Investigação · Violência pós-eleitoral
Em três dias, as denúncias se concentraram em Mato Grosso do Sul, onde Flávio Bolsonaro teve 59,6% e as seções indígenas deram 89% a Lula. A Caipora checou cada caso em informações policiais, documentos oficiais e boletins de urna. A ameaça de Tacuru foi confirmada pela própria prefeitura. A Apib denuncia assassinatos e atropelamentos de indígenas, que ainda não têm registro oficial, e acusa a polícia de omissão.
Por volta das nove da noite de domingo (25), segundo o prefeito, dois servidores da Prefeitura de Tacuru, no sul de Mato Grosso do Sul, trocaram áudios no WhatsApp sobre o resultado da eleição. Lula acabava de ser reeleito e tinha vencido também ali, com 62,19% dos votos válidos, num município em que pouco mais de um terço dos moradores se declara indígena. “A própria população, o próprio município é um demônio”, diz um deles. O outro se apresenta como da equipe do secretário de Infraestrutura, a mesma secretaria do servidor que, segundo o prefeito, cuidava dos caminhões-pipa que abastecem as aldeias. Ele encerra: “Já falei, tem que ‘ponhar’ veneno na água. Matar essas pragas na água”.
Os áudios chegaram às redes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) na segunda-feira (26). No mesmo dia, a organização denunciou algo mais grave: segundo a Apib, indígenas foram assassinados em Naviraí e atropelados em Coronel Sapucaia, e houve ameaças de envenenamento da água em Tacuru e Nioaque. Na terça (27), indígenas Terena relataram ter sido impedidos de votar dentro das próprias aldeias. Até a noite de terça, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) já tinha recebido relatos de mais três municípios do estado.
A Revista Caipora levantou todas as denúncias públicas de ameaça e violência contra indígenas feitas desde o resultado e checou cada uma em informações policiais, notas oficiais e na imprensa local. Depois cruzou os lugares citados com os boletins de urna das seções indígenas, a mesma base da reportagem O voto das aldeias.
O que se sabe até a tarde de 28 de outubro
- Documentado: a ameaça de Tacuru. A prefeitura confirma que os autores são seus servidores e anunciou processo administrativo. O MPI mandou o caso à Polícia Federal.
- Em apuração: os relatos Terena de impedimento de voto e o áudio que manda “fechar a porteira”; denúncias de Amambai, Naviraí, região de Sidrolândia e Nioaque; a causa da morte de um jovem da aldeia Taquaperi, na véspera da votação.
- Mortes, segundo a Apib: assassinatos de indígenas em Naviraí e atropelamentos em Coronel Sapucaia, levados ao MPF e à PF numa representação criminal. A organização acusa omissão policial. Sejusp e PF dizem não ter registro de morte por violência política, e as mortes que a imprensa noticiou nessas cidades no fim de semana foram no sábado (24), antes do voto.
- Onde: todas as denúncias públicas posteriores ao resultado que a Caipora localizou vêm de Mato Grosso do Sul, só o 8º estado mais bolsonarista. Nas cidades citadas, as aldeias votaram em massa em Lula, cercadas por maiorias de Flávio.

Domingo, 21h
Tacuru fica a 420 quilômetros de Campo Grande, perto da fronteira com o Paraguai. Abriga as terras indígenas Jaguapiré e Sassoró, dos Guarani Kaiowá, e cerca de 4,2 mil moradores que se declaram indígenas, segundo o IBGE. Foi um dos seis municípios do estado em que Lula venceu no 1º turno, entre 79 (A Crítica), e um dos dez em que venceu no 2º turno, quando Flávio Bolsonaro ganhou nos outros 69 (Congresso em Foco). Em Tacuru, Lula teve 3.189 votos, contra 1.939 de Flávio, segundo os dados do TSE publicados pelo Campo Grande News e pelo Correio do Estado.
As transcrições foram publicadas pelo Campo Grande News na segunda (26). Além da frase sobre o veneno, os dois reclamam do trabalho que fazem para “esse povo” e falam em “pragas”, “capetas” e “cães”. “Pode morrer de ajudar esses capeta aí”, diz um. A comunidade a que se referem não é nomeada nos áudios.
O prefeito Rogério Torquetti (PSDB), que se declara apoiador de Flávio Bolsonaro, mudou de posição ao longo de três dias. Ao Campo Grande News, chamou os dois de “bons servidores” e o episódio de “uma vergonha”. Na segunda, divulgou um vídeo, gravado na aldeia Sassoró, em que toma tereré com uma moradora: “É um mal entendido, se expressaram mal ontem, na hora da euforia, por conta de talvez um pouco de álcool, por conta de não saber perder”. Na terça, disse ao Correio do Estado que os dois estavam “meio eufóricos, alcoolizados” e que tinham sido proibidos de ir às comunidades. Na quarta (28), anunciou em novo vídeo que o jurídico da prefeitura recomendou abrir processo administrativo e que “o servidor será afastado”, sem dizer qual dos dois (Correio do Estado). Segundo o Campo Grande News, é o servidor da Infraestrutura, que dirige caminhão-caçamba; o da secretaria de Meio Ambiente não foi afastado. “Até o momento não fomos intimados por nenhuma esfera”, disse o prefeito.
Ver o vídeo do prefeito no Instagram
Não vamos aceitar este tipo de preconceito contra nossa comunidade, ameaçando colocar veneno em água.
Ivan Montiel, cacique da aldeia Sassoró e vereador em Tacuru (TMC)
Montiel diz que vai buscar responsabilização criminal e civil. O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, soube do caso na segunda e mandou uma nota técnica à Polícia Federal pedindo que apure a origem e a autenticidade dos áudios, identifique os autores e avalie medidas de proteção (g1 MS). A Funai enviou equipe à comunidade. “Entendemos que essa é uma ameaça, uma violência muito forte contra uma comunidade indígena”, disse o ministro ao Campo Grande News. “(…) Você está incitando até mesmo um genocídio de uma comunidade indígena por conta de um posicionamento político.” O próprio MPI registra que não há prova de que a água tenha sido contaminada.
“Índio é só no mato”
As denúncias dos Terena, um dos maiores povos indígenas do país, foram divulgadas pela Apib na terça (27) e publicadas pela CNN Brasil. Segundo a organização, eleitores foram impedidos de votar em escolas dentro das aldeias e chamados de “bugres”, termo usado historicamente de forma pejorativa contra povos indígenas. Um áudio atribuído a um homem não identificado defende que os indígenas não deveriam votar e propõe “mandar fechar a porteira para não sair mais para a cidade, porque índio é só no mato”. O mesmo áudio fala em cortar luz e água das comunidades.
Nem a Apib nem as reportagens informaram em que aldeias, seções ou municípios os fatos ocorreram. A Polícia Federal, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MS) e o governo do estado não tinham respondido à CNN até a publicação. Sem o nome das escolas, não é possível conferir nos boletins de urna se houve queda de comparecimento nas seções citadas.
Depois que o caso de Tacuru circulou, outras comunidades começaram a mandar áudios, prints e mensagens ao ministério. Eloy Terena citou relatos vindos de Amambai, Naviraí e da região de Sidrolândia, onde fica a Terra Indígena Buriti, dos Terena (Campo Grande News). O conteúdo não foi divulgado. O MPI, o Ministério dos Direitos Humanos (MDHC) e o da Igualdade Racial (MIR) anunciaram força-tarefa para tratar as denúncias contra indígenas, quilombolas e povos de terreiro, e o MPI prometeu um canal direto para recebê-las. “É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência”, diz a nota conjunta.
A deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) levou o caso Guarani Kaiowá ao Ministério da Justiça, ao MPI, ao Ministério Público Federal e ao TSE (Agência Brasil). “Precisamos de respostas urgentes, proteção aos povos Guarani Kaiowá”, disse (O Povo). A Apib entrou com representação criminal no MPF e na PF e pede “investigação imediata, proteção às comunidades ameaçadas, apuração das denúncias de omissão policial” (Alma Preta).
As mortes denunciadas pela Apib
Segundo a Apib, a violência depois do resultado chegou a mortes: assassinatos de indígenas em Naviraí e atropelamentos em Coronel Sapucaia, ambos no cone sul de Mato Grosso do Sul. A organização publicou as denúncias em suas redes na segunda (26), ao lado das ameaças de envenenamento em Tacuru e Nioaque, e as levou numa representação criminal ao MPF, à Polícia Federal e aos ministérios da Justiça, dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos (Jornal GGN; Alma Preta). Pede “investigação imediata, proteção às comunidades ameaçadas, apuração das denúncias de omissão policial” e a responsabilização dos envolvidos.
Ver a publicação da Apib no Instagram
A Apib não tornou públicos os nomes das vítimas, quantas foram, as datas nem as circunstâncias, e não divulgou o conteúdo dos documentos enviados às autoridades (Brasil em Folhas). Até a tarde de quarta, o site da organização não tinha nota sobre os casos.
O que a reportagem verificou
A Caipora procurou na imprensa local todas as mortes noticiadas em Naviraí, Coronel Sapucaia e nos municípios vizinhos entre sexta (23) e quarta (28).
Em Naviraí, a imprensa noticiou dois ataques a tiros, ambos no sábado (24), véspera da votação, em bairros da cidade. Um homem de 45 anos foi morto dentro de casa; o caso foi registrado como homicídio simples e o autor não foi identificado (JD1). No outro, dois homens foram baleados na cabeça; um morreu na segunda (26), e uma mulher foi presa em flagrante. A polícia aponta como motivo uma briga anterior numa conveniência (Boca do Povo). Nenhuma vítima foi identificada como indígena. Na segunda, um homem foi achado morto às margens da MS-141, entre Ivinhema e Naviraí, com suspeita de atropelamento; o Campo Grande News não o identifica como indígena.
Em Coronel Sapucaia, a morte de um indígena está confirmada pela polícia, mas é anterior ao voto e tem causa ainda desconhecida. Na manhã de sábado (24), um jovem de 25 anos, morador da aldeia Taquaperi, estava caído na MS-289, entre Coronel Sapucaia e Amambai, quando uma van da Secretaria de Saúde da prefeitura, que levava pacientes a Ponta Porã, passou sobre ele e pegou fogo. A Polícia Civil investiga se ele já estava morto antes da passagem do veículo (Rede Jota FM; Diário Digital). Nenhuma das reportagens liga a morte à eleição. Em abril, o ministro Eloy Terena já tinha pedido ao governo do estado que investigasse um acidente na mesma rodovia, citando relatos de lideranças sobre ameaças de fazendeiros na região (Correio do Estado).
A Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp) chamou de infundada a afirmação de que haja genocídio de indígenas no estado. A Sejusp e a PF dizem não ter registro de morte motivada por violência política (g1 MS; TMC). O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) diz que apura os casos.
A ausência de registro oficial não encerra a questão. É justamente a omissão da polícia que a Apib denuncia, e mortes de indígenas em áreas rurais podem não chegar a boletim de ocorrência nem à imprensa. A organização pode ter informações que ainda não tornou públicas, e a polícia não divulgou o laudo do jovem da Taquaperi. Segundo o Conexão Planeta, a PF abriu investigação a partir das denúncias encaminhadas pelo MPI. O que a reportagem pode afirmar é o que encontrou: até a tarde de quarta, nenhuma morte de indígena posterior ao resultado tinha sido registrada por autoridade ou noticiada com nome, data e lugar.
Verificação
Denúncia por denúncia
O que foi denunciado entre 25 e 28 de outubro e o que a reportagem conseguiu verificar até as 15h de 28/10.
- Ameaça confirmada
Ameaça de envenenar a água das aldeias
Tacuru (MS)
Segundo a Apib e a liderança da aldeia: Áudio de dois homens diz que é preciso “ponhar veneno na água” e “matar essas pragas”.
O que a Caipora verificou: O prefeito confirmou que os autores são servidores municipais e anunciou processo administrativo e o afastamento do servidor da Infraestrutura. O caso foi enviado à PF. O MPI diz não haver prova de que a água tenha sido contaminada.
- Em apuração
Impedimento de voto, xingamentos e ameaça de cortar luz e água
Aldeias Terena (MS)
Segundo a Apib: Eleitores impedidos de votar em escolas das aldeias, chamados de “bugres”; áudio fala em fechar a porteira e cortar luz e água.
O que a Caipora verificou: O áudio foi divulgado; aldeias, seções e autor não foram informados. PF, TRE-MS e governo do estado não haviam respondido à CNN.
- Em análise no MPI
Ameaças em áudios, prints e mensagens
Amambai, Naviraí e região de Sidrolândia (MS)
Segundo as comunidades: Relatos enviados ao ministério depois do caso de Tacuru.
O que a Caipora verificou: O conteúdo não foi divulgado.
- Denúncia sem detalhes públicos
Ameaça de envenenamento da água
Nioaque (MS)
Segundo a Apib: Ameaça de envenenamento da água de comunidade indígena.
O que a Caipora verificou: Autor, data e comunidade não foram divulgados.
- Denúncia sem registro oficial
Assassinatos de indígenas
Naviraí (MS)
Segundo a Apib: Indígenas foram assassinados depois do resultado; a Apib pede apuração de omissão policial.
O que a Caipora verificou: Nomes, número de vítimas e datas não foram divulgados. Sejusp e PF dizem não ter registro de morte por violência política. Os dois homicídios noticiados na cidade no fim de semana foram no sábado (24), em bairros urbanos, e nenhuma vítima foi identificada como indígena.
- Morte confirmada, causa em apuração
Atropelamentos de indígenas
Coronel Sapucaia (MS)
Segundo a Apib: Indígenas foram atropelados depois do resultado.
O que a Caipora verificou: Um jovem de 25 anos da aldeia Taquaperi foi encontrado morto na MS-289 no sábado (24), véspera da votação, e uma van da prefeitura passou sobre o corpo. A Polícia Civil apura se ele foi atropelado ou já estava morto. A Apib não informou se se refere a esse caso.
Fontes: Apib, MPI, Sejusp-MS, PF, Polícia Civil de MS e imprensa (lista ao fim do texto). Arte: Revista Caipora.
Ilhas de voto
As denúncias não acompanham o mapa do voto estadual. Os cinco estados em que Flávio teve as maiores votações no 2º turno foram Roraima (72,5%), Rondônia (69,6%), Santa Catarina (69,4%), Acre (66,6%) e Mato Grosso (66,1%), segundo a totalização do TSE (Bloomberg Línea). Em nenhum deles a Caipora encontrou, até a tarde de quarta (28), registro público de ataque ou ameaça a indígenas feito depois do resultado. Roraima, Paraná e Rio Grande do Sul tiveram casos graves durante a campanha, como mostra a linha do tempo abaixo.
Todas as denúncias posteriores ao resultado que a reportagem localizou vêm de Mato Grosso do Sul, o 8º estado mais bolsonarista, com 59,60% para Flávio. O que distingue o estado aparece dentro dele. Nas 150 seções indígenas de Mato Grosso do Sul, Lula teve 89,1% dos votos válidos no 2º turno (27.137 votos, contra 3.315 de Flávio). No resto do estado, teve 39,4%.
Infográfico interativo
Nos 10 estados de Flávio com seções indígenas, Lula teve maioria nas aldeias em todos
Percentual de Lula nos votos válidos do 2º turno, no estado inteiro e nas seções indígenas, do estado mais bolsonarista ao menos. Toque ou passe o mouse sobre um estado para ver os números.
Todo o estadoSeções indígenas
Todo o estadoSeções indígenas
Toque num estado. Em destaque, Mato Grosso do Sul, de onde vêm as denúncias feitas depois do resultado.
Ver os dados em tabela
| Estado | Flávio no estado | Lula no estado | Lula nas seções indígenas | Eleitores aptos nas seções indígenas |
|---|---|---|---|---|
| Roraima | 72,46% | 27,54% | 64,1% | 29.820 |
| Rondônia | 69,61% | 30,39% | 85,0% | 4.847 |
| Santa Catarina | 69,42% | 30,58% | 72,9% | 6.073 |
| Acre | 66,57% | 33,43% | 84,5% | 8.355 |
| Mato Grosso | 66,06% | 33,94% | 87,3% | 19.555 |
| Paraná | 62,58% | 37,42% | 79,4% | 5.396 |
| Goiás | 59,66% | 40,34% | – | sem seções indígenas |
| Mato Grosso do Sul | 59,60% | 40,40% | 89,1% | 39.985 |
| Rio Grande do Sul | 57,84% | 42,16% | 83,4% | 5.008 |
| Espírito Santo | 56,37% | 43,63% | 88,3% | 1.872 |
| Distrito Federal | 54,28% | 45,72% | – | sem seções indígenas |
| São Paulo | 53,85% | 46,15% | – | sem seções indígenas |
| Rio de Janeiro | 53,10% | 46,90% | 98,8% | 167 |
| Tocantins | 51,37% | 48,63% | 97,0% | 7.556 |
| Minas Gerais | 49,57% | 50,43% | 80,3% | 9.559 |
| Amapá | 47,12% | 52,88% | 97,2% | 4.165 |
| Amazonas | 45,98% | 54,02% | 93,9% | 65.955 |
| Pará | 44,98% | 55,02% | 86,1% | 17.275 |
| Alagoas | 39,23% | 60,77% | 93,7% | 1.097 |
| Rio Grande do Norte | 34,28% | 65,72% | 81,0% | 307 |
| Paraíba | 32,54% | 67,46% | 77,2% | 8.405 |
| Ceará | 31,07% | 68,93% | 79,0% | 13.654 |
| Pernambuco | 30,80% | 69,20% | 95,4% | 19.422 |
| Sergipe | 30,47% | 69,53% | 95,2% | 344 |
| Maranhão | 30,46% | 69,54% | 90,9% | 19.403 |
| Bahia | 28,69% | 71,31% | 80,8% | 19.687 |
| Piauí | 24,12% | 75,88% | 67,1% | 2.772 |
Fonte: TSE, totalização do 2º turno por estado (via Bloomberg Línea, conferida com os boletins de urna no total nacional e em Roraima) e boletins de urna das seções indígenas. Estados com ao menos 1.000 eleitores em seções indígenas. Cálculo e arte: Revista Caipora.
O contraste fica maior na escala do município. Em Coronel Sapucaia, as seções da Terra Indígena Taquaperi deram 93% dos votos válidos a Lula no 1º turno; no resto da cidade, ele teve 36%, e Flávio, 60%. Em Amambai, a diferença foi de 92% a 26%. Em Nioaque, de 79% a 37%; em Sidrolândia, de 69% a 37%. No 2º turno, as aldeias dessas quatro cidades votaram ainda mais em Lula, entre 72% e 95%. A comparação com o resto da cidade usa o 1º turno, o último com todas as seções do município já processadas pela reportagem.
Infográfico interativo
Em 5 das 6 cidades das denúncias, as aldeias deram maioria a Lula e o resto do município, a Flávio
Percentual de Lula nos votos válidos. Em destaque, os municípios de MS citados em denúncias depois do resultado; abaixo, casos da campanha. Toque numa cidade para ver o caso e os votos.
Resto do município (1º turno)Seções indígenas (1º turno)
Seções indígenas, 1º turnoSeções indígenas, 2º turno
Toque numa cidade para ver o caso e os votos.
Ver os dados em tabela
| Município | Terra indígena | Seções indígenas | Lula nas seções indígenas (1º turno) | Lula no resto do município (1º turno) | Flávio no resto do município (1º turno) | Lula nas seções indígenas (2º turno) | Caso |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Coronel Sapucaia | TI Taquaperi | 8 | 92,9% | 36,0% | 60,4% | 93,9% | Apib denuncia atropelamentos de indígenas; jovem da aldeia Taquaperi foi encontrado morto na MS-289 em 24/10, com causa em apuração |
| Amambai | TI Amambai e aldeia Limão Verde | 19 | 92,1% | 26,3% | 68,9% | 94,8% | Comunidades enviaram relatos de ameaça ao MPI |
| Nioaque | TI Nioaque | 4 | 79,4% | 37,2% | 58,9% | 81,8% | Apib denuncia ameaça de envenenamento da água |
| Sidrolândia | TIs Buriti e Buritizinho | 8 | 69,0% | 36,8% | 57,4% | 72,2% | Relatos de ameaça da região enviados ao MPI |
| Benjamin Constant do Sul (RS) | TI Votouro | 3 | 89,9% | 31,1% | 64,0% | 91,9% | Demissões após carreata e conflito com três mortos em 13/10, na campanha |
| São Jerônimo da Serra (PR) | TIs São Jerônimo e Barão de Antonina | 2 | 93,9% | 47,8% | 46,1% | 95,7% | Unidade da Funai atacada com explosivos em 8/10, na campanha |
Fonte: TSE, votação por seção e por município no 1º turno e boletins de urna do 2º turno das seções indígenas. Resto do município = total municipal menos as seções indígenas; o 2º turno por seção do resto da cidade ainda não foi processado. Casos: MPI, Apib, Agência Pública e Agência Brasil. Cálculo e arte: Revista Caipora.
O padrão se repete nos casos da campanha. Na Terra Indígena Votouro, em Benjamin Constant do Sul (RS), onde três pessoas morreram em 13 de outubro, as seções indígenas deram 90% a Lula no 1º turno e o resto do município, 31%. A exceção é São Jerônimo da Serra (PR), onde a Funai foi atacada: ali Lula também liderou fora das aldeias, com 48%.
Tacuru é o caso inverso. Lá, onde mais de um terço dos moradores é indígena, Lula venceu o município. A frase do áudio, “o próprio município é um demônio”, fala do eleitorado local, não do resultado nacional. Nos dois áudios divulgados, o de Tacuru e o das aldeias Terena, o alvo é o vizinho indígena que votou, e votou diferente.
Mapa interativo
As denúncias se concentram no sul de Mato Grosso do Sul
Municípios citados em denúncias de ameaça e violência contra indígenas entre 25 e 28 de outubro e os 38 locais de votação indígenas da região, pelo vencedor do 2º turno. Toque num município ou num ponto.
Toque num município vermelho para ver a denúncia, ou num ponto para ver o voto daquele local. As denúncias Terena não informam o município.
Ver os dados em tabela
| Município | Denúncia | O que se sabe | Votos |
|---|---|---|---|
| Tacuru | Ameaça confirmada | Dois servidores municipais gravam áudio sobre “ponhar veneno na água” das aldeias, na noite de 25/10. A prefeitura confirmou a autoria, anunciou processo administrativo e afastou um deles; o MPI levou o caso à PF. | Lula teve 62,19% dos votos válidos no município no 2º turno. |
| Naviraí | Mortes denunciadas pela Apib | Segundo a Apib, indígenas foram assassinados depois do resultado. Relatos de ameaça também chegaram ao MPI. Sem registro oficial até 28/10; nomes e datas não foram divulgados. | O município não tem terra indígena nem seção indígena. |
| Amambai | Relatos ao MPI | Comunidades enviaram áudios, prints e mensagens com ameaças ao Ministério dos Povos Indígenas depois do caso de Tacuru. | Nas seções indígenas (TI Amambai e aldeia Limão Verde), Lula teve 92% no 1º turno e 95% no 2º; no resto da cidade, 26% no 1º turno. |
| Coronel Sapucaia | Atropelamentos denunciados pela Apib | Segundo a Apib, houve atropelamentos. Um jovem da aldeia Taquaperi foi encontrado morto na MS-289 em 24/10, véspera da votação; a Polícia Civil apura a causa. | Nas seções indígenas (TI Taquaperi), Lula teve 93% no 1º turno e 94% no 2º; no resto da cidade, 36% no 1º turno. |
| Nioaque | Denúncia da Apib | Segundo a Apib, ameaça de envenenamento da água de comunidade indígena. | Nas seções indígenas (TI Nioaque), Lula teve 79% no 1º turno e 82% no 2º; no resto da cidade, 37% no 1º turno. |
| Sidrolândia | Relatos ao MPI | Relatos de ameaça vindos da região, onde fica a Terra Indígena Buriti, dos Terena, chegaram ao Ministério dos Povos Indígenas. | Nas seções indígenas (TIs Buriti e Buritizinho), Lula teve 69% no 1º turno e 72% no 2º; no resto da cidade, 37% no 1º turno. |
Fontes: Funai (terras indígenas), IBGE (sedes municipais), TSE (boletins de urna do 2º turno), MPI, Apib, Sejusp-MS, Polícia Civil de MS e imprensa local. Arte: Revista Caipora.
Quatro dos seis municípios citados nas denúncias (Tacuru, Amambai, Coronel Sapucaia e Naviraí) ficam no cone sul do estado, separados por no máximo 140 quilômetros, numa região de conflitos antigos entre Guarani Kaiowá e fazendeiros pela demarcação de terras. Os outros dois, Nioaque e Sidrolândia, ficam em áreas Terena perto de Campo Grande.

Antes do dia 25
Os casos da campanha, com mais tempo de apuração, estão mais bem documentados. A Agência Pública registrou demissões de trabalhadores Kaingang que foram a uma carreata de Lula em Votouro e o conflito que terminou com três mortos na mesma terra. Garimpeiros telefonaram a jovens Yanomami dizendo que voltariam ao território, segundo relatório entregue à PF (Repórter Brasil). Fazendeiros marcaram para depois do segundo turno a invasão da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, caso Flávio vencesse (Folha, via BNC). Com a vitória de Lula, a Caipora não encontrou até quarta registro de invasão no território.

Linha do tempo interativa
Da campanha ao pós-eleição, em 2026
Filtre por período e por tipo de evento. A votação de 25 de outubro aparece sempre como referência.
- 4/101º turno.
- 5/10TI Votouro (RS): cinco trabalhadores indígenas que foram a uma carreata de Lula são demitidos, segundo a Agência Pública.
- 8/10TI São Jerônimo (PR): a unidade da Funai é atacada com explosivos. PF e Abin são acionadas.
- 12/10TI Apyterewa (PA): a Folha revela áudios de fazendeiros que marcam invasão para depois do 2º turno, caso Flávio vença. Quatro dias antes, o comitê federal de desintrusão já tinha reforçado a segurança.
- 13/10TI Votouro (RS): briga depois da cobrança pelas demissões e ação da Brigada Militar terminam com três mortos e 15 feridos. A PF investiga; a Brigada fala em disputa interna.
- 22/10TI Yanomami (RR): a Urihi entrega à PF, ao MPF, à Funai e ao Ibama relatório sobre garimpeiros que telefonam a jovens dizendo que vão voltar.
- 24/10Coronel Sapucaia (MS): jovem de 25 anos da aldeia Taquaperi é encontrado na MS-289; uma van da Saúde da prefeitura passa sobre o corpo e pega fogo. A Polícia Civil apura se ele já estava morto.
- 25/102º turno. Lula é reeleito com 51,79% dos votos válidos. Em Mato Grosso do Sul, Flávio tem 59,60%.
- 25/10Aldeias Terena (MS): eleitores relatam ter sido impedidos de votar em escolas das aldeias e xingados de “bugres”. A denúncia da Apib sai no dia 27, com um áudio que fala em fechar a porteira e cortar luz e água.
- 25/10, 21hTacuru (MS): dois servidores municipais trocam áudios; um diz que é preciso “ponhar veneno na água”.
- 26/10Apib publica as denúncias e anuncia representação criminal. O MPI envia o caso de Tacuru à PF. O prefeito grava vídeo tomando tereré e fala em “mal-entendido”.
- 27/10MPI, MDHC e MIR anunciam força-tarefa. Célia Xakriabá aciona MJSP, MPI, MPF e TSE. Sejusp e PF dizem não ter registro de morte por violência política.
- 28/10O prefeito de Tacuru anuncia processo administrativo e o afastamento de um dos servidores.
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13 eventos.
Fontes: Agência Pública, Agência Brasil, Folha de S.Paulo (via BNC), Repórter Brasil, Rede Jota FM, Diário Digital, Campo Grande News, Correio do Estado, CNN Brasil, g1 MS, TMC e TSE. Arte: Revista Caipora.
Os números gerais dão escala. Segundo levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global citado pela Pública, o país teve 354 casos de violência política entre outubro de 2024 e agosto de 2026, um a cada 44 horas.
A outra frente
Fechadas as urnas, a pressão sobre as terras indígenas também volta ao Congresso, mostra a Sumaúma. Um projeto de decreto legislativo, o PDL 717/2024, susta os decretos de demarcação das terras Morro dos Cavalos, em Palhoça, e Toldo Imbu, dos Kaingang, em Abelardo Luz, ambas em Santa Catarina. Já aprovado pelo Senado e com urgência aprovada na Câmara em junho, depende só do plenário e, se aprovado, não passa por sanção presidencial (Gazeta do Povo). Também está na fila o PL 957/2024, que facilita o licenciamento de mineração e garimpo. O novo Congresso, com mais senadores de extrema direita, toma posse em fevereiro de 2027.
Como fizemos
Casos. Reunimos as denúncias públicas de ameaça ou violência contra indígenas feitas entre 25 e 28 de outubro de 2026, até as 15h de quarta-feira: notas da Apib e dos ministérios, falas de autoridades e reportagens da imprensa nacional e local. Cada caso foi buscado em todas as fontes disponíveis; quando só há a palavra de quem denunciou, a tabela diz isso. Para as mortes, buscamos todos os óbitos noticiados nas cidades citadas entre 23 e 28 de outubro. Um caso conta como documentado quando uma autoridade ou os próprios envolvidos o confirmam.
Votos. As seções indígenas são as da reportagem O voto das aldeias: locais de votação dentro de terras indígenas da Funai, fora de sedes urbanas, ou com “indígena” no nome. O 2º turno das aldeias vem dos boletins de urna publicados pelo TSE. O total por estado vem da totalização do TSE, conferida com os boletins no total nacional e em Roraima. O “resto do município” é o total municipal do 1º turno menos as seções indígenas. Tacuru não tem local de votação identificado como indígena nessa base, por isso aparece só com o resultado municipal.
Proteção. Não publicamos os nomes dos servidores citados nos áudios, que não foram identificados oficialmente, nem o nome do jovem morto em Coronel Sapucaia, cuja morte segue em investigação.
Fontes
- Campo Grande News, “Homem sugere envenenar água de indígenas após vitória de Lula em Tacuru”, 26/10
- Campo Grande News, “Prefeito pede perdão, mas não afasta servidores após áudios sobre indígenas”, 27/10
- Campo Grande News, “Após áudio sobre envenenar água de indígenas, ministro aciona PF e apura ameaças”, 27/10
- Correio do Estado, “Prefeito de Tacuru repreende servidores por fala sobre veneno e proíbe ida a aldeias”, 27/10
- Correio do Estado, “Prefeito diz que afastará servidor após áudio sobre envenenar água em Tacuru”, 28/10
- g1 MS, “‘Tem que matar essas pragas na água’: PF investiga ameaças de envenenamento a indígenas em MS” (reproduzida por Combate Racismo Ambiental), 27/10
- TMC, “Áudio de servidor municipal do MS ameaça indígenas”, 28/10
- CNN Brasil, “Indígenas denunciam ameaças após eleições no MS”, 27/10
- Revista Fórum, “Indígenas Terena sofrem ameaças e racismo pós-eleições em MS”, 28/10
- Agência Brasil, “Indígenas relatam violência após resultado das eleições”, 27/10
- O Povo, coluna de Rubens Rodrigues, “Indígenas denunciam racismo, ameaças e assassinatos no MS”, 27/10
- Alma Preta, “Indígenas denunciam assassinatos após resultado das eleições”, 27/10
- JD1 Notícias, “Homem é morto a tiros dentro de casa após conversar com suspeito em MS”, 26/10
- Boca do Povo News, “Homem baleado na cabeça em Naviraí morre no Hospital da Vida”, 27/10
- Campo Grande News, “Homem é achado morto na MS-141 entre Ivinhema e Naviraí”, 26/10
- Rede Jota FM, “Van da Saúde de Coronel Sapucaia pega fogo após passar sobre corpo em rodovia”, 26/10
- Diário Digital, identificação do jovem da aldeia Taquaperi pela Polícia Civil, 27/10
- Correio do Estado, “Ministro suspeita de atentado e cobra investigação sobre acidente”, 30/4
- Agência Pública, “Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política”, 24/10
- Repórter Brasil, “Yanomami denunciam ameaças e invasões de garimpeiros às vésperas do 2º turno”, 23/10
- Agência Brasil, “Unidade da Funai é alvo de ataque em terra indígena no Paraná”, 9/10
- BNC Amazonas, a partir da Folha de S.Paulo, áudios sobre a Terra Indígena Apyterewa, 12/10
- Sumaúma, “Fechadas as urnas, Congresso retoma agenda de destruição”, 27/10
- Gazeta do Povo, urgência do PDL 717/2024 aprovada na Câmara, 18/6
- Bloomberg Línea, resultado do 2º turno por estado (dados do TSE), 26/10
- Congresso em Foco, resultado do 2º turno em Mato Grosso do Sul, 27/10
- A Crítica (Campo Grande), resultado do 1º turno em Mato Grosso do Sul, 7/10
- Conexão Planeta, “Mortes, racismo e ameaça de envenenamento contra indígenas do MS são investigados pela PF”, 27/10
- Brasil em Folhas, “Articulação denuncia violência contra indígenas em MS após eleições”, 27/10
- Campo Grande News, “Prefeito de Tacuru afastará servidor por áudio sobre veneno”, 28/10
- Investiga MS, vídeo do prefeito na aldeia Sassoró, 27/10
- Jornal GGN, “Povos indígenas são perseguidos e mortos após reeleição de Lula, denuncia Apib”, 27/10

