Jovens Tikmũ’ũn combateram chamas com balde e EPI revezado enquanto o Estado demorava a mobilizar apoio federal em Minas Gerais
Um incêndio que começou na madrugada de 2 de outubro de 2026 nas cabeceiras do rio Umburanas, no Vale do Mucuri (MG), queimou 3.549 hectares dentro da Terra Indígena Maxakali — 67% do território demarcado — e mais 548 hectares no entorno, segundo o mapa de área queimada do Prevfogo/Ibama. É o maior incêndio já registrado na terra indígena, que é ocupada pelo povo Tikmũ’ũn, autodenominação dos Maxakali, um dos poucos povos de Mata Atlântica monolíngues e de contato recente no país, segundo o Instituto Socioambiental.
Quem segurou o fogo nos primeiros dias foi a Brigada Voluntária Mãtanãg Kõnãghi, formada por jovens do próprio povo em parceria com o Ibama/Prevfogo em 2024, sem contrato nem equipamento completo. Segundo relato da antropóloga Rosângela Pereira de Tugny, da Universidade Federal do Sul da Bahia, à reportagem, os brigadistas revezavam os equipamentos de proteção individual entre si, e “foi mulher, foi criança com balde, a população inteira” que entrou no combate. A TI Maxakali não tem brigada federal oficializada — pedido que, segundo Tugny, a comunidade já faz há tempos.
A Funai só emitiu nota sobre o incêndio em 13 de outubro, quando o fogo já estava em nível 2, com duas frentes ativas e chamas de mais de quatro metros. O apoio federal veio por etapas: pedido formal em 8 de outubro, cinco brigadistas cadastrados depois, e reforço de mais quatro da Brigada Xakriabá somente em 13 de outubro. O fogo foi considerado controlado em 15 de outubro, quando já havia percorrido quase todo o território.
Pesquisas citadas pela reportagem, incluindo estudo do ICMBio e da UFSCar, atribuem parte da gravidade ao avanço do capim-colonião, gramínea exótica que domina áreas degradadas da terra indígena, altera o regime de queima e impede a regeneração da floresta nativa — um ciclo em que o fogo favorece o capim e o capim prepara o próximo incêndio. Dados do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI mostram que a cobertura florestal caiu de 2.137 hectares em 1985 para 795 hectares em 2021, enquanto pastagem e agricultura avançaram no mesmo período.
O episódio ocorreu em um contexto de falta de água já reconhecido pela Justiça: em julho de 2026, a Vara Federal de Teófilo Otoni determinou que a União garantisse em 30 dias o fornecimento regular de água potável às famílias do Polo Base Maxakali, sob multa. O prazo venceu em 22 de agosto, antes do incêndio. Lideranças como Maria Diva Maxakali relataram à reportagem que animais morreram queimados e que a comunidade ficou sem saber o que fazer diante das chamas.
Fonte: Brasil de Fato
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Brasil de Fato e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

