Território e Cultura · Reportagem · Apuração até 2 de novembro de 2026
“Nós só queremos viver.” A frase é de Sueli Maxakali, professora e cineasta da Aldeia Escola Floresta, em Teófilo Otoni (MG). Ela falou em julho de 2026, quando lideranças levaram suas denúncias ao Comitê Juspovos, que reúne órgãos do sistema de Justiça (Metrópoles). O pajé Joviel Maxakali disse que o povo já não tem roça. Marilton Maxakali, professor e liderança da aldeia Pradinho, descreveu a água das torneiras: “A água chega amarelada, com ferro.”
Os Tikmũ’ũn são cerca de 2.500 pessoas. Fora das aldeias, são conhecidos como Maxakali. Vivem em quatro terras indígenas nos municípios de Santa Helena de Minas, Bertópolis, Ladainha e Teófilo Otoni, no nordeste de Minas, perto da divisa com a Bahia. A maior é a Terra Indígena Maxakali, com as áreas de Água Boa e Pradinho. As outras três são reservas menores: Aldeia Verde, Cachoeirinha e Escola Floresta. Muitos não falam português (TJMG).
Mapa interativo
Onde vivem os Tikmũ’ũn
As quatro terras indígenas do povo no Vale do Mucuri, com a distância em linha reta até Teófilo Otoni, onde ficam o polo de saúde indígena e uma das unidades da Funai. Por estrada, o caminho é mais longo.
Terras dos Tikmũ’ũnMunicípios onde ficam– – distância em linha reta até Teófilo Otoni
Os quatro municípios com terras Tikmũ’ũn▭ área do mapa do Vale do Mucuri
Os Tikmũ’ũn vivem em quatro terras, em quatro municípios do Vale do Mucuri. A maior, a TI Maxakali, fica a 147 km de Teófilo Otoni em linha reta. Toque numa terra.
Ver a tabela das quatro terras
| Terra | Município | Área (ha) | Situação (Funai) | Até Teófilo Otoni, em linha reta |
|---|---|---|---|---|
| TI Maxakali | Santa Helena de Minas e Bertópolis | 5.306 | Regularizada, tradicionalmente ocupada | 147 km |
| Reserva Hãm Yîxux (Aldeia Verde) | Ladainha | 523 | Regularizada, reserva indígena | 30 km |
| Reserva Mundo Verde/Cachoeirinha | Teófilo Otoni | 606 | Regularizada, reserva indígena | 42 km |
| Reserva Aldeia Escola Floresta | Teófilo Otoni | 121 | Regularizada, reserva indígena | 13 km |
Fontes: Funai, camada de terras indígenas (2026); malha municipal do IBGE; Ministério da Saúde. Distâncias calculadas pela Caipora do ponto central de cada terra até a sede de Teófilo Otoni. Arte: Revista Caipora.
Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado em 2025 na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, mostra o tamanho da crise. Com dados oficiais de 2022, eles compararam os Tikmũ’ũn aos 162 mil moradores não indígenas dos mesmos quatro municípios. A mortalidade de bebês foi de 66,7 por mil nascidos vivos, quase quatro vezes a dos vizinhos (17,5) e perto da do Brasil inteiro em 1980 (69,1, segundo o IBGE). Só 2,4% dos Tikmũ’ũn tinham 60 anos ou mais. Entre os vizinhos, 17,9%.
Em julho, o Ministério Público Federal (MPF) levou o caso à Justiça e falou em “estado de coisas inconstitucional”, expressão usada quando a violação de direitos é ampla e só se resolve com a ação conjunta de vários órgãos (MPF). Em 23 de julho, a Justiça Federal deu prazos de 30 a 60 dias para União, Funai, governo de Minas e as quatro prefeituras agirem, sob multa (Metrópoles). Em outubro, um incêndio atingiu cerca de 3,3 mil hectares da Terra Indígena Maxakali, mais de 60% da área, segundo estimativa preliminar do Ibama (Metrópoles). “Tudo acabou”, disse Marilton.

Bebês que não chegam a 1 ano
Em 2022, nasceram 75 bebês Tikmũ’ũn, segundo os registros usados no estudo. Cinco morreram antes de completar 1 ano: um com menos de um mês de vida e quatro entre o primeiro mês e o primeiro aniversário. A conta dá 66,7 mortes por mil nascidos vivos (Oda, Gasparini e Furtado, 2025).
Entre os indígenas de Minas Gerais, a taxa foi de 26 por mil. Entre os indígenas do Brasil, de 26,2. Entre os não indígenas, de 10,9 em Minas e de 11,9 no país. Os Tikmũ’ũn estão longe dos dois grupos.
Os números são pequenos, e isso pede cuidado. Com 75 nascimentos, cada morte a mais ou a menos muda a taxa em mais de 13 pontos, e o resultado de um ano pode subir ou cair muito no seguinte. Mesmo assim, a distância é grande: com a taxa dos vizinhos não indígenas, seria esperada pouco mais de uma morte entre 75 bebês, e não cinco.
Na ação, o MPF fala em “mortes decorrentes de causas que poderiam ser evitadas, como desnutrição e infecções respiratórias ou intestinais” (CartaCapital). E as mortes não ficaram em 2022. “Precisamos fortalecer a nossa saúde porque este ano morreu muita criança”, disse o pajé Isael Maxakali, da Aldeia Escola Floresta, à CartaCapital, em julho de 2026.
Infográfico interativo
75 bebês, 5 mortes
Cada círculo é um bebê Tikmũ’ũn nascido em 2022. A taxa de 66,7 por mil é parecida com a do Brasil inteiro em 1980. Como os números são pequenos, uma morte a mais ou a menos muda muito a taxa.
bebê nascido em 2022morreu antes de completar 1 ano
Mortes antes de 1 ano, por mil nascidos vivos
Em 2022, nasceram 75 bebês Tikmũ’ũn, e 5 morreram antes de completar 1 ano: 66,7 por mil. Use os botões para ver quantas mortes haveria com a taxa de outros grupos.
Ver os dados em tabela
| Grupo | Mortes antes de 1 ano por mil nascidos vivos | Observação |
|---|---|---|
| Tikmũ’ũn, 2022 | 66,7 | 5 mortes de bebês em 75 nascimentos |
| Brasil, 1980 | 69,1 | toda a população, segundo o IBGE |
| Indígenas do Brasil, 2022 | 26,2 | no resumo do artigo, 26,7 |
| Indígenas de Minas, 2022 | 26,0 | |
| Não indígenas da região, 2022 | 17,5 | Santa Helena de Minas, Bertópolis, Ladainha e Teófilo Otoni |
| Não indígenas do Brasil, 2022 | 11,9 | |
| Não indígenas de Minas, 2022 | 10,9 |
Fontes: Oda, Gasparini e Furtado (Unifesp), Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2025, com dados de 2022 do Siasi, do SIM e do Sinasc; IBGE, para 1980. “Vizinhos” são os não indígenas de Santa Helena de Minas, Bertópolis, Ladainha e Teófilo Otoni. Arte: Revista Caipora.
Um povo de jovens, quase sem velhos
A pirâmide de idade dos Tikmũ’ũn tem base larga e topo estreito. Em 2022, a faixa mais numerosa era a de 10 a 19 anos, com 30% do povo, cerca de 750 pessoas. Só 59 pessoas tinham 60 anos ou mais: 2,4%. Entre os vizinhos não indígenas, 17,9% tinham essa idade. Em Minas, 17,8%; no Brasil, 15,9%.
O número não quer dizer que só 2,4% dos Tikmũ’ũn cheguem aos 60 anos, como saiu em parte da imprensa. É a parte dos idosos na população de hoje. Um povo com muitos jovens e poucos velhos pode ser resultado de muitas mortes precoces, de muitos nascimentos ou das duas coisas. Para o procurador da República Edmundo Antônio Dias, autor da ação, o estudo “expõe graves distorções na pirâmide etária do chamado ‘Povo do Canto’” (TJMG).
Infográfico interativo
Um povo de jovens, quase sem velhos
Em 2022, só 2,4% dos Tikmũ’ũn tinham 60 anos ou mais. Isso não quer dizer que só 2,4% cheguem aos 60: é a parte dos idosos na população de hoje.
60 anos ou maisoutras idades
Tikmũ’ũn2,4 em cada 100 têm 60 anos ou mais
Vizinhos não indígenas17,9 em cada 100
Parte da população com 60 anos ou mais
Em cada 100 Tikmũ’ũn, só 2,4 têm 60 anos ou mais. Entre os vizinhos não indígenas, 17,9. Toque numa das grades.
Ver os dados em tabela
| Grupo | 60 anos ou mais (%) |
|---|---|
| Tikmũ’ũn | 2,4 |
| Não indígenas da região | 17,9 |
| Minas Gerais | 17,8 |
| Brasil | 15,9 |
Fonte: Oda, Gasparini e Furtado (Unifesp), Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2025, com dados do Siasi e do Censo de 2022. Arte: Revista Caipora.
Quem morre, e com que idade
O estudo não mede a chance de morrer em cada idade. Ele compara outra coisa: como as mortes se dividem entre as faixas de idade, o que os epidemiologistas chamam de mortalidade proporcional. Em 2022, morreram 20 Tikmũ’ũn. Oito eram crianças com menos de 5 anos, 40% do total. Entre os vizinhos não indígenas, as crianças dessa idade foram 3% das mortes.
Só as crianças de 1 a 4 anos foram 15% das mortes Tikmũ’ũn (3 de 20), contra 0,5% entre os vizinhos (6 de 1.303). A proporção é 30 vezes maior. É daí que vem o “30 vezes” de comunicados e reportagens. Não quer dizer que 15% das crianças Tikmũ’ũn morram na infância.
No outro extremo, só 25% das mortes Tikmũ’ũn foram de pessoas com 50 anos ou mais. Entre os vizinhos, 82,6%. Entre os indígenas de Minas, 72,4%, e entre os do Brasil, 54,7%. Em geral, quanto mais as mortes se concentram nos mais velhos, melhores são as condições de vida de uma população. Por isso, a parte das mortes de pessoas com 50 anos ou mais é usada como um indicador do nível de saúde.
Os adultos de 20 a 49 anos foram outros 25% das mortes Tikmũ’ũn, quase o dobro da proporção entre os vizinhos (13,2%). O estudo não informa as causas dessas mortes. Na ação, o MPF cita o alcoolismo e problemas de saúde mental entre os fatores da crise. O consumo de bebidas de alto teor alcoólico entre os Maxakali é tema de estudos há décadas, inclusive de um artigo publicado pela própria Funai.
Lideranças contaram ao Metrópoles que jovens se isolam e bebem, relataram mortes de jovens por suicídio, inclusive em suas famílias, e pediram atendimento permanente em saúde mental nas aldeias.
Se você ou alguém próximo está passando por um momento difícil, o CVV atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.
Infográfico interativo
Quem morre, e com que idade
Em vez de taxas, o estudo compara a parte de cada idade no total de mortes. Entre os Tikmũ’ũn, as mortes se concentram nas crianças e nos adultos jovens.
Tikmũ’ũn (20 mortes)Vizinhos não indígenas (1.303 mortes)
Parte de cada faixa de idade no total de mortes de 2022
Entre os Tikmũ’ũn, 1 em cada 4 mortes foi de um bebê com menos de 1 ano. Entre os vizinhos, 1 em cada 40. Toque numa faixa de idade.
Ver os dados em tabela
| Idade | Mortes Tikmũ’ũn | % das mortes Tikmũ’ũn | Mortes dos vizinhos | % das mortes dos vizinhos |
|---|---|---|---|---|
| Menos de 1 ano | 5 | 25% | 32 | 2,5% |
| 1 a 4 anos | 3 | 15% | 6 | 0,5% |
| 5 a 19 anos | 2 | 10% | 17 | 1,3% |
| 20 a 49 anos | 5 | 25% | 172 | 13,2% |
| 50 anos ou mais | 5 | 25% | 1.076 | 82,6% |
Fonte: Oda, Gasparini e Furtado (Unifesp), Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2025, com dados de 2022. O estudo não traz as causas das mortes. Arte: Revista Caipora.
Como ler os números
- 66,7 por mil é a mortalidade infantil de 2022: 5 mortes de bebês em 75 nascimentos. Com números tão pequenos, a taxa pode variar muito de um ano para outro.
- 11,9 por mil é a taxa dos não indígenas do Brasil em 2022, e não a média de toda a população.
- 15% e 0,5% são partes do total de mortes, e não a parte das crianças que morre. Entre os Tikmũ’ũn, 3 das 20 mortes de 2022 foram de crianças de 1 a 4 anos; entre os vizinhos, 6 de 1.303.
- 2,4% é a parte da população com 60 anos ou mais, e não a chance de chegar aos 60.
- 25% é a parte das mortes na faixa de 20 a 49 anos. O estudo não traz causas de morte; a ligação com álcool e suicídio vem de relatos de lideranças e da ação do MPF.
- A água foi analisada por pesquisadores da UFVJM e da Unisinos, com coletas de 2015, e não pela UFMG.
A água que chega amarela
Moradores contam que a água amarelada dá dor de barriga. Quando falta energia, falta água, às vezes por uma semana; quando a bomba queima, a aldeia inteira fica sem. “Quando acaba a energia, acaba a água também”, disse o pajé Isael (Metrópoles).
Os dados publicados mais recentes que a Caipora encontrou sobre essa água são de 2015. Naquele ano, pesquisadores da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) coletaram água três vezes, em janeiro, abril e julho, em 24 fontes de quatro aldeias: poços artesianos, nascentes represadas, rios e lagoas. Coliformes termotolerantes, bactérias que indicam contaminação por fezes, apareceram em 9 de cada 10 amostras de Água Boa e em dois terços ou mais das amostras das outras aldeias. Todas as fontes subterrâneas tinham essas bactérias. Os autores concluíram que a água era imprópria para consumo, com risco de doenças (Sociedade & Natureza, 2020).
Em outro artigo, com as mesmas coletas, o grupo mediu metais. O ferro passou do limite para água de beber em metade das coletas e em 23 das 24 fontes pelo menos uma vez. O maior valor foi quase 300 vezes o limite. Arsênio, alumínio, cádmio e mercúrio também passaram do limite em parte das coletas, e o chumbo, em quatro fontes (Revista Ambiente & Água, 2019).
Infográfico interativo
A água das aldeias
Resultados de três coletas feitas em 2015, em janeiro, abril e julho, em poços, nascentes, rios e lagoas usados pelos moradores. São os dados publicados mais recentes; a Justiça mandou monitorar a água de novo em 2026.
Amostras com coliformes termotolerantes, como a E. coli, por aldeia (população de 2013, citada no estudo)
Amostras com coliformes totais, por aldeia (população de 2013, citada no estudo)
Amostras com oxigênio dissolvido abaixo de 6 mg/L, por aldeia (população de 2013, citada no estudo)
Amostras com turbidez acima de 40 NTU, por aldeia (população de 2013, citada no estudo)
Coletas com o metal acima do limite para água de beber
Também houve chumbo acima do limite em 4 fontes, com até 5 vezes o permitido, e alumínio em Pradinho com mais de 200 vezes o limite.
Em Água Boa, 9 em cada 10 amostras de água tinham coliformes fecais, bactérias que vêm de fezes. Escolha o que ver nos botões e toque numa aldeia.
Ver os dados em tabela
| Aldeia (município) | Coliformes fecais | Coliformes totais | Pouco oxigênio | Turbidez |
|---|---|---|---|---|
| Pradinho (Bertópolis) | 67% | 55,5% | 70% | 30% |
| Água Boa (Santa Helena de Minas) | 90% | 81% | 57% | 19% |
| Aldeia Verde (Ladainha) | 73% | 60% | 53% | 7% |
| Cachoeirinha (Teófilo Otoni) | 67% | 78% | 67% | 0% |
| Metal: Ferro | 50% das coletas acima do limite | |||
| Metal: Arsênio | 46% das coletas acima do limite | |||
| Metal: Alumínio | 36% das coletas acima do limite | |||
| Metal: Cádmio | 22% das coletas acima do limite | |||
| Metal: Mercúrio | 20% das coletas acima do limite |
Fontes: Assis e outros (UFVJM e Unisinos), Sociedade & Natureza, 2020; Revista Ambiente & Água, 2019. Limites da Portaria 2.914/2011 do Ministério da Saúde e de resoluções do Conama. As análises não são da UFMG, como saiu em parte da imprensa. Arte: Revista Caipora.
A Aldeia Escola Floresta, em Teófilo Otoni, teve dois surtos de diarreia em dois anos. Em fevereiro de 2024, ao menos 13 crianças tiveram diarreia e vômito. Metade da aldeia bebia água de um poço artesiano sem tratamento, e a outra metade, de uma nascente. “A gente pega água de um poço artesiano, que não tem tratamento nenhum”, disse Isael na época. A prefeitura negou que houvesse crianças internadas (Itatiaia).
O segundo surto começou em dezembro de 2025 e chegou a 33 casos. Uma criança morreu no início de janeiro. Segundo os Maxakali, ela foi levada quatro vezes à UPA de Teófilo Otoni e recebeu alta em todas. A Secretaria de Saúde de Minas atribuiu a morte a complicações respiratórias e disse que, até aquele momento, não havia relação com a diarreia. O Ministério da Saúde disse que reforçou as equipes, fez busca ativa nas casas e analisou a água, sem encontrar alteração. O MPF abriu apuração sobre a morte e sobre denúncias de racismo no atendimento: mães desacreditadas e funcionários que imitavam a língua maxakali de forma ofensiva, segundo as lideranças. A Prefeitura de Teófilo Otoni não respondeu ao ICL Notícias.
Longe de tudo
Da TI Maxakali até Teófilo Otoni, onde fica o Polo Base de saúde indígena, são 147 km em linha reta. Não há veículos nas aldeias, e os pedidos de socorro demoram a ser atendidos, segundo os relatos ao Metrópoles. Famílias que recebem de R$ 700 a R$ 900 por mês gastam de R$ 500 a R$ 600 com frete para ir ao banco. No comércio, um leite de R$ 20 sai por R$ 50, contou Marilton.
Muitos de nós não falamos português e somos enganados por comerciantes.
Marilton Maxakali, aldeia Pradinho, ao Comitê Juspovos (TJMG)
Maria Diva Maxakali, liderança de Água Boa, resumiu a falta de estrutura: “Precisamos de mais estrutura, principalmente da Funai, que conta com apenas uma servidora” (TJMG). Em 2025, a Câmara de Teófilo Otoni aprovou o maxakali como segunda língua oficial do município (Estado de Minas).
Sem documento, fica mais difícil chegar ao banco, aos benefícios sociais e ao próprio atendimento de saúde. Segundo levantamento da equipe do projeto Hãmhi nas aldeias, mais de 600 pessoas das áreas de Pradinho e Água Boa não têm registro civil. Em maio de 2026, o Tribunal de Justiça de Minas fez uma mediação entre a Funai e o cartório de Santa Helena de Minas para facilitar os registros. “Quando a Funai e o cartório falam a mesma língua, quem ganha é o indígena Maxakali”, disse o juiz Matheus Moura Matias Miranda (TJMG).
A terra que encolheu
Os Tikmũ’ũn já ocuparam uma grande área de Mata Atlântica entre Minas, Bahia e Espírito Santo (CartaCapital). Em 1808, cartas régias de dom João autorizaram a “guerra justa” contra os Botocudo no leste de Minas; pressionados pela colonização, grupos Maxakali foram aldeados à força e usados como trabalhadores e soldados. No século 20, o Estado demarcou duas áreas pequenas, separadas por um corredor de fazendas: Água Boa, em 1940, e Pradinho, criada em 1956, depois do assassinato da liderança Antônio Cascorado. Só em 1993 as duas viraram uma área contínua, homologada em 1996. Na ditadura, o capitão Manoel Pinheiro, à frente do órgão indigenista em Minas, criou a Guarda Rural Indígena, para vigiar e impor trabalho nas aldeias, e mandava indígenas tidos como rebeldes para o Reformatório Krenak (ISA).
Grande parte da terra demarcada perdeu a mata. Na decisão de julho, a Justiça registrou que “a degradação ambiental e a supressão florestal nas terras demarcadas impedem a subsistência autônoma da comunidade” (MPF). “Antigamente existiam 33 espécies de abelhas”, disse Sueli Maxakali, ao lembrar o mel e as raízes que fortaleciam as crianças (Metrópoles).
Desde 2023, o projeto Hãmhi Terra Viva, dos Tikmũ’ũn com o Instituto Opaoká, coordenado pela professora Rosângela de Tugny, reflorestou 160 hectares e criou cem quintais agroflorestais (CartaCapital). O MPF destinou R$ 1,9 milhão ao projeto (MPF), que foi finalista de um prêmio da Unesco (MPF). “Eles realmente querem continuar sendo esse povo”, disse Rosângela à CartaCapital.
Linha do tempo interativa
De 1808 a 2026
A terra, a violência e a saúde dos Tikmũ’ũn em 21 momentos. Filtre por tipo; cada item traz o link para a fonte.
Terra e direitosViolência e abandonoSaúde e água
- 1808Cartas régias de dom João autorizam a “guerra justa” contra os Botocudo no leste de Minas. Pressionados pela colonização, grupos Maxakali são aldeados à força e usados como trabalhadores e soldados. · fonte
- 1940A área de Água Boa é demarcada. · fonte
- 1956Depois do assassinato da liderança Antônio Cascorado, sai a decisão de criar a área de Pradinho. Entre as duas fica um corredor de fazendas. · fonte
- 1966Na ditadura, o capitão Manoel Pinheiro assume o órgão indigenista em Minas. Ele cria a Guarda Rural Indígena, para vigiar e impor trabalho nas aldeias, e manda indígenas tidos como rebeldes para o Centro de Reeducação Indígena Krenak, o Reformatório Krenak. · fonte
- 1974A Guarda Rural Indígena é desfeita, quando Pinheiro deixa o comando. · fonte
- 1993Água Boa e Pradinho são demarcadas como uma área só, a Terra Indígena Maxakali. · fonte
- 1996A TI Maxakali, com 5,3 mil hectares, é homologada. A disputa judicial pelo antigo corredor de fazendas continua. · fonte
- 2015Pesquisadores da UFVJM e da Unisinos coletam água em 24 fontes de quatro aldeias. Os estudos, publicados em 2019 e 2020, concluem que a água é imprópria para consumo. · fonte
- 2021Famílias vindas de Ladainha se instalam na Reserva Aldeia Escola Floresta, em Teófilo Otoni, numa área pequena e degradada perto do Rio Todos os Santos. · fonte
- 2022Ano dos dados do estudo da Unifesp: nascem 75 bebês Tikmũ’ũn, e 5 morrem antes de completar 1 ano. · fonte
- 2023Começa o projeto Hãmhi Terra Viva, dos Tikmũ’ũn com o Instituto Opaoká, para reflorestar os territórios. · fonte
- Fev/2024Surto de diarreia e vômito na Aldeia Escola Floresta: ao menos 13 crianças doentes. Parte da aldeia bebe água de um poço sem tratamento. · fonte
- Set/2025A Câmara de Teófilo Otoni aprova o maxakali como segunda língua oficial do município. · fonte
- Dez/2025Novo surto de diarreia na Aldeia Escola Floresta, com 33 casos. Uma criança morre no início de janeiro. O MPF apura a morte e denúncias de racismo no atendimento. · fonte
- Mar/2026Tempestade com raios atinge aldeias da TI Maxakali, e indígenas morrem. A Justiça mandaria depois corrigir os para-raios. · fonte
- Mai/2026O TJMG faz uma mediação entre a Funai e o cartório de Santa Helena de Minas para facilitar o registro civil dos Maxakali. · fonte
- 15/7/2026Lideranças relatam fome, água ruim e falta de transporte ao Comitê Juspovos, que reúne órgãos do sistema de Justiça. · fonte
- 16/7/2026O MPF divulga a ação civil pública contra União, Funai, Minas Gerais e quatro prefeituras e fala em “estado de coisas inconstitucional”. · fonte
- 23/7/2026A Justiça Federal manda União, Funai, Minas e os quatro municípios agirem em prazos de 30 a 60 dias, sob multa. · fonte
- 7/10/2026Começa o incêndio que atingiria cerca de 3,3 mil hectares da TI Maxakali, pela estimativa preliminar do Ibama. · fonte
- 15/10/2026O MPMG dá 24 horas para Bertópolis garantir água e comida às famílias. A prefeitura diz que não tem caminhão-pipa. · fonte
21 acontecimentos.
Fontes: Instituto Socioambiental (ISA), MPF, TJMG, MPMG, estudos da Unifesp, da UFVJM e da Unisinos, Metrópoles, Estado de Minas, ICL Notícias, Itatiaia, CartaCapital e Florestal Brasil. Arte: Revista Caipora.
Outubro: o fogo
O incêndio começou em 7 de outubro, segundo o relato publicado pelo Florestal Brasil. Para Marilton, o fogo saiu de uma fazenda e se espalhou pelo território, queimando roças, quintais e mata. A operação de combate começou no dia 11, com 19 bombeiros, 6 policiais militares, 9 brigadistas do Ibama e voluntários indígenas. Famílias ficaram sem água potável e sem comida, e moradores tinham tosse e falta de ar (Metrópoles).

Em 15 de outubro, o Ministério Público de Minas deu 24 horas para a Prefeitura de Bertópolis garantir água, cestas básicas, kits de higiene e agasalhos às famílias. A prefeitura respondeu que não tem caminhões-pipa nem equipes preparadas, que o combate ao fogo cabe ao estado e que decretou calamidade pública, à espera de ajuda estadual e federal. Para a promotora Úrsula Oliveira da Cunha, é “ilícita a postura do Município de se isentar” (MPMG).
O Ibama disse ao Metrópoles que vai considerar a contratação de brigadistas indígenas no planejamento de 2027 e que o Prevfogo deu um curso de brigadistas na região em 2024, com a Funai, e fez queimas controladas em 2025 e 2026. Os Tikmũ’ũn têm uma brigada voluntária, a Mãtanãg Kõnãnghi, criada em 2024, e pediram ao governo federal, em setembro, que ela fosse reconhecida (Metrópoles).
O que a Justiça mandou fazer
A ação civil pública do MPF, assinada pelo procurador Edmundo Antônio Dias, tem como réus a União, a Funai, o estado de Minas Gerais e os municípios de Teófilo Otoni, Ladainha, Santa Helena de Minas e Bertópolis (MPF). O MPF pede indenização por danos morais que pode chegar a R$ 10 milhões (CartaCapital).
Em 23 de julho, o juiz federal Antonio Lucio Tulio de Oliveira Barbosa aceitou parte dos pedidos em caráter liminar (Metrópoles). A decisão manda criar em 30 dias um comitê gestor, coordenado pelo distrito sanitário indígena, e entregar em 60 dias um plano com metas. Também manda manter plantão de 24 horas nas unidades de saúde das aldeias, garantir água potável nas aldeias e nas escolas, fornecer fórmulas infantis e cestas básicas, dar prioridade aos Maxakali nos leitos pediátricos, corrigir os para-raios, depois de uma tempestade que matou indígenas em março, e apurar as denúncias de racismo de janeiro. A multa vai de R$ 15 mil a R$ 60 mil por obrigação descumprida (MPF).
“A decisão da Justiça Federal é realmente histórica para o Tikmũ’ũn Maxakali”, disse Edmundo Antônio Dias, em nota do MPF.
Infográfico interativo
O que a Justiça mandou fazer
As ordens da decisão liminar de 23 de julho de 2026, na ação do MPF. Filtre por quem tem de cumprir.
- 30 diasGestão. Criar um comitê gestor, coordenado pelo distrito sanitário indígena (DSEI-MG/ES).Todos os entes
- 60 diasGestão. Entregar um plano de ação único, com metas, cronograma e indicadores.Todos os entes
- 30 diasFunai. Recompor as equipes de Teófilo Otoni e Santa Helena de Minas, com estrutura e veículos.Funai
- 60 diasFunai. Manter motoristas habilitados à disposição das unidades.Funai
- 30 diasSaúde. Plantão presencial de 24 horas nas unidades de saúde das aldeias, com transporte para urgências.União
- 45 diasSaúde. Aplicar a estratégia AIDPI em todas as aldeias e avaliar todas as crianças com menos de 5 anos.União
- 60 diasSaúde. Dimensionar e contratar as equipes de saúde do Polo Base Maxakali.União
- 60 diasSaúde. Concluir a entrega e a instalação de equipamentos na unidade de saúde da Aldeia Verde.União
- 45 diasSaúde. Fazer exames de laboratório nas aldeias a cada seis meses, com resultado em até 15 dias.Municípios
- 30 diasÁgua. Monitorar a potabilidade e garantir o fornecimento regular de água em todas as aldeias.União
- 30 diasÁgua. Garantir água potável contínua nas escolas indígenas.Minas Gerais, Municípios
- 30 diasComida. Fornecer fórmulas infantis e complementos a crianças com desnutrição grave ou em risco.União
- 30 diasComida. Distribuir cestas básicas periódicas, adequadas à cultura Tikmũ’ũn.Minas Gerais, Municípios
- sem prazoHospital. Criar um fluxo no SUS Fácil com prioridade em leitos pediátricos e “vaga zero” para os Maxakali (Minas e Teófilo Otoni).Minas Gerais, Municípios
- sem prazoHospital. Pagar o transporte de emergência e um acompanhante indígena durante as internações.Minas Gerais
- sem prazoRaios. Corrigir as falhas dos para-raios (Bertópolis).Municípios
- 30 diasRaios. Vistoriar as aldeias Verde, Água Boa, Cachoeirinha e Escola Floresta e apresentar um cronograma de obras antes das chuvas (Ladainha, Santa Helena de Minas e Teófilo Otoni).Municípios
- 30 diasDireitos. Abrir apurações sobre racismo institucional e omissões no atendimento de janeiro de 2026 (Minas e Teófilo Otoni).Minas Gerais, Municípios
- 60 diasDireitos. Criar um protocolo de atendimento a mulheres em situação de violência, com tradutores maxakali.Todos os entes
- 60 diasDireitos. Criar um programa de capacitação intercultural para os servidores.Todos os entes
O que disseram depois da decisão (ao Metrópoles, em 27/7):
Ministério da Saúde: diz que já cumpre a decisão; que constrói uma unidade de saúde na aldeia Pradinho, amplia as de Escola Floresta e Água Boa e reforma o Polo Base de Teófilo Otoni; que vai instalar um laboratório de monitoramento da água e novos poços; e que contrata 26 profissionais, além de 11 já contratados.
Secretaria de Saúde de Minas: diz que repassou recursos em dezembro e cita atendimento especializado em Teófilo Otoni, transporte sanitário e medicamentos.
AGU: diz que encaminhou a decisão para cumprimento.
Funai e prefeituras: não responderam ao Metrópoles.
São 20 ordens, com prazos de 30 a 60 dias. Os prazos contam a partir da intimação de cada ente.
Fontes: MPF (27/7/2026); Estado de Minas; Metrópoles. Ação civil pública nº 6018244-53.2026.4.06.3816, na Justiça Federal. Até 2/11/2026, a Caipora não encontrou balanço público do cumprimento. Arte: Revista Caipora.
O que dizem os governos
Depois da decisão, o Ministério da Saúde disse ao Metrópoles que já cumpre as ordens. Segundo o ministério, está em construção uma unidade de saúde na aldeia Pradinho; as de Escola Floresta e Água Boa estão sendo ampliadas; o Polo Base de Teófilo Otoni está em reforma; e serão instalados “um laboratório para monitoramento da qualidade da água e novos poços artesianos”. A Secretaria de Saúde Indígena contrata 26 profissionais, além de 11 já contratados, e o distrito sanitário distribui fórmulas infantis.
A Secretaria de Estado de Saúde de Minas disse que “já foram tomadas medidas, ainda em dezembro, de repasse de recursos” e citou atendimento especializado em Teófilo Otoni, transporte sanitário e medicamentos. A Advocacia-Geral da União disse que encaminhou a decisão para cumprimento. A Funai e as prefeituras não responderam ao Metrópoles.
Até 2 de novembro, a Caipora não encontrou balanço público sobre o cumprimento das ordens.
Em julho, diante das lideranças, o presidente do Tribunal de Contas de Minas, Durval Ângelo, disse: “Hoje não é mais hora da palavra. É hora da ação” (Metrópoles). Maria Diva Maxakali disse o que o povo quer: “Queremos apenas preservar nosso povo, nossa cultura e nossos recursos naturais” (TJMG).
Como fizemos
A Caipora leu o estudo da Unifesp e sua versão preliminar, os dois artigos sobre a água das aldeias, a ação e a decisão divulgadas pelo MPF, notícias do TJMG e do MPMG e reportagens do Metrópoles, do Estado de Minas, da CartaCapital, do ICL Notícias, da Itatiaia, de O Tempo e do Florestal Brasil. Os números foram conferidos na fonte original; onde a imprensa leu o estudo de outro jeito, seguimos o que o estudo diz e explicamos no quadro “Como ler os números”. O mapa usa a camada de terras indígenas da Funai e a malha municipal do IBGE; as distâncias, em linha reta, foram calculadas pela Caipora. A apuração foi fechada em 2 de novembro de 2026. Viu um erro? Escreva para a redação.
Fontes
- Oda, Gasparini e Furtado (Unifesp). Estrutura etária e mortalidade proporcional entre os Tikmũ’ũn/Maxakali. Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2025
- Versão preliminar do mesmo estudo (SciELO Preprints)
- Assis e outros (UFVJM e Unisinos). Qualidade da água consumida pela comunidade Maxakali. Sociedade & Natureza, 2020
- Metais na água consumida pela comunidade Maxakali. Revista Ambiente & Água, 2019
- IBGE: mortalidade infantil no Brasil desde 1980, via Jornal do Brasil (2013)
- Instituto Socioambiental, Povos Indígenas no Brasil: Tikmũ’ũn (Maxakali)
- João Luiz Pena. Os índios Maxakali: a propósito do consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Revista de Estudos e Pesquisas, Funai
- MPF: ação civil pública pela vida do povo Maxakali (16/7/2026)
- MPF: Justiça Federal determina medidas urgentes (27/7/2026)
- MPF: R$ 1,9 milhão para o projeto Hãmhi Terra Viva
- MPF: projeto no território Maxakali é finalista de prêmio da Unesco
- TJMG: Comitê Juspovos visita aldeias Maxakali (27/7/2026)
- TJMG: Cejusc aprimora o fluxo de registro civil do povo Maxakali (2/6/2026)
- MPMG: 24 horas para Bertópolis garantir água e alimentos (15/10/2026)
- CartaCapital, “Lenta agonia”, de Maurício Thuswohl (30/7/2026)
- Metrópoles, “Nós só queremos viver”, de Daniel Galera (26/7/2026)
- Metrópoles, Justiça determina intervenção, de Larissa Ricci (27/7/2026)
- Metrópoles, indígenas sem água e comida após uma semana de fogo, de Larissa Ricci (16/10/2026)
- Estado de Minas, Justiça determina força-tarefa, de Sofia Maia (27/7/2026)
- Estado de Minas, cidade mineira reconhece idioma indígena como segunda língua oficial (setembro de 2025)
- ICL Notícias, MPF investiga surto de diarreia em aldeia Maxakali (janeiro de 2026)
- Itatiaia, crianças indígenas internadas após consumirem água contaminada (fevereiro de 2024)
- Florestal Brasil, dez dias de fogo na Terra Indígena Maxakali (29/10/2026)
- O Tempo, incêndio na Terra Indígena Maxakali chega ao terceiro dia (13/10/2026)

