Relato de viagem mostra seca, escassez de pescado e disputas eleitorais distantes da vida cotidiana na fronteira do Amazonas com o Peru
Durante dez dias no Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru, o professor Marcos Colón acompanhou pescadores que relatam a diminuição no tamanho dos peixes capturados nos rios da região, agravada pela seca deste ano. Segundo o relato, a região concentra a maior quantidade de povos indígenas isolados do mundo, e a vida ali segue o ritmo dos rios, que determinam deslocamentos, acesso a alimentos e possibilidades de trabalho.
O relato não atribui a causa exata da escassez de peixes, se decorrente da seca, da pressão sobre os recursos pesqueiros ou de outros fatores combinados. Para quem depende do rio, no entanto, o encolhimento dos peixes não é abstração: afeta diretamente a alimentação e a renda das famílias. Em junho, o mesmo autor já havia percorrido a região, do Javari ao Estirão do Norte, e relata que, durante dias em área sensível de fronteira, não presenciou patrulhamento do Estado, descrito como presença precária, irregular, mas ainda existente.
O texto também relata conversas com jovens de Benjamin Constant e universitários que declararam apoio a Flávio Bolsonaro, beneficiários de políticas públicas na região, e com um taxista em Tabatinga que justificou seu voto afirmando que povos indígenas recebem Bolsa Família e atendimento médico superior ao seu — afirmação que o autor contesta com base no conhecimento das dificuldades da saúde indígena na região. Segundo o relato, por trás dessa fala estaria o ressentimento de quem se sente abandonado pelo Estado e enxerga políticas voltadas a outros grupos como privilégio, em vez de cobrar atendimento digno para todos.
O autor cita o geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves para destacar que não existe uma Amazônia única, mas múltiplas Amazônias, marcadas por histórias, populações e interesses distintos. Apesar da centralidade da região nas negociações internacionais sobre clima, carbono e biodiversidade, essa visibilidade raramente corresponde, segundo o relato, a uma compreensão da vida cotidiana de quem mora ali — sejam povos indígenas, populações ribeirinhas, migrantes ou jovens urbanos.
Lula venceu o primeiro turno em Benjamin Constant e Tabatinga, mas, para o autor, os mapas eleitorais não explicam as contradições observadas em campo. O relato conclui que o que está em disputa não é apenas a continuidade ou mudança de governo, mas a capacidade dessas populações de decidir sobre seus próprios territórios — e que, no dia seguinte à eleição, pescadores, jovens e povos indígenas continuarão enfrentando os mesmos desafios cotidianos na fronteira amazônica.
Fonte: amazonialatitude.com
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de amazonialatitude.com e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

