Apoie
Skip to main content Scroll Top

Estudo mostra que discurso antiambiental de governo aumenta desmatamento na Amazônia

Estudo de quatro pesquisadores mostra que mensagens antiambientais do governo Bolsonaro elevaram o desmatamento na Amazônia Legal em até 17,8%, mesmo sem redução formal na fiscalização, ao corroer a credibilidade da aplicação da lei.

Nesta reportagem

Pesquisa aponta que sinais antiambientais do governo Bolsonaro elevaram desmatamento mensal em até 17,8% na Amazônia Legal, mesmo sem mudança formal na lei

O estudo “Sinais antiambientais e desmatamento: evidências do Brasil”, assinado por Gustavo Magalhães de Oliveira, Elías Cisneros, Jorge Sellare e Jan Börner, analisou 578 municípios da Amazônia Legal durante a transição política de 2019 e concluiu que mensagens antiambientais emitidas pelo governo Bolsonaro tiveram efeito direto sobre o aumento do desmatamento na região, segundo coluna publicada pelo ((o))eco.

De acordo com a pesquisa, o aumento de um desvio-padrão na exposição a sinais políticos antiambientais elevou o desmatamento mensal em 6,8%. Quando o recorte considerou apenas mensagens da conta do presidente da República, o crescimento estimado chegou a 17,8%. Sinais emitidos por ministros também tiveram efeito estatisticamente significativo, de 4,5%, enquanto medições por satélite indicaram crescimento entre 2,7% e 5,9% nas perdas florestais e aumento de 38% nos incêndios, segundo os autores do estudo.

O mecanismo identificado pelos pesquisadores não está ligado a uma queda formal na fiscalização. Segundo o estudo, não houve, no período analisado, redução municipal correspondente em multas ou embargos capaz de explicar sozinha o salto no desmatamento. O que mudou, apontam os pesquisadores, foi a expectativa dos agentes econômicos sobre a continuidade e a prioridade da fiscalização ambiental — ou seja, a credibilidade da lei diminuiu mesmo sem alteração no texto legal.

A coluna do ((o))eco destaca que esse achado amplia o entendimento sobre governança ambiental, mostrando que a erosão institucional pode começar no plano simbólico, antes mesmo de cortes orçamentários ou mudanças administrativas. Discursos que desqualificam órgãos de fiscalização, relativizam a proteção de Terras Indígenas ou tratam o desmatamento como sinônimo de desenvolvimento produzem, segundo o texto, uma espécie de licença informal para degradar — não uma autorização jurídica, mas uma expectativa de tolerância que altera o cálculo de risco de quem decide desmatar ilegalmente.

Os autores do estudo e a coluna apontam que o caminho inverso também se sustenta: declarações públicas que reafirmam o cumprimento da lei, respaldam tecnicamente os órgãos ambientais e reconhecem os direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais podem fortalecer a proteção ambiental. A conclusão do estudo é que, em matéria ambiental, governar também é sinalizar, e cada mensagem pública emitida por uma autoridade pode contribuir para manter a floresta em pé ou para empurrá-la para o chão.


Fonte: ((o))eco

Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de ((o))eco e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

Related Posts
Clear Filters

Registros alfandegários mostram que a mineradora White Solder, ré por suspeita de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, exportou estanho para uma fornecedora da fabricante de armamentos Raytheon, que tem contratos bilionários com o governo dos Estados Unidos.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro suspendeu as licenças ambientais do Complexo Maraey e paralisou obras na APA de Maricá, atendendo a recurso do MPRJ que aponta risco de dano irreversível à Restinga e a comunidades tradicionais e indígenas da região.

Lideranças extrativistas, universidades e o MMA lançaram no Marajó a Carta Dudu da Floresta, propondo o conceito de Economia da Floresta Viva para valorizar o trabalho de quem mantém a Amazônia em pé.

Levantamento do Cimi baseado na Plataforma Congresso Anti-Indígena mostra que 19 dos 28 partidos analisados votaram majoritariamente contra os direitos indígenas no Congresso entre 2019 e 2026, com PL, PP e União Brasil na liderança das posições contrárias.