Mirani da Silva vende ervas há 50 anos na feira de Belém e teme que o conhecimento ancestral se perca entre vendedores que não ensinam aos filhos
No Ver-o-Peso, em Belém, a erveira Mirani da Silva separa abre-caminho, catinga-de-mulata, pataqueira e manjericão para os romeiros que se preparam para o Círio de Nazaré. O conhecimento sobre essas ervas passou pelos pais dela, que a levaram à feira aos 7 anos, e hoje ela repassa o saber à filha Kellen da Silva e a um filho, que dividem a banca com ela.
Segundo Mirani, há 50 anos na feira, o Círio muda o tipo de procura: no resto do ano, os fregueses buscam mais ervas de descarga, como arruda e quebra-feitiço, mas na época da festa querem as ervas atrativas para o banho, geralmente ligadas a uma promessa. Ela faz questão de não prometer resultados. “É só uma ajuda. As ervas é uma ajuda”, afirma. De acordo com a erveira, os fregueses preferem levar as plantas para macerar em casa, porque querem “sentir a energia das ervas”.
A estudante Suzana Sampaio, freguesa da banca, conta que toma banhos de ervas em diferentes momentos do ano, mas que o período do Círio tem um peso espiritual diferente, quando reza, agradece e pede proteção. Para ela, que frequenta uma casa de Umbanda e se diz católica não praticante, o saber das ervas é um patrimônio transmitido pela oralidade, “de avó pra neto, de mãe pra filha”, e precisa continuar circulando para que as pessoas conheçam mais sobre a própria ancestralidade e território.
A continuidade desse saber na banca da família passou por um momento de ruptura. Há nove anos, quando a mãe de Mirani morreu, a erveira pensou em abandonar a atividade. Segundo ela, um freguês antigo procurou a família com um recado espiritual atribuído à mãe falecida, pedindo que Mirani seguisse a missão. A partir daí, ela decidiu continuar, agora ao lado dos filhos. Kellen, que é evangélica, afirma que a fé não a afasta da festa e enxerga no trabalho com os banhos atrativos uma forma de a banca participar do Círio.
Mirani avalia que esse tipo de transmissão entre gerações não se repete em boa parte do Ver-o-Peso. Segundo ela, muitos vendedores da feira deixaram de ensinar os próprios filhos e, na visão da erveira, esse conhecimento corre risco de desaparecer com a geração atual. Kellen diz conhecer casos de famílias em que “os filhos não querem mais seguir a trajetória dos pais”. Na banca de Mirani, porém, o caminho seguiu diferente: neste Círio, ela volta a separar as ervas que aprendeu a plantar com os pais, agora com os próprios filhos ao lado.
Fonte: Mídia NINJA
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Mídia NINJA e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

