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Carlos Nobre reafirma que Amazônia ainda não cruzou o Ponto de Não Retorno

Em entrevista ao LatitudeCast, Carlos Nobre afirma que a Amazônia ainda não ultrapassou o Ponto de Não Retorno, mas alerta que o desmatamento contínuo pode levar ao colapso até 2050, e defende a sociobioeconomia baseada no conhecimento dos povos indígenas como alternativa.

Nesta reportagem

Climatologista defende sociobioeconomia e ciência dos povos originários como caminho para evitar colapso da floresta em entrevista ao LatitudeCast

O climatologista Carlos Nobre afirmou, em entrevista ao LatitudeCast da Amazônia Latitude, que a Amazônia ainda não cruzou o chamado Ponto de Não Retorno, limiar que ele próprio descreveu em 2016 como situado entre 20% e 25% de desmatamento somado a um aquecimento global de até 2°C. Segundo Nobre, o desmatamento acumulado hoje está entre 17% e 18%, mas, se o ritmo atual continuar, o limite pode ser ultrapassado até 2050.

Doutor em Meteorologia pelo MIT e ex-pesquisador do INPA e do INPE, Nobre participa do episódio de encerramento da série que discute o livro Utopias Amazônicas. No capítulo que assina com as pesquisadoras Júlia Arieira e Natália Nascimento, ele defende a Amazônia como um organismo vivo que só se mantém de pé conectado a seus rios e fluxos de água. O cientista cita um estudo liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do INPE, que mostra que o sudeste da Amazônia, entre o sul do Pará e o norte do Mato Grosso, já emite mais carbono do que remove da atmosfera, um sinal de que essa região está na beira do colapso.

Para evitar o cenário de degradação irreversível, Nobre defende o fim imediato do desmatamento, da degradação florestal e das queimadas, além da ampliação de projetos de restauração florestal, como o Arco da Restauração lançado pelo Brasil na COP28, que prevê recuperar 24 milhões de hectares. Ele diz ter levado a proposta ao BNDES, que hoje busca recursos para viabilizar o projeto em escala.

No centro da proposta de Nobre está a chamada sociobioeconomia de florestas em pé, inspirada no conhecimento acumulado pelos povos indígenas ao longo de milênios na Amazônia. O cientista afirma que os povos originários utilizam mais de 2.300 produtos da biodiversidade amazônica, entre eles quase 1.500 plantas medicinais, 250 frutas e 350 óleos vegetais, resultado de sistemas agroflorestais que mantêm a floresta em pé enquanto geram produção diversificada. Ele cita ainda estudo recente segundo o qual 26 dessas frutas têm papel essencial na manutenção da saúde dos povos indígenas, não apenas como alimento.

Nobre alerta também contra o risco de que a bioeconomia reproduza lógicas de monocultura, citando o exemplo do açaí no Pará, onde o cultivo em fileiras reduziu a presença de polinizadores da floresta e derrubou a produtividade. Para ele, o caminho correto é a diversificação de dezenas ou centenas de produtos dentro de sistemas agroflorestais, como fazem cooperativas na Amazônia brasileira, e não a repetição do modelo extrativista voltado a um único produto de exportação.


Fonte: amazonialatitude.com

Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de amazonialatitude.com e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

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