Guerreiros Mebengôkre impedem abastecimento do garimpo Pista Velha, onde suspeitam de fuzis e ligação com facções do narcotráfico
Desde a segunda-feira, 21 de setembro, um grupo de guerreiros Kayapó (Mebengôkre) bloqueia a via de acesso ao garimpo ilegal Pista Velha, próximo ao rio Curuazinho, no meio da Terra Indígena Baú, no sudeste do Pará. A ação ocorre menos de dois meses depois de uma operação da Polícia Federal e do Ibama na região, que não conseguiu desestruturar de forma efetiva a extração ilegal de ouro no território.
Com o bloqueio, os indígenas tentam frear a logística de abastecimento do garimpo, que segundo organizações da Rede Xingu+ vem atraindo cada vez mais invasores: o número de garimpeiros quadruplicou nos últimos dois meses, chegando a aproximadamente 400 pessoas. Informações repassadas ao grupo apontam a presença de armas de vários calibres no local, incluindo ao menos quatro fuzis, o que leva os Kayapó a suspeitar de participação de facções criminosas ligadas ao narcotráfico na extração de ouro. Os indígenas afirmam que não vão deixar o local enquanto o poder público não agir para retirar os invasores. A Polícia Federal disse à reportagem que acompanha a situação.
O garimpo na TI Baú é um problema desde 2019 e já provocou vários conflitos entre garimpeiros e os Kayapó, que atuam na vigilância do território. Em fevereiro, a Rede Xingu+, formada por 53 organizações indígenas, ribeirinhas e da sociedade civil, alertou órgãos do governo federal sobre a interceptação de dois grupos de garimpeiros por uma expedição Kayapó, que apreendeu duas armas de fogo. Nesta quinta-feira, 24 de setembro, uma equipe indígena de vigilância encontrou uma espingarda calibre 28 e um motor de barco escondidos perto do Pista Velha.
A TI Baú tem 1,5 milhão de hectares e abriga os Kayapó e os povos isolados Pu’rô. A área afetada pela mineração ilegal cresce desde 2019: segundo o Instituto Socioambiental, até 2017 eram 150 hectares desmatados, número que superou 308 hectares entre 2018 e 2022, período que coincide com o governo Bolsonaro, e chegou a 332 hectares acumulados em 2025, conforme a plataforma Amazon Watch. A mineração é proibida em terras indígenas por lei e provoca impactos graves à natureza e às comunidades. Uma análise da Rede Xingu+ mostra que a área desmatada por garimpo no entorno oeste das Terras Indígenas Baú e Menkragnoti cresceu 11% entre 2024 e 2025, e quase 80% dessas áreas não possuíam autorização da Agência Nacional de Mineração.
O Ministério dos Povos Indígenas e a Funai não responderam aos pedidos de posicionamento da reportagem até a publicação. A PF afirmou que a operação de julho empregou três aeronaves contra atividades ilegais de extração mineral que impactam cursos d’água e comunidades indígenas, e que segue atuando no acompanhamento da região. O garimpo também avança sobre outras terras indígenas do eixo da BR-163, como Paraná e Menkragnoti, com denúncias de rios contaminados que ameaçam a disponibilidade de água para as comunidades.
Fonte: Agência Pública
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Agência Pública e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

