Áudios com ameaças e envenenamento de água circulam em Mato Grosso do Sul, que concentra os casos e apura morte suspeita de indígena Guarani Kaiowá
A Polícia Federal investiga uma série de denúncias de ataques a povos indígenas após o segundo turno das eleições presidenciais, com suspeita de violência política motivada pelo apoio de eleitores e organizações indígenas à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Os casos se concentram em Mato Grosso do Sul, onde um homem indígena de 25 anos, Valdenildo da Silva, morreu numa rodovia estadual perto de Coronel Sapucaia, atropelado por um veículo oficial da prefeitura. Ainda se apura se ele já estava morto antes do atropelamento, segundo Andressa Lewandowski, diretora do Ministério dos Povos Indígenas que monitora os casos.
Na mesma região, um servidor da Prefeitura de Tacuru foi afastado após enviar áudio sugerindo envenenar a água que abastece a aldeia Sassoró: “Tem que ponhar veneno na água, matar essas pragas na água”, diz o homem, segundo trecho divulgado. Também são investigados incêndios à casa de uma ñandesy (rezadeira guarani) na Terra Indígena Jaguapiré, sem confirmação de motivação política, e ataques a moradores da Terra Indígena Ligeiro, no Rio Grande do Sul, publicados em rede social contra os Guarani Ñandeva e Kaingang. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) formalizou denúncias à PF e ao Ministério Público Federal relatando áudios com ameaças de arma de fogo e envenenamento contra indígenas de Tacuru e Nioaque.
Dinamam Tuxá, coordenador-executivo da Apib, afirma que os ataques começaram antes da eleição, citando mobilização de grupos bolsonaristas que ameaçavam invadir a Terra Indígena Apyterewa, no Pará, território dos Parakanã que já havia sido invadido durante o governo Bolsonaro. No Pará, também se investiga suspeita de incêndio criminoso na Terra Indígena Bragança/Marituba, dos Munduruku, mas ainda sem conexão estabelecida com o processo eleitoral.
Um levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública registrou 45 ocorrências de violência com motivação política entre 24 e 28 de outubro, com 47 vítimas e dez homicídios, três deles de indígenas — em dois casos a motivação política foi posteriormente descartada, incluindo uma suspeita de assassinato em Naviraí cujas fotos, segundo o MPF, foram adulteradas. Andressa Lewandowski lembra que atropelamentos de indígenas em Mato Grosso do Sul são um problema antigo na região, onde os Guarani Kaiowá lutam pela retomada de territórios tradicionais, o que dificulta vincular todos os casos apenas ao resultado eleitoral.
A Apib e a Aty Guasu pedem que os povos originários confirmem informações apenas em canais oficiais, para evitar a disseminação de notícias antigas que ampliam o temor. Denúncias também podem ser feitas pelo Disque 100. Procurados por SUMAÚMA, o Ministério da Justiça e o governo de Mato Grosso do Sul não responderam; em nota anterior, a Secretaria de Justiça e Segurança Pública do estado negou haver “genocídio” de povos indígenas na região.
Fonte: SUMAÚMA
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de SUMAÚMA e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

