Na assembleia de 22 de setembro de 2023, numa aldeia de Autazes, no Amazonas, o presidente da mineradora Potássio do Brasil, Adriano Espeschit, fez uma oferta aos indígenas Mura presentes. “Estamos assumindo o compromisso de comprar 5.000 hectares”, disse, caso eles votassem a favor do projeto de exploração de potássio. Prometeu também empregos, prioridade na contratação de empresas indígenas e royalties. E impôs uma condição: “Vocês aprovando esse projeto, não pode haver criação de terra indígena”. A reunião foi gravada, e o áudio, de mais de uma hora, foi enviado ao Ministério Público Federal, segundo reportagem de Vinicius Sassine, da Folha de S.Paulo, reproduzida pelo Jornal de Brasília.
Em novembro daquele ano, a Justiça Federal suspendeu o licenciamento e a consulta feita aos Mura. A decisão apontou falsas promessas, ameaças e cooptação de indígenas, de lideranças e de servidores públicos, atribuídas a prepostos e ao próprio presidente da empresa, segundo o MPF. A Justiça vetou qualquer tentativa de coação sobre o povo e multou a empresa em R$ 1 milhão por pressão indevida sobre os Mura. A Potássio do Brasil classificou as acusações como “mera fabricação de fake news midiático para instigar a opinião pública”.
O caso de Autazes é o mais documentado de uma prática que a Revista Caipora identificou em outros territórios e governos. A receita se repete: oferecer terra, renda, transporte, armas ou estrutura a uma parte dos indígenas e de suas lideranças para obter apoio à exploração de recursos em suas terras. Na gestão de Jair Bolsonaro, o próprio governo federal fez a ponte. Em 2019, ao receber indígenas no Palácio do Planalto, o presidente resumiu a tese: “O índio não pode continuar sendo pobre em cima de terra rica”, registrou a Agência Brasil.
Em 2026, o filho retoma a tese e a palavra que o pai usou naquele encontro: autonomia. O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) promete autonomia para que indígenas e quilombolas decidam sobre as atividades produtivas em suas terras, segundo o Portal Amazônia. Em agosto, num podcast, o candidato detalhou a ideia: “Quem vai resolver o que faz na reserva indígena são eles. Arrendar sua terra? Vai fazer. Se quiser autorizar a exploração do subsolo, vai fazer, vai ganhar royalties em função disso, sempre com responsabilidade ambiental, mas respeitando a vontade deles”, segundo o Congresso em Foco. O Estatuto do Índio proíbe o arrendamento de terras indígenas, e a Constituição só permite a mineração nelas com autorização do Congresso, ouvidas as comunidades afetadas.
A Caipora reuniu decisões judiciais, documentos, reportagens e os dados de votação do primeiro turno para mostrar quem pressiona, como pressiona e onde está, de fato, o apoio indígena a Flávio.

Como apuramos
A reportagem cita pessoas apenas em funções públicas ou em fatos registrados por decisões judiciais, documentos oficiais e reportagens com fontes identificadas. Indígenas que defendem a agricultura comercial ou a mineração em seus territórios exercem um direito político, e a reportagem não os trata como suspeitos. O foco está em quem, de fora, oferece vantagens, dinheiro ou estrutura para obter apoio.
Os fatos têm link para a fonte. O que dizem as pessoas e empresas citadas está ao fim do texto.
Cinco mil hectares por um voto
A Potássio do Brasil pertence à Brazil Potash, ligada ao grupo canadense Forbes & Manhattan, segundo a Rede Onda Digital. As ações da Brazil Potash são negociadas na Bolsa de Nova York desde novembro de 2024, informou a AgFeed. A empresa quer extrair potássio, matéria-prima de fertilizantes, em Autazes, a cerca de 112 km de Manaus, numa área reivindicada pelos Mura. Para o Ministério dos Povos Indígenas, o projeto se sobrepõe a sete terras indígenas regularizadas ou de domínio indígena, onde vivem mais de 1.164 famílias, segundo o Brasil de Fato.
Lideranças Mura denunciaram que o então governador do Amazonas, Wilson Lima (União Brasil), e a empresa cooptaram lideranças e que só as favoráveis ao projeto foram chamadas ao encontro em que o governo anunciou o apoio do povo. “Não existe consenso sobre isso”, disse Erton Mura, da Organização das Lideranças Indígenas do Povo Mura do Careiro da Várzea, ao Brasil de Fato. O Ministério dos Povos Indígenas afirmou que nem 1% dos mais de 12 mil Mura afetados participou da reunião cuja lista de presença foi “indevidamente utilizada como lista de aprovação”, segundo a Rede Onda Digital.
O projeto tem apoio nos dois lados da disputa presidencial. Em 2023, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e Carlos Fávaro (PSD), ministro da Agricultura de Lula, se manifestaram a favor, enquanto o Ministério dos Povos Indígenas classificou o empreendimento como “de total interesse dos grupos ruralistas”, segundo a Rede Onda Digital. Wilson Lima, que deixou o governo para disputar o Senado, declarou voto em Flávio Bolsonaro em agosto, segundo a Revista Cenarium, e a federação de União Brasil e PP declarou apoio a Flávio no segundo turno, informou o Congresso em Foco.
Em março de 2022, Jair Bolsonaro usou a guerra na Ucrânia e a dependência de potássio importado para defender a mineração em terras indígenas, argumento contestado por pesquisadores, segundo o Poder360. Na mesma época, o empresário Blairo Maggi, que negociava com o grupo controlador da Potássio do Brasil, disse: “O meu entendimento é que o subsolo pertence à nação brasileira, não pertence a nenhum de nós, nem aos índios”, segundo o Observatório da Mineração.
Depois das decisões de 2023, o governo do Amazonas concedeu a licença ambiental em abril de 2024, e o MPF foi à Justiça pedir o cancelamento, apontando suspeitas de suborno e manipulação na consulta às comunidades, segundo o Portal Amazônia. Em janeiro de 2025, a empresa assinou um acordo preliminar de cooperação com o Conselho Indígena Mura, e Espeschit afirmou que o projeto teve 90% de aprovação, com 32 das 34 aldeias presentes, segundo a AgFeed. Em agosto de 2025, com novos laudos antropológicos e ambientais, o MPF voltou a pedir a suspensão das licenças e afirmou que o direito à consulta prévia, livre e informada das comunidades “vem sendo inteiramente negligenciado”, segundo o MPF.
Em junho de 2026, o projeto seguia paralisado, mas toda a produção anual prevista já tinha sido vendida ao grupo Amaggi, ligado a Blairo Maggi, segundo o Portal Amazônia. Pelos contratos, a Amaggi poderá comprar 500 mil toneladas de potássio por ano durante 17 anos, segundo a AgFeed. Em nota ao Portal Amazônia, a empresa afirmou que a Corte Especial do Tribunal Regional Federal da 1ª Região confirmou que o licenciamento cabe ao órgão estadual. O tuxaua Gabriel Mura, da aldeia Soares, contesta a consulta: “Nós somos favoráveis à demarcação do nosso território, não ao projeto de mineração”. Na assembleia de 2023, Espeschit havia chamado de “cruciais” dois pontos: “a não demarcação de terra indígena em cima da área do Soares” e “logicamente a aprovação do projeto”.
Linha do tempo
Como uma mina de potássio chegou às aldeias Mura
empresa e governos Justiça e MPF povo Mura
- Mar/2022Jair Bolsonaro usa a dependência de potássio importado para defender a mineração em terras indígenas. Blairo Maggi negocia com o grupo controlador da Potássio do Brasil.
- 22/9/2023Em assembleia gravada, o presidente da Potássio do Brasil promete comprar 5 mil hectares se os Mura votarem a favor do projeto.
- Set/2023A Justiça Federal suspende a licença: a mineração dependeria de autorização do Congresso e de consulta aos indígenas. A presidência do TRF1 derruba a decisão.
- Out/2023Lideranças Mura denunciam cooptação pelo governo do Amazonas e pela empresa.
- 16/11/2023Nova decisão suspende licenciamento e consulta e proíbe pressões sobre os Mura. A empresa é multada em R$ 1 milhão.
- Abr/2024O governo do Amazonas concede a licença ambiental.
- Mai/2024O MPF pede à Justiça a suspensão do licenciamento.
- Nov/2024A Brazil Potash estreia na Bolsa de Nova York.
- Jan/2025A empresa assina acordo preliminar de cooperação com o Conselho Indígena Mura.
- Abr/2025O presidente da empresa diz ter 90% de aprovação. A Amaggi poderá comprar 500 mil toneladas de potássio por ano, por 17 anos.
- Ago/2025Com novos laudos, o MPF pede de novo a suspensão das licenças.
- Mai/2026O MPF reforça o pedido de cancelamento do licenciamento.
- Jun/2026Com o projeto paralisado, o tuxaua Gabriel Mura, da aldeia Soares, contesta a consulta feita pelo Conselho Indígena Mura.
Quando o governo era o intermediário
Em 17 de abril de 2019, Jair Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo ao lado de indígenas Paresi, Macuxi, Xukuru e Yanomami, levados ao Planalto pelo secretário especial de Assuntos Fundiários, Nabhan Garcia. “O que nós pudermos fazer para que vocês tenham autonomia sobre todo o perímetro geográfico de vocês, nós faremos”, disse. “Em Roraima, tem trilhões de reais embaixo da terra”, afirmou. “O índio não pode continuar sendo pobre em cima de terra rica.” O registro é da Agência Brasil. Meses antes, já eleito, havia defendido explorar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol “de forma racional”, “dando royalty e integrando o índio à sociedade”, segundo a Agência Brasil.
Em agosto de 2019, a Sociedade de Defesa dos Índios Unidos e a Associação de Produtores Indígenas, ambas de Roraima, tiveram audiência marcada com o presidente para pedir apoio à produção agrícola e “a regularização da mineração nas áreas em que vivem”, informou O Antagonista.
Em agosto de 2020, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recebeu em Brasília sete garimpeiros Munduruku, levados de Jacareacanga (PA) em avião da Força Aérea Brasileira. Depois de uma conversa a portas fechadas, o Ministério da Defesa chegou a suspender operações contra o garimpo, e o MPF abriu investigação sobre o uso do avião, mostrou a Repórter Brasil. O grupo pró-garimpo é considerado minoritário entre os Munduruku. Em resposta, uma assembleia na aldeia Waro Apompu se posicionou contra o garimpo e contra o projeto de lei da mineração em terras indígenas e pediu a retomada da fiscalização.

Na Terra Indígena Sangradouro, em Mato Grosso, o projeto Agro Xavante, também chamado de Independência Indígena, juntou uma cooperativa Xavante, o Sindicato Rural de Primavera do Leste e quatro produtores rurais. Pelos documentos da Funai, 80% da receita líquida ficava com os produtores e 20% com os Xavante; o superintendente de Assuntos Indígenas de Mato Grosso, Agnaldo Santos, descreveu o modelo como “tipo um arrendamento”. O presidente da Funai, Marcelo Xavier, elogiou a iniciativa num dia de campo em abril de 2021, e o deputado Eduardo Bolsonaro visitou o território em abril de 2022 e publicou um vídeo elogiando o projeto. Em julho daquele ano, o Ibama autuou os quatro produtores por desmatamento ilegal de quase 1.500 hectares, segundo reportagem do O Joio e o Trigo publicada pelo Brasil de Fato.
Em agosto de 2021, em Cuiabá, o governo entregou 42 máquinas e equipamentos agrícolas a comunidades indígenas. No evento, Bolsonaro disse que multar um produtor rural, “seja ele qual for, não tem cabimento”, e que uma multa de cerca de R$ 130 milhões aplicada aos Paresi era “assunto já resolvido”. Os Paresi plantam soja e milho em parceria com agricultores da região de Campo Novo do Parecis, segundo a Agência Brasil.
Onde não há contrato, há aliciamento. Em relatório de 2022, a Hutukara Associação Yanomami registrou garimpeiros oferecendo comida, bebida alcoólica e armas de fogo em troca de sexo e de pequenos serviços na Terra Indígena Yanomami. Numa comunidade da região de Surucucu, segundo uma liderança, os garimpeiros ofereceram 50 armas de fogo “para poder trabalhar”, e alguns jovens aceitaram. À família de uma vítima, ofereceram armas em troca de silêncio; a família recusou e denunciou, segundo reportagem da Mongabay publicada pelo eCycle.
No Congresso, a ofensiva contra as ONGs
Em 2023, a CPI das ONGs, criada no Senado para investigar organizações que atuam na Amazônia, ouviu indígenas críticos a essas entidades. Em julho, o cacique Miguel dos Santos Correa, da aldeia Bragança (PA), e Luciene Kujãesage Kayabi, apresentada como liderança do movimento Agroindígena, acusaram ONGs de explorar indígenas e de manipular seus projetos, segundo a Agência Senado. No relatório final, o relator, senador Marcio Bittar (União-AC), admitiu: “Não tem demonstração de crime”. Ainda assim, propôs regulamentar a mineração em terras indígenas, incluir “impactos sociais e econômicos” no licenciamento e exigir lei para criar unidades de conservação, segundo a Agência Pública.
Desde então, a lei e o Supremo mudaram o terreno. A Lei 14.701/2023, a do marco temporal, tem um artigo, sancionado por Lula, que permite a “cooperação” entre indígenas e não indígenas no “exercício de atividades econômicas”. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) destacou o trecho entre os pontos da lei que preocupam o movimento, segundo o Brasil de Fato. Em dezembro de 2025, ao julgar a lei, o STF fixou que atividades econômicas em terras indígenas só são constitucionais se os resultados beneficiarem toda a comunidade e se for respeitada a autodeterminação dos povos, segundo o Migalhas.
A mineração ganhou prazo. A pedido da Coordenação das Organizações Indígenas do Povo Cinta Larga (Patjamaaj), de Rondônia, o ministro do STF Flávio Dino reconheceu em fevereiro de 2026 que o Congresso se omite ao não regulamentar a participação indígena nos resultados da mineração. Em agosto, o plenário do STF confirmou a decisão e deu 24 meses para o Congresso aprovar a lei. Até lá, os Cinta Larga poderão explorar minérios em seu território, com autorização da comunidade, em no máximo 1% da terra, com estudos de impacto e fiscalização do MPF, informou a Agência Brasil.
Quem são os indígenas que estão com Flávio
O apoio existe, é minoritário e tem endereço. No primeiro turno, Lula teve 82,93% dos votos válidos nos 542 locais de votação em áreas indígenas, contra 45,16% no país, e venceu em 493 deles; Flávio venceu em 48, e houve um empate, segundo levantamento da CNN Brasil com dados do TSE. Mesmo nos municípios onde Flávio venceu, Lula ganhou em 216 dos 255 locais de votação indígenas.
Mais da metade das vitórias de Flávio em áreas indígenas aconteceu em Roraima, onde ele venceu em 28 dos 60 locais indígenas. Também eram de Roraima as organizações indígenas que, em 2019, buscaram Jair Bolsonaro para pedir a regularização da mineração. O empate ocorreu na aldeia Roosevelt, do povo Cinta Larga, em Espigão d’Oeste (RO): 76 votos para cada candidato. É o povo cuja organização obteve no STF a regra provisória que permite minerar em até 1% de seu território.
Infográfico
Flávio venceu em 48 dos 542 locais de votação indígenas; 28 deles ficam em Roraima
Resultado do 1º turno de 2026 nos locais de votação em áreas indígenas. Lula teve 82,93% dos votos válidos nesses locais.
Ver os dados em tabela
| Resultado nos locais de votação indígenas | Locais |
|---|---|
| Lula venceu | 493 |
| Flávio venceu | 48 |
| Empate | 1 |
| Flávio venceu — Roraima | 28 |
| Flávio venceu — Maranhão | 5 |
| Flávio venceu — Mato Grosso | 5 |
| Flávio venceu — Amazonas | 2 |
| Flávio venceu — Minas Gerais | 2 |
| Flávio venceu — Pará | 2 |
| Flávio venceu — Rondônia | 2 |
| Flávio venceu — Acre | 1 |
| Flávio venceu — Mato Grosso do Sul | 1 |
Entre os candidatos, a direita perdeu espaço. Das 191 candidaturas autodeclaradas indígenas de 2026, 47 eram de partidos de direita (24,6%), contra 32% em 2022, segundo levantamento preliminar do Inesc. A ex-deputada federal Silvia Waiãpi (PL-AP), que se define como “mulher indígena conservadora e de direita”, não apareceu na lista oficial de candidatos do partido no Amapá. Ela acusou a sigla de “racismo estrutural”; um dirigente respondeu que “há regras” e que nenhum candidato pode pôr os demais em risco, segundo o Congresso em Foco. Eleita em 2022, Silvia teve o mandato cassado por usar R$ 9 mil de verba de campanha num procedimento estético.
No agro, a ponte de Flávio é a mesma do pai. Em agosto, o candidato visitou uma aldeia do povo Paresi, em Mato Grosso, e disse: “Vocês são um exemplo do que a gente pode fazer em outras comunidades indígenas”, segundo reportagem de Tatiana Merlino, do site O Joio e o Trigo, republicada pelo MST. A mesma reportagem mostra que o Paresi Arnaldo Zunizakae, defensor da soja em terras indígenas, participou de eventos e transmissões com Jair Bolsonaro e, em um ano, apresentou o modelo a representantes de 30 outros povos.
Nas redes, circula até apoio fabricado. Em novembro de 2025, espalhou-se a foto de quatro indígenas diante de um casebre, sob uma faixa com o rosto de Bolsonaro e a inscrição “Presidente 2026”. A imagem foi gerada, no todo ou em partes significativas, por inteligência artificial, concluiu a checagem do jornal português Observador.
Há também aldeias que fecharam as portas à campanha. Em 10 de outubro, a comunidade da aldeia Pirajuí, em Paranhos (MS), declarou apoio a Lula no segundo turno e orientou apoiadores de Flávio a evitar entrar na reserva para fazer campanha. “A comunidade tem autonomia suficiente para decidirmos sem intervenção de ninguém dos dois lados”, disse a vice-cacique Ester Salina ao Correio do Estado.
As ameaças que vêm depois do dia 25

Em abril, na feira Agro Norte Show, em Sinop (MT), Flávio disse que há pedidos de demarcação no estado que podem somar dois milhões de hectares e prometeu: “Se depender do nosso governo, nenhuma dessas reservas será demarcada”. No mesmo evento, comprometeu-se com o fim da moratória da soja, acordo em que empresas deixam de comprar soja plantada em áreas desmatadas da Amazônia. Chamou o acordo de “um grande boicote aos nossos produtores rurais que respeitam a legislação ambiental”, segundo o Money Times.
Em Roraima, a eleição de 4 de outubro mandou ao Congresso um defensor declarado do garimpo e um deputado investigado pela Polícia Federal. O deputado federal Nicoletti (PL), eleito senador com 22,77% dos votos válidos, segundo o Congresso em Foco, defende legalizar o garimpo, inclusive em terras indígenas, e reafirmou apoio a Flávio em agosto, de acordo com a Folha de Boa Vista.
Daniel Trindade (PL) foi eleito deputado federal com 16.673 votos nove dias depois de ser preso em flagrante na Operação Cunhambebe, da Polícia Federal. A operação investiga cursos clandestinos de segurança privada e a suspeita de que um grupo organizado tenha dificultado a ação de órgãos públicos na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A apuração começou depois que agentes da Polícia Rodoviária Federal e do Ibama foram perseguidos e atacados numa fiscalização contra o garimpo ilegal na comunidade Napoleão, em maio, segundo a Agência Cenarium. Segundo o Metrópoles, a prisão em flagrante ocorreu depois que os policiais encontraram indícios de crimes eleitorais, entre eles suspeita de compra de votos. Trindade foi solto no dia seguinte e está proibido pela Justiça de entrar em terras indígenas do estado. Ele é investigado e não há condenação contra ele; as reportagens não registraram manifestação da defesa.
No Pará, áudios enviados a lideranças Parakanã avisam que fazendeiros esperam o segundo turno para invadir a Terra Indígena Apyterewa, contando com a vitória de Flávio, como revelou a Folha de S.Paulo e a Caipora mostrou Áudios ameaçam nova invasão da Terra Indígena Apyterewa.

A violência já é alta. Em 2025, 258 indígenas foram assassinados no país, contra 211 em 2024; Roraima teve o maior número, 82. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou 210 casos de invasão, exploração ilegal de recursos naturais e danos ao patrimônio indígena, e 897 terras e reivindicações territoriais à espera de alguma providência do Estado, segundo a Agência Brasil, em texto reproduzido pelo Correio da Manhã.
Em números
Violência e espera: os números de 2025
Dados do relatório anual do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), divulgado em agosto de 2026.
258
indígenas assassinados em 2025
211 em 2024. Roraima teve o maior número: 82.
210
casos de invasão, exploração ilegal de recursos e dano ao patrimônio
registrados em 2025
897
terras e reivindicações à espera de providência do Estado
de 1.443 registradas pelo Cimi
Nas instituições, três frentes ficam para o próximo mandato. A primeira é a lei da mineração em terras indígenas, que o Congresso precisa aprovar até 2028. A segunda é a proposta que põe o marco temporal na Constituição: aprovada pelo Senado em 2025, ainda aguardava nova votação na Câmara em abril, segundo a Agência Brasil. A terceira é a aplicação da lei do licenciamento, que deixa fora da análise da Funai 297 terras indígenas não homologadas, como a Caipora mostrou. Em dezembro de 2025, o STF reconheceu a omissão inconstitucional do poder público na conclusão das demarcações e deu 180 dias para o cumprimento de suas determinações, segundo o Migalhas. Um governo que promete não demarcar entraria em choque com essas decisões.
Quem pressiona e como
| Quem | O que fez | Quando | Fonte |
|---|---|---|---|
| Potássio do Brasil (mineradora) | Prometeu comprar 5 mil hectares, empregos e royalties se os Mura votassem a favor; foi multada em R$ 1 milhão por pressão indevida. | 2023 | Folha; MPF |
| Governo do Amazonas (Wilson Lima) | Acusado por lideranças Mura de cooptação; licenciou o projeto. | 2023–2024 | Brasil de Fato; Portal Amazônia |
| Governo Lula (Geraldo Alckmin e Carlos Fávaro) | Apoiaram o projeto de potássio, contra a posição do Ministério dos Povos Indígenas. | 2023 | Rede Onda Digital |
| Governo Jair Bolsonaro (Ricardo Salles e Ministério da Defesa) | Levou garimpeiros Munduruku a Brasília em avião da FAB; operações contra o garimpo chegaram a ser suspensas. | 2020 | Repórter Brasil |
| Funai (Marcelo Xavier) | Elogiou projeto de soja em que 80% da receita ficava com produtores rurais. | 2021 | O Joio e o Trigo |
| Jair Bolsonaro | Disse a indígenas que “o índio não pode continuar sendo pobre em cima de terra rica”; chamou multa aos Paresi de “assunto já resolvido”. | 2019 e 2021 | Agência Brasil (2019); Agência Brasil (2021) |
| Garimpeiros na Terra Yanomami | Ofereceram comida, bebida e armas a indígenas. | 2021–2022 | Hutukara, via Mongabay |
| CPI das ONGs (relator Marcio Bittar) | Ouviu indígenas críticos às ONGs e propôs regulamentar a mineração em terras indígenas. | 2023 | Agência Senado; Agência Pública |
| Flávio Bolsonaro | Defende que indígenas possam arrendar terras e autorizar a exploração do subsolo com royalties; promete não demarcar áreas reivindicadas em Mato Grosso. | 2026 | Congresso em Foco; Money Times |
O que dizem os citados
- Potássio do Brasil: em 2023, classificou as acusações como “mera fabricação de fake news midiático para instigar a opinião pública”. Em 2025, o presidente da empresa afirmou que o projeto teve 90% de aprovação. Em nota ao Portal Amazônia, em 2026, a empresa afirmou que o TRF1 reconheceu a legalidade da consulta feita pelo Conselho Indígena Mura.
- Governo do Amazonas: em nota oficial citada pelo Brasil de Fato em 2023, reafirmou que os Mura apoiam o projeto. Não respondeu às perguntas daquele veículo.
- Daniel Trindade (PL-RR): as reportagens consultadas não registraram manifestação dele ou da defesa.
O espaço segue aberto para manifestações.
Em Autazes, a oferta foi de 5 mil hectares. Em Sangradouro, 20% da receita. Em Surucucu, armas. Em todos os casos, ela veio de fora e dividiu por dentro. O Congresso tem até 2028 para aprovar a lei da mineração em terras indígenas, e quem vencer no dia 25 poderá sancioná-la ou vetá-la. “Só estamos defendendo o nosso direito e território”, disse a vice-cacique Ester Salina, da aldeia Pirajuí.
Esta reportagem será atualizada se os citados se manifestarem.

