Associações indígenas relatam contato de garimpeiros com jovens das comunidades na expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro
A Urihi Associação Yanomami denunciou que garimpeiros estão loteando e negociando áreas dentro da Terra Indígena Yanomami na expectativa de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais. Segundo relatório obtido com exclusividade pela Repórter Brasil, as ameaças teriam começado após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, e o documento foi encaminhado à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal, à Funai e ao Ibama.
Waihiri Hekurari, presidente da Urihi, afirma que invasores estão retornando a locais com histórico de garimpo ilegal de ouro e cassiterita, como Xitei e Surucucu. “Os garimpeiros ligaram querendo negociar com as comunidades depois do primeiro turno. A partir de então, entraram no território. Os Yanomami estão desesperados”, relata. Oito organizações Yanomami assinam uma carta afirmando que garimpeiros estariam oferecendo pagamentos a jovens das comunidades para limpar pistas de pouso, estrutura essencial à logística da mineração ilegal, e que já há registro de sobrevoos de aviões na Terra Indígena. A Repórter Brasil procurou a campanha de Flávio Bolsonaro, mas não obteve resposta até a publicação.
A Terra Indígena Yanomami é a maior do país em extensão, comparável à área de Portugal. Desde 2024, 108 pistas de pouso e 64 aeronaves foram destruídas como parte da estratégia de desmantelamento da logística garimpeira, segundo a Casa de Governo Yanomami, estrutura federal de enfrentamento à crise humanitária no território. Ainda assim, entre janeiro e agosto de 2026 foram detectados 26 polígonos de desmatamento ligados ao garimpo, somando 17,6 hectares, conforme sistema de alertas da Hutukara Associação Yanomami e do Instituto Socioambiental (ISA).
A carta das associações relembra o colapso sanitário vivido no governo de Jair Bolsonaro: entre 2019 e 2022, 420 crianças Yanomami com menos de cinco anos morreram por causas evitáveis, como malária, desnutrição e verminoses, segundo o Siasi. Em janeiro de 2023 foi declarada emergência sanitária no território, e desde então ações de fiscalização reduziram em 95,7% a abertura de novas áreas de garimpo, de acordo com o Ministério dos Povos Indígenas. “Nós não temos partido político, mas vivemos consequências diretas das políticas de governo executadas por um candidato eleito. Sofremos as trágicas consequências do governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, e choramos muito com as perdas que tivemos”, diz o texto das associações.
Especialistas apontam que o garimpo não foi totalmente neutralizado e se reorganizou de forma mais discreta, inclusive perto da fronteira com a Venezuela. O alto preço do ouro, que chegou a R$ 747 o grama em outubro de 2026, mais do que o dobro do valor de 2020, é apontado como incentivo à permanência da atividade ilegal. “Destruir é rápido, mas consertar é muito difícil. Nós não queremos morrer de novo”, diz Waihiri Hekurari.
Fonte: Brasil de Fato
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Brasil de Fato e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

