A figura do gaúcho montado a cavalo, tomando chimarrão e lidando com o gado nos pampas, foi forjada no sangue e no suor dos povos originários. No entanto, a história oficial do Rio Grande do Sul operou um epistemicídio para branquear seus heróis e apagar os verdadeiros donos da terra. No pampa, o líder Guarani, Sepé Tiaraju, tombou tentando impedir que 30 mil indígenas fossem expulsos de suas casas por um decreto europeu que culminou no massacre de 1.500 nativos no vale de Caiboaté. Simultaneamente, no planalto, o avanço do “progresso” promoveu caçadas implacáveis contra os Kaingang para usurpar suas matas e rotas.
Em qualquer fim de semana de setembro, quando o Rio Grande do Sul mergulha nas comemorações da Revolução Farroupilha, os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) lotam seus salões com homens e mulheres vestidos com indumentárias típicas, celebrando o ethos da fronteira. A exaltação cívica louva a figura do “gaúcho”: o homem branco, valente, destemido, de origens ibéricas ou europeias, muitas vezes confundido com a imagem do grande estancieiro ou do militar de cavalaria. Celebra-se o hábito de sorver a erva-mate, a habilidade de domar cavalos xucros, o domínio sobre o couro, o preparo do pinhão e a maestria em assar a carne espetada no fogo de chão. O que os discursos inflamados e as cartilhas do tradicionalismo raramente mencionam, contudo, é que absolutamente toda a base material, cultural e econômica dessa identidade foi roubada, apropriada e higienizada a partir dos escombros de civilizações indígenas aniquiladas a tiros de canhão e golpes de facão.

Às vésperas de o Rio Grande do Sul celebrar os 400 anos da fundação das Missões Jesuíticas Guaranis (iniciadas em 1626) e em meio a festividades de imigração europeia, o jornalismo investigativo e a historiografia decolonial exigem que se encare o espelho fraturado da identidade regional. A história oficial do Estado não apenas tomou as terras dos Sete Povos das Missões e as florestas de araucária; ela operou um dos mais bem-sucedidos epistemicídios (a destruição sistemática de um conhecimento e de uma cultura) do Brasil. Apagou-se o “índio” “pelo duro” e o “bugre” para colocar em seu lugar o colonizador luso-brasileiro e o colono imigrante, transformando as vítimas de um holocausto em notas de rodapé folclóricas.
Para compreender o abismo entre o mito cultuado nos salões de dança e a barbárie perpetrada nas coxilhas e nas serras, é preciso mergulhar nas raízes do latifúndio sulista. É imperativo revisitar a introdução do gado, o Tratado de Madri de 1750, a eclosão da Guerra Guaranítica e as caçadas humanas aos Kaingang. Mais do que isso, é necessário descrever, com a crueza que os fatos exigem, a faina assassina que ocorreu na tarde de 10 de fevereiro de 1756, no vale de Caiboaté, quando exércitos europeus e bandoleiros locais aniquilaram 1.500 indígenas para garantir que o mapa da exploração colonial fosse desenhado com sangue.
A Expropriação do Pampa e do Planalto: Como a Identidade Indígena Inventou o “Gauchismo”
A construção da identidade gaúcha hegemônica, tal qual a conhecemos hoje, é classificada por historiadores e sociólogos críticos como uma clássica “tradição inventada”. De acordo com o historiador Mário Maestri e o professor Luís Augusto Fischer, o tradicionalismo arquitetado ao longo do século XX operou um filtro racial e de classe implacável. O objetivo intelectual orgânico das classes dominantes sulistas era criar uma cultura unitária, uma fusão apologética entre o grande fazendeiro latifundiário (o “patrão”) e o peão explorado, irmanando-os fantasiosamente nas lides campeiras para ocultar um passado de escravidão, miséria e expropriação.
Nesse processo de invenção cívica, rompeu-se o vínculo com as raízes indígenas, erguendo um “véu de brancura” sobre a história. A realidade arqueológica e histórica, porém, grita o oposto. A gênese do Rio Grande do Sul e de suas práticas campeiras não começou com as sesmarias portuguesas do século XVIII, mas com os povos originários guaranis nas Reduções Jesuíticas e as milenares populações Kaingang que dominavam o planalto meridional.

Foi no distante ano de 1634, durante a primeira fase missioneira no território que hoje compõe o Rio Grande do Sul, que o padre jesuíta Cristóbal de Mendoza introduziu as primeiras cabeças de gado vacum em larga escala na região, com o objetivo de garantir a segurança alimentar das reduções repletas de nativos. Contudo, quando o avanço paramilitar genocida dos bandeirantes paulistas forçou os milhares de guaranis a abandonarem o território no dramático êxodo de 1639, cruzando o Rio Uruguai para salvar suas vidas, esse gado ibérico foi deixado para trás.
Sem cercas, predadores naturais ou controle humano, os rebanhos bovinos e equinos se multiplicaram de forma geométrica e asselvajada pelas vastas e férteis planícies do pampa gaúcho ao longo de mais de quatro décadas, adaptando-se ao ecossistema local e dando origem ao resistente gado “franqueiro”, também conhecido como orelhano ou chimarrão.
Quando os jesuítas e guaranis finalmente retornaram à margem esquerda do rio Uruguai em 1682, fundando os monumentais Sete Povos das Missões (iniciando por São Francisco de Borja), encontraram um mar de gado xucro. Foram os indígenas missioneiros que dominaram a tecnologia de lida com esses animais. Organizados nas estâncias missioneiras, que chegaram a abranger mais de dois terços do atual território do Rio Grande do Sul, os guaranis tornaram-se os primeiros e verdadeiros vaqueanos e tropeiros do sul do continente. Eles aperfeiçoaram a doma do cavalo selvagem, a tecelagem em tear, o consumo sistêmico da erva-mate, a técnica do churrasco espetado no chão e a manipulação industrial do couro e do sebo.
O historiador e pesquisador José Roberto de Oliveira é taxativo ao afirmar que a “genética básica” do Estado é indígena: “o verdadeiro gaúcho nasce do sangue ‘pelo duro'”. A cultura missioneira representou um salto tecnológico e cultural brutal. Nas colossais cidades de pedra, os indígenas operavam fundições complexas, construíam instrumentos musicais, esculpiam obras barrocas primorosas e geriam uma sociedade de propriedade coletiva que erradicou a fome. Ao mesmo tempo, nas terras altas, os Kaingang operavam complexas redes de rotas terrestres, dominando a botânica da erva-mate silvestre e a ecologia do pinhão.

O que aconteceu com essas civilizações? Foram brutalmente destruídas e, em seguida, parasitadas. O historiador Tau Golin aponta que, com o declínio e a destruição militar das Missões no final do século XVIII, as habilidades rurais, agropastoris e mecânicas dos sobreviventes missioneiros foram sugadas pela nascente sociedade colonial luso-brasileira. Da mesma forma, os tropeiros luso-brasileiros se apropriaram por completo das estradas abertas pelos Kaingang na serra. Ocorreu um intenso processo de “guaranização” e “indianização” da fronteira, no qual o colonizador se apropriou das tecnologias nativas de sobrevivência para fundar suas estâncias privadas e suas rotas de comércio.
Em um golpe retórico perverso, a historiografia oficial inverteu os papéis heroicos. Elevou à categoria de mito fundador a figura do luso-brasileiro e do “gaudério”. Na realidade documental, os “gaudérios” não eram cavalheiros românticos; eram, segundo Tau Golin, “sistemáticos inimigos” das reduções organizadas. Tratava-se de aventureiros errantes, bandoleiros violentos, assaltantes de gado e mercenários que viviam do contrabando, frequentemente responsáveis por saques, estupros e assassinatos contra as populações indígenas pacificadas. Celebrar o gaudério e apagar as matrizes Guarani e Kaingang da formação identitária sulina é a consagração do roubo perfeito: tomou-se a terra, tomou-se a cultura, tomou-se o gado e, por fim, tomou-se o lugar do outro na própria História.
A Geopolítica da Traição: O Tratado de Madri e a Morte de uma Utopia
O complexo dos Sete Povos das Missões (São Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio) havia se tornado, em meados do século XVIII, uma anomalia próspera e incômoda no coração da América do Sul. Pensadores iluministas europeus, como Voltaire e Montesquieu, maravilhavam-se com a experiência, chamando-a de “Triunfo da Humanidade” e de “Primeiro Estado Industrial da América”.
Contudo, para os impérios absolutistas da Espanha e de Portugal, uma república indígena autossustentável e coletivista representava uma “perigosa autonomia”. As monarquias ibéricas, interessadas exclusivamente no extrativismo de riquezas e na consolidação de suas fronteiras militares, decidiram aniquilar o projeto por meio de uma canetada burocrática em um gabinete acarpetado na Europa.
Em 13 de janeiro de 1750, as coroas de Portugal e Espanha assinaram o famigerado Tratado de Madri. O acordo visava redefinir os limites territoriais na América do Sul, anulando definitivamente as arcaicas e desrespeitadas linhas de Tordesilhas. A barganha geopolítica era clara e fria: Portugal cederia à Espanha a disputada e estratégica Colônia do Sacramento (no atual Uruguai). Em troca, a Espanha entregaria a Portugal o vasto, rico e altamente produtivo território dos Sete Povos das Missões, situado na margem esquerda do rio Uruguai.
A crueldade do Tratado, contudo, residia em suas cláusulas de desocupação. O Artigo XVI do documento determinava uma limpeza étnica e social sem precedentes. Estipulava que os missionários jesuítas e todos os indígenas guaranis deveriam abandonar compulsoriamente suas aldeias, suas casas de pedra entalhada, suas igrejas colossais, suas ricas lavouras e as imensas estâncias com milhões de cabeças de gado. Eles deveriam cruzar o rio Uruguai para o lado espanhol, levando consigo apenas “os móveis, e efeitos” e entregando tudo absolutamente intacto para o deleite dos novos senhores portugueses.
Foi dado um prazo inicial até 1752, depois estendido para agosto de 1753, para que cerca de 30 mil guaranis se retirassem pacificamente de suas terras ancestrais rumo ao desconhecido. A reação dos guaranis foi de choque, indignação e, logo em seguida, de furiosa insubordinação. Eles haviam cultivado os ervais, erguido as catedrais e defendido aquela fronteira contra os próprios luso-brasileiros a mando da Espanha. Agora, o rei espanhol os entregava de bandeja aos seus piores e mais antigos inimigos: os bandeirantes e escravagistas portugueses.
Diante da aproximação das comissões demarcadoras de fronteira — lideradas pelo governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrada, e pelo Marquês de Valdelírios —, os guaranis aldeados trancaram os caminhos, enviaram tropas para barrar os comissários em Santa Tecla e declararam abertamente que não entregariam suas cidades. O pacto de vassalagem com a coroa espanhola estava quebrado. Iniciava-se assim a trágica e heroica Guerra Guaranítica (1753-1756), um conflito anticolonial em que nativos armados ousaram desafiar, simultaneamente, os dois maiores impérios globais da época.
Sepé Tiaraju e a Teologia do “Esta Terra Tem Dono”
No epicentro desse caldeirão de revolta, negação de opressão e defesa da autodeterminação, emergiu a figura monumental de Sepé Tiaraju. Os registros jesuíticos grafavam seu nome como Joseph Tyarayu, nascido possivelmente em torno de 1723, na redução de São Luiz Gonzaga. Longe do estereótipo do “selvagem” que a historiografia colonial tentou pintar, Sepé era um intelectual orgânico de sua comunidade, um estrategista militar sagaz e um político sofisticado.

Como Corregedor da redução de São Miguel Arcanjo — um cargo de altíssima responsabilidade escolhido através de eleições por voto secreto —, ele despontou como capitão das milícias guaranis e comandante-em-chefe da resistência. Sua liderança não se baseava apenas na força bélica, mas em uma profunda e insubordinada fundamentação teológica e política. Quando os generais europeus ordenaram a evacuação das terras e exibiram os papéis assinados em Madri, a resposta atribuída a Sepé ecoou pela história: “Esta terra tem dono”.
Essa máxima não era um mero grito de guerra instintivo; era uma sofisticada declaração de soberania. Em comunicações aos monarcas europeus e aos generais, ele afirmou categoricamente: “Nossa riqueza é a nossa liberdade. Esta terra tem dono e não é nem português nem espanhol, mas Guarani”. O cacique bradava unindo a cosmologia cristã assimilada ao direito originário de ancestralidade: “Nós a recebemos de Deus e do Arcanjo São Miguel! Somente eles nos podem deserdar!”
Com essa narrativa incisiva, Sepé deslegitimou por completo a validade jurídica e moral do Tratado de Madri. Rejeitou a premissa eurocêntrica de que monarcas distantes possuíam o direito divino de lotear o Novo Mundo como se fosse um tabuleiro de xadrez vazio. Organizou guerrilhas táticas, uniu-se temporariamente a aldeias charruas e conseguiu, numa primeira fase, barrar o avanço conjunto de Gomes Freire de Andrada e dos espanhóis ao longo de 1753 e 1754.
O medo que a liderança de Sepé impunha às elites luso-espanholas era tamanho que, após sua morte, tornou-se necessário destruí-lo narrativamente. No entanto, a memória resistente do povo operou nas sombras. A partir da década de 1970, o grito “Esta terra tem dono” foi abraçado visceralmente por trabalhadores rurais e pelo MST, transformando o “índio rebelde” na representação máxima do oprimido que exige justiça agrária no Brasil moderno. Em 2009, a história lhe fez tardia justiça oficial, inscrevendo seu nome no Panteão dos Heróis da Pátria.
A epopeia de Sepé, entretanto, foi ceifada antes que ele pudesse ver o desfecho de sua nação. Em 7 de fevereiro de 1756, às margens da sanga da Bica, a cavalaria pesada espanhola surpreendeu suas tropas. O líder guarani foi ferido impiedosamente por um golpe de lança desferido por um soldado português e, já caído ao solo, foi executado com um tiro de pistola na cabeça pelo governador de Montevidéu, José Joaquín de Viana. A morte de seu grande estrategista e guia espiritual desorientou e abalou profundamente o exército missioneiro, abrindo caminho para a tragédia que viria a seguir.
A Hecatombe de Caiboaté e as Caçadas no Planalto: O Extermínio em Duas Frentes
O genocídio indígena operou-se como um projeto de Estado. Com a morte de Sepé Tiaraju, o cacique Nicolau Ñeenguirú assumiu o comando e optou, ou foi forçado pelo desespero, a enfrentar o exército regular europeu em uma batalha campal aberta.
No dia 10 de fevereiro de 1756, os exércitos se encontraram em uma várzea em São Gabriel, num local que entraria para a história manchado de sangue: Caiboaté Grande. A Batalha de Caiboaté não foi um combate com paridade de forças; tratou-se de uma carnificina sistemática e metodicamente arquitetada.

De um lado do campo, o exército imperial somava entre 1.600 e 3.000 soldados regulares fortemente treinados, apoiados por uma bateria de até vinte canhões de grosso calibre, além dos “gaudérios” e mercenários luso-brasileiros atuando como irregulares brutais. Do outro lado, cerca de 2.000 guaranis empunhavam primordialmente arcos, machados, boleadeiras e lanças curtas de taquara.
O desenrolar do confronto, que durou pouco menos de duas intensas horas, foi um exercício de aniquilação covarde. A artilharia conjunta ibérica despejou balas de canhão e chumbo grosso diretamente sobre o avanço desesperado da cavalaria central indígena. Encurralados, desorientados pelos estrondos e com as fileiras dizimadas, o exército missioneiro ruiu.
A ordem não escrita dos generais ibéricos e a sanha dos bandoleiros gaudérios era não deixar testemunhas. Indígenas desarmados e gravemente feridos, que atiravam suas lanças ao chão e imploravam por clemência, foram brutalmente varados pelos peitos com lanças, dizimados à queima-roupa pelas bocas dos canhões fumegantes e submetidos a degolas frias. Apenas em torno de 150 indígenas foram tomados vivos como prisioneiros. O saldo expõe escandalosamente a natureza do extermínio: enquanto as forças luso-espanholas registraram irrisórias quatro baixas fatais, o exército missioneiro contabilizou o horror absoluto de 1.511 guaranis massacrados.
As igrejas foram saqueadas; os sonoros sinos de bronze maciço, fundidos com exímia tecnologia nativa, foram sumariamente arrancados das torres, derretidos no fogo e perversamente reaproveitados para fabricar armamento para os exércitos coloniais. A vasta população indígena que sobreviveu à carnificina foi reduzida à condição de servidão nas predatórias estâncias dos latifundiários brancos.
No planalto meridional, nas décadas seguintes e adentrando o século XX, a fúria expropriadora voltou-se contra os povos Kaingang. À medida que o Estado brasileiro cedia vastas porções de terra para companhias colonizadoras instalarem colonos europeus, os Kaingang tornaram-se um estorvo. A solução adotada pelas elites e governos regionais foi o financiamento da violência paramilitar oficial, materializada na figura nefasta dos “bugreiros”.
Armados e pagos por orelhas arrancadas, essas milícias invadiam as aldeias Kaingang ao raiar do dia, atirando a esmo e golpeando famílias inteiras de surpresa com facões, promovendo um massacre silencioso longe dos canhões europeus, mas igualmente motivado pelo roubo da terra. Assim como o pampa, o próspero polo agrícola da serra gaúcha foi diretamente adubado pelo extermínio indígena.
A Impunidade e a Farsa da Memória Cívica
Mais de dois séculos e meio separam o pântano de sangue derramado sobre a grama de Caiboaté Grande e as florestas tomadas dos Kaingang das comemorações turísticas e ufanistas de hoje. Em São Gabriel, um modesto monumento e uma cruz repousam no exato descampado onde os 1.500 mártires indígenas tombaram sob a solidão dos ventos.
Enquanto a memória física do genocídio indígena atrai poucas visitas, a monumentalidade oficial e a glória do Estado reservaram seus mais vistosos panteões aos algozes da civilização e da terra. O carrasco Gomes Freire de Andrada segue amplamente reverenciado, e as festividades de colonização recebem vultosos investimentos. A brutal inversão narrativa operada no Estado sulino representa o grau mais agudo de epistemicídio de que se tem notícia. A classe estancieira, herdeira das gigantescas extensões de terras tomadas aos indígenas, apropriou-se descaradamente de tudo: das bombachas, do preparo da erva-mate, do pinhão, da indumentária e das técnicas do manejo do cavalo e do gado franqueiro. Após exterminar o indígena e expulsá-lo da terra comunal, o invasor vestiu as suas roupas, tomou as suas rédeas e se autocorou perante os livros de história como o orgulhoso “gaúcho”.
Ao se investir milhões em projetos luminosos em velhas catedrais, a sociedade e o Estado deparam-se com um desconcertante dilema ético estrutural. Celebrar as pedras mortas do século XVIII e louvar a lenda folclórica abstrata de Sepé sem demarcar imediata e radicalmente as diminutas áreas reivindicadas e sangradas de terra no século XXI para os acampamentos desesperados das famílias Mbya Guarani e Kaingang, é apenas a reedição contemporânea da chacina de Caiboaté e das emboscadas dos bugreiros.
Os generais ibéricos matavam fisicamente no campo aberto com chumbo grosso; o Estado contemporâneo e sua burocracia continuam matando a vida dos herdeiros legítimos por meio da paralisia na Funai e das restrições inconstitucionais da famigerada Lei do Marco Temporal.
Como protestou o cineasta e ativista guarani Ariel Kuaray Ortega, desvendando a mais crua ferida que as cúpulas estancieiras tentaram encobrir: “Se completam também 400 anos que nossos ancestrais foram expulsos dos territórios. Portugal e Espanha negociaram nossos territórios sem participação dos nossos – não podemos seguir assim. É necessária uma reparação histórica.”
A farsa arquitetada ao longo dos últimos séculos foi desmascarada pelos historiadores decoloniais. Mas a justiça verdadeira e reparadora só ocorrerá, materialmente fora das teses acadêmicas, no dia exato em que os tristes sobreviventes Guarani e Kaingang puderem pisar de forma totalmente livre, segura, permanente e demarcada por lei intocável o solo que lhes pertence. Não mais como estrangeiros ou peões escravizados, mas inquestionavelmente e honrosamente como o que sempre foram, por direito divino, herança ancestral, cultura inegável, honra irretocável de Sepé Tiaraju tombado nas trincheiras e pura essência primordial gaúcha indomável: os únicos e verdadeiros donos incontestáveis da terra.
Referências Bibliográficas e Fontes de Pesquisa
Livros e Artigos Acadêmicos:
- BUENO, Eduardo. Capitães do Brasil: a saga dos primeiros colonizadores. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.
- FLORES, Moacyr. História do Rio Grande do Sul. 6. ed. Porto Alegre: Nova Dimensão, 2004.
- GOLIN, Tau. A ideologia do gauchismo. Porto Alegre: Tchê, 1983.
- MAESTRI, Mário. O gaúcho: história de uma farsa. Porto Alegre: FCM Editora, 2016. (E publicações na Revista IHU On-Line sobre a invenção da tradição pampeana).
- NEUMANN, Eduardo. Práticas letradas guaranis: produção e consumo nas Missões jesuíticas. História Unisinos, 2015. (Referência para a intelectualidade e soberania epistolar de Sepé Tiaraju).
- OLIVEIRA, José Roberto de. O Espírito das Missões. Palestras e seminários sobre os 400 anos das Missões Jesuíticas-Guarani (1626-2026), 2026.
- SANTOS, Sílvio Coelho dos. Os índios Xokleng: memória visual. Florianópolis: Editora da UFSC, 1997. (Documentação detalhada sobre o financiamento e a atuação dos “bugreiros” contra as populações Kaingang e Xokleng).
- TEIXEIRA, Maria Luiza. História e cultura indígena no currículo escolar: a ocupação do Rio Grande do Sul e a invisibilidade Kaingang e Guarani. Porto Alegre: UFRGS, 2019.
Documentos, Periódicos e Imprensa:
- BRASIL DE FATO. O Genocídio Kaingang e os horrores praticados por ‘bugreiros’ contra povos indígenas nos 150 anos da imigração no RS. Reportagens especiais sobre a imigração e o apagamento nativo. Acesso em setembro de 2026.
- INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). Massacre marca etnia indígena que luta contra o Marco Temporal. Cadernos IHU. São Leopoldo: Unisinos. (Análise contemporânea sobre a ameaça jurídica aos territórios demarcados e as violações continuadas aos povos Mbya Guarani e Kaingang).
- ORTEGA, Ariel Kuaray. Declarações e entrevistas do ativista e cineasta Mbya Guarani sobre os 400 anos das reduções jesuíticas e a continuidade do apagamento do homem branco nas comemorações cívicas.
- REVISTA TELLUS. Missões jesuíticas dos Sete Povos e o Tratado de Madri (1750): protagonismo, resistência e autodeterminação dos índios. Universidade Católica Dom Bosco (UCDB).
- UNIVERSIDADE FEDERAL DA FRONTEIRA SUL (UFFS). Dialogando sobre Conhecimento e Ciência a partir da Cultura Kaingang e da Perspectiva Decolonial. Cadernos de extensão e pesquisa.

