Atlas Renewable Energy planeja megaprojeto sem consultar autoridades ou moradores de município mineiro onde 80% do território tem conflitos por água
A empresa Atlas Renewable Energy planeja instalar em Paracatu (MG) um data center de 1 gigawatt, potência maior do que a soma de todas as instalações desse tipo já em operação no Brasil. O projeto foi revelado a autoridades locais e moradores somente quando repórteres da Mongabay e do Intercept Brasil passaram a fazer perguntas sobre ele — o presidente da Câmara Municipal, Manoel Alves, afirma ter sido informado dessa forma, assim como comerciantes, agricultores e outros moradores da cidade, que sequer sabiam o que era um data center.
O empreendimento está previsto para começar a operar parcialmente em dezembro de 2027, com conclusão até 2030, segundo apresentação feita pela Atlas ao Ministério de Minas e Energia solicitando conexão à rede elétrica nacional. A empresa, ligada a uma subsidiária da gestora financeira BlackRock, afirmou à reportagem que o projeto está em fase de estudos preliminares, sem definição técnica. Paracatu foi escolhida, entre outros motivos, pela suposta abundância de água no município — algo que o ex-prefeito Almir Paraca contesta: segundo ele, cerca de 80% do território municipal enfrenta conflitos hídricos de longa data, e a demanda já supera 100% das reservas subterrâneas disponíveis.
Data centers de inteligência artificial consomem grandes volumes de água para resfriamento de equipamentos, e o Brasil vem se posicionando como destino desses investimentos: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a citar a disponibilidade de recursos do país como atrativo. Levantamento do Intercept Brasil com a Mongabay identificou ao menos 68 data centers previstos em 37 municípios brasileiros, em um cenário sem regulamentação ambiental nacional específica para esse tipo de empreendimento — o que tem deixado comunidades sem tempo de discutir os projetos antes da emissão de licenças.
Em Paracatu, moradores como Sebastiana Neto e o quilombola Fortunato Ferreira da Costa, o Natinho, relatam o desaparecimento de nascentes, veredas e cursos d’água que conheciam desde a infância. A cidade já convive com os impactos da mina Morro do Ouro, da canadense Kinross, apontada em relatório técnico anexado a processo judicial como responsável por poluir o córrego Rico com arsênio e por rebaixar o lençol freático da região — a empresa contesta a origem da contaminação e afirma ter reduzido as concentrações do metal ao longo dos anos. Moradores quilombolas do território Machadinho, como Gilvan de Oliveira, relatam terem deixado suas casas por conta da degradação da água e da terra.
O secretário municipal de Meio Ambiente, José Eduardo Trevisan Moraes, confirma que córregos próximos à mina tiveram vazão reduzida pela atividade minerária. Para o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica dos Rios Paracatu e Urucuia, Tobias Tiago Pinto Vieira, já existem restrições tanto para águas subterrâneas quanto superficiais na região — cenário que se soma agora à perspectiva de um empreendimento de escala inédita sem consulta prévia à população local.
Fonte: Notícias ambientais
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Notícias ambientais e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

