Servidor de Tacuru é afastado após áudio defendendo veneno contra Guarani e Kaiowá; lideranças apontam histórico de ataques químicos no estado
Um servidor da prefeitura de Tacuru, no Mato Grosso do Sul, foi afastado após a circulação de áudios em que afirma que os indígenas Guarani e Kaiowá deveriam ser envenenados por terem votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em uma das gravações, o homem diz que é preciso “ponhar veneno na água” para “matar essas pragas”. O cacique Ivan Montiel, da aldeia Sassoró, denunciou o caso publicamente e o levou ao Ministério Público Federal (MPF), que deu 48 horas para a prefeitura esclarecer autoria e providências. A prefeitura informou ter aberto Processo Administrativo Disciplinar e afastado o servidor.
Para Voninho Benites, coordenador da Aty Guasu, a Grande Assembleia Guarani e Kaiowá, a ameaça não pode ser tratada como fala isolada de ódio. Segundo ele, o uso de agrotóxicos como arma contra comunidades indígenas já matou peixes, contaminou rios e adoeceu crianças em diversos territórios do Cone Sul do estado, como em Ypoi, onde veneno foi despejado diretamente no rio. A Aty Guasu cobra que o servidor responda criminalmente, além das medidas administrativas já tomadas pela prefeitura.
O histórico de pulverização de agrotóxicos sobre comunidades Guarani e Kaiowá é extenso. Em 2025, a comunidade da Terra Indígena Guyraroka, em Caarapó, retomou uma fazenda sobreposta ao seu território justamente para impedir a aplicação de veneno perto das moradias, e enfrentou meses de ataques armados e abusos policiais, incluindo denúncia de agressão sexual contra uma jovem — caso que já é objeto de medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Em 2024, na TI Panambi – Lagoa Rica, um córrego usado pelos indígenas para banho e consumo ficou turvo e com peixes mortos, e crianças e adultos tiveram diarreia e vômito após contato com a água. Em 2015, a Justiça Federal condenou um fazendeiro, um piloto e uma empresa por despejar agrotóxicos sobre barracos de lona da comunidade Tey Jusu, e o MPF chegou a comparar um ataque aéreo semelhante, em Guyra Kambi’y, ao uso do agente laranja na Guerra do Vietnã.
O relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, do Cimi, registrou o Mato Grosso do Sul como o estado com mais casos de violência contra a pessoa indígena em 2025, com 102 registros, entre eles 37 assassinatos e 18 tentativas de homicídio. Após a reeleição de Lula, indígenas Terena, Guarani e Kaiowá relataram nova onda de ofensas racistas e ameaças em municípios do Pantanal e do Cone Sul, incluindo um áudio em Nioaque que defende cortar água e luz de aldeias e impedir indígenas de circular fora delas.
Matias Rempel, coordenador do Cimi Regional Mato Grosso do Sul, afirma que essas violências não começaram no período eleitoral nem são episódios isolados, mas expressam décadas de demora na demarcação de territórios e de negação de direitos básicos como água, saúde e educação. Segundo ele, a violência se intensifica em contextos políticos que legitimam o discurso de ódio, como ocorreu no governo Bolsonaro, e permanece atual no Mato Grosso do Sul sob um governo estadual ligado ao setor ruralista.
Fonte: cimi.org.br
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de cimi.org.br e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

