Projeto Esecaflor, em Caxiuanã, mostra que floresta sob estresse hídrico não vira savana, mas se transforma em ecossistema degradado e mais vulnerável
Há 25 anos, cientistas brasileiros e britânicos conduzem na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, o Esecaflor (Projeto de Estudo da Seca Florestal), o experimento mais longevo do gênero em floresta tropical. Desde 2001, uma área de 1 hectare recebe apenas metade da água da chuva normal, por meio de painéis plásticos instalados sob a copa das árvores. O objetivo é prever como a Amazônia reagiria a secas prolongadas em um cenário de mudança climática.
Segundo o coordenador nacional do projeto, Antonio Lôla da Costa, da Universidade Federal do Pará, a mortalidade das árvores de grande porte começou a partir do quinto ano de seca artificial e atingiu o pico aos 15 anos, quando os pesquisadores chegaram a temer o colapso total da área estudada. Com oito anos de experimento, 40% da biomassa já havia se perdido. Em 2024, segundo Lôla, a perda chegou a quase 50%, mas as árvores menores conseguiram redistribuir a pouca água disponível e reverter o quadro de mortalidade, alcançando um novo ponto de equilíbrio.
Pesquisadoras como Lucy Rowland, da Universidade de Exeter, no Reino Unido, uma das principais lideranças do Esecaflor, rejeitam a hipótese de que a Amazônia submetida à seca prolongada se transforme em savana. Para ela, o resultado é um ecossistema novo e altamente degradado, sem referência natural conhecida. Rowland alerta ainda para o uso pejorativo do termo savana, já que os cerrados brasileiros são ecossistemas próprios, ricos em biodiversidade, e não versões empobrecidas da floresta tropical — associação que, segundo a pesquisadora, ajudou a justificar a destruição histórica desse bioma.
Em novembro de 2024, após 23 anos de seca artificial, os pesquisadores retiraram a estrutura que desviava a água da chuva. Agora, o grupo quer saber se espécies de grande porte, como sumaúma, andiroba e angelim-vermelho, conseguem voltar a crescer. Essas árvores têm papel central na retirada de carbono da atmosfera e na formação dos chamados rios voadores, pela transpiração que reciclam. Patrick Meir, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, afirma que a recuperação pode ser mais lenta para essas espécies e que a floresta afetada, embora estável por ora, está mais aberta e pode ficar mais vulnerável a futuros extremos climáticos.
Lôla da Costa, que viaja mensalmente 18 horas de barco até Caxiuanã, contrapõe o experimento controlado às queimadas e ao desmatamento em larga escala observados na região. Para o pesquisador, a floresta resiste ao manejo cuidadoso, mas não se recupera da destruição abrupta em grande escala.
Fonte: Notícias ambientais
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Notícias ambientais e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

