Pesquisadoras do Projeto Ariranhas alertam que aproximacao excessiva de barcos e a pratica de ceva prejudicam a especie durante o periodo reprodutivo
Pesquisadoras vinculadas ao Plano de Acao Nacional para a Conservacao da Ariranha (PAN Ariranha) e ao Projeto Ariranhas denunciam, em analise publicada pelo ((o))eco, que o crescimento desordenado do turismo de observacao no Pantanal mato-grossense esta prejudicando grupos de ariranhas, especialmente durante a alta temporada, que coincide com o nascimento e desenvolvimento dos filhotes. Segundo relato descrito pelas autoras, um episodio registrado no Rio Cuiabá mostrou tres ariranhas adultas vocalizando e tentando afastar barcos de turistas que se aproximavam de forma insistente, enquanto dois filhotes de quatro meses tinham dificuldade de atravessar as ondas causadas pelas embarcacoes.
De acordo com as pesquisadoras, a especie vem passando por um processo descrito na literatura como auto-domesticacao, em que os animais se tornam mais tolerantes a presenca humana por nao terem outra alternativa de sobrevivencia. Comparado ao comportamento das onças-pintadas do Pantanal Norte, que segundo as autoras ja reconhecem turistas como nao ameaca, o caso das ariranhas seria mais grave: elas vivem na interface entre terra e agua, em locas nas margens dos rios, sem a opcao de fuga para dentro da mata que os felinos possuem.
O texto aponta ainda um problema mais grave que a aproximacao de barcos: a pratica de ceva, isto e, a oferta de peixes para atrair os animais, apontada pelas autoras como criminosa e recorrente no Pantanal, atingindo nao apenas ariranhas mas diversas especies selvagens. Segundo a analise, a ceva altera o comportamento e o habito alimentar das ariranhas, torna os animais dependentes de alimentacao humana, aumenta o risco de transmissao de doencas entre especies e eleva o risco de acidentes por perda do medo natural em relacao aos humanos. As autoras relatam que animais habituados por ceva durante a temporada turistica podem se aproximar de pescadores na estacao de pesca, situacao em que, segundo o texto, os animais correm risco de serem feridos ou abatidos.
Para enfrentar esse cenario, o Projeto Ariranhas elaborou diretrizes de observacao da especie e promove palestras, oficinas e materiais educativos voltados a turistas e profissionais do setor, segundo informam as autoras. Ainda assim, elas avaliam que essas iniciativas isoladas nao sao mais suficientes frente ao crescimento acelerado da atividade turistica na regiao, que hoje tem a observacao de onças-pintadas como principal atrativo economico.
As pesquisadoras defendem que o Pantanal, um dos poucos lugares do planeta onde e possivel observar grandes vertebrados ameacados de extincao em vida livre com baixo grau de sofrimento animal, depende de politicas publicas e diretrizes cientificas urgentes para conciliar desenvolvimento economico e conservacao. Segundo a analise, sem esse compromisso coletivo a regiao corre risco de perder especies emblematicas, entre elas a ariranha, descrita pelas autoras como a maior lontra do mundo e que hoje vive seu ultimo refugio no extremo sul de sua distribuicao natural.
Fonte: ((o))eco
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de ((o))eco e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

