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Ouro, soja e cercas: as aldeias onde Flávio venceu em Roraima

No estado mais bolsonarista do país, as seções indígenas deram 64% a Lula. Mas Roraima concentra 22 dos 50 locais de votação indígenas em que Flávio Bolsonaro venceu no Brasil. Os boletins de urna mostram onde: nas comunidades do garimpo, perto da cidade que cresce sobre a terra indígena e nas terras pequenas cercadas pela soja.

Nesta reportagem

Série O mapa da pressão · Parte 1: Roraima

Em 11 de maio, numa estrada de terra da comunidade Napoleão, em Normandia, homens de moto perseguiram cinco viaturas da Polícia Rodoviária Federal e do Ibama. Um deles disparou uma flecha contra um dos carros. Os agentes tinham acabado de desmontar uma estrutura de garimpo que usava cianeto e mercúrio dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (Folha BV). Cinco meses depois, no 2º turno, a escola Índio Macuxi, onde vota Napoleão, deu 375 votos a Flávio Bolsonaro e 179 a Lula.

No Flexal, em Uiramutã, onde Jair Bolsonaro desembarcou em outubro de 2021 para visitar um garimpo ilegal e defender a mineração em terras indígenas (O Povo), a escola da comunidade deu 431 votos a Flávio e 43 a Lula. Foi o resultado mais favorável a ele entre os locais de votação indígenas de Roraima.

Os dois lugares são exceções num estado onde o voto das aldeias seguiu na direção contrária à do eleitorado. Flávio teve 72,46% dos votos válidos em Roraima no 2º turno, a maior votação dele no país (TSE, via Bloomberg Línea). Nas 130 seções indígenas, Lula teve 64,1%. Mesmo assim, Roraima reúne 22 dos 50 locais de votação em terras e comunidades indígenas em que Flávio venceu no Brasil, quase a metade. É por isso que esta série, que vai percorrer cada um desses lugares, começa aqui.

A Revista Caipora cruzou os boletins de urna de cada local de votação indígena do estado com a área plantada de soja por município, os registros de garimpo e de violência nas terras e a disputa política entre as organizações indígenas. O voto é secreto, e um resultado por escola não diz por que cada pessoa votou como votou. Mas o mapa mostra um padrão.

O que os boletins mostram

  • 22 de 82 locais de votação indígenas de Roraima deram maioria a Flávio no 2º turno. No 1º turno tinham sido 31.
  • Garimpo: em Normandia, onde o garimpo avança sobre Raposa I, Raposa II, Tarame e Napoleão, Flávio venceu em 5 dos 15 locais e teve 43% dos votos indígenas do município. O Flexal, em Uiramutã, deu a ele 91%.
  • Cidade: em Pacaraima, as 3 escolas indígenas onde Flávio venceu ficam em Bananal, Sorocaima II e Guariba, comunidades da Terra Indígena São Marcos a menos de 10 km da sede do município, que cresce sobre a terra indígena.
  • Soja: em Boa Vista, Alto Alegre e Bonfim, os três municípios com mais soja, Flávio venceu em escolas de terras pequenas como Serra da Moça, Jabuti e Barata Livramento. Mas Sucuba, a terra mais cercada pela soja, deu maioria a Lula.
  • Onde a terra é grande e organizada: nas demais escolas da Raposa Serra do Sol em Uiramutã, fora o Flexal, Flávio teve 17%. No posto de saúde Yanomami, 3 votos contra 235 de Lula.

A série · Infográfico interativo

Flávio venceu em 50 dos 658 locais de votação indígenas do país; 22 ficam em Roraima

Locais de votação em terras e comunidades indígenas em que Flávio Bolsonaro teve mais votos que Lula no 2º turno, por estado. Cada estado será tema de uma parte da série. Toque num estado.

Roraimaparte 1 da série
22 de 82
Mato Grossopróximas partes
6 de 57
Maranhãopróximas partes
5 de 58
Minas Geraispróximas partes
3 de 31
Parápróximas partes
3 de 58
Santa Catarinapróximas partes
3 de 10
Amazonaspróximas partes
2 de 115
Rondôniapróximas partes
2 de 21
Acrepróximas partes
1 de 22
Cearápróximas partes
1 de 30
Mato Grosso do Sulpróximas partes
1 de 50
Rio Grande do Sulpróximas partes
1 de 9

Toque num estado para ver os números.

Ver os dados em tabela
EstadoLocais indígenas onde Flávio venceu (2º turno)Locais indígenas com votos no 2º turnoEleitores aptos nos locais onde Flávio venceu
Roraima22829.460
Mato Grosso6572.362
Maranhão558481
Minas Gerais331647
Pará358283
Santa Catarina3101.170
Amazonas2115844
Rondônia221529
Acre122479
Ceará130186
Mato Grosso do Sul150458
Rio Grande do Sul19425

Fonte: TSE, boletins de urna do 2º turno de 2026. Locais indígenas: critério da reportagem “O voto das aldeias” (dentro de terras indígenas, fora de sedes urbanas, ou com “indígena” no nome). Cálculo e arte: Revista Caipora.

Onde o voto mudou de lado

No 1º turno, Flávio venceu em 31 dos 82 locais de votação indígenas de Roraima e teve 39,8% dos votos válidos nessas seções. No 2º turno, ficou com 35,9% e venceu em 22. A queda se repetiu em quase todas as terras indígenas.

A geografia do resultado não segue a divisão entre aldeia e cidade, e sim a das pressões sobre cada território. Na Raposa Serra do Sol, a terra contínua de 1,7 milhão de hectares homologada em 2005, o voto se partiu em dois. Nas Serras, ao norte, em Uiramutã, há escolas onde Flávio não teve nenhum voto. Em Normandia, a sudeste, onde o garimpo se espalhou nos últimos cinco anos, ele venceu em cinco comunidades. Na Terra Indígena São Marcos, Flávio ganhou em três escolas perto da sede de Pacaraima e em 5 das 7 escolas do trecho da terra que fica no município de Boa Vista.

Infográfico interativo

Flávio teve maioria em 3 das 20 terras indígenas com mais votos; caiu do 1º para o 2º turno em quase todas

Percentual de Flávio Bolsonaro nos votos válidos das seções indígenas de cada terra, no 1º e no 2º turno. Em destaque, as terras onde ele teve maioria no 2º turno. Toque numa terra para ver o voto de cada comunidade.

Flávio no 1º turnoFlávio no 2º turno

Barata Livramento1 local · Flávio venceu em 1
71% 70%
Jabuti1 local · Flávio venceu em 1soja no entorno
69% 62%
Araçá3 locais · Flávio venceu em 2
65% 60%
Sem TI no cadastro7 locais · Flávio venceu em 2 · inclui o Flexal, na Raposagarimpo
54% 52%
Serra da Moça2 locais · Flávio venceu em 1soja no entorno
51% 47%
Sucuba1 local · Flávio venceu em 0soja no entorno
47% 45%
São Marcos16 locais · Flávio venceu em 8cidade sobre a TI
47% 42%
Boqueirão1 local · Flávio venceu em 0
44% 39%
Pium1 local · Flávio venceu em 0
39% 33%
Raimundão1 local · Flávio venceu em 0
36% 32%
Raposa Serra do Sol32 locais · Flávio venceu em 6garimpo
33% 30%
Truaru1 local · Flávio venceu em 0
35% 30%
Malacacheta2 locais · Flávio venceu em 1
30% 29%
Moskow2 locais · Flávio venceu em 0
34% 28%
Tabalascada1 local · Flávio venceu em 0
31% 28%
Canauanim1 local · Flávio venceu em 0
31% 23%
Manoa/Pium2 locais · Flávio venceu em 0
23% 18%
Trombetas/Mapuera1 local · Flávio venceu em 0
13% 13%
Jacamim2 locais · Flávio venceu em 0
16% 11%
WaiWái1 local · Flávio venceu em 0
3% 2%
Yanomami1 local · Flávio venceu em 0
1% 1%

Toque numa terra indígena para ver as comunidades.

Ver os dados em tabela
Terra indígenaMunicípiosLocaisFlávio venceu emFlávio 1º turnoFlávio 2º turnoVotos Flávio (2º)Votos Lula (2º)
Barata LivramentoAlto Alegre1171,4%69,9%392169
JabutiBonfim1169,4%62,3%236143
AraçáAmajari3264,8%60,4%1.097719
Sem TI no cadastroBoa Vista, Bonfim, Caroebe, Uiramutã7253,9%52,1%978900
Serra da MoçaBoa Vista2150,9%47,3%218243
SucubaAlto Alegre1046,6%45,2%131159
São MarcosBoa Vista, Normandia, Pacaraima16846,7%42,1%1.2341.696
BoqueirãoAlto Alegre1044,0%38,5%148236
PiumAlto Alegre1038,9%32,7%84173
RaimundãoAlto Alegre1036,1%31,7%77166
Raposa Serra do SolNormandia, Pacaraima, Uiramutã32632,6%29,6%2.8486.763
TruaruBoa Vista1034,7%29,5%78186
MalacachetaCantá2130,0%29,2%236572
MoskowBonfim2033,9%27,8%111289
TabalascadaCantá1030,8%27,5%117308
CanauanimCantá1031,1%22,9%171577
Manoa/PiumBonfim2023,1%18,3%118527
Trombetas/MapueraCaroebe1013,5%13,2%20132
JacamimBonfim2015,8%10,9%68558
WaiWáiSão Luiz102,7%1,7%3173
YanomamiAlto Alegre101,3%1,3%3235

Fonte: TSE, boletins de urna das seções indígenas, 1º e 2º turnos de 2026. Terras com ao menos 150 votos válidos no 2º turno; no 1º turno, o percentual inclui os outros candidatos no total de votos válidos. “Sem TI no cadastro”: locais com “indígena” no nome e sem coordenadas no TSE. Casos: Folha BV, Metrópoles, Repórter Brasil, Amazônia Real, O Povo. Cálculo e arte: Revista Caipora.

Ouro

A divisão na Raposa Serra do Sol é anterior à eleição. Desde a demarcação, duas organizações indígenas disputam as comunidades. O Conselho Indígena de Roraima (CIR), que conduziu a luta pela terra contínua, reunia em 2020 cerca de 72% das 342 comunidades e mantinha 400 vigilantes contra invasões. A Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiurr), que defende parcerias em mineração, pecuária e agricultura, representava cerca de 17% (Agência Pública). “Onde tem garimpo, tem destruição”, disse à Pública o então vice-presidente do CIR, Edinho Batista de Souza.

O governo Bolsonaro tomou partido. Em dezembro de 2019, numa transmissão ao vivo, o presidente disse que os indígenas estavam sentados sobre trilhões em riqueza; ele também recebeu lideranças da Sodiurr no Palácio do Planalto. Em março de 2020, a PF contou cerca de 960 pessoas num único garimpo em Normandia, a 10 quilômetros de Napoleão, e estimou 2 mil garimpeiros em toda a terra indígena (Agência Pública). Em outubro de 2021, Bolsonaro foi ao Flexal. “Esse projeto não é impositivo”, disse sobre a proposta que abria as terras à mineração. “Se vão garimpar, vão garimpar, vão garimpar.” O CIR respondeu em nota que o presidente não era bem-vindo na Raposa Serra do Sol (O Povo).

Vista aérea de áreas de garimpo ilegal às margens do Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami
Garimpo ilegal às margens do Rio Mucajaí, na Terra Indígena Yanomami, em Alto Alegre, em fevereiro de 2023. Foto de arquivo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O garimpo não saiu com a troca de governo. Desde 2021 ele se espalhou por Raposa I, Raposa II, Tarame e Napoleão, com escavadeiras trazidas da Guiana (Roraima de Fato). Passou a usar cianeto, além do mercúrio. Em junho de 2025, indígenas aliados aos garimpeiros fizeram uma corrente humana para impedir a passagem de agentes numa operação contra o uso de cianeto. Um vídeo de cerca de 20 minutos, sem autoria clara, circula com moradores defendendo o garimpo como “manual e humilde” e dizendo que o ouro e a roça permitiram a famílias sair do Bolsa Família e comprar moto, celular e casa de tijolo. A presidente da Sodiurr, Irisnaide de Souza, não respondeu à Folha (Folhapress).

Em setembro, a PF prendeu Daniel Trindade (PL), então candidato a deputado federal, na Operação Cunhambebe. A investigação começou depois do ataque aos agentes em Napoleão e apura cursos clandestinos de segurança privada e a formação de um grupo armado para atrapalhar a fiscalização na terra indígena. A Justiça proibiu Trindade de entrar em terras indígenas e de ter contato com moradores de Napoleão e com o presidente da Associação dos Arqueiros de Roraima. Nas buscas, a PF diz ter encontrado indícios de compra de votos (Metrópoles). Solto, ele seguiu em campanha e foi eleito com cerca de 16 mil votos, com R$ 800 mil do diretório nacional do PL como única fonte de financiamento. Trindade nega as acusações e diz que elas nascem de disputas políticas (Diário Carioca; Revista Fórum).

Soja

A segunda pressão chega pelo lavrado, a savana do norte de Roraima. A área plantada de soja no estado passou de 16.000 hectares em 2014 para 133.280 em 2025, segundo o IBGE (Produção Agrícola Municipal). Três municípios concentram 89% da área: Boa Vista, Alto Alegre e Bonfim. A expansão foi empurrada por leis estaduais. Em 2019, Roraima ampliou o limite de compra de terras públicas e deu descontos de até 85%; em 2022, reduziu a reserva legal de 80% para 50% da propriedade (Repórter Brasil).

Infográfico interativo

A soja de Roraima cresceu 8 vezes em 11 anos

Área plantada de soja no estado, em mil hectares, de 2005 a 2025. Toque numa coluna para ver o ano.

13
11
7
8
1
1
4
5
15
16
24
24
19
38
40
50
71
103
128
117
133
200520062007200820092010201120122013201420152016201720182019202020212022202320242025
  • 2019 · Lei estadual de terras amplia de 1.500 para 2.500 hectares o limite de compra e dá descontos de até 85%.
  • 2022 · Lei estadual 1.704 reduz a reserva legal de 80% para 50% da propriedade.

Toque numa coluna.

Ver os dados em tabela
AnoÁrea plantada (ha)Produção (t)
200513.00036.400
200611.00030.800
20077.00020.300
20088.00022.400
20091.4003.920
20101.4003.920
20113.60010.080
20125.00014.000
201314.90040.200
201416.00033.950
201523.82055.795
201624.03567.347
201718.72545.077
201837.670105.780
201939.930110.090
202049.800139.550
202171.178225.398
2022102.785346.647
2023128.197445.076
2024117.215416.650
2025133.280494.656

Fonte: IBGE, Produção Agrícola Municipal (tabela 5457, Sidra). Leis estaduais: Repórter Brasil, a partir de pesquisa de Bruno Sarkis (Ufam). Arte: Revista Caipora.

Um estudo do Instituto Serrapilheira mostrou que a soja já é plantada em volta de 26 das 33 terras indígenas do estado. Vinte e quatro delas são terras pequenas, demarcadas como ilhas, a maioria antes da Constituição de 1988, e concentram proporcionalmente mais soja ao redor do que as terras contínuas (Repórter Brasil). Na comunidade Morcego, na Terra Indígena Serra da Moça, a 60 quilômetros de Boa Vista, a lavoura fica a 250 metros de uma casa. Em setembro, a Justiça Federal condenou dois fazendeiros e uma empresa de aviação agrícola a pagar R$ 750 mil à comunidade por pulverizar agrotóxico de avião sobre a terra (MPF). Moradores relataram ardor na pele, falta de ar, dor de cabeça e náusea.

Não é uma ampliação, é uma retomada.

Júnior Nicácio, advogado do CIR, sobre o pedido de revisão das terras demarcadas em ilhas (Repórter Brasil)

Do outro lado, a elite política do estado repete que sobra pouca terra para produzir. “Apenas 15% do nosso território de 222 mil quilômetros quadrados estão liberados para a produção e para o desenvolvimento”, disse o senador Chico Rodrigues (PSB) em 2023, ao defender o marco temporal (Agência Senado). As terras indígenas ocupam 46% de Roraima, mas as demarcadas em ilhas somam só 5% do estado (Repórter Brasil).

Mapa interativo

O mapa da pressão em Roraima: soja no lavrado, votos nas aldeias

Municípios pela área plantada de soja e os locais de votação indígenas pelo vencedor do 2º turno (tamanho = votos). As terras indígenas aparecem em verde por cima: a cor da soja vale para o resto do município, onde a lavoura pode estar. Com anel preto, os locais onde Flávio venceu e há caso citado na reportagem. Toque num município ou num ponto; troque o ano da soja.

Boa VistaBoa VistaNormandiaNormandiaUiramutãUiramutãPacaraimaPacaraimaAmajariAmajariAlto AlegreAlto AlegreBonfimBonfimCantáCantáMucajaíMucajaíCaracaraíCaracaraíRorainópolisRorainópolisSoja, área plantadasem sojaaté 2 mil ha2 mil a 10 mil ha10 mil a 30 mil hamais de 30 mil haterraindígenaFlávioLulacaso citado

Toque num município ou num ponto.

Ver os dados em tabela
MunicípioSoja 2015 (ha)Soja 2020 (ha)Soja 2025 (ha)Locais indígenasFlávio venceu emFlávio no município (1º turno)
Boa Vista8.3057.00046.75011773,4%
Alto Alegre9.52025.00039.0006171,6%
Bonfim4.63016.00032.95010166,4%
Mucajaí4505005.20000–
Cantá6709005.0254169,9%
Iracema954002.00000–
Amajari150–1.8554273,1%
Caracaraí––50000–
Caroebe–––2077,1%
Normandia–––15553,8%
Pacaraima–––11358,2%
Rorainópolis–––00–
São João da Baliza–––00–
São Luiz–––1070,5%
Uiramutã–––18229,9%

Fontes: IBGE, Produção Agrícola Municipal, área plantada de soja (tabela 5457, Sidra); TSE, boletins de urna e cadastro de locais de votação; Funai, terras indígenas; IBGE, malha municipal (via geodata-br). Arte: Revista Caipora. Sem coordenadas no cadastro do TSE e fora do mapa: Escola Indígena Vovó Antônia Celestina da Silva (Boa Vista, Flávio venceu); Escola Estadual Indígena Nossa Senhora da Consolata (Bonfim, Lula venceu); Escola Municipal Indígena Francisco Caetano (Bonfim, Lula venceu); Barracão Comunidade Indígena Samaúma (Caroebe, Lula venceu); Escola Estadual Indígena Dom L. Zoller (Uiramutã, Lula venceu); Escola Municipal Indígena Amooko Roseno (Uiramutã, Lula venceu); Escola Municipal Indígena Tancredo Neves (Uiramutã, Flávio venceu).

O mapa mostra que a soja não decide o voto sozinha. Flávio venceu em escolas da Serra da Moça, de Jabuti e de Barata Livramento, terras pequenas nos municípios da soja; as duas primeiras aparecem no estudo pela lavoura no entorno. Mas Sucuba, em Alto Alegre, a terra indígena mais cercada pela soja segundo o estudo, deu 159 votos a Lula e 131 a Flávio. E os dois resultados mais favoráveis a Flávio, 91% e 89%, vieram de Uiramutã e Normandia, municípios sem soja, onde a pressão é o ouro.

A cidade

Em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, a pressão tem outro nome. A sede do município foi criada por lei estadual em 1995 sobre a Terra Indígena São Marcos, que já estava homologada. O número de construções na área urbana passou de 72 em 2000 para 2.036 em 2024, e a população cresceu 85% numa década com a chegada de migrantes venezuelanos. Uma carta de 2025, assinada por 129 membros da associação dos povos da terra, denuncia a venda ilegal de lotes e garimpo na Serra Pacaraima desde 2021; o advogado da prefeitura nega invasões e garimpo (Amazônia Real). As três escolas indígenas de Pacaraima em que Flávio venceu ficam em Bananal, Sorocaima II e Guariba, a menos de 10 km da sede. A proximidade não explica tudo: Nova Esperança e Tarau Paru, ainda mais perto da cidade, deram maioria a Lula.

O assédio

A campanha de Flávio falou diretamente a esse eleitorado. Em 10 de setembro, num comício na praça do Centro Cívico, em Boa Vista, ele prometeu “segurança jurídica” para a agricultura, a pecuária e a mineração “de forma responsável” e defendeu o garimpo legalizado. “A riqueza de Roraima vai ser para o povo de Roraima”, disse (Folha BV). Sobre as demarcações, tinha dito em abril, em Mato Grosso: “Se depender do nosso governo, nenhuma dessas reservas será demarcada porque a vocação do Estado é a produção” (O Joio e O Trigo).

“Garimpo, gado e Bolsonaro”: Flávio Bolsonaro fala sobre Roraima. Vídeo: TV Cenarium/YouTube

Roraima também tem histórico de uso da máquina pública na eleição. Em abril, o TSE cassou a chapa eleita para o governo em 2022 por abuso de poder político e econômico com os programas Cesta da Família e Morar Melhor: Antonio Denarium, que já tinha renunciado para disputar o Senado, ficou inelegível, e o vice que assumira, Edilson Damião, foi afastado. O estado teve eleição suplementar em junho, vencida por Arthur Henrique (PL) com a candidatura sub judice (TSE, via Wikipedia). Três dias antes do 1º turno, a PF prendeu 23 pessoas por compra de votos no estado, a R$ 400 por eleitor (Poder360). As reportagens não informam se os casos envolviam comunidades indígenas.

Para o colunista Jessé Souza, da Folha BV, as comunidades indígenas e do interior “foram muito assediadas por candidatos de direita endinheirados”, num estado onde a compra de votos sempre pesou (Folha BV). A lei proíbe candidatos e partidos de transportar eleitores; em Uiramutã, a Justiça Eleitoral credenciou 121 veículos para 19 rotas no 1º turno (Folha BV). Depois do 1º turno, a Aliança em Defesa dos Territórios, que reúne Yanomami, Kayapó e Munduruku, denunciou ameaças de garimpeiros nas redes e fez um apelo: “Seja qual for a sua razão, pedimos que, neste segundo turno, você pense de novo” (Roraima 1).

Onde Lula teve quase todos os votos

Uiramutã, onde 96,6% dos moradores são indígenas, foi o único município de Roraima em que Lula venceu no 1º turno, com 69%. O prefeito, Tuxaua Benísio (Rede), é Makuxi e liderança da comunidade Pedra Branca (SBT News). Nas demais escolas da Raposa Serra do Sol no município, fora o Flexal, Lula teve 3.619 votos e Flávio, 766, no 2º turno. Na Igreja Indígena Coração do Mundo e na escola Joaquim Jones José Ingarikó, Flávio teve um voto, somados os dois locais. Resultados parecidos vieram da Terra Indígena Jacamim, dos Wai Wai e da Yanomami, terras mais isoladas.

Lula discursa na 52ª Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, no Lago do Caracaranã
Lula na 52ª Assembleia Geral dos Povos Indígenas de Roraima, organizada pelo CIR no Lago do Caracaranã, dentro da Raposa Serra do Sol, em março de 2023. Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

O CIR mantém vigilantes e brigadas indígenas próprias e defende a retirada do garimpo das terras. Em 2023, na assembleia do conselho no Lago do Caracaranã, Lula prometeu um programa para financiar a produção agrícola indígena e reafirmou a retirada dos garimpeiros das terras (Agência Brasil). Três anos depois, o garimpo segue em Normandia, a soja cerca as terras-ilha e boa parte do voto que destoou do resto das aldeias apareceu nesses lugares.

Em 8 dos 22 locais onde Flávio venceu, a reportagem encontrou registro público de garimpo, de soja no entorno ou da expansão urbana sobre a terra. Nos outros 14, entre eles Araçá da Serra, Xumina e Vizeu, em Normandia, e as comunidades do Araçá, em Amajari, ainda não há registro público que explique o resultado. Ouvir essas comunidades é o próximo passo.

Linha do tempo interativa

Terra, ouro, soja e voto em Roraima

Da luta pela Raposa Serra do Sol à eleição de 2026. Filtre por tema.

  1. 1977Começa a luta pela demarcação da Raposa Serra do Sol, ainda na ditadura.
  2. 1995Lei estadual cria o município de Pacaraima sobre a Terra Indígena São Marcos, já homologada.
  3. 2005Arrozeiros plantam 7,6 mil hectares de arroz em Normandia, município quase todo dentro da Raposa Serra do Sol.
  4. 2005Lula homologa a Raposa Serra do Sol em área contínua.
  5. 2009O STF confirma a demarcação contínua, por 10 votos a 1. Os arrozeiros saem; a área de arroz em Normandia cai de 6,4 mil para 2,3 mil hectares.
  6. 2014A soja ocupa 16 mil hectares em Roraima.
  7. Dez/2019Em transmissão ao vivo, Bolsonaro diz que os indígenas estão sobre “trilhões” em riquezas. Seu governo recebe no Planalto lideranças da Sodiurr, entidade indígena favorável à mineração.
  8. 2019Lei estadual de terras amplia o limite de compra de 1.500 para 2.500 hectares, com descontos de até 85%.
  9. Mar/2020A PF conta cerca de 960 pessoas num garimpo em Normandia, a 10 km de Napoleão, e estima 2 mil garimpeiros na Raposa Serra do Sol.
  10. Mar/2021Lideranças denunciam ao menos mil pessoas em garimpos na Serra do Atola, na região da Raposa.
  11. 26/10/2021Bolsonaro visita o garimpo no Flexal, em Uiramutã, e defende o projeto que abre terras indígenas à mineração.
  12. 2022Lei estadual 1.704 reduz a reserva legal de 80% para 50% da propriedade.
  13. Mar/2023Na assembleia do CIR no Lago do Caracaranã, Lula promete um programa para financiar a produção agrícola indígena.
  14. Jun/2025Indígenas aliados ao garimpo fazem corrente humana contra agentes numa operação contra o uso de cianeto na Raposa.
  15. Dez/2025Estudo do Instituto Serrapilheira: a soja cerca 26 das 33 terras indígenas de Roraima.
  16. 30/4/2026O TSE cassa o governador por abuso de poder com programas sociais na eleição de 2022 e manda fazer nova eleição.
  17. 11/5/2026Em Napoleão, agentes da PRF e do Ibama são perseguidos com arcos e flechas depois de desmontar um garimpo com cianeto.
  18. 21/6/2026Arthur Henrique (PL) vence a eleição suplementar para governador com 60,87%, com a candidatura sub judice.
  19. 10/9/2026Em Boa Vista, Flávio Bolsonaro promete “segurança jurídica” para agricultura, pecuária e mineração e defende o garimpo legalizado.
  20. 18/9/2026A Justiça Federal condena fazendeiros e uma empresa de aviação agrícola por pulverizar agrotóxico sobre a TI Serra da Moça.
  21. 25/9/2026A PF prende o candidato Daniel Trindade (PL) na Operação Cunhambebe, que investiga uma milícia ligada a ataques a agentes na Raposa.
  22. 1/10/2026A PF prende 23 pessoas por compra de votos em Roraima; cada eleitor receberia R$ 400.
  23. 4/10/20261º turno: Flávio tem 71% em Roraima; Lula só vence em Uiramutã. Trindade é eleito deputado federal.
  24. 25/10/20262º turno: Flávio tem 72,46% no estado. Nas seções indígenas, Lula tem 64,1%; Flávio vence em 22 dos 82 locais.

24 eventos.

Fontes: SBT News, Agência Pública, O Povo, Repórter Brasil, Amazônia Real, Folha BV, Folhapress, Metrópoles, Revista Fórum, MPF, TSE, IBGE e Agência Senado. Arte: Revista Caipora.

Como fizemos

Votos. Os locais de votação indígenas são os da reportagem O voto das aldeias: dentro de terras indígenas da Funai, fora de sedes urbanas, ou com “indígena” no nome. Os resultados vêm dos boletins de urna do TSE, por seção, nos dois turnos. Locais sem coordenadas no cadastro do TSE, como o Flexal, aparecem nas tabelas, mas não no mapa. O resultado por local não permite saber como votou cada eleitor.

Soja. Área plantada por município, da Produção Agrícola Municipal do IBGE (tabela 5457), consultada na API do Sidra. O dado é municipal: não diz a que distância de cada aldeia está a lavoura. Para o entorno das terras, a reportagem usa o estudo do Instituto Serrapilheira publicado pela Repórter Brasil.

Casos. Os registros de garimpo, violência e assédio vêm de reportagens, de órgãos públicos e de decisões judiciais, citados no texto. Acusações contra pessoas são apresentadas como acusações, com a resposta delas quando houver.

A série. As próximas partes vão a Mato Grosso, Maranhão, Minas Gerais, Pará e Santa Catarina, os estados com mais locais indígenas onde Flávio venceu depois de Roraima.


Fontes

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Em três dias, as denúncias se concentraram em Mato Grosso do Sul, onde Flávio Bolsonaro teve 59,6% e as seções indígenas deram 89% a Lula. A Caipora checou cada caso em informações policiais, documentos oficiais e boletins de urna. A ameaça de Tacuru foi confirmada pela própria prefeitura. A Apib denuncia assassinatos e atropelamentos de indígenas, que ainda não têm registro oficial, e acusa a polícia de omissão.

Levantamento do TSE mostra que Lula venceu em 608 dos 658 locais de votação indígenas no Brasil, superando Flávio Bolsonaro no 2º turno.

Após as eleições de outubro, bancada ruralista e extrema direita pressionam o Congresso para aprovar ainda em 2026 projetos que desfazem demarcações de Terras Indígenas, liberam garimpo e enfraquecem a fiscalização ambiental.

O ministro Edson Fachin, do STF, acatou pedido do MPF e manteve suspensa a licença de instalação da mina de ouro da Belo Sun na Volta Grande do Xingu, diante de pendências no estudo de impacto indígena e na consulta às comunidades afetadas.