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Como o movimento indígena derrotou o bolsonarismo nas urnas

Nesta reportagem

Os Parakanã da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, não votaram no primeiro turno: faltou combustível para sair das aldeias. No segundo, 118 deles viajaram cerca de um dia e meio, de barco e de carro, até Altamira. Chegaram junto com Xikrin, Araweté, Arara e Kayapó, no que a Sumaúma chamou de “Levante Indígena”. Para alguns, era o primeiro voto da vida. “A gente não quer Flávio Bolsonaro, a gente quer Lula como presidente”, disse Kyxaxexuxa Parakanã. Em Altamira, Flávio tinha vencido o primeiro turno com 63,25% dos votos válidos.

Lula (PT) foi reeleito no domingo, 25 de outubro, com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (PL), 48,21%, segundo o TSE. A diferença foi de 4,43 milhões de votos. Foi a primeira vez desde a Constituição de 1988 que um candidato a presidente terminou o primeiro turno atrás e venceu o segundo: em 4 de outubro, Flávio teve 47,03% e Lula, 45,16%, lembrou o Metrópoles.

Nas seções eleitorais instaladas em terras e comunidades indígenas, a disputa não foi apertada. A Revista Caipora analisou os resultados de 1.200 seções em 658 locais de votação, com 310.679 eleitores aptos. Lula teve 85,7% dos votos válidos e venceu em 608 desses locais; Flávio venceu em 50. No primeiro turno, nessas mesmas seções, a votação de Lula foi de 82,1%, e a de Flávio, de 15,8%.

O resultado nas aldeias não foi espontâneo. Organizações indígenas fizeram campanha aberta contra Flávio, que prometeu não demarcar terras e liberar o arrendamento, e travaram uma disputa na Justiça para que o Estado levasse os eleitores até as urnas. No mapa abaixo, cada ponto é um local de votação indígena, com os votos de cada seção nos dois turnos.

Como fizemos

Os votos e o comparecimento de cada seção vêm do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): no primeiro turno, dos arquivos de dados abertos; no segundo, do boletim de urna de cada seção, publicado no portal de resultados do tribunal antes dos arquivos de dados abertos. Consideramos indígena o local de votação que fica dentro de uma terra indígena da Funai, em qualquer fase da demarcação, ou que tem “indígena” no nome, como escolas e polos de saúde indígena. Quando o nome traz “aldeia” ou “maloca”, exigimos que o local esteja a até 3 km de uma terra indígena ou de uma aldeia registrada pela Funai. A localização usa as coordenadas informadas pelo próprio TSE.

Ficaram de fora 18 locais no centro de cidades cujas áreas urbanas estão dentro dos limites de terras indígenas, como Águas Belas (PE), Pacaraima (RR) e Aruanã (GO), porque neles votam sobretudo eleitores não indígenas. Também não contam siglas como E.E.I., que no Ceará e em São Paulo quer dizer escola de educação infantil.

O critério deixa de fora indígenas que votam em escolas da cidade, como em Altamira, e pode incluir alguns eleitores não indígenas que votam nas aldeias. Por isso, os números descrevem o voto nos territórios, e não o de todos os eleitores indígenas do país. Os dados completos, seção por seção, estão no mapa.

Com outro recorte, a CNN Brasil identificou 542 locais de votação em áreas indígenas no primeiro turno; neles, Lula teve 82,93% dos votos válidos.

Os votos que custaram a chegar

No primeiro turno, eleitores Yanomami do Rio Marauiá, no Amazonas, esperaram três dias por combustível na Missão Marauiá, em Santa Isabel do Rio Negro. “Ficamos ali durante três dias passando fome”, contou ao ICL Notícias Roni Raitateri Yanomami, coordenador da Associação Kurikama Yanomami. Segundo a Procuradoria-Geral da República, citada pelo Correio Braziliense, a abstenção entre indígenas foi de 26% no primeiro turno, contra 20% na média nacional; em alguns territórios, chegou a 36%, segundo o MPF, citado pela Agência Brasil. No Vale do Javari, 523 dos 1.896 eleitores aptos não votaram, informou o ND+.

Nas seções instaladas em terras e comunidades indígenas, a abstenção no primeiro turno foi de 19,5%, perto da média do país, de 20,8%, segundo os dados do TSE analisados pela Caipora. Em alguns territórios, foi bem maior: 45,4% na TI Caarapó (MS), 44,4% na TI Amambai (MS) e 36,7% na TI Aldeia Limão Verde (MS). A diferença em relação ao número da PGR pode vir do recorte: muitos indígenas votam em seções das cidades, que ficam fora desta análise.

Entre os dois turnos, a disputa foi para os tribunais. A Univaja, que representa os povos do Vale do Javari, pediu transporte fluvial, água e comida para eleitores de 43 aldeias; a juíza eleitoral de Atalaia do Norte negou, alegando prazo perdido e falta de recursos, e a decisão só foi revertida depois de mobilização, segundo o ICL. Em 20 de outubro, o Ministério Público Eleitoral pediu providências ao presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. No dia 21, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Uerj pediram à Corregedoria-Geral da Justiça Eleitoral transporte gratuito de ida e volta, inclusive de barco e avião. “Não é o papel da organização indígena organizar essa logística, é papel do poder público”, disse Eliesio Marubo, procurador jurídico da Univaja, ao Correio Braziliense.

Em 22 de outubro, a Justiça Federal no Pará, a pedido do MPF, mandou a União custear transporte e alimentação de eleitores indígenas em todo o país, sob multa diária de R$ 1 milhão, informou a Agência Brasil. No dia seguinte, Kassio Nunes Marques proibiu o transporte por órgãos públicos; no sábado, véspera da votação, voltou atrás e requisitou veículos da Funai, da Sesai, dos distritos de saúde indígena e do Ministério dos Povos Indígenas, segundo a Sumaúma. Uma nota técnica do ministério estimava que cerca de 7,2 mil eleitores indígenas dependiam de transporte, 4.770 deles de barco. “É inadmissível que a burocracia coloque em risco um direito garantido pela Constituição”, disse a deputada reeleita Sônia Guajajara (PSOL-SP).

No domingo, os trajetos informados à Justiça no Vale do Javari iam de 321 a 895 km, de três a cinco dias de barco, segundo o ND+. Em Corumbá (MS), moradores da aldeia Barra do São Lourenço viajaram cerca de sete horas e meia pelo rio Paraguai; ao menos 34 não conseguiram sair, contou o cacique Negré ao Piranot. Em Altamira, faltaram água e comida, e a volta para as aldeias era incerta. “Nunca teve urna lá na aldeia, só na cidade mesmo”, disse Takaraitoti Araweté à Sumaúma.

No segundo turno, o comparecimento nas seções indígenas subiu de 80,5% para 81,8% dos eleitores aptos; no país, subiu de 79,2% para 81,0%.

Infográfico

Nas aldeias, o comparecimento subiu no 2º turno

Eleitores que votaram, em % dos aptos, nas seções indígenas e em todas as seções do país.

Comparecimento, em % dos eleitores aptos: seções indígenas, 80,5% no 1º turno e 81,8% no 2º; todo o país, 79,2% no 1º turno e 81,0% no 2º.○ 1º turno (4 de outubro) ● 2º turno (25 de outubro)70%75%80%85%90%Seções indígenas: comparecimento de 80,5% no 1º turno e 81,8% no 2º turnoSeções indígenas1º turno80,5%2º turno81,8%Todo o país: comparecimento de 79,2% no 1º turno e 81,0% no 2º turnoTodo o país1º turno79,2%2º turno81,0%
Ver os dados em tabela
1º turno2º turno
Seções indígenas80,5%81,8%
Todo o país79,2%81,0%
Fonte: TSE, votação e comparecimento por seção e locais de votação, 1º e 2º turnos de 2026; Funai, terras indígenas e aldeias. Seções no exterior não entram na conta do país. Seções indígenas: as de locais de votação dentro de terras indígenas (fora de centros urbanos) ou com “indígena” no nome; critério completo na reportagem. Cálculo e arte: Revista Caipora.

Campanha nas aldeias, nas ruas e nas redes

A Apib declarou apoio à reeleição de Lula em abril, durante o Acampamento Terra Livre, numa carta com um título que resumia a relação: “Nosso apoio demanda compromisso”, segundo a Mídia NINJA. Em agosto, entregou ao Palácio do Planalto um documento que cobra a demarcação de todas as terras indígenas até 2030 e a publicação das portarias de 12 terras já encaminhadas ao Ministério da Justiça. “Mais uma vez, não tivemos a prioridade necessária por parte do governo”, disse Dinamam Tuxá, da coordenação da Apib, ao ISA.

O primeiro turno acendeu o alerta. Além de deixar Flávio na frente, elegeu um Congresso que a Apib chamou de “Congresso mais inimigo dos povos da história”; a bancada indígena na Câmara caiu para três deputados, e Célia Xakriabá (PSOL-MG) e Joenia Wapichana (PT-RR) ficaram de fora, segundo o Brasil de Fato. Num artigo publicado pela Apib, Dinamam Tuxá chamou Flávio de “marionete de Donald Trump” e escreveu que o Congresso “se consolida como um Regresso Nacional” (Apib).

A campanha do segundo turno teve atos em todo o país em 18 de outubro e o mote “Povos Indígenas com Lula! Vote no 2º turno pela demarcação das Terras Indígenas!”. A cantora Djuena Tikuna publicou um vídeo cantando o Hino Nacional em tikuna: “Eu escolho estar ao lado da democracia. Eu apoio Lula”. O pensador Ailton Krenak resumiu o apelo em duas palavras: “É uma frase tão simples: fique vivo! O outro lado é a necropolítica”, disse à Mongabay. Na mesma reportagem, Adneia Yanomami pediu: “Não queremos voltar a chorar”.

Em 21 de outubro, povos das 14 etnias do Baixo Tapajós foram às ruas de Santarém (PA) com o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns. “Nós, povos indígenas e demais membros dos movimentos sociais, estaremos na rua pedindo voto ao presidente Lula”, disse Lukas Tupinambá, presidente do conselho, segundo o Galera Vermelha. Três dias depois, a Rede Nacional da Advocacia Indígena lançou um manifesto pela reeleição: “Não há neutralidade possível quando estão em jogo os direitos fundamentais” (Apib).

Com uma única canetada, ele pode desfazer todas as conquistas que nós conseguimos nesses quase quatro anos.

Eloy Terena, ministro dos Povos Indígenas, sobre Flávio Bolsonaro, à Mongabay

O medo tinha endereço. Em abril, numa feira do agronegócio em Sinop (MT), Flávio prometeu: “Se depender do nosso governo, nenhuma dessas reservas será demarcada”, segundo o Money Times. Em agosto, num podcast, defendeu que os indígenas possam arrendar suas terras: “Arrendar sua terra? Vai fazer”, segundo o Congresso em Foco. Durante a campanha, garimpeiros telefonaram a jovens Yanomami avisando que voltariam ao território se Flávio vencesse, e fazendeiros marcaram para o dia da eleição uma invasão da Apyterewa, mostrou a Agência Pública. “A gente sabe que eles vão voltar tudinho se o Flávio ganhar”, disse Alessandra Korap Munduruku.

Onde Flávio venceu

O voto indígena não foi unânime. No primeiro turno, Flávio venceu em 63 dos 658 locais indígenas: 31 em Roraima, 6 em Mato Grosso, 5 no Maranhão, 5 no Pará e 16 em outros estados. Em Mato Grosso, venceu numa escola indígena Paresi de Campo Novo do Parecis, município onde fez campanha em agosto, por 74 votos a 22, e em locais como a aldeia Sangradouro, em General Carneiro, mostrou o Olhar Direto. Na visita, Flávio apresentou a produção de soja e milho dos Paresi como “um exemplo do que a gente pode fazer” com outras comunidades, e lideranças pediram um fundo federal que garanta crédito para máquinas e insumos, segundo o Metrópoles.

No segundo turno, Flávio venceu em 50 locais indígenas: 22 em Roraima, 6 em Mato Grosso, 5 no Maranhão, 3 em Minas Gerais e 14 em outros estados. Em Roraima, o colunista Jessé Souza, da Folha de Boa Vista, atribui parte desse voto à “compra de votos que historicamente tem marcado os pleitos” no estado; nenhuma candidatura indígena se elegeu ali.

Infográfico

Flávio venceu em 50 dos 658 locais de votação indígenas

Locais de votação em terras e comunidades indígenas, por estado e por candidato mais votado no 2º turno.

Locais de votação indígenas por estado e por candidato mais votado no 2º turno: Amazonas, Lula venceu em 113 e Flávio em 2; Roraima, Lula venceu em 60 e Flávio em 22; Maranhão, Lula venceu em 53 e Flávio em 5; Pará, Lula venceu em 55 e Flávio em 3; Mato Grosso, Lula venceu em 51 e Flávio em 6; Mato Grosso do Sul, Lula venceu em 49 e Flávio em 1; Minas Gerais, Lula venceu em 28 e Flávio em 3; Ceará, Lula venceu em 29 e Flávio em 1; Bahia, Lula venceu em 28 e Flávio em 0; Tocantins, Lula venceu em 27 e Flávio em 0; Acre, Lula venceu em 21 e Flávio em 1; Pernambuco, Lula venceu em 21 e Flávio em 0; Rondônia, Lula venceu em 19 e Flávio em 2; Paraná, Lula venceu em 12 e Flávio em 0; Santa Catarina, Lula venceu em 7 e Flávio em 3; Outros 9 estados, Lula venceu em 35 e Flávio em 1.Lula venceuFlávio venceuFlávioAmazonas: 115 locais de votação indígenas; Lula venceu em 113, Flávio em 2Amazonas1152Roraima: 82 locais de votação indígenas; Lula venceu em 60, Flávio em 22Roraima8222Maranhão: 58 locais de votação indígenas; Lula venceu em 53, Flávio em 5Maranhão585Pará: 58 locais de votação indígenas; Lula venceu em 55, Flávio em 3Pará583Mato Grosso: 57 locais de votação indígenas; Lula venceu em 51, Flávio em 6Mato Grosso576Mato Grosso do Sul: 50 locais de votação indígenas; Lula venceu em 49, Flávio em 1Mato Grosso do Sul501Minas Gerais: 31 locais de votação indígenas; Lula venceu em 28, Flávio em 3Minas Gerais313Ceará: 30 locais de votação indígenas; Lula venceu em 29, Flávio em 1Ceará301Bahia: 28 locais de votação indígenas; Lula venceu em 28, Flávio em 0Bahia280Tocantins: 27 locais de votação indígenas; Lula venceu em 27, Flávio em 0Tocantins270Acre: 22 locais de votação indígenas; Lula venceu em 21, Flávio em 1Acre221Pernambuco: 21 locais de votação indígenas; Lula venceu em 21, Flávio em 0Pernambuco210Rondônia: 21 locais de votação indígenas; Lula venceu em 19, Flávio em 2Rondônia212Paraná: 12 locais de votação indígenas; Lula venceu em 12, Flávio em 0Paraná120Santa Catarina: 10 locais de votação indígenas; Lula venceu em 7, Flávio em 3Santa Catarina103Outros 9 estados: 36 locais de votação indígenas; Lula venceu em 35, Flávio em 1Outros 9 estados361
Ver os dados em tabela
EstadoLocais indígenasLula venceuFlávio venceuEmpate
Amazonas11511320
Roraima8260220
Maranhão585350
Pará585530
Mato Grosso575160
Mato Grosso do Sul504910
Minas Gerais312830
Ceará302910
Bahia282800
Tocantins272700
Acre222110
Pernambuco212100
Rondônia211920
Paraná121200
Santa Catarina10730
Outros 9 estados363510
Fonte: TSE, votação e comparecimento por seção e locais de votação, 1º e 2º turnos de 2026; Funai, terras indígenas e aldeias. Seções indígenas: as de locais de votação dentro de terras indígenas (fora de centros urbanos) ou com “indígena” no nome; critério completo na reportagem. Cálculo e arte: Revista Caipora.

O tamanho do voto indígena

Nas seções indígenas, Lula teve 177.662 votos a mais que Flávio, o equivalente a 4,0% da diferença nacional.

Roraima foi o estado em que Flávio teve sua maior votação nas aldeias: 35,9% dos votos válidos nas seções indígenas. Mesmo assim, ali Lula teve 64,1%, contra 24,5% no restante do eleitorado do estado, onde Flávio venceu com 72,5%.

O gráfico abaixo compara, estado por estado, o voto nas aldeias e no restante do eleitorado no primeiro turno, o último com os resultados completos de todas as seções do país.

Infográfico

Em 23 dos 24 estados com seções indígenas, Lula foi melhor nas aldeias do que no resto do eleitorado

Percentual de Lula nos votos válidos do 1º turno, nas seções indígenas e nas demais seções de cada estado. Estados com ao menos 1.000 eleitores aptos em seções indígenas; os outros estão na tabela.

Percentual de Lula nos votos válidos do 1º turno, nas seções indígenas e nas demais seções de cada estado: Tocantins, 96,1% nas seções indígenas e 43,0% nas demais; Amapá, 95,3% nas seções indígenas e 45,3% nas demais; Pernambuco, 92,5% nas seções indígenas e 63,4% nas demais; Alagoas, 91,3% nas seções indígenas e 54,7% nas demais; Amazonas, 91,2% nas seções indígenas e 47,2% nas demais; Maranhão, 88,8% nas seções indígenas e 63,9% nas demais; Mato Grosso do Sul, 86,2% nas seções indígenas e 33,7% nas demais; Mato Grosso, 83,6% nas seções indígenas e 28,8% nas demais; Pará, 83,0% nas seções indígenas e 49,8% nas demais; Rondônia, 81,0% nas seções indígenas e 25,7% nas demais; Acre, 80,8% nas seções indígenas e 28,0% nas demais; Espírito Santo, 80,6% nas seções indígenas e 37,7% nas demais; Rio Grande do Sul, 80,5% nas seções indígenas e 35,7% nas demais; Minas Gerais, 78,9% nas seções indígenas e 43,3% nas demais; Bahia, 77,1% nas seções indígenas e 66,2% nas demais; Paraná, 77,0% nas seções indígenas e 31,2% nas demais; Ceará, 75,0% nas seções indígenas e 63,3% nas demais; Paraíba, 71,0% nas seções indígenas e 61,3% nas demais; Santa Catarina, 67,7% nas seções indígenas e 25,0% nas demais; Piauí, 60,3% nas seções indígenas e 71,0% nas demais; Roraima, 57,7% nas seções indígenas e 19,9% nas demais.Seções indígenasDemais seções do estado← Flávio à frenteLula à frente →Aldeias0%25%50%75%100%Tocantins: Lula teve 96,1% dos votos válidos nas seções indígenas e 43,0% nas demais seções do estadoTocantins96,1%Amapá: Lula teve 95,3% dos votos válidos nas seções indígenas e 45,3% nas demais seções do estadoAmapá95,3%Pernambuco: Lula teve 92,5% dos votos válidos nas seções indígenas e 63,4% nas demais seções do estadoPernambuco92,5%Alagoas: Lula teve 91,3% dos votos válidos nas seções indígenas e 54,7% nas demais seções do estadoAlagoas91,3%Amazonas: Lula teve 91,2% dos votos válidos nas seções indígenas e 47,2% nas demais seções do estadoAmazonas91,2%Maranhão: Lula teve 88,8% dos votos válidos nas seções indígenas e 63,9% nas demais seções do estadoMaranhão88,8%Mato Grosso do Sul: Lula teve 86,2% dos votos válidos nas seções indígenas e 33,7% nas demais seções do estadoMato Grosso do Sul86,2%Mato Grosso: Lula teve 83,6% dos votos válidos nas seções indígenas e 28,8% nas demais seções do estadoMato Grosso83,6%Pará: Lula teve 83,0% dos votos válidos nas seções indígenas e 49,8% nas demais seções do estadoPará83,0%Rondônia: Lula teve 81,0% dos votos válidos nas seções indígenas e 25,7% nas demais seções do estadoRondônia81,0%Acre: Lula teve 80,8% dos votos válidos nas seções indígenas e 28,0% nas demais seções do estadoAcre80,8%Espírito Santo: Lula teve 80,6% dos votos válidos nas seções indígenas e 37,7% nas demais seções do estadoEspírito Santo80,6%Rio Grande do Sul: Lula teve 80,5% dos votos válidos nas seções indígenas e 35,7% nas demais seções do estadoRio Grande do Sul80,5%Minas Gerais: Lula teve 78,9% dos votos válidos nas seções indígenas e 43,3% nas demais seções do estadoMinas Gerais78,9%Bahia: Lula teve 77,1% dos votos válidos nas seções indígenas e 66,2% nas demais seções do estadoBahia77,1%Paraná: Lula teve 77,0% dos votos válidos nas seções indígenas e 31,2% nas demais seções do estadoParaná77,0%Ceará: Lula teve 75,0% dos votos válidos nas seções indígenas e 63,3% nas demais seções do estadoCeará75,0%Paraíba: Lula teve 71,0% dos votos válidos nas seções indígenas e 61,3% nas demais seções do estadoParaíba71,0%Santa Catarina: Lula teve 67,7% dos votos válidos nas seções indígenas e 25,0% nas demais seções do estadoSanta Catarina67,7%Piauí: Lula teve 60,3% dos votos válidos nas seções indígenas e 71,0% nas demais seções do estadoPiauí60,3%Roraima: Lula teve 57,7% dos votos válidos nas seções indígenas e 19,9% nas demais seções do estadoRoraima57,7%
Ver os dados em tabela
EstadoEleitores aptos nas seções indígenasLula nas seções indígenasLula nas demais seções do estado
Amazonas65.95491,2%47,2%
Mato Grosso do Sul39.98586,2%33,7%
Roraima29.82157,7%19,9%
Bahia19.69077,1%66,2%
Mato Grosso19.55883,6%28,8%
Pernambuco19.42092,5%63,4%
Maranhão19.40388,8%63,9%
Pará17.27383,0%49,8%
Ceará13.65575,0%63,3%
Minas Gerais9.55978,9%43,3%
Paraíba8.40571,0%61,3%
Acre8.37680,8%28,0%
Tocantins7.55696,1%43,0%
Santa Catarina6.07467,7%25,0%
Paraná5.39677,0%31,2%
Rio Grande do Sul5.00980,5%35,7%
Rondônia4.85181,0%25,7%
Amapá4.16595,3%45,3%
Piauí2.77260,3%71,0%
Espírito Santo1.87280,6%37,7%
Alagoas1.09791,3%54,7%
Sergipe34592,7%62,7%
Rio Grande do Norte30777,1%59,7%
Rio de Janeiro16796,1%39,4%
Fonte: TSE, votação e comparecimento por seção e locais de votação, 1º e 2º turnos de 2026; Funai, terras indígenas e aldeias. Seções indígenas: as de locais de votação dentro de terras indígenas (fora de centros urbanos) ou com “indígena” no nome; critério completo na reportagem. Cálculo e arte: Revista Caipora.

A comparação dentro de cada município mostra que a diferença não é só regional. No primeiro turno, em 229 dos 241 municípios com seções indígenas, Lula teve, nas aldeias, uma fatia dos votos válidos maior do que no restante do município. Somadas, as seções indígenas desses municípios deram a Lula 82,2% dos votos válidos; as demais seções das mesmas cidades, 45,9%.

O voto dos territórios é só uma parte do voto indígena: muitos indígenas votam nas cidades, como os que desceram o Xingu até Altamira. O eleitorado que se declara indígena à Justiça Eleitoral passou de 155 mil, em 2024, para 287 mil, quase metade na Região Norte, segundo o MPF, citado pela Agência Brasil. Em 2022, a Agência Pública já tinha mostrado que as terras indígenas respondiam por um terço das urnas em que Lula teve todos os votos válidos (Agência Pública).

No segundo turno, Lula teve todos os votos válidos em 64 seções indígenas; Flávio, em nenhuma. Votações unânimes são comuns em comunidades pequenas e não indicam fraude: em 2022, boatos usaram urnas de aldeias com zero voto para Jair Bolsonaro como suposta prova, e a Agência Pública mostrou que elas refletiam o voto das comunidades.

O que vem depois da urna

A vitória não encerra a pauta. A Apib quer ver cumprido o plano de demarcação até 2030 e uma política nacional de retirada de invasores das terras indígenas. O Congresso que toma posse em 2027 é mais hostil: só no PL serão 121 deputados, segundo o artigo de Dinamam Tuxá. E a violência política seguiu durante a campanha: entre outubro de 2024 e agosto de 2026, as organizações Terra de Direitos e Justiça Global registraram 354 casos no país, um a cada 44 horas, segundo a Agência Pública; na Terra Indígena Votouro, no Rio Grande do Sul, três Kaingang morreram em 13 de outubro, numa crise que moradores ligam à eleição.

“Uma eleição não derrota 526 anos de resistência indígena”, escreveu a Apib depois do primeiro turno. No segundo, as aldeias mostraram que também sabem vencer uma.


Os dados completos, por seção, estão no mapa interativo. A reportagem será atualizada se o TSE revisar os números.

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