Sem combustível ou embarcação, povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia enfrentaram barreiras para exercer o voto no primeiro turno
O tuxaua Geovane Kepropopetele Yanomami, da Cachoeira do Aracá, em Barcelos (AM), é um dos cerca de 40 Yanomami que ficaram impedidos de votar no primeiro turno por falta de combustível para a embarcação. A viagem até a sede do município leva até cinco dias de barco pelo Rio Aracá. O caso integra um levantamento de SUMAÚMA que identificou locais de votação em apenas 232 das 839 Terras Indígenas do país.
Barcelos, onde indígenas são cerca de 75% da população, teve a maior proporção de abstenção da Amazônia Legal: 36,7%, quinze pontos acima da média nacional. A Escola Indígena Ajuricaba, no município, registrou o oitavo maior índice de abstenção do país — mais de seis a cada dez eleitores cadastrados não compareceram. Marilene dos Reis, do povo Baré e presidenta da Associação Indígena de Barcelos, atribui parte do problema à falta de orientação: parentes desceram até a cidade sem saber que o local de votação havia sido definido em outra comunidade.
A situação se repete em outras regiões amazônicas. No Marajó, em Chaves, a abstenção foi de 28%, sete pontos acima da média nacional, e moradores relatam dependência da maré e do combustível para chegar às seções. Na Terra do Meio, no Pará, o polo Manelito teve a sexta maior abstenção do país, 64,4%, atingindo extrativistas da Reserva Extrativista Rio Iriri que precisam viajar até seis horas de barco e gastar cerca de 300 reais em combustível para votar. Francisco Bandeira dos Santos, presidente da associação de moradores da Resex, relata que nem ele nem ninguém de sua comunidade conseguiu chegar à urna no primeiro turno.
Há ainda barreiras linguísticas: as indígenas Tiriyó Racela e Mirami, da Terra Indígena Parque do Tumucumaque, não falam português e foram impedidas por mesários de ter o auxílio de uma intérprete, segundo relato da parenta Mitore Tiriyó Kaxuyana. As deputadas Sônia Guajajara e Célia Xakriabá enviaram ofício ao TSE pedindo transporte e intérpretes para o segundo turno. O Ministério Público Eleitoral orientou procuradores a adotar medidas, e a Funai afirmou que a responsabilidade pelo transporte é da Justiça Eleitoral, negando que vá fornecer combustível ou veículos. Questionado por SUMAÚMA sobre o caso dos Yanomami do Rio Aracá, o TRE-AM não informou se há plano para o segundo turno; o TSE não respondeu até a conclusão da reportagem.
A resolução de fevereiro de 2026 que criou o Programa Seu Voto Importa determina que a Justiça Eleitoral garanta transporte gratuito a eleitores de territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Geovane Yanomami espera votar no segundo turno, em 25 de outubro: “A gente quer apoiar o Lula. Porque o Lula está conseguindo ajudar, e o Bolsonaro nunca ajudou”, disse à SUMAÚMA.
Fonte: SUMAÚMA
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de SUMAÚMA e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

