerca 26 das 33 terras indígenas, leis de 2019 e 2022 do governo de Antonio Denarium (PP) facilitaram a compra de terras públicas e reduziram a reserva legal de 80% para 50% (Repórter Brasil). Em setembro de 2026, a Justiça Federal condenou dois fazendeiros e uma empresa de aviação agrícola por pulverizar agrotóxico de avião sobre a Terra Indígena Serra da Moça (MPF).

Gráfico interativo

Os números da violência

Os estados com mais casos em cada levantamento. Os relatórios divulgados não detalham todos os estados.

Indígenas assassinados em 2025 · total no país: 258

Roraima82
Amazonas47
Mato Grosso do Sul37
demais estados92 (sem detalhe por estado)

Fonte: Cimi, relatório com dados de 2025

O Cimi registrou 258 assassinatos de indígenas em 2025, 47 a mais que em 2024. O relatório divulgado só detalha os três estados com mais casos.

Fontes: Cimi, CPT e Folhapress. Arte: Revista Caipora.

Os fazendeiros são os principais causadores da violência ligada à terra no campo brasileiro, responsáveis por 44% dos casos, segundo o Atlas dos Conflitos no Campo da CPT, que reúne registros de 2000 a 2023 (Alma Preta). A demora na demarcação também alimenta os conflitos. Em 2025, o governo Lula homologou 7 terras indígenas; 897 aguardavam alguma providência e 582 nem tinham o processo iniciado. Dois terços dos 169 conflitos por território registrados pelo Cimi envolviam terras nessa situação (Brasil de Fato).

Quem governa, e quem financia

Os cinco maiores estados produtores de soja, que colhem 72% da safra, vão ser governados a partir de janeiro por Otaviano Pivetta (Republicanos) em Mato Grosso, Sergio Moro (PL) no Paraná, Daniel Vilela (MDB) em Goiás, Luciano Zucco (PL) no Rio Grande do Sul e Eduardo Riedel (PP) em Mato Grosso do Sul (InvestNews). Zucco presidiu na Câmara a Frente Parlamentar Invasão Zero e, em maio de 2023, recebeu no gabinete fundadores do movimento de mesmo nome, que a Secretaria de Segurança da Bahia associou à morte de Nega Pataxó (CNA; Brasil de Fato).

Nas prefeituras, a reportagem identificou 104 dos 133 prefeitos dos maiores municípios produtores: 32 do União Brasil, 23 do PL, 20 do MDB, 7 do Republicanos, 6 do PP e 6 do PSDB, entre outros; só 1 é do PT. Em Lucas do Rio Verde, o prefeito Miguel Vaz (Republicanos), ex-vice de Pivetta na cidade, declarou R$ 219,7 milhões em bens em 2024, o maior patrimônio entre os eleitos no 1º turno (Metrópoles).

Até 21 de outubro, os dois maiores doadores privados da campanha de Flávio Bolsonaro eram de Mato Grosso: Eloi Vitorino Marchett, empresário de soja e gado, com R$ 2 milhões, e Nelson José Vigolo, do Grupo Bom Jesus Agropecuária, com R$ 1,1 milhão (Estadão, via BrasilAgro). Em 2023, o observatório De Olho nos Ruralistas encontrou 1.692 casos de fazendas sobrepostas a terras indígenas, em 1,18 milhão de hectares; 34,6% da área produtiva sobreposta tinha soja, e entre os grupos ligados a essas fazendas estavam Bunge, Amaggi e Bom Futuro (De Olho nos Ruralistas, via CUT). O agro não é um bloco: depois do 2º turno, circularam áudios atribuídos a Elusmar Maggi Scheffer, sócio do Bom Futuro, comemorando a reeleição de Lula; ele não se manifestou sobre eles (A Crítica).

Lista interativa

O que fizeram governadores, prefeitos e quem os financia

Atos documentados de governos e prefeituras nos casos de violência e conflito: operações policiais, ações na Justiça contra terras, leis e declarações, sempre com a fonte e a versão oficial quando existe. Nas outras abas, os governadores eleitos, os prefeitos dos maiores municípios produtores, o agronegócio e o Congresso.

MSEduardo Riedel (PP)Governador desde 2023; reeleito em 2026 com 67,1%
  • Set/2024: Neri Ramos é morto em ação da PM em Antônio João. A presença policial veio de processo movido por Luana Ruiz (PL), assessora especial da Casa Civil e filha dos donos da fazenda. A Secretaria de Segurança fala em troca de tiros. Brasil de Fato
  • Nov/2024: a PM reprime com balas de borracha um protesto por água na Reserva de Dourados. O MPF processa o estado e pede ao menos R$ 5 milhões. MPF
  • Jun/2026: a PM tenta retirar famílias guarani kaiowá de uma fazenda em Amambai; a Justiça Federal proíbe nova ação sem ordem judicial. Campo Grande News
  • Jun/2026: “Não tem um palmo de terra no estado de Mato Grosso do Sul onde o Estado não possa estar presente.” Sobre a ocupação terena em Sidrolândia: “ato direto de agressão, de invasão”. Campo Grande News
MSReinaldo Azambuja (PSDB)Governador de 2015 a 2022
  • Jun/2022: operação da PM em Amambai, sem ordem judicial segundo a Aty Guasu e a Apib, deixa Vitor Fernandes morto e ao menos sete feridos. Brasil de Fato
MTMauro Mendes (União) e Otaviano Pivetta (Republicanos)Governador de 2019 a 2026 e seu vice, governador desde 2026
  • Mar/2023: lança o programa Tolerância Zero contra invasões de terra, com PM e sindicatos rurais; até jan/2025, 50 “tentativas de invasão” frustradas em 25 municípios. Notícias Agrícolas
  • Fev/2024: sanciona a Lei 12.430, que corta benefícios sociais e cargos de quem ocupar terra. O STF suspende a lei por unanimidade (ADI 7715). Brasil de Fato · Revista Cultivar
  • Nov/2025: pede ao STF a suspensão do decreto que ampliou a TI Manoki, em Brasnorte. Ponto na Curva
  • Jan/2026: entra em vigor a lei que corta incentivos de empresas da Moratória da Soja. AgFeed
PRRatinho Junior (PSD)Governador desde 2019
  • Jul/2024: chama de “invasores” e “índios paraguaios” os Avá-Guarani que retomavam terras no oeste do Paraná. Deputados levam a fala ao MPF como racismo. Congresso em Foco
BAJerônimo Rodrigues (PT)Governador desde 2023; reeleito em 2026
  • Jan/2024: sobreviventes do ataque em que Nega Pataxó foi morta dizem que a PM abriu caminho para os fazendeiros. O governo manda apurar, atribui o ataque ao Invasão Zero e não esclarece a participação de policiais. Brasil de Fato
  • Abr/2023: integrantes do Invasão Zero e PMs cercam famílias do MST num assentamento; o fundador do grupo anuncia em áudio a mobilização do batalhão de Jequié. Brasil de Fato
MACarlos Brandão (PSB)Governador desde 2022
  • O Maranhão lidera a violência pela terra (190 casos em 2025, CPT) e os conflitos com quilombolas (626 entre 2013 e 2023). CPT · Folhapress
  • 1º sem./2024: 156 dos 182 casos de contaminação por agrotóxico do país são no Maranhão. A Secretaria de Meio Ambiente diz ter intensificado operações. Agência Pública
RRAntonio Denarium (PP)Governador de 2019 até abril de 2026
  • 2019 e 2022: leis estaduais facilitam a compra de terras públicas com descontos de até 85% e reduzem a reserva legal de 80% para 50%; a soja já cerca 26 das 33 terras indígenas. Repórter Brasil
MGRomeu Zema (Novo)Governador de 2019 a 2026
  • Mar/2025: “Temos tolerância zero com invasores de terra.” “Em Minas, cerca existe para ser respeitada.” Folha de Pernambuco
BRGoverno federal (Lula, PT)Responsável pela demarcação
  • 2025: homologou 7 terras indígenas; 897 terras aguardavam alguma providência do governo e 582 nem tinham o processo iniciado, segundo o Cimi. Brasil de Fato
  • Nov/2025: homologou a ampliação da TI Manoki (MT). Ponto na Curva
  • Jan/2025: os Avá-Guarani criticaram a atuação da Força Nacional em Guaíra; um ataque ocorreu por uma estrada que ela não vigiava. Brasil de Fato

9 governos com atos documentados.

Os atos listados são os que a reportagem conseguiu documentar em fontes públicas; a ausência de um governo não significa ausência de conflito. Prefeitos: eleitos em 2024, com o partido da eleição. Arte: Revista Caipora.

O mapa da soja

Em 2005, o Brasil colheu 51,2 milhões de toneladas de soja em 23,4 milhões de hectares. Em 2025, foram 165,3 milhões de toneladas em 47,6 milhões de hectares, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE. A soja respondeu por R$ 315 bilhões dos R$ 927 bilhões do valor da produção agrícola do país, um terço do total (IBGE; Correio da Manhã). Os 133 municípios que colheram ao menos 250 mil toneladas somam 52% da safra. Em dez anos, a área plantada triplicou em Rondônia, quase quadruplicou no Pará e cresceu 80% no Maranhão, 73% no Tocantins, 60% no Piauí e 45% na Bahia (IBGE).

Colheitadeiras colhem soja numa lavoura extensa
Colheita de soja. Foto de arquivo. Foto: CNA/Wenderson Araujo/Trilux, via Agência Brasil

Gráfico interativo

A soja dobrou de área em vinte anos

Produção e área plantada no Brasil e, por estado, a área de 2015 e de 2025.

51,2
68,8
97,5
121,8
144,5
165,3
200520102015202020242025

milhões de toneladas colhidas

A safra passou de 51,2 milhões de toneladas em 2005 para 165,3 milhões em 2025.

Ver os dados em tabela
AnoProdução (t)Área (ha)
200551.182.07423.426.756
201068.756.34323.339.094
201597.464.93632.206.387
2020121.796.54937.204.962
2024144.473.76846.208.798
2025165.259.01447.636.956

Fonte: IBGE, Produção Agrícola Municipal, tabela 5457. Arte: Revista Caipora.

E o voto?

O voto acompanha o mapa da soja, mas não explica a violência, que aparece também em estados onde Lula venceu. Lula foi reeleito com 51,8% dos votos válidos. Flávio venceu nos nove estados em que a soja ocupa mais de 5% do território, que colheram 80% da safra (TSE, via Bloomberg Línea). Dos 133 maiores municípios produtores, foi possível confirmar o 2º turno em 109, e Flávio venceu em 97. As 12 exceções ficam no Matopiba nordestino, onde ele só ganhou nos polos de serviço do agronegócio, como Luís Eduardo Magalhães (61,6%) e Balsas (54,85%) (Correio; Imirante). São Desidério, o maior produtor de soja do país, deu 64,6% a Lula (Congresso em Foco).

Em Sorriso, onde Flávio teve 75,68%, a Câmara de Vereadores cancelou, três dias depois da eleição, a sessão solene do Dia do Nordestino, sem nova data e com uma única justificativa: a “necessidade de alteração de data” (Olhar Direto; Só Notícias).

Gráfico interativo

Onde a soja ocupa o território, Flávio venceu

Cada círculo é um estado. No eixo horizontal, a parte do território ocupada pela soja; no vertical, a votação de Flávio Bolsonaro no 2º turno. Toque num estado.

Flávio venceuLula venceutamanho do círculo = soja colhida

20%30%40%50%60%70%80%0%5%10%15%20%25%30%soja em mais de 5% do território:Flávio venceu nos 9 estadosmaioriaárea plantada de soja em 2025, em % do território do estadoFlávio no 2º turno (% dos válidos)MTMTPRPRGOGORSRSMSMSMGMGBABATOTOSPSPMAMAPAPAPIPISCSCRORORRRRDFDF

Os nove estados à direita da linha tracejada colheram 80% da soja de 2025.

Ver os dados em tabela
EstadoSoja 2025 (t)% da soja do paísÁrea de soja / territórioFlávio, 2º turnoGovernador eleito
Mato Grosso50.175.03230,4%14,2%66,1%Otaviano Pivetta (Republicanos)
Paraná21.292.72112,9%29,3%62,6%Sergio Moro (PL)
Goiás20.303.38512,3%15,0%59,7%Daniel Vilela (MDB)
Rio Grande do Sul13.659.4438,3%24,1%57,8%Luciano Zucco (PL)
Mato Grosso do Sul13.119.8337,9%11,9%59,6%Eduardo Riedel (PP)
Minas Gerais9.183.9195,6%4,0%49,6%Cleitinho (Republicanos)
Bahia8.603.1045,2%3,7%28,7%Jerônimo Rodrigues (PT)
Tocantins5.089.6153,1%5,2%51,4%Vicentinho Júnior (PSDB)
São Paulo4.731.5542,9%5,5%53,9%Tarcísio de Freitas (Republicanos)
Maranhão4.423.0882,7%4,2%30,5%Eduardo Braide (PSD)
Pará4.372.3632,6%1,1%45,0%Dr. Daniel (Podemos)
Piauí3.582.8812,2%4,2%24,1%Rafael Fonteles (PT)
Santa Catarina3.146.7971,9%8,6%69,4%Jorginho Mello (PL)
Rondônia2.592.8851,6%2,9%69,6%Marcos Rogério (PL)
Roraima494.6560,3%0,6%72,5%Arthur Henrique (PL)
Distrito Federal328.8600,2%15,1%54,3%–
Acre56.6590,0%0,1%66,6%–
Amazonas47.3820,0%0,0%46,0%–
Amapá26.1820,0%0,1%47,1%–
Ceará14.5420,0%0,0%31,1%–
Alagoas7.9870,0%0,1%39,2%–
Rio de Janeiro4.3770,0%0,0%53,1%–
Espírito Santo1.5090,0%0,0%56,4%–
Rio Grande do Norte2400,0%0,0%34,3%–
Paraíba00,0%0,0%32,5%–
Pernambuco00,0%0,0%30,8%–
Sergipe00,0%0,0%30,5%–

Fontes: IBGE (Produção Agrícola Municipal 2025 e área territorial); TSE, via Bloomberg Línea (2º turno); governadores: InvestNews e TSE. Arte: Revista Caipora.

Ranking interativo

Os maiores produtores de soja e o voto para presidente

Municípios ordenados pela soja colhida em 2025. Dos 133 com ao menos 250 mil toneladas, há resultado confirmado do 2º turno em 109: Flávio venceu em 97.

soja colhida em 2025Flávio Lula venceu o 2º turno1º t. só há dado do 1º turno

1São Desidério BATony Linhares (PP)Lula 65%
2Sorriso MTAlei Fernandes (União)Flávio 76%
3Formosa do Rio Preto BANeo (PSD)Lula
4Campo Novo do Parecis MTPiaia (PL)Flávio 71%
5Rio Verde GOWellington Carrijo (MDB)Flávio 66%
6Querência MTGilmar Wentz (PRD)Flávio
7Nova Mutum MTLeandro Félix (União)Flávio 76%
8Sapezal MTCláudio Scariote (Republicanos)Flávio 72%
9Diamantino MTChico Mendes (União)Flávio 67%
10Paranatinga MTMarcos Tomazini (União)Flávio 71%
11Jataí GOGeneilton Assis (PL)Flávio 66%
12Cristalina GODr. Luis Otávio (PL)Flávio 67%
13Maracaju MSMarcos Calderan (PSDB)Flávio 72%
14São Félix do Araguaia MTAcácio (Republicanos)Flávio
15Brasnorte MTEdelo Ferrari (União)Flávio
16Canarana MTVilson Biguelini (União)Flávio 79%
17Primavera do Leste MTSérgio Machnic (PL)Flávio 77%
18Tabaporã MTCarlão Borchardt (PL)Flávio
19Campo Verde MTAlexandre Lopes (União)Flávio 71%
20Luís Eduardo Magalhães BAJunior Marabá (PP)Flávio 62%

Toque numa linha para ver o prefeito e o voto.

Fontes: IBGE, Produção Agrícola Municipal 2025; TSE, via Congresso em Foco, O Tempo, A Crítica, Só Notícias, Correio, Imirante, Portal 6, Primeira Hora e Paraíba Business; prefeitos: RD News, Correio do Estado, Bahia Notícias, O Tempo, O Hoje e Diário do Pará. Arte: Revista Caipora.

A agenda

Em dezembro de 2025, o STF voltou a declarar inconstitucional o marco temporal, por 9 votos a 1, e deu dez anos para a União concluir as demarcações (Congresso em Foco; Mayer Brown). Em janeiro de 2026, entrou em vigor a lei de Mato Grosso que corta incentivos fiscais de empresas ligadas à Moratória da Soja, pacto que desde 2006 barrava a compra de soja de áreas desmatadas da Amazônia depois de 2008, e a Abiove, que reúne as grandes tradings, anunciou que deixaria o acordo (Money Times; AgFeed).

Se depender do nosso governo, nenhuma dessas reservas será demarcada porque a vocação do Mato Grosso é a produção.

Flávio Bolsonaro, na feira Norte Show, em Sinop (MT), em 22 de abril de 2026 (InfoMoney)

No mesmo discurso, Flávio prometeu “o fim da moratória” (Money Times). Em 6 de outubro, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Pedro Lupion (Republicanos-PR), declarou apoio a ele: “O campo não aguenta mais esse governo e vamos eleger Flávio Bolsonaro” (Diário do Grande ABC). Em 2021, o então presidente da Aprosoja Brasil, Antonio Galvan, foi alvo de busca da PF, por ordem do STF, sob suspeita de financiar atos contra o tribunal; a entidade negou (Jornal de Brasília).

O que vem: o Invasão Zero

O Invasão Zero nasceu em março de 2023, no sul da Bahia, para barrar a ocupação de uma fazenda em Santa Luzia. Organizou-se por grupos de WhatsApp, registrou CNPJ e estatuto e, segundo um dos fundadores, o fazendeiro Luiz Uaquim, chegou a 5 mil integrantes na Bahia e inspirou grupos em ao menos nove estados. Uaquim chama o grupo de “pacífico e ordeiro” e diz que os envolvidos na morte de Nega Pataxó não são membros (Brasil de Fato).

Em 24 de outubro de 2023, foi lançada em Brasília, com Jair Bolsonaro, a Frente Parlamentar Invasão Zero. Zucco era o presidente; Ricardo Salles (PL-SP), o primeiro vice; Pedro Lupion cuidava das relações institucionais; Marcos Pollon (PL-MS), que falou em “onda de invasão” durante os ataques de Douradina, era o terceiro secretário (CNA). Três anos depois, o presidente da frente vai governar o Rio Grande do Sul e o encarregado das relações institucionais preside a bancada do agro. A próxima reportagem desta série vai seguir o Invasão Zero: quem o financia, onde atua, quem foi eleito com ele e o que aconteceu nas terras por onde passou.

Linha do tempo interativa

Polícia, ataques, leis e eleição, de 2022 a 2026

Os principais fatos citados na reportagem. Filtre por tipo.

  1. 25/6/2022Operação da PM em Amambai (MS), sem ordem judicial segundo a Aty Guasu, deixa Vitor Fernandes morto e ao menos sete feridos.
  2. Mar/2023Fazendeiros do sul da Bahia criam o Invasão Zero.
  3. Mar/2023O governo de Mato Grosso lança o programa Tolerância Zero contra invasões de terra.
  4. Abr/2023Invasão Zero e PMs cercam famílias do MST na Bahia.
  5. 24/10/2023Lançada em Brasília, com Jair Bolsonaro, a Frente Parlamentar Invasão Zero, presidida por Luciano Zucco.
  6. 21/1/2024Nega Pataxó é morta em Potiraguá (BA); sobreviventes dizem que a PM abriu caminho para os fazendeiros.
  7. Fev/2024Mauro Mendes sanciona a Lei 12.430, que corta benefícios de quem ocupar terra.
  8. Jul/2024Ratinho Junior chama os Avá-Guarani de “invasores” e “índios paraguaios”.
  9. 3–4/8/2024Ataques na TI Panambi-Lagoa Rica, em Douradina (MS), deixam 11 Guarani Kaiowá feridos.
  10. 18/9/2024Neri Ramos é morto em ação da PM na TI Nhanderu Marangatu, em Antônio João (MS).
  11. Set–Out/2024O STF suspende, por unanimidade, a Lei 12.430 de Mato Grosso.
  12. 27/11/2024A PM reprime com balas de borracha um protesto por água na Reserva de Dourados (MS).
  13. Dez/2024–Jan/2025Quatro ataques em sete dias contra os Avá-Guarani em Guaíra (PR); uma criança de 7 anos é baleada.
  14. 12/7/2025Jovem avá-guarani é morto e decapitado em Guaíra, ao lado de uma carta que chama os indígenas de paraguaios.
  15. 2/10/2025O MPF processa o estado de MS pela violência policial em Dourados.
  16. Nov/2025Lula homologa a TI Manoki (MT); o governo de Mato Grosso vai ao STF contra o decreto.
  17. Dez/2025O STF declara de novo inconstitucional o marco temporal, por 9 a 1.
  18. Jan/2026Entra em vigor a lei de MT contra a Moratória da Soja; a Abiove deixa o pacto.
  19. 22/4/2026Em Sinop (MT), Flávio Bolsonaro diz que nenhuma reserva indígena do estado será demarcada.
  20. 26/4/2026Jagunços atacam a retomada Tapy’i Kora, em Amambai (MS).
  21. 17–18/6/2026A PM tenta retirar indígenas em Amambai; a Justiça proíbe nova ação sem ordem judicial. Riedel: “não tem um palmo de terra” onde o Estado não possa estar.
  22. 4/9/2026Novo ataque ao Tapy’i Kora, com relatos de tiros, gás e uma casa queimada.
  23. Set/2026A Justiça Federal condena fazendeiros por pulverizar agrotóxico de avião sobre a TI Serra da Moça (RR).
  24. 25/10/2026Lula é reeleito. Flávio vence nos nove estados onde a soja cobre mais de 5% do território.
  25. 25/10/2026Servidores da prefeitura de Tacuru (MS) gravam áudio sobre pôr veneno na água das aldeias.
  26. 27/10/2026O prefeito de Tacuru repreende os servidores, mas os mantém nos cargos; depois da cobrança do MPF, afasta um.
  27. 28/10/2026A Câmara de Sorriso (MT) cancela a homenagem aos nordestinos.

27 eventos.

Fontes: as citadas na reportagem. Arte: Revista Caipora.

Como fizemos

Casos. A reportagem reuniu casos de violência, ameaça e disputa contra territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais registrados em relatórios do Cimi e da CPT, em ações do MPF, em decisões judiciais e em reportagens, priorizando regiões de soja e de expansão agrícola. Os casos não esgotam a violência nessas regiões: são os que a reportagem conseguiu verificar em fontes públicas.

Atos do poder público. Para cada caso, a reportagem identificou quem governava o estado e o município e o que o poder público fez ou disse: operações policiais, ações judiciais, leis, declarações e respostas a cobranças de órgãos de controle. Os atos são descritos como foram registrados, com a versão oficial quando existe. A reportagem não atribui intenção a ninguém: mostra o que foi feito. Relatos de vítimas aparecem como relatos.

Soja e voto. Produção e área por município, estado e país: IBGE, Produção Agrícola Municipal, tabela 5457, consultada em 1º de novembro de 2026. Votos: TSE, por estado via Bloomberg Línea e por município em páginas que publicaram a totalização, citadas nos gráficos. O resultado por município não permite saber como votou cada eleitor.


Fontes

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