Levantamento do Observatório do Clima com dados do AdaptaBrasil mostra que 30,5% das cidades do país enfrentam risco alto ou muito alto de escassez hídrica, com forte concentração no Nordeste.
O Observatório do Clima identificou 1.699 municípios brasileiros — 30,5% do total de 5.569 — sob risco alto ou muito alto de sofrer com a falta de água provocada por períodos de seca. A análise usa dados do AdaptaBrasil, plataforma do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e aponta o Nordeste como epicentro do problema: todos os 15 municípios classificados com risco muito alto ficam na região, presente em oito dos nove estados nordestinos.
Segundo Jean Ometto, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e coordenador científico do AdaptaBrasil, o risco é calculado a partir de três fatores: ameaça (mudanças na chuva e na temperatura), exposição (pessoas e atividades econômicas que dependem da água) e vulnerabilidade (capacidade do município de reagir à escassez, considerando gestão hídrica e reservatórios). Juazeiro (BA) e Recife (PE) aparecem como os municípios de maior risco no país, ainda que por combinações distintas desses fatores.
A pesquisa mostra que municípios muito diferentes podem chegar ao mesmo patamar de risco por caminhos distintos. Em Guaribas, no sudoeste do Piauí, região historicamente sujeita a estiagens, a baixa exposição reduz o risco final a muito baixo — o que, segundo Ometto, não significa ausência de seca. Já na Amazônia, Manaus tem exposição máxima, mas fica em risco médio porque os níveis de ameaça e vulnerabilidade são menores, mesmo com comunidades da região enfrentando problemas de distribuição de água e poços que secam na estação menos chuvosa.
Para Diosmar Santana Filho, geógrafo e pesquisador da Associação de Pesquisa Iyaleta, de Salvador, as secas e longas estiagens representam “o maior evento climático do Brasil”, especialmente no semiárido nordestino, onde emergências e calamidades por falta d’água são frequentes. Ometto reforça que o AdaptaBrasil não foi criado como sistema de alerta, mas como referência para orientar decisões públicas: municípios que identificam suas vulnerabilidades têm mais condições de justificar investimentos em adaptação, como cisternas, reservatórios e novas fontes de abastecimento.
O desafio, porém, esbarra em desigualdades de capacidade fiscal. Outro levantamento do Observatório do Clima encontrou 1.594 municípios com risco médio a muito alto de deslizamentos e enxurradas e baixa capacidade fiscal, o que dificulta o acesso a crédito para obras de adaptação. Para Santana Filho, fortalecer a gestão pública local em pesquisa e capacitação é ponto de partida essencial diante de um cenário em que, segundo Ometto, o padrão climático das próximas décadas não repetirá o dos últimos 30 anos.
Fonte: ((o))eco
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de ((o))eco e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

