Governo do Amazonas declara emergência em 36 municípios enquanto atendimentos por intoxicação e crise respiratória sobem mais de 23 vezes em outubro
Manaus e outros municípios do Amazonas enfrentam desde setembro de 2026 episódios críticos de poluição atmosférica causados por queimadas florestais. Entre 1º de setembro e 19 de outubro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 5.647 focos de incêndio no estado, alta de 195% em relação ao mesmo período de 2025. Mais de 80% desses focos ocorreram em áreas de desmatamento recente ou consolidado. Em 10 de outubro, o governo estadual declarou emergência em 36 dos 62 municípios do Amazonas.
Medições da plataforma IQAir registraram, em 17 de outubro, concentrações de material particulado fino (PM2,5) de 404,3 microgramas por metro cúbico em Manaus – cerca de 80 vezes acima da diretriz anual da Organização Mundial da Saúde. A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informa que os atendimentos de emergência associados à fumaça saltaram de 26 em setembro para mais de 600 entre 1º e 18 de outubro, um crescimento de mais de 23 vezes. O quadro levou o Ministério da Saúde a instalar emergencialmente a Força Nacional do SUS para organizar estoques de oxigênio e medicamentos na capital e no interior.
A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) manifestou solidariedade à população do estado e destacou o sofrimento coletivo causado pela crise. Segundo a Conaq, as queimadas atingem diretamente territórios quilombolas de Barreirinha, Itacoatiara, Manaus, Rio Preto da Eva e Parintins. Valcimar Negreiros, liderança do Quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, relatou à Conaq que a população sofre com falta de ar, dores na garganta e ardor nos olhos, e descreveu a sensação de sufocamento dentro de casa, com filhos e familiares acordando tossindo e com os olhos vermelhos.
O Relatório Anual de Desmatamento de 2025, do MapBiomas, aponta que 99% do desmatamento no Amazonas em 2025 teve a agropecuária como principal vetor, com 67.709 hectares desmatados. O rebanho bovino do estado cresceu 2,95% entre 2024 e 2025, segundo o IBGE. A reportagem de origem ressalva que nem toda pastagem foi aberta ilegalmente nem todo incêndio está ligado à pecuária, mas situa a expansão da fronteira agropecuária em um processo histórico de ocupação territorial que remonta à ditadura empresarial-militar, quando políticas oficiais e incentivos fiscais estimularam a conversão de floresta em pasto, inclusive por grandes empresas como a Volkswagen no sul do Pará.
Municípios do sul do Amazonas, como Apuí, Lábrea e Novo Aripuanã, estão hoje na linha de frente dessa expansão. A fumaça, segundo a reportagem, não apenas encobre a paisagem: entra nos corpos e transfere à população os custos de uma crise ambiental cujos responsáveis e vítimas não são os mesmos.
Fonte: amazonialatitude.com
Nota do ASSOBIO, seção de notícias rápidas da Revista Caipora, redigida automaticamente a partir da matéria de amazonialatitude.com e sob curadoria da redação. As reportagens autorais da Caipora são escritas por comunicadores indígenas.

