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Lei estadual do Pará abre caminho para invasão de terra indígena isolada

Investigação da Mongabay mostra que lei estadual aprovada às pressas no Pará, ligada ao deputado pecuarista Torrinho Torres, sobrepôs uma área de proteção ambiental à Terra Indígena Ituna/Itatá e precedeu a invasão de quase 200 pessoas ao território de um povo isolado.

Nesta reportagem

Investigação liga deputado pecuarista a lei que sobrepõe área de proteção à Ituna/Itatá e precedeu invasão de quase 200 pessoas

Uma investigação da Mongabay revela como a Assembleia Legislativa do Pará aprovou, em 24 minutos e por unanimidade, em 30 de junho de 2026, um projeto de lei do deputado estadual Francisco “Torrinho” Torres (Republicanos-PA) que criou a Área de Proteção Ambiental Bacajaí, sobreposta integralmente à Terra Indígena Ituna/Itatá, onde vive um povo indígena isolado às margens do Igarapé Ipiaçava. Semanas depois, em 13 de agosto, quase 200 pessoas invadiram o território, arrombaram portões de segurança, derrubaram placas de advertência e montaram acampamentos dentro da área.

O Ministério Público Federal afirmou que a criação da APA pelo estado é incompatível com a proteção de terras federais destinadas a povos indígenas isolados, já que a Constituição determina que terras indígenas pertencem à União. Procuradores federais e o Ministério dos Povos Indígenas disseram à Mongabay que a lei estadual criou insegurança jurídica e intensificou pressões territoriais. Segundo o Observatório dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) e a Survival International, o grupo isolado corre risco de extermínio.

Análise da Mongabay e do Instituto Dados constatou que 97% das 213 reivindicações de terra registradas no Cadastro Ambiental Rural dentro da Ituna/Itatá desde 2015 correspondem a propriedades médias ou grandes, contrariando a narrativa de políticos de que pequenos agricultores precisam das terras. Dezenas de responsáveis pelos cadastros já possuem fazendas fora do território. Heron Martins, diretor executivo do Instituto Dados, afirmou que o cadastro funciona como instrumento de legalização retroativa, sem exigir comprovação prévia de direito real.

Torres, pecuarista de 57 anos, já recebeu multas ambientais milionárias por desmatamento e grilagem de terras indígenas e é ligado a uma exportadora de carne que compra gado criado dentro da Ituna/Itatá. Mensagens obtidas pela Mongabay e compartilhadas entre grupos de agricultores mostram pessoas se organizando para entrar no território, “limpar os picos” e abrir estradas “nem que seja de facão” dias depois do anúncio da lei nas redes sociais de Torres. Givanildo dos Santos Lima, analista ambiental do Ibama, disse à Mongabay que a invasão “não foi uma tentativa independente” e que “tudo foi articulado em conjunto”, com pequenos agricultores usados como “frentistas de invasão” enquanto articuladores permanecem à distância.

A Mongabay constatou ainda um salto nos alertas de incêndio dentro da Ituna/Itatá, de zero em agosto para 23 até 13 de outubro, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Entre 2015 e 2025, o território perdeu 19.532,7 hectares de floresta primária. Em Senador José Porfírio, município que abrange grande parte da terra indígena, 52% da população ocupada recebe meio salário mínimo mensal, segundo o IBGE, enquanto o Pará é a 12ª economia do país — dado que, segundo a investigação, expõe a distância entre a narrativa usada para justificar a lei e os reais beneficiários das ocupações.


Fonte: Notícias ambientais

Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de Notícias ambientais e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

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