A Nova Batalha pela Terra na Bolívia
Sumário
- PRÓLOGO: O FOGO NAS CORDILHEIRAS
- CAPÍTULO I: A MÁSCARA CAI, O CHOQUE NEOLIBERAL E A REVOLTA DA “GASOLINA LIXO”
- CAPÍTULO II: LEI 1.720, A ARMADILHA DA HIPOTECA E O FIM DO TERRITÓRIO COMUNITÁRIO
- CAPÍTULO III: A GEOPOLÍTICA DO SAQUE, O COLONIALISMO VERDE E O “OURO BRANCO” DO SALAR DE UYUNI
- CAPÍTULO IV: A ARQUITETURA DA REPRESSÃO E A INTERNACIONAL REACIONÁRIA
- CAPÍTULO V: LAWFARE, O FANTASMA DE 2019 E A CAÇADA NO CHAPARE
- EPÍLOGO: A MEMÓRIA DA PACHAMAMA
- Referências citadas
No altiplano andino, a terra não é uma mercadoria, é um corpo vivo. Seis meses após a posse do presidente de centro-direita Rodrigo Paz, uma tentativa brutal de privatizar territórios indígenas e entregar o lítio do Salar de Uyuni ao Norte Global mergulhou o Estado Plurinacional em uma insurreição sem precedentes. Entre a repressão letal nas rodovias, o lawfare contra lideranças e o apoio do imperialismo estadunidense, os povos originários erguem barricadas para impedir que a história de 2019 se repita.
PRÓLOGO: O FOGO NAS CORDILHEIRAS
Sob o vento gelado e cortante do altiplano andino, que facilmente derruba as temperaturas para abaixo de zero nas madrugadas de maio, milhares de fogueiras pontilham a escuridão da imensidão montanhosa. Não são chamas de acampamentos nômades, mas as luzes de sentinela de uma insurreição que estrangulou a Bolívia. Trincheiras erguidas com pedras brutas, troncos de árvores, pneus em chamas e a força física de milhares de homens e mulheres indígenas cortam, neste exato momento, as principais artérias rodoviárias do país.
De acordo com o mais recente levantamento da Administradora Boliviana de Estradas (ABC) divulgado em 18 de maio de 2026, pelo menos 23 grandes bloqueios paralisam o trânsito nacional. O epicentro da revolta é o cerco implacável sobre a capital política, La Paz, onde 13 estradas amanheceram intransitáveis. As rodovias que conectam os centros urbanos a Oruro, Potosí, Santa Cruz e Cochabamba também estão tomadas pelas massas populares. A Bolívia plurinacional encontra-se em estado de virtual paralisia e profunda convulsão social.
O alvo da fúria popular que desce das montanhas e irrompe nas periferias tem nome e endereço: o presidente Rodrigo Paz e o Palácio Quemado.

Há apenas seis meses, em novembro de 2025, Paz assumiu o poder vendendo ao mundo e aos eleitores a imagem de um gestor pragmático de centro-direita. Prometia uma era de pacificação e um sedutor “capitalismo para todos”, garantindo que a nação superaria sua aguda crise de reservas cambiais sem recorrer a terapias de choque que martirizassem os mais pobres. Hoje, as marchas que descem para o centro de La Paz carregam uma única e inegociável exigência cravada em suas faixas: a renúncia imediata do mandatário e a queda de todo o seu gabinete.
O que as grandes redes de televisão comerciais e os boletins do Departamento de Estado dos EUA rotulam como “vandalismo” e “caos”, as bases camponesas e operárias chamam pelo seu verdadeiro nome: defesa ontológica da vida e do território.
A atual crise boliviana não é apenas um protesto contra a inflação, mas a exposição visceral de uma fratura estrutural. Após quase duas décadas de governos ligados ao campo progressista, período marcado pela afirmação da identidade indígena e pela nacionalização de riquezas, a Bolívia assiste, atônita e revoltada, a uma tentativa acelerada e violenta de restauração neoliberal. Por trás dos discursos tecnocráticos de “modernização”, “atração de investimentos externos” e “austeridade fiscal”, o que se desenha no planalto andino é uma agressiva ofensiva neocolonial. O objetivo do atual regime é duplo e letal: desmantelar as garantias constitucionais da posse coletiva da terra e entregar o controle das imensas reservas de lítio, o cobiçado ouro branco da transição energética global, aos conglomerados financeiros e industriais do Norte Global.
CAPÍTULO I: A MÁSCARA CAI, O CHOQUE NEOLIBERAL E A REVOLTA DA “GASOLINA LIXO”
A desintegração do pacto social na era Rodrigo Paz começou pela quebra de sua principal promessa. Durante a corrida eleitoral de 2025, o então senador fez questão de se distanciar da extrema-direita tradicional, representada por figuras como Jorge Quiroga. Em uma reveladora entrevista concedida à agência internacional AFP em agosto de daquele ano, Paz delineou seu plano: “Haverá um processo de estabilização; não chamamos isso de ajuste. É estabilização. Entramos com uma margem de confiança”. O candidato prometia reduzir gastos estatais e eliminar a corrupção, mas sem impor a miséria generalizada. Prometia um “capitalismo popular”.

No entanto, a realidade dos cofres públicos e a lealdade de Paz ao capital financeiro rapidamente transformaram a “estabilização” em um massacre econômico. Ao assumir a presidência, o novo governo alegou um esgotamento irreversível das reservas de dólares do Banco Central da Bolívia, dólares que historicamente permitiam ao Estado amortecer as flutuações do mercado internacional e subsidiar o preço dos combustíveis, garantindo a sobrevivência de um país com 85% de informalidade laboral e dependência aguda do transporte rodoviário.
O primeiro golpe de misericórdia veio em dezembro de 2025. Sem aviso prévio à classe trabalhadora, Paz canetou o famigerado Decreto 5.503, abolindo de forma unilateral e imediata os subsídios estatais aos derivados de petróleo.
O impacto não foi apenas financeiro; foi uma bomba atômica no orçamento das famílias populares. Da noite para o dia, o preço da gasolina duplicou nas bombas. Em um país de distâncias colossais e topografia desafiadora, o encarecimento do frete gerou uma reação em cadeia avassaladora. As passagens de ônibus urbanos e intermunicipais dispararam. Nos mercados populares de El Alto e La Paz, alimentos vitais para a subsistência das classes baixas, como o pão, os grãos e o óleo de cozinha, tornaram-se artigos de luxo, inatingíveis para a esmagadora maioria informal.

Como se a asfixia financeira não bastasse, o Estado, na tentativa de mascarar o desabastecimento, permitiu que os postos passassem a distribuir um produto de baixíssima octanagem e altamente adulterado. Nas ruas, o combustível foi batizado com um nome que virou grito de guerra: a “gasolina lixo”.
Cooperativas de transportadores, caminhoneiros autônomos e taxistas viram, em questão de semanas, os motores de seus veículos, suas únicas ferramentas de sustento, derreterem e fundirem. O combustível contaminado causou danos mecânicos irreversíveis em milhares de frotas de trabalho. A indignação que fervia nos bairros periféricos urbanos rapidamente encontrou eco no interior do país.
A pesquisadora Alina Ribeiro, doutoranda em ciência política na Universidade de São Paulo (USP), acompanha de perto a conjuntura boliviana e aponta a miopia estratégica do governo: “As medidas econômicas do novo governo geraram uma reação vulcânica imediata em uma sociedade que já vinha sendo severamente castigada por anos de instabilidade pós-golpe de 2019. O Estado retirou a rede de proteção mínima sob os pés do trabalhador boliviano de forma abrupta”.
A pressão popular e os primeiros bloqueios de estradas nas rotas de exportação forçaram o governo a um recuo humilhante, restabelecendo temporariamente algumas fatias do subsídio já em janeiro de 2026. Porém, o dano político estava feito. A espiral inflacionária já havia se consolidado nos mercados e, mais importante, a perda de confiança na gestão de Rodrigo Paz tornou-se irreparável. Para a população indígena e camponesa, a crise dos combustíveis foi a prova definitiva de que o novo presidente governava apenas para as elites de Santa Cruz de la Sierra e para os burocratas financeiros de Washington. O pavio estava aceso.
CAPÍTULO II: LEI 1.720, A ARMADILHA DA HIPOTECA E O FIM DO TERRITÓRIO COMUNITÁRIO
Se o Decreto 5.503 desestruturou a economia imediata da classe trabalhadora urbana e periurbana, o passo seguinte do governo Rodrigo Paz foi uma declaração de guerra estrutural, existencial e histórica contra as nações originárias.
Em 10 de abril de 2026, o Palácio Quemado, agindo em sintonia fina com os lobistas do agronegócio exportador e das corporações pecuaristas do leste boliviano, promulgou a Lei 1.720. A máquina de propaganda estatal vendeu a nova legislação como uma “ferramenta inovadora para reaquecer a produção agrícola”, um salto para a “modernização do campo”. A manobra jurídica consistia em autorizar a conversão legal de pequenas propriedades rurais camponesas em “médias propriedades”.
Qual era a verdadeira finalidade dessa mudança de nomenclatura? A justificativa de Paz era permitir que os agricultores familiares empobrecidos pudessem usar suas terras como garantia hipotecária para contrair empréstimos junto ao sistema bancário privado nacional e internacional. O crédito, argumentava o governo, financiaria a compra de maquinário e insumos.

O movimento camponês indígena, detentor de uma sabedoria lapidada por séculos de resistência à espoliação colonial espanhola e às privatizações neoliberais, não demorou 24 horas para decifrar a armadilha letal contida na lei.
Na Bolívia, diferentemente da lógica mercantil absoluta imposta no restante da América Latina, a Constituição promulgada durante a revolução plurinacional reconhece formalmente as comunidades originárias organizadas sob a estrutura dos Territórios Comunitários Originários (TCOs). Dentro desses territórios, a posse da terra é coletiva, as decisões são assembleiares e o solo tem status inalienável, imprescritível e impenhorável. O solo, a Pachamama, não é um ativo financeiro; é o berço físico e espiritual do povo, impossível de ser mercantilizado.
Ao introduzir a lógica macabra da hipoteca individualizada disfarçada de fomento produtivo, em um contexto de inflação altíssima, falência múltipla de pequenos agricultores e asfixia financeira, a Lei 1.720 desenhava um cenário de genocídio territorial.
A pesquisadora Alina Ribeiro destrincha a engrenagem: “Ao empurrar o pequeno produtor desesperado para a busca de crédito dando sua terra como garantia, o governo sabe o final da história. Sem condições reais de pagar as escorchantes taxas de juros cobradas pelos bancos privados em uma economia estagnada, os agricultores inevitavelmente entrariam em default. Suas propriedades seriam executadas. As terras comunitárias seriam formalmente confiscadas pelas instituições financeiras e, num passe de mágica institucional, leiloadas e repassadas a grandes latifundiários e mega-corporações do agronegócio”.
A lei não era um fomento; era o mais sofisticado e silencioso projeto de reforma agrária às avessas da história recente boliviana, destinado a liquidar a soberania alimentar e desintegrar o tecido social e espiritual dos povos originários, pulverizando os TCOs. “Se o objetivo genuíno fosse apoiar a produção camponesa familiar,” completa Ribeiro, “o Estado proveria crédito subsidiado direto, sem jamais exigir que o solo ancestral coletivo fosse colocado na roleta-russa dos mercados especulativos.”

Percebendo que a Lei 1.720 significava a morte de suas comunidades, as confederações desceram das montanhas. Diante do país paralisado por barricadas e do risco iminente de invasão ao palácio presidencial, Rodrigo Paz piscou. Em 12 de maio, em um pronunciamento tenso, anunciou a revogação temporária do texto, enviando-o de volta ao Parlamento para “debates” por 60 dias.
Mas a ilusão da trégua estava desfeita. Para as bases mobilizadas nas estradas, o recuo tático de 60 dias foi visto apenas como uma manobra diversionista do governo para reorganizar suas forças repressivas. A caixa de Pandora estava aberta. O clamor não era mais apenas sobre a gasolina ou o crédito agrícola; a exigência consolidou-se em uma só voz rouca que ecoa de El Alto a Potosí: a queda definitiva de Rodrigo Paz.
CAPÍTULO III: A GEOPOLÍTICA DO SAQUE, O COLONIALISMO VERDE E O “OURO BRANCO” DO SALAR DE UYUNI
Para decifrar completamente o labirinto político boliviano de 2026, a brutalidade da resposta policial, a insistência na desintegração das terras indígenas e, sobretudo, o entusiasmo imediato com que os Estados Unidos avalizaram o governo Paz, é preciso desviar o olhar dos palácios urbanos de La Paz e fitar a imensidão branca, ofuscante e mítica do Salar de Uyuni.
A Bolívia é a guardiã das maiores reservas mundiais de lítio, um mineral alcalino que, até poucas décadas atrás, era apenas uma nota de rodapé na mineração global. Hoje, o lítio é o “ouro branco” do século XXI, a matéria-prima vital e insubstituível para as baterias de alta densidade que alimentam desde smartphones a toda a frota global de veículos elétricos. É a pedra angular da alardeada transição energética que promete salvar o capitalismo da catástrofe climática.
Durante o longo período de hegemonia da esquerda, o Estado boliviano ousou desafiar a lógica tricentenária do extrativismo latino-americano, que historicamente condena a região a exportar bens primários brutos a preço de banana e importar tecnologia cara. O governo plurinacional adotou uma política de soberania nacionalista inegociável. Por meio da estatal YLB (Yacimientos de Litio Bolivianos), a regra era clara: as corporações estrangeiras que desejassem explorar o deserto de sal boliviano teriam que se submeter a parcerias majoritariamente estatais e, obrigatoriamente, investir na construção de usinas de industrialização e refino de baterias dentro do território da Bolívia, gerando emprego e transferência tecnológica local. Contratos em bases de respeito mútuo foram alinhavados com estatais chinesas e consórcios russos que aceitaram essas duras premissas de soberania.
Mas a eleição de Rodrigo Paz marcou o reinício da temporada de pilhagem.
Já na já citada entrevista de 2025 à AFP, Paz não escondia sua submissão às transnacionais ocidentais. Questionado sobre os contratos soberanos assinados pelos governos anteriores, ele foi taxativo: “Uma nova lei de evaporitos é necessária. Esses contratos precisam ser revistos. Ninguém os conhece”. Era o aviso prévio de um leilão de liquidação da pátria.
Em 2026, com o país sob caos econômico, o plano foi posto em prática. O Ministro da Energia, Mauricio Medinaceli, sob o velho pretexto neoliberal de “recuperar a competitividade internacional” e “atrair a entrada urgente de dólares” para conter a crise cambial, que o próprio governo ajudou a agravar, anunciou que o Executivo trabalha noite e dia para aprovar uma nova legislação para o setor de mineração. A proposta oficial reduz drasticamente a influência das estatais YPFB e YLB, escancarando as portas do Salar de Uyuni e de novas áreas ambientais protegidas para consórcios privados predominantemente norte-americanos, europeus e canadenses, sem a exigência de industrialização local. O modelo colonial de exportação de matéria-prima bruta está de volta.
Para os povos que habitam e protegem o altiplano, essa abertura é a personificação do Colonialismo Verde.
Sob a retórica limpa, asséptica e sustentável de “salvar o planeta Terra” da emissão de carbono trocando os motores a combustão por baterias elétricas, o Norte Global impõe ao Sul Global o mesmíssimo ciclo histórico de devastação, morte e expropriação territorial. O processo técnico de extração do lítio nas planícies andinas é feito por evaporação. Trata-se de uma atividade aterradora e intensiva no uso de recursos hídricos.
O bombeamento indiscriminado de dezenas de milhões de litros de água doce por dia, misturados a compostos químicos para separar o lítio da salmoura, ameaça diretamente exaurir de forma irreversível as frágeis bacias hidrográficas subterrâneas locais. Isso condena as comunidades agrícolas e pastoris indígenas, que vivem no entorno do Salar há milênios, a ficarem sem água potável para o consumo humano, para a dessedentação de rebanhos de lhamas e alpacas e para a irrigação de suas culturas de quinoa e batata.
Quando os anciões indígenas, as mulheres e as lideranças sindicais erguem a voz e protestam contra o envenenamento e a drenagem de suas águas vitais em nome da ecologia do Primeiro Mundo, são rapidamente rotulados pelos técnicos corporativos das mineradoras e pelos porta-vozes do Estado como ignorantes, “anti-progresso” e “obstáculos ao desenvolvimento”.
O cinismo corporativo imperialista que move a engrenagem letal da geopolítica do lítio boliviano nunca foi tão bem e arrogantemente resumido quanto em julho de 2020. Naquele ano, o bilionário e magnata Elon Musk, CEO da Tesla, montadora de carros elétricos cuja existência e margem de lucro dependem estruturalmente da garantia de fluxo de baterias baratas de lítio, foi confrontado na rede social X por um usuário indignado. O internauta acusou o governo dos EUA e os interesses corporativos de Musk de terem patrocinado e articulado o sangrento golpe de Estado contra o presidente indígena Evo Morales em 2019, justamente para roubar o lítio boliviano.
Longe de negar, Musk proferiu a frase que ficará gravada como o epitáfio do neoliberalismo extrativista do século XXI: “Vamos dar golpe em quem quisermos! Lidem com isso”.
A confissão explícita daquele que hoje figura como um dos homens mais ricos do mundo expõe a essência brutal, mafiosa e bélica que se oculta sob o falso verniz “eco-friendly” da transição verde ocidental. O capital verde tem sede, e a bebida é o sangue e a água da América Latina. O plano de Rodrigo Paz para fatiar o Salar de Uyuni nada mais é do que o cumprimento prático do aviso de Musk. O levante camponês de 2026, com suas fogueiras e estradas fechadas, é o “lidem com isso” dos povos andinos contra os donos do capital.
CAPÍTULO IV: A ARQUITETURA DA REPRESSÃO E A INTERNACIONAL REACIONÁRIA
Incapaz de governar com consenso, o Estado boliviano sob o comando de Paz recorreu ao tradicional, letal e infame roteiro histórico da direita latino-americana: a bala de fuzil, a criminalização midiática e o esmagamento das organizações populares.
No terceiro final de semana de maio, o epicentro do conflito deslocou-se para a aguerrida cidade de El Alto, a indomável fortaleza operária e aymara colada à La Paz. As forças policiais e destacamentos militares, com o pretexto de “garantir o direito de ir e vir” e criar corredores de escoamento para o agronegócio, promoveram ataques de extrema brutalidade contra as barricadas populares.
O saldo é sombrio. A Defensoria Pública da Bolívia, chefiada por Pedro Callisaya, publicou relatórios emergenciais alarmantes: apenas em El Alto, em 48 horas, foram confirmadas mais de 47 prisões arbitrárias de manifestantes. A violência escalou para execuções sumárias nas rodovias. Organizações de Direitos Humanos independentes e sindicatos camponeses denunciam, com provas, a morte a tiros de pelo menos sete operários e agricultores nos pontos de bloqueio da região andina, além de mais de 120 feridos graves, muitos mutilados por bombas de gás adulteradas e disparos de escopeta. O Defensor Público também relatou que o governo vem promovendo apagões de comunicação e estimulando choques artificiais entre civis pró-governo e as massas em protesto.
A resistência, no entanto, institucionalizou-se. A formidável Central Operária Boliviana (COB) convocou uma greve geral nacional por tempo indeterminado. Nas rodovias, ao lado dos mineiros com capacetes de proteção, perfilam-se organizações de base imbatíveis, como a Federação de Camponeses Túpac Katari e o poderoso sindicato de professores rurais.
Nenhuma força é mais temida pelo governo, no entanto, do que as mulheres originárias. A Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Bartolina Sisa, que carrega o nome da heroína aymara esquartejada pelos colonizadores espanhóis no século XVIII, assumiu a linha de frente da insurreição. Em um manifesto veemente, emitido no calor das batalhas, as mulheres desmascararam a fachada democrática de Paz:
“De forma violenta e criminosa o governo interveio na mobilização do povo deixando como saldo falecidos, feridos e detidos. Pretende, com seus decretos e leis inconstitucionais, tirar nossas terras para entregar aos latifundiários. Rodrigo Paz perdeu todas as condições políticas e morais de governar.”
O governo, acossado pelo estrangulamento do suprimento na capital, ativou o terrorismo de Estado através de seus microfones oficiais. O porta-voz da Presidência, José Luis Gálvez, ocupou a TV estatal não para propor diálogo, mas para demonizar o levante. Classificou centenas de milhares de trabalhadores, indígenas e mães de família como “vândalos”, “terroristas” e “narcotraficantes”. O governo divulgou imagens de membros dos icônicos Ponchos Vermelhos, grupo histórico de autodefesa aymara, supostamente armados nas estradas, tentando justificar antecipadamente uma intervenção letal generalizada das Forças Armadas contra a população civil.
Mas a guerra de Rodrigo Paz contra seu povo não se desenrola no vácuo isolado da Cordilheira. A repressão boliviana transformou-se em um imenso e complexo xadrez da geopolítica internacional, revelando as alianças transnacionais das extremas-direitas.
Enquanto corpos indígenas caem no asfalto congelado, fontes de inteligência sindical da Bolívia e jornalistas investigativos denunciaram que o governo argentino, sob a presidência do ultraneoliberal e reacionário Javier Milei, iniciou o envio clandestino de caixas de armamentos letais e não letais, além de bombas de gás lacrimogêneo e supostos “conselheiros” de segurança, para reforçar as tropas de Paz. O escândalo internacional replica macabramente o que ocorreu em 2019, quando o então presidente argentino Mauricio Macri enviou secretamente armas para a ditadura boliviana massacrar civis.
O patrocínio maior do extermínio, porém, vem do Norte. De Washington, sem meias palavras e ignorando os relatórios de abusos de Direitos Humanos, o recém-nomeado Secretário de Estado dos EUA e notório falcão anticomunista, Marco Rubio, publicou comunicados de apoio incondicional à repressão comandada por Rodrigo Paz. A chancelaria americana prometeu que o império não permitirá que a Bolívia volte a ser governada pelo que rotulou criminosamente de “esquerdistas radicais e cartéis”, assegurando uma blindagem diplomática internacional para qualquer crime que as Forças Armadas bolivianas cometam nos próximos dias.
Felizmente, no Sul, a solidariedade e a soberania também têm vozes. Opondo-se frontalmente à ofensiva imperialista patrocinada por Rubio e Milei, o presidente colombiano Gustavo Petro emergiu como a principal liderança regional a denunciar a violência na Bolívia. Petro classificou corajosamente o levante boliviano não como uma crise institucional pontual, mas como uma “legítima insurreição popular” focada em barrar a agressão contínua da arrogância geopolítica ocidental, convertendo a tragédia andina no foco central das disputas sobre que tipo de América Latina existirá na próxima década: colônia extrativista ou pátria soberana.
CAPÍTULO V: LAWFARE, O FANTASMA DE 2019 E A CAÇADA NO CHAPARE
A espiral de violência, a caçada implacável contra o movimento operário e o entreguismo do lítio em curso no ano de 2026 são absolutamente incompressíveis sem conectar os fios expostos com o trauma basilar do Estado Plurinacional recente: o golpe de Estado de novembro de 2019. O atual regime de Rodrigo Paz é, na percepção unânime dos movimentos sociais, a continuação jurídica e disfarçada do fascismo que ascendeu com a Bíblia nas mãos sobre o cadáver da democracia andina.
Em 2019, o então presidente Evo Morales, o ex-sindicalista cocaleiro que se tornou o primeiro governante indígena da história boliviana desde a invasão europeia de 1492, foi alvo de um golpe articulado por elites locais, policiais amotinados, militares e interesses transnacionais. Na época, a farsa que legitimou a ruptura foi chancelada por um relatório precipitado, capcioso e fraudulento da Organização dos Estados Americanos (OEA), que sugeriu a existência de “fraudes” nas urnas sem apresentar provas matemáticas concretas.
Investigações independentes posteriores realizadas por consórcios jornalísticos, como The Intercept Brasil e Agência Pública, demoliram completamente as bases do golpe. Mais devastador para os golpistas foi o contundente estudo acadêmico publicado por Jack R. Williams e John Curiel, respeitados pesquisadores do Laboratório de Ciência e Dados Eleitorais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Avaliando de forma independente a estatística eleitoral, os cientistas do MIT provaram cabalmente que não houve quebra de tendência nos votos, que a contagem boliviana foi perfeitamente coerente e que a vitória de Morales havia sido incontestavelmente limpa e legítima. A mentira da OEA foi exposta como um estopim fabricado pelo imperialismo para justificar o retorno da barbárie branca ao poder.
O vácuo democrático deixado pela deposição armada de Morales foi preenchido pela autoproclamada ditadura interina de Jeanine Áñez. O regime golpista, erguendo pateticamente uma Bíblia gigante e jurando extirpar do palácio a “Pachamama demoníaca”, assinou decretos que garantiam impunidade penal total aos militares que atirasssem contra civis nas ruas. O resultado foi sangue. Os infames e tristes Massacres de Senkata (em El Alto) e Sacaba (em Cochabamba) deixaram mais de três dezenas de indígenas desarmados fuzilados nas rodovias por defenderem o voto camponês.
Mais tarde, vazamentos revelariam que até mesmo a contratação de batalhões de mercenários militares norte-americanos havia sido orquestrada por ex-ministros de Áñez para tentar assassinar o então candidato progressista Luis Arce antes de sua posse. Era a face crua da ingerência externa que repousa sobre a nação andina.
Agora, em 2026, com o país sob novo controle conservador, a direita boliviana trocou os tanques de Áñez por canetas de procuradores obedientes e acusações judiciais kafkianas. É o reino do Lawfare, o uso das estruturas da máquina judiciária estatal não para aplicar a justiça, mas como uma arma letal de guerra política projetada para decapitar, desmoralizar e encarcerar lideranças adversárias.
O alvo não é apenas a insurreição nas estradas, mas os cérebros do movimento. Nas últimas semanas, o procurador-geral subordinado a Paz, Roger Mariaca, formalizou pedidos de prisão preventiva contra intelectuais e lideranças operárias. A principal caçada ocorre contra Mario Argollo, o combativo secretário-geral da Central Operária Boliviana (COB), acusado genericamente pelo Ministério Público de “terrorismo” e “incitação ao crime”. Operando na clandestinidade em locais não revelados das franjas de La Paz, Argollo envia mensagens diárias às bases denunciando a criminalização política, cujo único intuito é calar o movimento sindical no exato instante em que ele tenta impedir a entrega das reservas energéticas às multinacionais.
Mas a operação máxima do lawfare de 2026 tem como alvo a eliminação política definitiva da figura mais emblemática do indigenismo continental: Evo Morales.
Hoje, o ex-presidente e líder máximo do Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS) encontra-se em um estado de sítio autodeclarado na região tropical do Chapare, reduto cocaleiro encravado em Cochabamba. O território tornou-se um bastião militarizado da resistência camponesa. Evo está protegido dia e noite por espessos e impenetráveis “anéis de segurança” erguidos por milhares de produtores de folha de coca, camponeses e operários que montaram barricadas intransitáveis nas estradas vicinais. O objetivo dos bloqueios no Chapare é impedir a todo custo a entrada de tropas especiais do governo Rodrigo Paz, que carregam mandados de prisão emitidos por juízes provinciais subordinados ao Palácio Quemado.
As acusações atiradas contra Morales desta vez são espúrias e projetadas com precisão cirúrgica para destruir sua imagem moral no cenário internacional. Procuradores acusam o líder indígena de tráfico de pessoas e envolvimento impróprio com uma menor durante o seu período como presidente, caso que, de forma nunca devidamente comprovada pelas regras constitucionais, teria gerado um filho.
Para a imensa teia de sindicatos indígenas, acadêmicos críticos e defensores dos direitos constitucionais que marcham na Bolívia, o processo judicial não passa de uma chicana. Uma evidente, escandalosa e apressada tática de destruição reputacional elaborada nos gabinetes estadunidenses para torná-lo criminalmente inelegível para as futuras disputas presidenciais. O plano macabro de Paz é erradicar Morales fisicamente da corrida eleitoral, prender as lideranças da COB, dissolver os movimentos nas estradas à base de gás argentino e fuzis, e aprovar a nova lei do lítio e a privatização das terras à revelia de um povo atemorizado.
Para a cosmologia profunda das bases originárias aymaras e quéchuas que guardam Evo Morales nas selvas de Cochabamba, não há separação entre o corpo da liderança e a essência do território. Perseguir a representação viva da primeira vitória indígena nas urnas é indissociável da tentativa imperial de roubar suas terras comunitárias, sugar a água de seus salares e violar sua soberania. A caçada ao líder é, simbolicamente, a caçada à própria existência das nações andinas.
EPÍLOGO: A MEMÓRIA DA PACHAMAMA
Na gélida altitude das cordilheiras, quando a fumaça tóxica das bombas de gás lacrimogêneo se mistura às fumaças das trincheiras camponesas, o cheiro que sobe aos céus não é o do fim de uma nação, mas o do eterno e doloroso renascimento de sua resistência.
A insurreição da Bolívia de 2026, com seus mortos na rodovia, com as lágrimas das mulheres Bartolina Sisa e com os motores fundidos de La Paz, desvenda a mais colossal das mentiras do século XXI: a ilusão de que o “desenvolvimento verde”, sustentável para as metrópoles limpas da Europa e dos Estados Unidos, pode ser construído sobre pilhas de cadáveres no Sul Global.
Os financistas de Wall Street, os diplomatas de Marco Rubio, as petroleiras, as indústrias de baterias de Elon Musk, os barões do latifúndio de Santa Cruz e seus gerentes temporários encastelados no palácio presidencial presidido por Rodrigo Paz cometem um erro crasso e ancestral de cálculo. Eles acreditam, cegos por suas planilhas de austeridade e por suas hipotecas forçadas da Lei 1.720, que o território é apenas um “ativo”, que o lítio é apenas uma “commodity” e que a miséria é uma ferramenta administrável pelo terror do Estado.
O que os colonizadores de outrora não entenderam, e que os colonizadores verdes de hoje continuam sem compreender, é que, para os povos das planícies andinas, a relação com o solo não é jurídica; é sagrada. O território não pode ser dado como garantia de dívida bancária porque ele é, em si mesmo, o próprio sentido da vida e do pertencimento.
A Bolívia profunda demonstra que o sangue derramado não fertiliza a obediência, mas a memória. A terra que o Norte cobiça rasgar não é o chão morto de uma jazida mineral. Ela é um corpo vivo, místico e inalienável. Ela lembra de Pizarro e das minas de prata de Potosí. Ela carrega a memória dos corpos fuzilados em Sacaba e Senkata. Ela sofre com as perfurações evaporíticas e exaure sob o peso da mineração. Ela é, irrevogavelmente, a Pachamama. E a Pachamama, guardada por seus filhos nas trincheiras em chamas, ensina a Rodrigo Paz a mais dolorosa das lições: um corpo ancestral que pulsa e sangra jamais se curvará, e lidará em silêncio de pedra com cada novo senhor que tentar colonizá-la.
Referências citadas
- O que há por trás da convulsão social na Bolívia? – Correio do Povo, acessado em maio 21, 2026, https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/mundo/o-que-ha-por-tras-da-convulsao-social-na-bolivia-1.1715488
- Bloqueios e pressão popular exigem renúncia do presidente da …, acessado em maio 21, 2026, https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-05/bloqueios-e-pressao-popular-exigem-renuncia-de-presidente-da-bolivia
- What do Bolivia’s escalating protests reveal about the country’s political crisis?, acessado em maio 21, 2026, https://acleddata.com/expert-comment/what-do-bolivias-escalating-protests-reveal-about-countrys-political-crisis
- Presidente da Bolívia condena protestos e diz ter apoio dos EUA …, acessado em maio 21, 2026, https://operamundi.uol.com.br/america-latina/presidente-da-bolivia-condena-onda-de-protestos-e-diz-ser-apoiado-pelos-eua/
- A crise e o ataque neoliberal na Bolívia – CLACSO, acessado em maio 21, 2026, https://www.clacso.org/pt/la-crisis-y-la-arremetida-neoliberal-en-bolivia/
- Rodrigo Paz promete superar crise na Bolívia sem plano de ajuste severo – SWI swissinfo.ch, acessado em maio 21, 2026, https://www.swissinfo.ch/por/rodrigo-paz-promete-superar-crise-na-bol%C3%ADvia-sem-plano-de-ajuste-severo/89897323
- 2026 Bolivian protests – Wikipedia, acessado em maio 21, 2026, https://en.wikipedia.org/wiki/2026_Bolivian_protests
- Levantamento operário e camponês cria ‘labirinto político’ para reacionários na Bolívia, acessado em maio 21, 2026, https://anovademocracia.com.br/levantamento-operario-campones-bolivia/
- Protestos na Bolívia: procurador-geral pede prisão do líder da Central Operária Boliviana, acessado em maio 21, 2026, https://operamundi.uol.com.br/america-latina/procurador-geral-da-bolivia-pede-prisao-do-lider-da-central-operaria-boliviana-em-meio-a-protestos/
- Bolívia registra 23 bloqueios e marchas antigoverno chegam a La Paz – Agência Brasil, acessado em maio 21, 2026, https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-05/bolivia-registra-23-bloqueios-e-marchas-antigoverno-chegam-la-paz
- Atos pela renúncia do presidente da Bolívia afligem líderes regionais: ‘Risco à democracia’, acessado em maio 21, 2026, https://veja.abril.com.br/mundo/atos-pela-renuncia-do-presidente-da-bolivia-afligem-lideres-regionais-risco-a-democracia/
- Movimentos enfrentam governo boliviano e exigem saída de Paz, acessado em maio 21, 2026, https://vermelho.org.br/2026/05/20/movimentos-sociais-enfrentam-governo-boliviano-e-exigem-saida-de-paz/
- Como o golpe na Bolívia abriu caminho para um oportunista de extrema direita – Intercept Brasil, acessado em maio 21, 2026, https://www.intercept.com.br/2019/11/12/golpe-bolivia-caminho-ultraconservadorismo/
- Relatório que levou a golpe na Bolívia era falho, admite mídia dos EUA – Intercept Brasil, acessado em maio 21, 2026, https://www.intercept.com.br/2020/06/09/midia-americana-oea-eleicao-bolivia/
- Bolívia devolve poder a partido de Evo Morales, um ano após golpe aplaudido pelos EUA, acessado em maio 21, 2026, https://www.intercept.com.br/2020/10/19/bolivia-partido-evo-morales-golpe-eua/
- “Eles não foram neutros na análise”, afirma cientista do MIT que refutou relatório da OEA sobre fraude nas eleições bolivianas – Agência Pública, acessado em maio 21, 2026, https://apublica.org/2020/06/eles-nao-foram-neutros-na-analise-afirma-cientista-do-mit-que-refutou-relatorio-da-oea-sobre-fraude-nas-eleicoes-bolivianas/
- Ex-ministro da Defesa da Bolívia planejou segundo golpe usando mercenários dos EUA, acessado em maio 21, 2026, https://www.intercept.com.br/2021/06/18/ex-ministro-bolivia-golpe-eua/
- Bolivia’s Morales announces his candidacy for 2025 presidential elections, acessado em maio 21, 2026, https://aa.com.tr/en/americas/bolivia-s-morales-announces-his-candidacy-for-2025-presidential-elections/3488621
- Evo Morales é considerado culpado por desacato em caso de tráfico de menor na Bolívia, acessado em maio 21, 2026, https://veja.abril.com.br/mundo/evo-morales-e-considerado-culpado-por-desacato-em-caso-de-trafico-de-menor-na-bolivia/
- O que Elon Musk quer com a Bolívia? – Intercept Brasil, acessado em maio 21, 2026, https://www.intercept.com.br/2020/08/13/elon-musk-bolivia-evo-morales-litio/
- Bolsonarismo mobiliza rede extremista internacional contra STF – Intercept Brasil, acessado em maio 21, 2026, https://www.intercept.com.br/2024/04/13/bolsonaristas-rede-internacional-stf/
- Sem a esquerda no poder, o que acontecerá com o lítio da Bolívia? – Jornal da USP, acessado em maio 21, 2026, https://jornal.usp.br/articulistas/elaine-santos/sem-a-esquerda-no-poder-o-que-acontecera-com-o-litio-da-bolivia/
- Bolívia garante contratos de lítio para atrair investimentos verdes – Canal Solar, acessado em maio 21, 2026, https://canalsolar.com.br/bolivia-litio-investimentos-verdes/
- Bolívia: Transição Energética e Direitos dos Povos Indígenas Diante da Exploração de Minerais Essenciais, acessado em maio 21, 2026, https://debatesindigenas.org/pt/2025/06/01/bolivia-transicao-energetica-e-direitos-dos-povos-indigenas-diante-da-exploracao-de-minerais-essenciais/
- Extração de lítio ameaça deixar comunidades indígenas na Bolívia sem água: “Me disseram que somos um obstáculo ao desenvolvimento” – Instituto Humanitas Unisinos, acessado em maio 21, 2026, https://ihu.unisinos.br/categorias/655051-extracao-de-litio-ameaca-deixar-comunidades-indigenas-na-bolivia-sem-agua-me-disseram-que-somos-um-obstaculo-ao-desenvolvimento




