Um Sopro de Esperança na Floresta: O Renascimento do Povo Akuntsu
Na região sul de Rondônia, em meio às árvores da Terra Indígena Rio Omerê, um choro de bebê rompeu um silêncio que durava mais de três décadas. No último dia 8 de dezembro, o povo Akuntsu — símbolo trágico e resiliente do genocídio indígena no Brasil — celebrou não apenas o nascimento de uma criança, mas a prova viva de que sua história não terminou.
O nascimento do menino, filho da indígena Babawru Akuntsu, é um marco histórico. Até o início deste mês, a população Akuntsu estava reduzida a apenas três mulheres sobreviventes: a própria Babawru, Pugapia e Aiga. O novo integrante da aldeia representa a continuidade de uma cultura que esteve à beira da extinção física completa.
Cicatrizes da História
Para compreender a dimensão deste nascimento, é preciso olhar para o passado. Os Akuntsu (“aqueles que gritam” ou “o outro índio”, em referência dada por povos vizinhos) carregam no corpo e na memória as marcas da violência da expansão agrícola na Amazônia.

Nas décadas de 1980 e 1990, o grupo foi vítima de massacres brutais organizados por fazendeiros e grileiros que tentavam ocultar a presença indígena para evitar a demarcação de terras. Quando a Funai realizou o contato oficial em 1995, encontrou apenas um pequeno grupo de sobreviventes, traumatizados e cercados. Desde então, a redução populacional parecia um destino irreversível — até agora.
Uma Operação de Vida
A chegada do bebê mobilizou uma complexa rede de apoio para garantir que o parto ocorresse com segurança, respeitando as especificidades de um povo de recente contato. A operação envolveu a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e o Hospital Regional de Vilhena.
O desafio não era apenas médico, mas cultural e linguístico. Para assegurar que Babawru fosse compreendida e tivesse seus desejos respeitados, a equipe utilizou tecnologia de videoconferência para contar com uma intérprete da língua Akuntsu. Foi um diálogo entre a ciência moderna e a sabedoria ancestral, garantindo que o parto fosse seguro sem violar a integridade cultural da mãe.
O nascimento, contudo, não foi apenas um procedimento médico; foi um evento espiritual. Para proteger a mãe e o recém-nascido, a pajé Txiramanty, do povo Kanoé — vizinhos e parceiros históricos dos Akuntsu na Terra Indígena Rio Omerê — foi chamada.
Txiramanty realizou rituais tradicionais para restabelecer o equilíbrio e conectar a criança à força da floresta e aos espíritos de seus antepassados. É a tradição garantindo o futuro, sob o olhar atento de quem sabe que resistir é a única opção.

O Futuro no Rio Omerê
Hoje, a Terra Indígena Rio Omerê é uma ilha de floresta cercada por pastagens, mas é, acima de tudo, um território homologado e protegido. O nascimento deste menino reafirma a importância crucial da demarcação de terras. Sem o território garantido e a proteção da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé, a história dos Akuntsu poderia ter tido seu capítulo final anos atrás.
Para a Revista Caipora, este bebê é mais do que uma estatística demográfica; ele é a resposta da vida contra o apagamento. Enquanto houver um Akuntsu na terra, a memória de seu povo permanecerá viva.
Para saber mais sobre os povos isolados e de recente contato, acesse o portal da Funai.





