Rede lança livro com dados de 60 realizadoras de 40 povos durante o Festival de Brasília, expondo barreiras de financiamento e falta de políticas públicas
A rede audiovisual de mulheres indígenas Katahirine lançou o livro “Ler o vento, filmar o mundo: Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil” durante o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no Cine Brasília. A pesquisa ouviu 60 realizadoras de 40 povos indígenas, falantes de 35 línguas originárias, de todas as regiões do país.
Segundo a cineasta Moiara Kaxuyana, dos povos Kaxuyana e Tiriyó, mais de 73% das entrevistadas atuam profissionalmente no audiovisual, mas sem desvincular a câmera das responsabilidades comunitárias. O levantamento aponta um paradoxo na circulação das obras: embora 81% já tenham exibido produções em festivais e mostras, 61% relatam não dominar os trâmites de inscrição em editais, dificuldade atribuída à barreira da língua portuguesa, à falta de internet e à burocracia documental.
A Rede Katahirine reúne hoje 92 cineastas, falantes de 30 línguas indígenas, de 48 povos do Brasil e três de países vizinhos – Bolívia, Chile e Equador. O grupo nasceu em 2022, em encontro de realizadoras indígenas no Acre, com apoio do Instituto Catitu, instituição pioneira na formação audiovisual de mulheres indígenas. Segundo o mapeamento, as cineastas se concentram na Mata Atlântica (35%) e na Amazônia (31,7%), seguidas por Cerrado, Caatinga e Pampa; 53,3% vivem em aldeias, 40% em cidades e 6,7% transitam entre os dois espaços.
Mari Corrêa, fundadora do Instituto Catitu e única integrante não indígena da coordenação da rede, afirma que a produção de dados é caminho necessário para romper a invisibilidade do setor perante o Estado. “Não há políticas públicas sem dados”, diz. Ela defende que o mapeamento vá além de mecanismos paliativos como cotas, subsidiando gestores públicos e comissões de seleção com diagnósticos sobre formação e produção do cinema indígena.
O livro também reúne diretrizes para um audiovisual ético com povos indígenas, voltadas a instituições, festivais, curadorias e produtoras, com orientações contra práticas discriminatórias e exploratórias e em defesa de remuneração justa e consentimento. A multiartista Barbara Matias Kariri, do povo Kariri, coordenadora da rede, afirma que o cinema indígena não é categoria homogênea, mas reúne modos de criação vinculados aos territórios e à temporalidade de cada povo, respeitando atividades como roça e pesca e, em alguns casos, práticas espirituais anteriores à filmagem.
Fonte: Brasil de Fato
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Brasil de Fato e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

