Pesquisadores apontam queimadas intencionais somadas à seca severa e ao El Niño como causas da crise do ar na capital amazonense
Manaus viveu um dos piores episódios de poluição do ar do ano, com concentração de material particulado MP2.5 chegando a 592 microgramas por metro cúbico, cerca de 40 vezes acima do nível considerado tolerável, segundo o epidemiologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz Amazônia. Ele classificou o episódio como “contornos de tragédia ambiental e sanitária dramáticos” e disse que o dia foi, provavelmente, o pior do ano em termos de fumaça tóxica sobre a capital amazonense.
Moradores relataram sintomas físicos imediatos provocados pela fumaça que invade as casas na cidade. O artista visual Vitor Maia descreveu palpitações no coração, ardência na visão e fumaça dentro de sua própria residência. Os relatos expõem o impacto direto da crise climática sobre a saúde da população urbana amazônica, que vive sob o efeito cumulativo de queimadas na região.
Para a pesquisadora Karla Longo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o fogo que produz essa fumaça não é acidental. “Certamente é fogo intencional”, afirmou, explicando que a estiagem severa somada ao El Niño forte cria as condições climáticas que permitem que incêndios sejam ateados e se mantenham ativos por mais tempo na região amazônica.
O episódio em Manaus se insere num padrão recorrente de crise respiratória nas cidades amazônicas durante períodos de seca extrema, quando a queima de vegetação, associada a práticas de desmatamento e expansão de áreas para pecuária e agricultura, lança fumaça tóxica sobre centros urbanos distantes dos focos de incêndio. A combinação de fatores humanos, como o fogo intencional citado pela pesquisadora do Inpe, e climáticos, como o El Niño, amplia o alcance e a intensidade da poluição, atingindo diretamente a saúde de populações que não têm relação direta com as áreas onde o fogo é ateado.
A reportagem foi publicada pela Amazônia Real, agência de jornalismo independente e investigativo sediada em Manaus, cofundada pela jornalista Kátia Brasil, premiada por seu trabalho de visibilização de populações silenciadas na Amazônia.
Fonte: Amazônia Real
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Amazônia Real e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

