Comunidades da Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng enfrentam alagamentos, falta de água potável e isolamento há mais de 40 dias, denuncia o Cimi
O povo Laklãnõ/Xokleng marca em 22 de setembro os 112 anos de contato forçado com o antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), em meio a uma crise de alagamentos provocada pela Barragem Norte, em José Boiteux, Santa Catarina. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), nove aldeias da Terra Indígena Ibirama Laklãnõ estão atingidas, com famílias ilhadas há mais de 40 dias, aulas suspensas e um ônibus escolar que quase caiu na água durante travessia no dia 8 de setembro, segundo relato das lideranças.
A Barragem Norte, concluída em 1992 e construída no contexto da Ditadura Militar, alaga mais de mil hectares de terra, dos quais 90% incidem sobre a Terra Indígena Laklãnõ Xokleng, afetando cerca de 650 famílias e 3 mil pessoas, segundo dados do Cimi. Fabiana Patte dos Santos, cacica presidenta da Aldeia Plipatol, relata que o Plano de Contingência estabelecido em acordo de 2015 entre poderes públicos e lideranças indígenas não funciona: a via alternativa de acesso está bloqueada, o que impede atendimento de emergência em saúde caso seja necessário.
Geomar Covi Crendô, do Conselho Estadual dos Povos Indígenas de Santa Catarina (CEPIn/SC), aponta que compromissos daquele acordo seguem descumpridos pelo governo estadual, entre eles um estudo de impacto socioambiental da barragem, que estaria parado no gabinete do governador Jorginho Mello aguardando assinatura, e a construção de moradias definitivas para famílias em áreas de risco. Segundo Geomar, o governador visitou o território em 8 de julho de 2026 e, desde então, não retomou o diálogo nem acionou a Defesa Civil.
Durante essa visita, de acordo com relatos das lideranças e imagens divulgadas por veículos de comunicação, Jorginho Mello teria se recusado a dialogar com a comunidade e reagido com agressividade a questionamentos de mulheres Xokleng. A Articulação das Mulheres Indígenas do Oeste de Santa Catarina (AMIOESTE) classificou o episódio como desrespeito à dignidade das mulheres indígenas e aos direitos dos povos originários. O Cimi Regional Sul denunciou o caso ao Ministério Público Federal e pediu à Procuradoria-Geral da República a instauração de inquérito e retratação pública.
Cleber Buzatto, do Cimi Regional Sul, associa a crise à urgência do julgamento do Recurso Extraordinário 1.017.365 (Tema 1031), no qual o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade da tese do marco temporal, para que o restante da terra tradicional Xokleng seja devolvido ao povo. A liderança Brasílio Priprá resume o cenário: “Estamos pior do que no século passado, quando o governo mandava matar os indígenas. Agora ela mata deixando o povo debaixo d’água”.
Fonte: cimi.org.br
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de cimi.org.br e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

