Levantamento do Observatório Unilasalle mostra que 73,5% dos lares atingidos pelas enchentes de maio de 2024 ficaram sem auxílio financeiro emergencial
A Pesquisa Especial sobre as Enchentes (PEERS/IBGE), sistematizada pelo Observatório Unilasalle, revela a dimensão da tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Na Região Intermediária de Porto Alegre, 92,7% dos domicílios — 1.280.502 residências de um total de 1,38 milhão — sofreram algum impacto direto ou indireto das enchentes, segundo artigo de pesquisadores da Universidade La Salle publicado pelo Brasil de Fato.
Os números mostram que o desastre não atingiu a todos de forma igual. Das mais de 3,7 milhões de pessoas afetadas no recorte analisado, as mulheres somaram a maioria, com 1,94 milhão de atingidas. Historicamente responsáveis pelo cuidado familiar e comunitário, foram elas que reorganizaram a vida em abrigos improvisados e articularam redes de solidariedade durante a crise. Crianças e adolescentes (733 mil) e pessoas idosas (712 mil) também estão entre os grupos mais afetados, segundo o levantamento.
A pesquisa aponta uma falha grave na resposta do poder público: enquanto mais de 221 mil moradias precisaram de reconstrução urgente ou reassentamento por destruição ou dano severo, o auxílio financeiro emergencial chegou a apenas 362 mil domicílios do total atingido — o que significa que cerca de 73,5% dos lares da região ficaram sem essa assistência no período mais crítico. Pelo menos 538 mil famílias precisaram deixar suas casas por ao menos uma noite, e mais de 610 mil pessoas mudaram de endereço durante a crise.
Os pesquisadores destacam ainda o impacto sobre a renda e a saúde mental da população. Quase 1,5 milhão de moradores relataram piora drástica na capacidade de cobrir despesas básicas mensais, reflexo do encarecimento do custo de vida e da paralisação do trabalho informal. Mais de 2,1 milhões de pessoas afirmaram desconhecer qualquer medida preventiva do Estado contra novas tragédias, e a maioria reprovou as obras de recuperação nas áreas atingidas, segundo o artigo.
Para os autores — Moisés Waismann, Rute Henrique da Silva Ferreira, Paula Pinhal de Carlos e Lucimar Fátima Siqueira, da Universidade La Salle —, os dados comprovam que a crise climática não é um evento natural imprevisível, mas um processo amplificado por escolhas políticas, falta de planejamento urbano e sucateamento das redes de proteção. Eles defendem que a reconstrução do Rio Grande do Sul seja orientada pela justiça climática, com direito à moradia digna, saúde mental, saneamento e informação transparente garantidos como política permanente de Estado, e não como promessa emergencial que desaparece junto com a vazante dos rios.
Fonte: Brasil de Fato
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Brasil de Fato e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

