Mineração alimenta crise humanitária
A floresta amazônica não queima apenas; ela tosse. Nos pulmões das crianças Kayapó, no sul do Pará, o ar não é mais invisível. Ele tem cor, textura e um gosto acre de fuligem e desespero. Em setembro de 2024, enquanto o Brasil debatia metaforicamente o “clima” político em Brasília, nas aldeias Mopkrore e Pykato, o dia virou noite. A concentração de material particulado fino (PM2.5) — partículas tóxicas pequenas o suficiente para penetrar na corrente sanguínea — atingiu 135 microgramas por metro cúbico. Para colocar em perspectiva a violência desse número: a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece 15 µg/m³ como o limite do tolerável. O que os Kayapó respiravam era 800% mais tóxico do que o ar considerado seguro para a vida humana.1
Sumário
- Parte I: O Balcão de Negócios na Suprema Corte
- A Mesa de Conciliação e a Manobra Adams
- O Conflito de Interesses como Método
- Parte II: O Trator Legislativo no Senado
- A Raposa Vigiando o Galinheiro
- Plínio Valério e a “Independência” Tóxica
- Parte III: A Batalha pelo Potássio em Autazes
- Ouro Branco, Sangue Indígena
- A Falácia da Consulta Prévia
- Parte IV: O Apocalipse Yanomami e o Narcogarimpo
- Quando o Crime Veste Farda
- A Geografia do Terror
- O Fracasso da Resposta Estatal
- Parte V: Mercúrio e Fogo: O Genocídio Químico e Atmosférico
- O Veneno Invisível do Tapajós
- O Céu em Chamas dos Kayapó
- Parte VI: A Lavanderia Global do Ouro
- O Esquema Sisaque e as “Noteiras”
- A Rota Dubai-Suíça
- Parte VII: Espelhos Globais da Impunidade
- Juukan Gorge (Austrália): A Legalidade da Destruição
- Mount Polley (Canadá): O Mito da Segurança
- Grasberg (Indonésia): O Estado como Segurança Privada
- Conclusão: Um Projeto de Morte
- Referências citadas
Essa fumaça não é um acidente meteorológico. Ela é a xawara, termo que o xamã Davi Kopenawa usa para descrever a “fumaça do metal”, a epidemia que se desprende da terra quando o “Povo da Mercadoria” — os não indígenas — revira o solo em busca de minérios. Para Kopenawa, a xawara é uma patologia espiritual e física da ganância.3 Enquanto essa fumaça asfixia o Xingu e o Tapajós, a mais de três mil quilômetros de distância, nos gabinetes hermeticamente fechados e refrigerados do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Senado, desenha-se a arquitetura jurídica que promete não apenas perpetuar, mas legalizar e expandir a fonte dessa fumaça.
Esta reportagem investigativa do The Intercept mergulha nas entranhas de uma contradição brutal. De um lado, a realidade visceral dos territórios indígenas, onde o garimpo ilegal, fundido ao narcotráfico, envenena rios com mercúrio e transforma aldeias em campos de batalha. Do outro, a movimentação asséptica de lobistas, ex-advogados da União e senadores ruralistas que, sob o eufemismo de “segurança jurídica” e “minerais estratégicos”, articulam a abertura final das Terras Indígenas (TIs) à exploração mineral.
O que se revela não é uma falha do Estado, mas um projeto de sucesso. A crise humanitária que devasta Yanomamis, Mundurukus e Muras não é um efeito colateral; é o custo operacional calculado de um modelo de desenvolvimento que vê a floresta como almoxarifado e seus habitantes como entraves burocráticos.
Parte I: O Balcão de Negócios na Suprema Corte
A Mesa de Conciliação e a Manobra Adams
A batalha pelo destino das terras indígenas brasileiras encontrou um novo e perigoso palco em 2024: uma mesa de conciliação no Supremo Tribunal Federal. O que deveria ser um espaço para pacificar conflitos constitucionais transformou-se, segundo denúncias de mais de 50 organizações indígenas, em um mercado de direitos fundamentais. A gênese desse processo reside no impasse sobre o “Marco Temporal” — a tese ruralista de que indígenas só teriam direito às terras que ocupavam fisicamente em 5 de outubro de 1988.

Apesar de o STF ter declarado a tese inconstitucional em 2023, o Congresso Nacional, em uma demonstração de força do agronegócio, aprovou a Lei 14.701/2023, ressuscitando o marco temporal. Para arbitrar o choque entre os poderes, o ministro Gilmar Mendes convocou uma câmara de conciliação. Foi neste ambiente, longe dos holofotes do plenário, que se operou uma das manobras mais audaciosas do lobby minerário recente.5
O protagonista dessa articulação é Luís Inácio Lucena Adams. Ex-Advogado-Geral da União nos governos petistas, Adams ocupa hoje uma posição híbrida que epitomiza a porta giratória entre o serviço público e os interesses corporativos privados. Na mesa de conciliação, ele senta-se como representante do Partido Progressista (PP), legenda que historicamente defende a expansão da fronteira agrícola e mineral. Contudo, Adams carrega outro chapéu: ele é advogado e sócio de escritórios que defendem a Potássio do Brasil, uma mineradora controlada pelo banco canadense Forbes & Manhattan, com interesses bilionários no subsolo amazônico.6
Foi de Adams a sugestão cirúrgica inserida na minuta de proposta legislativa apresentada por Gilmar Mendes. O texto propõe, em seu Artigo 21, que a exploração de “recursos minerais estratégicos” em terras indígenas seja classificada como de “relevante interesse público da União”. A semântica é a arma: ao rotular certos minérios como “estratégicos” e de “interesse público”, a proposta visa contornar a exigência constitucional de consentimento das comunidades afetadas. Se o interesse é da União, a vontade do indígena torna-se secundária, um detalhe processual a ser superado.6
O Conflito de Interesses como Método
A conexão é direta e escandalosa. Em 2021, ainda sob o governo Bolsonaro, o potássio foi incluído na lista oficial de minerais estratégicos do Brasil, sob a justificativa de reduzir a dependência de fertilizantes importados da Rússia e Bielorrússia. A Potássio do Brasil, cliente de Adams, possui um projeto colossal paralisado em Autazes (AM), sobreposto à Terra Indígena Soares/Urucurituba do povo Mura. Se a tese de Adams prosperar na mesa de conciliação, o projeto de Autazes ganhará um salvo-conduto automático, atropelando décadas de resistência Mura e processos de demarcação em curso.6
As organizações indígenas, lideradas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), retiraram-se da mesa de conciliação em protesto. Elas denunciam que o processo é uma armadilha: sob a aparência de diálogo, impõe-se a aceitação de perdas territoriais e a abertura para a mineração como fatos consumados. A carta assinada pelas entidades é contundente ao afirmar que a liberação da mineração em TIs resulta de “manobras do Centrão e do lobby mineral”, tratando o setor como uma utilidade pública superior aos direitos originários.5
O ministro Gilmar Mendes, anfitrião da mesa, não é um estranho ao setor. O presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Raul Jungmann, é figura carimbada no “Fórum de Lisboa”, evento jurídico-político organizado anualmente por Mendes em Portugal, apelidado jocosamente de “Gilmarpalooza”. A proximidade entre o judiciário e o setor regulado levanta questões éticas profundas sobre a imparcialidade do processo de conciliação.5
Parte II: O Trator Legislativo no Senado
A Raposa Vigiando o Galinheiro
Enquanto o STF prepara o terreno jurídico, o Senado Federal acelera a regulamentação prática. Em outubro de 2025, a casa instalou o Grupo de Trabalho sobre Regulamentação da Mineração em Terras Indígenas (GTMTI). A composição do colegiado é um retrato fiel da correlação de forças em Brasília: o agronegócio e a mineração ocupam todas as cadeiras de comando.9
A presidência do GT coube à senadora Tereza Cristina (PP-MS). Ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, Tereza Cristina é a face mais sofisticada do ruralismo brasileiro. Conhecida como “Musa do Veneno” por sua atuação na liberação de agrotóxicos, ela agora direciona sua eficiência política para o subsolo. Em suas declarações, a senadora utiliza um discurso modernizante, falando em “riqueza parada” e na necessidade de regras claras para evitar o garimpo ilegal, como se a legalização fosse a panaceia mágica para a devastação.10
A vice-presidência ficou com Marcos Rogério (PL-RO), senador de um estado onde o garimpo ilegal opera quase como política de estado, muitas vezes com a conivência das autoridades locais. A relatoria foi entregue a Rogério Carvalho (PT-SE), indicando que, apesar das divergências partidárias, há um consenso desenvolvimentista que une governistas e oposição quando o assunto é mineração na Amazônia. O GT tem um prazo exíguo de 180 dias para apresentar um projeto de lei, uma pressa que contrasta com a morosidade secular na demarcação das terras indígenas.9
Plínio Valério e a “Independência” Tóxica
Uma das vozes mais estridentes nesse coro é a do senador Plínio Valério (PSDB-AM). Autor de projetos anteriores que visavam liberar o garimpo, Valério constrói uma narrativa perversa de “emancipação”. Para ele, a mineração trará “autonomia” e “independência” aos povos indígenas, libertando-os da tutela do Estado e da influência das ONGs.12 É a reedição do discurso integracionista da ditadura militar: o índio só é cidadão quando se torna produtor, quando sua terra vira mercadoria.
O histórico de Valério revela nuances inquietantes. Em resposta a reportagens da Agência Pública, o senador admitiu que, em sua juventude como repórter, tentou “entender as práticas” do garimpo para combater as ONGs, embora negue ter atuado na exploração direta. Sua obsessão com as organizações não governamentais é tamanha que ele presidiu a CPI das ONGs, utilizada como palanque para deslegitimar o trabalho indigenista e ambiental na região. Recentemente, Valério saiu em defesa de manifestantes pró-garimpo durante a COP30, demonstrando de que lado está na trincheira climática.13
O argumento central do GT — de que a regulamentação acabará com o garimpo ilegal — é desmentido pela própria realidade. A mineração industrial e o garimpo ilegal não são excludentes; muitas vezes, são complementares. A infraestrutura aberta pelas grandes mineradoras facilita a entrada de invasores, e a lavagem de ouro (o “esquentamento”) utiliza brechas legais que a regulamentação frouxa tende a ampliar, não fechar.
Parte III: A Batalha pelo Potássio em Autazes
Ouro Branco, Sangue Indígena
Se Brasília é o cérebro da operação, Autazes, nas várzeas do Amazonas, é o corpo onde a cirurgia está sendo realizada sem anestesia. O Projeto Potássio Autazes pretende extrair silvinita (minério base para o cloreto de potássio) de uma mina subterrânea que se estende por baixo da Terra Indígena Soares/Urucurituba. Para o povo Mura, habitantes ancestrais dessas margens e lagos, a chegada da Potássio do Brasil significou o fim da paz e o início de uma guerra fratricida.7
A empresa, subsidiária da Brazil Potash, não esperou a aprovação legal para agir. Segundo denúncias do Ministério Público Federal (MPF) e relatos de lideranças locais, a mineradora implementou uma estratégia agressiva de divisão comunitária. O método é antigo, mas eficaz: o dinheiro. Investigações apontam que a empresa teria cooptado membros do Conselho Indígena Mura (CIM) através de pagamentos mensais e “ajudas de custo”. Os valores citados em denúncias variam de R$ 5.000 a R$ 40.000, quantias exorbitantes para a economia local, capazes de transformar lideranças em lobistas da mineradora dentro de suas próprias aldeias.5
Gabriel Mura, tuxaua da aldeia Lago do Soares — o epicentro do impacto, localizado diretamente sobre a jazida —, descreve um cenário de cerco. “A gente fica de mãos atadas porque vê que o outro lado caminha a passos mais largos”, desabafa. A empresa já realiza intervenções físicas no território, como a abertura de picadas e perfuração de poços, ignorando o processo de demarcação que se arrasta há duas décadas. A promessa de empregos e royalties é usada para seduzir os jovens e isolar os anciãos que resistem.7
A Falácia da Consulta Prévia
A Potássio do Brasil afirma ter realizado consultas às comunidades, mas o MPF contesta a validade desses processos. A Convenção 169 da OIT exige que a consulta seja livre, prévia e informada. Em Autazes, ela não foi livre (houve coação econômica), não foi prévia (o projeto já estava definido) e não foi informada (os impactos reais foram minimizados). O MPF ingressou com ações apontando fraudes, incluindo a compra indevida de terrenos e a manipulação de atas de reuniões.5
Os riscos ambientais são catastróficos. A mineração de potássio gera montanhas de rejeitos salinos. Em uma região regida pelo pulso das águas, onde rios sobem e descem metros a cada estação, o risco de salinização dos igarapés e lagos é existencial. Para os Mura, que são um povo das águas, a contaminação dos peixes e a morte dos rios significariam o fim de sua cultura. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela empresa foi duramente criticado por subestimar esses riscos e ignorar a complexidade hidrológica da bacia do Rio Madeira.5
A conexão com Brasília fecha o circuito: a Potássio do Brasil financia a divisão em Autazes e contrata Luís Inácio Adams para mudar a lei no STF. É um movimento de pinça: esmaga-se a resistência local com dinheiro e remove-se a proteção legal com influência política.
Parte IV: O Apocalipse Yanomami e o Narcogarimpo
Quando o Crime Veste Farda
Enquanto em Autazes a mineração tenta manter uma fachada corporativa, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, ela assumiu sua face mais grotesca: o “narcogarimpo”. A floresta tornou-se o refúgio operacional de algumas das facções criminosas mais perigosas da América do Sul. Investigações da Polícia Federal e o relatório “Cartografias da Violência na Amazônia” revelam que o Primeiro Comando da Capital (PCC) não apenas atua na região, mas exerce governança territorial sobre vastas áreas do território indígena.17
A simbiose é perfeita. O garimpo precisa de logística pesada, armas para garantir a posse das cavas e rotas de escoamento. O PCC tem o capital do tráfico de drogas para financiar as máquinas (escavadeiras hidráulicas custam milhões), a expertise em logística clandestina e o poder de fogo. Em troca, o ouro extraído serve como mecanismo ideal de lavagem de dinheiro: um ativo universal, difícil de rastrear, que transforma o lucro sujo da cocaína em capital legalizável.
A Geografia do Terror
A facção paulista domina cinco municípios de Roraima de forma exclusiva (Amajari, Cantá, Caroebe, Normandia e Uiramutã) e disputa outros oito, incluindo a capital Boa Vista e Pacaraima, na fronteira. A presença do crime organizado trouxe para dentro da terra Yanomami práticas de terror urbano. Relatos confirmam a existência de “currutelas” (vilas de garimpo) onde mulheres e crianças indígenas são submetidas à exploração sexual sistemática, muitas vezes em troca de comida. A violência é a moeda corrente: execuções sumárias, tortura e desaparecimentos forçados são métodos de controle social impostos pelos “irmãos” da facção.17
A situação é agravada pela internacionalização do conflito. O Tren de Aragua, megafacção venezuelana, entrou na disputa pelo controle das rotas de tráfico e contrabando de ouro na fronteira. Em Boa Vista, a guerra entre facções resultou em mais de 50 migrantes venezuelanos mortos ou vítimas de tentativas de homicídio apenas entre janeiro e outubro de 2025. A descoberta de cemitérios clandestinos, com corpos desmembrados e enterrados com cal para disfarçar o cheiro, expõe a brutalidade dessa disputa que tem o território Yanomami como plano de fundo e fonte de recursos.17
O Fracasso da Resposta Estatal
Apesar da retórica do governo federal e das operações de desintrusão iniciadas em 2023, a realidade em 2025 é de persistência. O garimpo adaptou-se. Hoje, ele opera com sistemas de comunicação via satélite (Starlink), monitora a movimentação das forças de segurança e utiliza táticas de guerrilha para proteger seus equipamentos. Quando uma draga é queimada pelo Ibama, o capital do narcotráfico permite que outra seja comprada e instalada em semanas.
Os dados de saúde são o reflexo dessa ocupação. Embora o Ministério da Saúde celebre uma redução de 21% nos óbitos Yanomami em 2024, as mortes por causas evitáveis continuam em patamares de guerra. Malária, infecções respiratórias e desnutrição — a tríade da negligência — ceifaram centenas de vidas infantis entre 2019 e 2024. A presença de garimpeiros armados impede que equipes de saúde cheguem às aldeias mais remotas, criando zonas de exclusão onde o Estado brasileiro não existe, exceto como alvo.19
Parte V: Mercúrio e Fogo: O Genocídio Químico e Atmosférico
O Veneno Invisível do Tapajós
Se a violência no território Yanomami é balística, no território Munduruku, no Pará, ela é química e silenciosa. O mercúrio, elemento essencial para a amalgamação do ouro no garimpo, está promovendo um genocídio lento. Um estudo devastador da Fiocruz, realizado nas aldeias do Tapajós, revelou que a contaminação é onipresente. Em algumas comunidades, 100% dos indígenas testados apresentavam níveis de mercúrio acima do limite de segurança.21
O impacto é geracional. Mulheres grávidas apresentaram níveis de mercúrio cinco vezes superiores ao tolerável; em recém-nascidos, a concentração era três vezes maior. O mercúrio atravessa a placenta e ataca o sistema nervoso central do feto em desenvolvimento. O que estamos testemunhando é o nascimento de uma geração Munduruku condenada a danos neurológicos, atrasos cognitivos e malformações motoras antes mesmo de respirar pela primeira vez.
Alessandra Korap Munduruku, liderança histórica, resume o desamparo: “Vem a desintrusão, tiram o garimpo, mas não trazem saúde, não trazem alimento limpo. Deixam o povo abandonado com o veneno”.23 A contaminação dos rios inviabiliza a pesca, base da segurança alimentar, forçando os indígenas a consumirem alimentos ultraprocessados ou, pior, continuarem comendo o peixe envenenado por falta de opção.
O Céu em Chamas dos Kayapó
Enquanto o Tapajós é envenenado pela água, o Xingu é sufocado pelo ar. A temporada de queimadas de 2024 foi a mais severa em décadas para o povo Kayapó. A combinação de seca extrema — exacerbada pelas mudanças climáticas — e a ação criminosa de grileiros e garimpeiros transformou as Terras Indígenas Kayapó, Menkragnoti e Baú em um inferno a céu aberto.
Dados de monitoramento revelam que a TI Kayapó concentrou sozinha 27,1% (2.213) de todos os focos de calor em terras indígenas da Amazônia entre julho e setembro de 2024.24 Nas aldeias Mopkrore e Pykato, a média de material particulado fino (PM2.5) atingiu 135 µg/m³ em setembro, tornando o ar irrespirável. Idosos sucumbiram a crises respiratórias, crianças adoeceram em massa e escolas foram fechadas por meses. O fogo destruiu roças de mandioca, batata e banana, lançando as comunidades em uma crise de insegurança alimentar aguda.1
A xawara de que fala Davi Kopenawa não é apenas uma metáfora espiritual; ela é mensurável em microgramas de fuligem e nanogramas de mercúrio. É a materialização atmosférica e hídrica da invasão.
Parte VI: A Lavanderia Global do Ouro
O Esquema Sisaque e as “Noteiras”
O ouro que destrói a vida na floresta precisa ser “lavado” para brilhar nas vitrines do mundo. A Operação Sisaque, deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com o MPF e a Receita Federal, expôs as entranhas dessa máquina de lavagem. O esquema movimentou mais de R$ 4 bilhões em notas fiscais fraudulentas entre 2020 e 2022, “esquentando” cerca de 13 toneladas de ouro ilegal.25
O coração da fraude são as chamadas “noteiras”: empresas de fachada, muitas vezes em nome de laranjas, que emitem notas fiscais eletrônicas simulando que o ouro foi extraído de áreas autorizadas (Permissões de Lavra Garimpeira – PLGs). Na realidade, o metal vem de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. Essas notas dão uma aparência de legalidade ao produto, que é então comprado por Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs). Até recentemente, as DTVMs eram protegidas pela “presunção de boa-fé”, uma aberração jurídica que as isentava de verificar a origem real do ouro, permitindo que fechassem os olhos para a fraude óbvia.26
A Rota Dubai-Suíça
Uma vez “legalizado”, o ouro entra no mercado internacional. Investigações transnacionais, como o projeto “Opacidade Dourada”, indicam que metade do ouro exportado pela América do Sul tem origem desconhecida. Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, consolidou-se como o grande hub global para esse ouro sujo. Refinarias em Dubai aceitam ouro de zonas de conflito com controles mínimos, refundem o metal e apagam qualquer traço químico de sua origem amazônica. De lá, o ouro segue para a Suíça e Índia, entrando nas cadeias de suprimento de grandes bancos e joalherias de luxo.27
Outra rota de fuga é o contrabando fronteiriço. Com o aperto da fiscalização no Brasil sob o governo Lula, traficantes passaram a escoar o ouro pela Venezuela e Guiana. O metal é transportado clandestinamente através da fronteira porosa de Roraima, muitas vezes utilizando as mesmas rotas do PCC, e “nacionalizado” nos países vizinhos antes de ser exportado legalmente, driblando os controles brasileiros.28
Parte VII: Espelhos Globais da Impunidade
Para quem acredita que a regulamentação proposta pelo Congresso brasileiro trará segurança, o cenário internacional oferece exemplos aterrorizantes do contrário. A mineração, por sua natureza, é uma atividade de alto risco e alto impacto, e mesmo em países com legislações robustas, o lobby e a negligência causam desastres irreparáveis.
Juukan Gorge (Austrália): A Legalidade da Destruição
Em maio de 2020, a gigante anglo-australiana Rio Tinto dinamitou cavernas sagradas em Juukan Gorge, na Austrália Ocidental. O local continha evidências de ocupação humana contínua por 46.000 anos e era sagrado para o povo Puutu Kunti Kurrama e Pinikura (PKKP). O detalhe mais chocante: a destruição foi totalmente legal, autorizada pela Seção 18 do Aboriginal Heritage Act de 1972. A empresa sabia da importância arqueológica, mas escolheu a opção mais barata e lucrativa (extrair 8 milhões de toneladas de minério de ferro, valoradas em US$ 135 milhões). O caso prova que a legalidade não impede a barbárie cultural quando a lei é feita sob medida para a mineração.29
Mount Polley (Canadá): O Mito da Segurança
O Canadá é frequentemente citado por lobistas brasileiros como modelo de “mineração responsável”. Em 2014, o rompimento da barragem de rejeitos de Mount Polley desmentiu esse mito. A falha despejou 24 milhões de metros cúbicos de lama tóxica em lagos prístinos na Colúmbia Britânica, território de Primeiras Nações. Investigações revelaram negligência no design e fiscalização frouxa. Apesar da catástrofe, nenhuma acusação criminal foi feita contra a empresa Imperial Metals, e as multas foram irrisórias. A impunidade canadense ecoa a impunidade brasileira em Mariana e Brumadinho.31
Grasberg (Indonésia): O Estado como Segurança Privada
A mina de Grasberg, operada pela americana Freeport-McMoRan na Papua Ocidental (Indonésia), é talvez o espelho mais fiel do que ocorre na Amazônia. Lá, a empresa despeja mais de 200.000 toneladas de rejeitos por dia diretamente nos rios (prática banida mundialmente), destruindo o ecossistema dos povos Amungme e Kamoro. Para garantir a operação, a mineradora pagou milhões de dólares diretamente às forças armadas e policiais da Indonésia, que atuam como segurança privada da mina, reprimindo violentamente qualquer protesto indígena. Em Roraima, o PCC cumpre papel similar de segurança armada do garimpo, enquanto em Brasília busca-se a legitimidade estatal para a exploração.33
Conclusão: Um Projeto de Morte
A “crise” indígena no Brasil não é um evento; é uma estrutura. A febre do ouro que consome a Amazônia é alimentada por uma engrenagem complexa que conecta a draga no Rio Madeira ao gabinete em Brasília e à refinaria em Dubai.
O xamã Davi Kopenawa nos avisa: “A xawara do minério é inimiga dos Yanomami, de vocês também. Ela quer nos matar”.3 Ailton Krenak complementa com uma advertência final: “A terra cansa. Vai chegar uma hora que a terra não vai responder mais. Vai ser uma terra morta”.35
A contradição exposta neste relatório é que, para o lobby político e econômico que comanda o Brasil, a “terra morta” não é um pesadelo a ser evitado, mas um ativo a ser precificado. Enquanto a fumaça do metal sufoca os povos da floresta, em Brasília, o ar condicionado continua ligado, e as canetas continuam a assinar sentenças de morte travestidas de projetos de lei. A única coisa que resta saber é se a sociedade brasileira aceitará ser cúmplice desse extermínio em troca de joias e fertilizantes.
Referências citadas
- Queimadas aumentam poluição nas terras Kayapó … – InfoAmazonia, acessado em dezembro 31, 2025, https://infoamazonia.org/2025/03/19/poluicao-por-fumaca-em-comunidades-kayapo-supera-limite-recomendado-pela-oms-em-800-no-auge-da-temporada-de-queimadas-na-amazonia/
- Poluição por fumaça em comunidades Kayapó supera limite recomendado pela OMS em 800% no auge da temporada de queimadas na Amazônia – Instituto Humanitas Unisinos, acessado em dezembro 31, 2025, https://ihu.unisinos.br/649744-poluicao-por-fumaca-em-comunidades-kayapo-supera-limite-recomendado-pela-oms-em-800-no-auge-da-temporada-de-queimadas-na-amazonia
- Xawara – O ouro canibal e a queda do céu Em entrevista concedida ao Cedi, em Brasília, no dia 09 de março de 1990 e registrad, acessado em dezembro 31, 2025, https://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_verbetes/yanomami/xawara.pdf
- Conversa com o xamã Davi Kopenawa – Periodikos, acessado em dezembro 31, 2025, https://app.periodikos.com.br/article/10.4322/rbaval202412012/pdf/rbaval-13-2+spe-e131224.pdf
- Potássio no AM: entenda projeto de mineradora que fez lobby …, acessado em dezembro 31, 2025, https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/229091
- Gilmar Mendes propõe liberar mineração em terras indígenas …, acessado em dezembro 31, 2025, https://infoamazonia.org/2025/02/16/gilmar-mendes-propoe-liberar-mineracao-em-terras-indigenas-acolhendo-sugestao-de-advogado-da-potassio-do-brasil/
- Lobby da mineração de potássio chega ao STF – Amazônia Real, acessado em dezembro 31, 2025, https://amazoniareal.com.br/lobby-da-mineracao-de-potassio-chega-ao-stf/
- Lobby da mineração de potássio chega ao STF – Notícias – Indigenous Peoples in Brazil – | Instituto Socioambiental, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.pib.socioambiental.org/en/Not%C3%ADcias?id=228535
- Senado aprova marco temporal e busca saída para mineração em …, acessado em dezembro 31, 2025, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/12/30/senado-aprova-marco-temporal-e-busca-saida-para-mineracao-em-terras-indigenas
- Grupo de trabalho sobre mineração em terras indígenas é instalado – Senado Federal, acessado em dezembro 31, 2025, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/10/21/grupo-de-trabalho-sobre-mineracao-em-terras-indigenas-e-instalado
- Jornal Correio Popular Notícia, acessado em dezembro 31, 2025, http://www.correiopopular.com.br/vernot.php?id=60547
- Plínio diz que exploração sustentável atende demanda da própria comunidade indígena, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=dKvc-9Fab80
- CPI das ONGs: presidente buscou licença para ouro na Amazônia – Agência Pública, acessado em dezembro 31, 2025, https://apublica.org/2023/11/presidente-de-cpi-das-ongs-tentou-licenciar-exploracao-de-ouro-na-amazonia/
- Plínio Valério defende protesto indígena na COP30 – YouTube, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.youtube.com/watch?v=6f8A7t1dDoU
- “Não aceitamos a mineração em nossos territórios, em nenhuma hipótese”, reafirma povo Mura em encontro de resistência, acessado em dezembro 31, 2025, https://cimi.org.br/2025/06/povo-mura-viii-encontro-resistencia-am/
- Linha do tempo — Caso Potássio – MPF, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-potassio/linha-do-tempo
- Roraima tem presença de facções criminosas em 13 dos 15 …, acessado em dezembro 31, 2025, https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2025/11/20/roraima-tem-presenca-de-faccoes-criminosas-em-13-dos-15-municipios-pcc-domina.ghtml
- Pesquisa revela que PCC atua com garimpo ilegal há quase 10 anos na Terra Yanomami, acessado em dezembro 31, 2025, https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2024/12/20/pesquisa-revela-que-pcc-atua-com-garimpo-ilegal-ha-quase-10-anos-na-terra-yanomami.ghtml
- Com expansão da assistência, óbitos no território Yanomami caem …, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/maio/com-expansao-da-assistencia-obitos-no-territorio-yanomami-caem-21-em-2024
- Unicef pede ações integradas para proteger infância Yanomami – Agência Brasil – EBC, acessado em dezembro 31, 2025, https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-10/unicef-pede-acoes-integradas-para-proteger-infancia-yanomami
- Fiocruz apresenta resultados do estudo ‘Impacto do mercúrio em áreas protegidas e povos da Amazônia’ – Fiotec, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.fiotec.fiocruz.br/noticias/projetos/9071-fiocruz-apresenta-resultados-do-estudo-impacto-do-mercurio-em-areas-protegidas-e-povos-da-amazonia
- Fiocruz apresenta dados preliminares sobre contaminação por mercúrio em gestantes e bebês indígenas – Informe Ensp, acessado em dezembro 31, 2025, https://informe.ensp.fiocruz.br/noticias/56396
- Problemas causados pelo garimpo na terra Munduruku seguem até hoje – Agência Pública, acessado em dezembro 31, 2025, https://apublica.org/2025/07/problemas-causados-pelo-garimpo-na-terra-munduruku-seguem-ate-hoje/
- Fogo registrado desde julho em terras indígenas é o maior em 20 anos – InfoAmazonia, acessado em dezembro 31, 2025, https://infoamazonia.org/2024/09/19/impulsionado-pelo-garimpo-e-pela-seca-fogo-nas-terras-indigenas-e-o-maior-ja-registrado-em-mais-de-20-anos/
- Operação desmonta esquema bilionário de ouro clandestino na Amazônia — Procuradoria da República no Pará – MPF, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.mpf.mp.br/pa/sala-de-imprensa/noticias-pa/operacao-sisaque
- Operação conjunta apura suposto esquema bilionário de venda de ouro – Agência Brasil, acessado em dezembro 31, 2025, https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2023-02/operacao-conjunta-apura-suposto-esquema-bilionario-de-venda-de-ouro
- Regional: Levantamento indica que metade do ouro exportado por países da América do Sul não tem origem conhecida, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.business-humanrights.org/pt/%C3%BAltimas-not%C3%ADcias/regional-levantamento-indica-que-metade-do-ouro-exportado-por-pa%C3%ADses-da-am%C3%A9rica-do-sul-n%C3%A3o-tem-origem-conhecida/
- Amazônia: garimpeiros ilegais driblam fiscalização contrabandeando ouro para a Venezuela – Mongabay Brasil, acessado em dezembro 31, 2025, https://brasil.mongabay.com/2025/05/amazonia-garimpeiros-ilegais-driblam-fiscalizacao-contrabandeando-ouro-para-a-venezuela/
- Opinion: Rio Tinto and the Juukan Gorge incident: legal compliance …, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.ibanet.org/Rio-Tinto-Juukan-Gorge-legal-compliance
- Rio Tinto’s destruction of Juukan Gorge – ANTAR, acessado em dezembro 31, 2025, https://antar.org.au/issues/cultural-heritage/the-destruction-of-juukan-gorge/
- Mount Polley Independent Expert Investigation and Review Report, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.mountpolleyreviewpanel.ca/
- The Mount Polley tailings dam failure (Canada), acessado em dezembro 31, 2025, https://www.wise-uranium.org/mdafmp.html
- Mining, murder and mayhem: The impact of the mining industry in the South – Third World Network (TWN), acessado em dezembro 31, 2025, https://twn.my/title/mine-cn.htm
- FIFTY YEARS OF CORPORATE EXPLOITATION …, acessado em dezembro 31, 2025, https://corpaccountabilitylab.org/calblog/2022/7/28/fifty-years-of-corporate-exploitation-environmental-labor-amp-human-rights-abuses-by-us-mining-giant-freeport-part-ii
- Ailton Krenak: “a terra cansa” | ISA – | Instituto Socioambiental, acessado em dezembro 31, 2025, https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/ailton-krenak-terra-cansa





