Revista de jornalismo investigativo indígena Santa Maria (RS)
Apoie
Skip to main content Scroll Top

Quilombolas de Paracatu buscam reparação 20 anos após expulsão por mineradora

O Ministério Público Federal negocia com a mineradora Kinross Gold uma indenização de até R$ 1,2 bilhão para cerca de 1,3 mil famílias quilombolas de Paracatu (MG) expulsas há vinte anos para a exploração da mina Morro do Ouro.

Nesta reportagem

MPF negocia com a Kinross Gold indenização entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão para cerca de 1,3 mil famílias quilombolas de Minas Gerais

O procurador regional da República José Adércio Leite Sampaio esteve em Paracatu (MG) na última semana para negociar com a mineradora canadense Kinross Gold Corporation uma reparação por danos socioambientais, territoriais e culturais às comunidades quilombolas do Machadinho, Amaros e São Domingos. Ao todo, cerca de 1,3 mil famílias podem ser beneficiadas pelo acordo, que prevê valores entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão, segundo o advogado Guilherme Bicalho, que representa as comunidades.

A multinacional instalou estrutura e barragem de rejeitos no território para explorar a mina de ouro e prata Morro do Ouro, expulsando famílias que viviam ali havia gerações. Claudinês Lopes, presidente da associação de moradores do Machadinho, lembra da avó Antônia, morta aos 99 anos sem a reparação que esperava. “Ela desejava justiça. Eu cresci ouvindo isso dela”, conta. A comunidade perdeu uma área reconhecida pelo Incra de cerca de 2,2 mil hectares, cujo processo de regularização, iniciado em 2005, foi interrompido pela ocupação da empresa e de grileiros.

Segundo o MPF, perícias técnicas detectaram níveis elevados de arsênio em amostras de urina de moradores e no material particulado suspenso no ar nas proximidades da mina. O procurador afirmou que a poeira das operações atinge as moradias e causa problemas respiratórios na população. A estrutura de rejeitos tem capacidade licenciada para 750 milhões de metros cúbicos — mais de 60 vezes o volume da barragem que se rompeu em Brumadinho em 2019 —, e o complexo, somado à Barragem Santo Antônio, acumula 1,2 bilhão de metros cúbicos.

Um julgamento em agosto teve dois votos contrários às indenizações, levando o procurador a pedir a suspensão por 60 dias para buscar entendimento até novembro. O advogado Guilherme Dolabella, que também defende as comunidades, relata que em 2014 a Justiça chegou a afirmar que não havia comunidades quilombolas na região, apesar da certificação da Fundação Cultural Palmares concedida em 2004. “A sentença desqualificou as comunidades reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares e criou uma proteção para a exploração mineral da própria empresa multinacional”, afirmou o advogado.

Em nota, a Kinross disse acompanhar o trâmite da ação civil pública, respeitar o Poder Judiciário e manter interlocução com comunidades, MPF, Incra e órgãos ambientais, sem comentar o mérito enquanto o processo tramita no TRF-6. O Incra informou que os processos administrativos de regularização das comunidades em Paracatu ainda estão em tramitação. Em Amaros, a professora Maria Hermínia Rodrigues, presidente da associação local, destaca que a comunidade resiste mantendo viva a caretagem, tradição de origem africana que marca as celebrações de São João mesmo após a perda do território.


Fonte: Agência Brasil

Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Agência Brasil e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

Related Posts
Clear Filters

Liderança Munduruku Alessandra Korap relata temor de retrocessos nos direitos indígenas diante da nova maioria de extrema direita no Congresso e relembra confrontos com os governos Bolsonaro e Lula.

O Conselho Regional Indígena do Cauca integrou protestos em seis cidades colombianas contra o governo de Abelardo de la Espriella, denunciando megaprojetos e risco à autonomia territorial dos povos originários.

A Justiça baiana condenou Josevan Dionísio dos Santos a 28 anos de reclusão como terceiro réu pelo assassinato da líder quilombola Mãe Bernadete, morta em 2023 após denunciar o tráfico de drogas em seu território.

O governo federal criou quatro reservas de uso sustentável na Amazônia como contrapartida ao plano de pavimentar a BR-319, mas especialistas alertam que a falta de orçamento para fiscalização ameaça a eficácia da medida.