Levantamento da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos mostra que metade dos casos atingiu bebês e crianças de até 4 anos
O Brasil registrou 2.068 notificações de intoxicação por agrotóxicos entre crianças de até 14 anos em 2025, segundo dados do Ministério da Saúde reunidos pelo relatório Exposição Silenciosa: Os impactos dos agrotóxicos na saúde e nos direitos das crianças no Brasil. Desse total, 1.032 casos envolveram bebês e crianças de até 4 anos. O documento, produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos com as pesquisadoras Teresa Paris e Maria Luisa Mendonça, será lançado nesta quinta-feira (5).
O estudo aponta que o país teve 11.714 notificações de intoxicação por agrotóxicos em 2025, o maior número desde 2010, e alerta que a subnotificação e a dificuldade de diagnóstico da exposição prolongada escondem a real dimensão do problema. A pesquisa associa a contaminação infantil a alterações no desenvolvimento neurológico, distúrbios hormonais, malformações congênitas, problemas respiratórios e maior risco de leucemias, já que órgãos e sistemas das crianças ainda estão em formação.
Segundo o relatório, quatro culturas concentram o uso de agrotóxicos no país: soja, cana-de-açúcar, milho e algodão respondem por 83% do total comercializado, conforme dados do Atlas dos Agrotóxicos publicado em 2024 pela Fundação Heinrich Böll. A expansão desses monocultivos no Cerrado amplia os riscos para comunidades camponesas, indígenas e quilombolas, com denúncias de pulverização sobre territórios e escolas rurais em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pará. Em Belterra, no Pará, alunos e funcionários da Escola Vitalina Motta apresentaram sintomas de intoxicação após pulverização aérea em 2024. O documento também cita dados da Comissão Pastoral da Terra, que registrou 276 ocorrências de contaminação por agrotóxicos em conflitos no campo em 2024, atingindo 17.027 famílias.
A contaminação de alimentos é outro ponto destacado: dados de 2023 da Anvisa mostram resíduos de agrotóxicos em 63% das 3.294 amostras vegetais analisadas, com 26,1% apresentando irregularidades, como substâncias não autorizadas ou acima dos limites permitidos. Entre as recomendações do relatório ao governo brasileiro está a proibição da pulverização aérea em todo o território nacional, inclusive por drones — o Ceará é hoje o único estado que proíbe a prática por aeronaves tripuladas. A organização também defende zonas de proteção ao redor de escolas, moradias, comunidades rurais e fontes de água, além do fortalecimento da fiscalização e incentivo à agroecologia.
No plano internacional, o relatório cobra da União Europeia o cumprimento do compromisso assumido em 2020 de impedir a produção, em seu território, de agrotóxicos proibidos ali mas exportados para países como o Brasil. A pesquisa propõe ainda restrições à importação de alimentos com resíduos dessas substâncias e apoio à transição para sistemas agrícolas menos dependentes de insumos químicos.
Fonte: Brasil de Fato
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Brasil de Fato e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

