O Eterno Retorno das Águas e a Falácia do Fim
Edição Especial de Solstício | 24 de Dezembro
Sumário
- Introdução: A Tirania da Linearidade e a Resistência da Espiral
- Capítulo I: A Arqueologia do Medo e o Deus da Guerra
- O Calendário como Arma de Conquista
- Martius: O Início Sangrento
- O Roubo do Solstício
- Capítulo II: Nêgo Bispo e a Contracolonização do Pensamento
- O Filósofo da Confluência
- A Transfluência e a Negação da Morte
- Desenvolvimento vs. Envolvimento
- Capítulo III: O Verdadeiro Calendário de Pindorama
- A Fenologia da Resistência
- A Balística do Ouriço e o Mito da Ganância
- Capítulo IV: A Aliança Bio-Interativa – A Cutia e o Tempo
- A Chave e o Cofre
- O Esquecimento como Tecnologia de Futuro
- Contrastes de Economia: Acumulação vs. Dispersão
- Capítulo V: Çuiçawara Katu – Descolonizando a Linguagem e o Voto
- A Insuficiência do Português
- 5.2. Teko Porã: O Bem Viver
- Conclusão: O Convite à Confluência
- Referências citadas
Introdução: A Tirania da Linearidade e a Resistência da Espiral
ÇUIÇAWARA KATU! BOAS FESTAS!
Para nós, que honramos nossa ancestralidade originária, não faz sentido celebrar o fim do ano ou qualquer outro fim. Afinal, como bem nos lembra o grande Nêgo Bispo, mestre de saberes que recentemente transfluiu para a ancestralidade, a vida não opera em linhas retas que se encerram em abismos. A vida opera em curvas, em retomadas, em ciclos onde o apodrecimento de uma folha é o berço da raiz seguinte.
Neste dia 24 de dezembro, a sociedade envolvente — aquela que nos cerca, nos mapeia e tenta nos vender a ideia de escassez — encontra-se em um estado de frenesi conclusivo. Há uma angústia palpável no ar urbano, uma corrida para fechar balanços, zerar dívidas, comprar presentes e decretar a morte do “Velho Ano”. É a liturgia do esgotamento. O calendário na parede, com sua última folha prestes a ser arrancada, é tratado como um veredito: o tempo acabou.
No entanto, se silenciarmos o ruído dos motores e das caixas registradoras, ouviremos outro ritmo. Na vastidão de Pindorama, especialmente sob a copa das grandes florestas, o dia 24 de dezembro não marca um fim, mas uma plenitude úmida. É o tempo das águas. É o momento em que a Castanheira-do-Brasil (Bertholletia excelsa) solta seus ouriços, bombardeando o solo não com destroços, mas com cofres de futuro.1 É o momento em que a Cutia (Dasyprocta), jardineira incansável, renova seu pacto de esquecimento e memória com a terra.2
Esta reportagem especial da Revista Caipora propõe uma escavação arqueológica e biológica nas camadas do tempo. Vamos desmontar a engrenagem do calendário gregoriano, forjada na guerra e na apropriação imperial, e contrapor a ela a cronologia orgânica de Pindorama. Vamos viajar das pedras frias dos calendários romanos fragmentados, onde o tempo era uma ferramenta de controle estatal, até as tocas quentes onde a vida é gestada na escuridão da mata.
Nossa missão, guiada pela “estética contra o apagamento” que define a Caipora 4, é demonstrar que a celebração do “Fim de Ano” é uma ficção colonial. O que existe, de fato, é o eterno retorno. Somos, como ensinou Nêgo Bispo, “começo, meio e começo”.5 E nesta reportagem, exaustiva em detalhes e rica em esperança, convidamos você a abandonar a linearidade que adoece e abraçar a circularidade que cura.
Capítulo I: A Arqueologia do Medo e o Deus da Guerra
O Calendário como Arma de Conquista
Para compreendermos a ansiedade que permeia o final de dezembro, precisamos investigar a origem da ferramenta que usamos para medir nossa existência: o calendário ocidental. Não se trata de uma régua neutra, baseada puramente na observação astronômica. O calendário que rege o mundo globalizado é um documento político, um mapa de dominação territorial e espiritual imposto pela espada e pela cruz.6
A palavra “calendário” deriva do latim calendarium, que designava o livro de registros de dívidas. As Calendae eram o primeiro dia de cada mês romano, a data em que as contas venciam e os juros eram cobrados. Desde sua gênese etimológica, o tempo ocidental está amarrado à noção de dívida e pagamento. O tempo não é algo que se vive; é algo que se deve.
Mas a raiz da nossa estrutura temporal é ainda mais violenta. O ano original de Roma, o chamado Calendário de Rômulo, não começava no inverno. Ele iniciava na primavera do hemisfério norte, no mês de Março. E por que Março?

Martius: O Início Sangrento
O primeiro mês chamava-se Martius em homenagem a Marte (Mars), o deus da guerra.8 A escolha não foi poética, foi estratégica. No inverno europeu, a neve e o gelo impediam o deslocamento das legiões. A guerra precisava ser suspensa. O “Ano Novo” romano marcava o degelo, o momento em que as estradas se tornavam transitáveis novamente e as campanhas de conquista podiam ser retomadas.
Portanto, o ciclo anual ocidental foi desenhado para coincidir com o ciclo da guerra. O ano “nascia” quando Roma podia marchar para matar e saquear. A estrutura dos meses subsequentes revela essa contagem militar e agrícola que ignorava o inverno (período “morto”):
- Martius (Marte – Guerra/Início)
- Aprilis (Abertura/Flores)
- Maius (Deusa Maia – Crescimento)
- Junius (Juno – Rainha dos Deuses)
- Quintilis (Quinto mês – posteriormente Julho)
- Sextilis (Sexto mês – posteriormente Agosto)
- September (Sétimo mês)
- October (Oitavo mês)
- November (Nono mês)
- December (Décimo mês) 10
Você já se perguntou por que o mês 12 se chama “Dezembro” (Decem = Dez)? Por que o mês 9 é “Novembro” (Novem = Nove)? Estamos presos em um erro matemático de dois milênios. Quando o rei Numa Pompílio e, posteriormente, as reformas de Júlio César (46 a.C.) e do Papa Gregório XIII (1582) adicionaram Janeiro e Fevereiro ao início do ano para alinhar o tempo civil ao tempo solar, a nomenclatura numérica perdeu o sentido, mas a energia bélica de Martius permaneceu como a sombra fundadora.6

Ainda hoje, vivemos o tempo como uma campanha militar: traçamos estratégias no início, lutamos batalhas no meio e contamos as baixas no final.
O Roubo do Solstício
E o 25 de Dezembro? A data que hoje paralisa o mundo cristão e comercial é, na verdade, um palimpsesto — um texto escrito sobre outro texto apagado.
Astronomicamente, o final de dezembro marca o Solstício de Inverno no Hemisfério Norte. É o momento de maior escuridão, a noite mais longa do ano. A partir do dia 25, o sol começa, imperceptivelmente, a ficar mais tempo no céu. Os romanos celebravam, nesta data, o Dies Natalis Solis Invicti — o Nascimento do Sol Invicto.13 Era a promessa de que a luz venceria as trevas.
Antes disso, em meados de dezembro, ocorria a Saturnália, a festa dedicada a Saturno. Era um período de inversão da ordem social: os escravos eram servidos pelos senhores, as guerras eram suspensas, presentes eram trocados e a alegria pública era decretada.14
Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império, a Igreja não conseguiu suprimir essas festas populares. Em vez disso, ela as fagocitou. Apropriou-se da data do Sol Invicto e substituiu o astro físico pelo “Sol da Justiça”, Jesus Cristo.15
A árvore de Natal, as luzes, a troca de presentes, a ceia farta — tudo isso são ecos da Saturnália e dos rituais solares pagãos, reembalados em uma narrativa monoteísta. Mas essa apropriação trouxe consigo uma mudança fundamental na percepção do tempo: a introdução da Linearidade.
Para os pagãos, o Solstício era cíclico; o sol morria e renascia todo ano. Para o cristianismo, o nascimento de Cristo partiu a história em duas metades irreconciliáveis: Antes de Cristo (a.C.) e Depois de Cristo (d.C.).6 O tempo ganhou uma flecha, um vetor. Ele agora caminha para um Juízo Final, para um Apocalipse. A ansiedade do “fim de ano” é uma miniatura da ansiedade do “fim do mundo” que a teologia cristã incutiu no ocidente.
Capítulo II: Nêgo Bispo e a Contracolonização do Pensamento
O Filósofo da Confluência
Diante dessa máquina de tempo linear e bélica, ergue-se a sabedoria de Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo. Nascido no vale do rio Berlengas, no Piauí, e formado nos saberes do Quilombo Saco-Curtume, Bispo foi um dos maiores intelectuais que Pindorama produziu.17
Nêgo Bispo não foi apenas um líder quilombola; foi um filósofo que desmontou a epistemologia colonial com a precisão de quem corta cana. Ele rejeitava a ideia de “saber” como algo estático, preferindo a “compreensão” como algo que se move.
Sua crítica ao conceito de “fim” é cirúrgica. Para a cosmovisão quilombola e indígena, a linearidade é uma doença. O colonialismo tenta nos convencer de que temos um início (o descobrimento/nascimento), um meio (o desenvolvimento/vida) e um fim (a morte/subdesenvolvimento). Bispo implodiu essa lógica com uma frase que deveria ser esculpida em todos os portais de entrada deste país:

“Nós somos começo, meio e começo.” 5
A Transfluência e a Negação da Morte
O que significa ser “começo, meio e começo”? Significa que a morte não é um ponto final, mas um ponto de virada. É o momento em que a energia transflui.
Para Bispo, o conceito de “fim” é necessário apenas para aqueles que vivem de forma sintética. O plástico tem fim (vira lixo). O concreto tem fim (vira entulho). Mas a palha, a madeira, o corpo — estes não têm fim, eles têm transformação. Eles viram adubo. Eles voltam para a terra para alimentar o novo começo.
Bispo diferenciava dois tipos de saber que nos ajudam a entender nossa relação com o dezembro: São os saberes da academia eurocêntrica. São feitos para isolar, conservar e esterilizar. O saber sintético cria o arquivo, o museu e o cemitério cimentado. Ele tem medo da decomposição. O “Ano Novo” com suas roupas brancas imaculadas é uma festa sintética — tenta negar a sujeira e a complexidade da vida. São os saberes da roça e do terreiro. Eles interagem com a vida. Eles aceitam que, para que a semente brote, o fruto tem que cair e apodrecer. A festa orgânica celebra a lama, a chuva, a comida que se compartilha e se consome.19
Bispo nos ensinou a não ter medo do fim, porque o fim é uma mentira colonial. Ele próprio, ao falecer em dezembro de 2023, não “acabou”. Ele virou semente. Suas palavras continuam germinando em textos como este, em retomadas de terra, em escolas quilombolas. Ele se tornou ancestralidade presente.
Desenvolvimento vs. Envolvimento
Outra lição crucial de Bispo para desarmar o fim de ano é a crítica ao “desenvolvimento”. A palavra, etimologicamente, significa “tirar o envolvimento”. Desenvolver é soltar, separar, alienar. O mundo moderno quer ser desenvolvido: quer se separar da natureza, quer se proteger da chuva, quer viver em ambientes climatizados onde não se sente a passagem do tempo.17
Nós, povos da terra, buscamos o “envolvimento”. Queremos estar implicados com o ciclo das águas, com o ciclo dos bichos. Celebrar o 24 de dezembro como um “fim” é um ato de desenvolvimento (separação). Celebrá-lo como “tempo das águas” é um ato de envolvimento.
Capítulo III: O Verdadeiro Calendário de Pindorama
A Fenologia da Resistência
Enquanto o calendário de papel diz “fim”, a biologia da Amazônia diz “clímax”. No hemisfério sul, dezembro não é inverno. É o verão chuvoso, o início da estação que enche os rios e renova a floresta.21
Neste exato momento, enquanto as cidades se preocupam com a alta do dólar, a floresta está ocupada com a alta da seiva. E o símbolo máximo dessa resistência temporal é a Castanheira-do-Brasil (Bertholletia excelsa).1
Esta árvore monumental, que pode atingir 50 metros de altura e viver mil anos, escolhe justamente o período de dezembro a março para a dispersão de seus frutos. A fenologia da castanheira ignora o Natal. Ela obedece ao regime das chuvas.
A Balística do Ouriço e o Mito da Ganância
O fruto da castanheira é o ouriço: uma cápsula lenhosa, esférica, pesando entre 500 gramas e 1,5 kg, dura como concreto. Dentro dele, hermeticamente guardadas, estão as sementes (as castanhas), ricas em selênio e energia.22
Em dezembro, os ouriços amadurecem. A queda é um evento dramático. Caindo de uma altura de 40 metros, um ouriço atinge o solo com uma força cinética letal. O som da queda — ploc! — reverbera pela mata como um tiro de advertência.
As comunidades locais, caboclas e indígenas, possuem uma relação de respeito e temor com a castanheira nesta época. Existem lendas antigas, transmitidas oralmente, que dizem que a castanheira é um ser senciente que “pune os gananciosos”.24 Conta-se que aqueles que entram na mata apenas para extrair, sem pedir licença, sem respeitar os “donos” do lugar, correm o risco de serem alvejados por um ouriço na cabeça.

Essa lenda não é superstição; é uma tecnologia social de manejo e segurança. Ela ensina que não se pode entrar na floresta de qualquer jeito. É preciso atenção. É preciso olhar para cima. É preciso entender que a árvore não está ali para nos servir; nós é que estamos transitando no território dela. O “presente” da castanheira (o alimento) vem acompanhado do risco, lembrando que toda dádiva da natureza exige reciprocidade e respeito. A ganância — o desejo de acumular tudo de uma vez — é punida pela própria física da floresta.
Capítulo IV: A Aliança Bio-Interativa – A Cutia e o Tempo
A Chave e o Cofre
O ouriço que cai no chão é um cofre trancado. A castanheira não possui mecanismos para abri-lo sozinha. Se o ouriço permanecer fechado, as sementes apodrecem juntas ou germinam sufocadas, morrendo em seguida. A árvore mãe criou um enigma que ela mesma não pode resolver.
A solução para esse enigma tem nome, bigodes e dentes afiados: a Cutia (Dasyprocta).3
Este roedor, frequentemente subestimado, é a peça-chave na engrenagem da floresta. A Cutia é um dos únicos animais com força mandibular e destreza suficiente para roer a casca dura do ouriço e acessar as amêndoas. A relação entre a Bertholletia e a Dasyprocta é um caso clássico do que Nêgo Bispo chamaria de Bio-interação e Confluência.2
A árvore alimenta a Cutia. A Cutia liberta a árvore.
O Esquecimento como Tecnologia de Futuro
Mas a mágica acontece no comportamento da Cutia após a refeição. Como a oferta de alimento em dezembro é abundante (um único ouriço pode ter 20 castanhas), a Cutia não consegue comer tudo. O que ela faz? Ela estoca.
Diferente do capitalista que estoca para especular, a Cutia estoca para sobreviver. Ela enterra as sementes excedentes em diferentes pontos da floresta, muitas vezes a distâncias consideráveis da árvore-mãe (dispersão secundária).29
E aqui entra o fator crucial: o esquecimento. A Cutia esquece onde enterrou muitas dessas sementes. Ou, talvez, ela seja predada antes de recuperá-las. Ou simplesmente a abundância de outros alimentos torna desnecessário recuperar aquele estoque.
O “esquecimento” da Cutia é a memória da floresta. A semente enterrada, protegida da luz solar direta, em contato com a terra úmida e rica em nutrientes, germina. Aquela castanha que a Cutia “perdeu” torna-se a castanheira de 500 anos que alimentará as gerações futuras de cutias, macacos, pássaros e humanos.
Contrastes de Economia: Acumulação vs. Dispersão
Compare essa economia da floresta com a economia do nosso “Fim de Ano”.
- Economia do Natal: Baseada no consumo imediato, no descarte (embalagens, plásticos), na acumulação de bens e na dívida (cartão de crédito). É uma economia linear: extrair -> produzir -> consumir -> descartar.
- Economia da Cutia: Baseada na dispersão, no investimento a longo prazo (plantio), na cooperação interespécies. É uma economia circular: produzir -> dispersar -> plantar -> regenerar.
Enquanto a sociedade urbana celebra quem “tem mais” no final do ano, a floresta celebra quem “espalha mais”. A verdadeira riqueza não é o que se guarda no cofre, mas o que se enterra no chão fértil.

Capítulo V: Çuiçawara Katu – Descolonizando a Linguagem e o Voto
A Insuficiência do Português
Chegamos, enfim, às palavras. A linguagem é a casa do ser, e a nossa casa foi invadida. Desejar “Feliz Natal” ou “Próspero Ano Novo” em português carrega, inevitavelmente, a carga semântica do calendário gregoriano e da teologia da salvação/linearidade.
Como podemos desejar algo bom a partir de nossa própria raiz?
Recorremos ao Nheengatu, a Língua Geral Amazônica, que foi a língua franca do Brasil por séculos e que carrega em sua estrutura a cosmovisão tupi.31
A tradução literal de conceitos ocidentais muitas vezes falha, mas a adaptação cultural revela tesouros.
- Surisawa (ou Çuiçawara na grafia antiga/etimológica): Significa Alegria, Felicidade. Mas não a alegria eufórica e passageira da festa (party). É a alegria como estado de ser, ligada ao Toryba — o contentamento profundo que fortalece a comunidade.
- Katu: Significa Bom, Verdadeiro, Correto, Belo.
- Surisawa Katu (ou Çuiçawara Katu): Uma “Alegria Verdadeira”, uma “Felicidade Boa”.
5.2. Teko Porã: O Bem Viver
Esses votos estão alinhados com o conceito de Teko Porã (em Guarani) ou “Bem Viver”.33 O Bem Viver não é “viver melhor” que o outro (competição/acumulação). O Bem Viver é viver em equilíbrio. É saber que a minha alegria depende da alegria do rio (que precisa estar limpo), da alegria da mata (que precisa estar em pé) e da alegria da cutia (que precisa ter castanha).
Quando dizemos “Boas Festas” sob a ótica do Teko Porã, estamos desejando que os rituais de encontro fortaleçam esses laços. A “festa” indígena não é uma pausa no trabalho; é parte do trabalho de manter o mundo girando. Dançar (Purasisawa) é tão importante quanto plantar. Cantar é tão vital quanto caçar.
A Revista Caipora, ao adotar a “estética contra o apagamento”, reivindica o uso dessas palavras não como folclore, mas como projeto político. Dizer Çuiçawara Katu é um ato de soberania linguística. É lembrar que, antes do latim eclesiástico do Natal, outras línguas louvavam o sol e a chuva nesta terra.4
Conclusão: O Convite à Confluência
Não estamos no fim. Estamos, invariavelmente, no meio.
A sensação de exaustão que sentimos em dezembro é real, mas ela é fruto de um sistema que nos explora, não de um tempo que acaba. O tempo da terra é incansável. Enquanto você lê este texto, milhares de ouriços estão caindo na Amazônia. Milhares de cutias estão correndo com sementes na boca. O grande relógio geológico e biológico de Pindorama continua tiquetaqueando, indiferente aos índices da bolsa de valores ou aos decretos de Roma.
Neste dia 24 de dezembro, o convite da Revista Caipora é para uma mudança de percepção.
- Olhe para o Chão, não para o Calendário: Reconheça o chão que você pisa. Se está chovendo, celebre a água. Se há sol, celebre a luz. Conecte-se com o ciclo local, não com o inverno imaginário europeu.
- Seja Cutia: Pratique a dispersão. Compartilhe o que você tem de excedente — conhecimento, afeto, alimento. Plante sementes que você talvez não veja germinar. Aceite o esquecimento do ego para permitir a memória da comunidade.
- Honre a Circularidade: Lembre-se de Nêgo Bispo. Você é começo, meio e começo. Suas falhas deste ano não são sentenças finais; são adubo para o ano que vem. Nada se perde, tudo conflui.
- Descolonize a Alegria: Que sua festa não seja medida pelo consumo, mas pelo envolvimento. Que o seu Surisawa seja Katu — verdadeiro e bom para todos os seres.
Encerramos este ciclo editorial não com um ponto final, mas com uma reticências que convida à continuidade…
Que a força de Marte seja transmutada na persistência da Cutia.
Que o medo do fim dê lugar à certeza do reinício.
Que nossos ancestrais guiem nossos passos na dança do tempo.
ÇUIÇAWARA KATU!
Pela memória viva em retomada.
Referências citadas
- Bertholletia excelsa – Infoteca-e – Embrapa, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1144559/1/Plantas-para-o-Futuro-Norte-202-217.pdf
- Dispersão primária de frutos da castanheira (Bertholletia excelsa Bonpl.): importância para o manejo e a conservação da espécie, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/996472/1/25221.pdf
- Red-rumped agouti | Smithsonian’s National Zoo and Conservation Biology Institute, acessado em dezembro 21, 2025, https://nationalzoo.si.edu/animals/red-rumped-agouti
- Revista Caipora – Etnomídia Indígena Insurgente, acessado em dezembro 21, 2025, https://caipora.org/
- Começo, meio e começo – Entrevista – Revestrés, acessado em dezembro 21, 2025, https://revistarevestres.com.br/entrevista/comeco-meio-e-comeco/
- Origem e evolução do nosso calendário, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.mat.uc.pt/~helios/Mestre/H01orige.htm
- File:Fasti Praenestini (14786118971).jpg – Wikimedia Commons, acessado em dezembro 21, 2025, https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fasti_Praenestini_(14786118971).jpg
- Março, homenagem ao deus Marte – RTP Ensina, acessado em dezembro 21, 2025, https://ensina.rtp.pt/artigo/marco-homenagem-ao-deus-marte/
- March – Wikimedia Commons, acessado em dezembro 21, 2025, https://commons.wikimedia.org/wiki/March
- A história do nosso calendário: Março – Astronomia no Zênite, acessado em dezembro 21, 2025, https://zenite.nu/marco
- Roman calendar – Wikipedia, acessado em dezembro 21, 2025, https://en.wikipedia.org/wiki/Roman_calendar
- File:Fourth Style fresco depicting Ares and Aphrodite, from the House of Mars and Venus in Pompeii, Naples National Archaeological Museum (17491135395).jpg – Wikimedia Commons, acessado em dezembro 21, 2025, https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fourth_Style_fresco_depicting_Ares_and_Aphrodite,_from_the_House_of_Mars_and_Venus_in_Pompeii,_Naples_National_Archaeological_Museum_(17491135395).jpg
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- Somos começo, meio e começo – um até breve a Nêgo Bispo – Redes da Maré, acessado em dezembro 21, 2025, https://www.redesdamare.org.br/br/artigo/321/somos-comeco-meio-e-comeco-um-ate-breve-a-nego-bispo





