Deb Haaland, do povo Laguna Pueblo, é a primeira mulher indígena eleita governadora de um estado dos Estados Unidos. A vitória é histórica e merece festa. Também merece memória: o território de onde ela vem foi envenenado por urânio, e o estado que vai governar vive do petróleo.
Na noite de 3 de novembro, num salão de festas à beira da antiga Route 66, dentro das terras do povo Laguna, a contagem de votos virou história. A Associated Press (AP) projetou a vitória de Deb Haaland para o governo do Novo México às 22h40 do horário da costa leste dos EUA, já madrugada de 4 de novembro no Brasil. Com a apuração ainda em andamento, ela tinha cerca de 57% dos votos contra o republicano Gregg Hull, ex-prefeito de Rio Rancho por três mandatos.
Haaland, de 65 anos, é cidadã do Pueblo de Laguna. Em janeiro, ela será a primeira mulher indígena a governar um estado norte-americano. Antes disso, já tinha sido uma das duas primeiras mulheres indígenas eleitas para o Congresso dos EUA, em 2018, e a primeira pessoa indígena a chefiar um ministério do governo federal: o Departamento do Interior, que administra as terras públicas e a relação do Estado com as nações indígenas.

“Aqui no Novo México, nós podemos fazer qualquer coisa, e eu sei disso porque eu sou a prova viva”, disse no discurso da vitória, segundo o Santa Fe New Mexican (tradução livre). Para quem estava na festa, o sentimento era de chegada. “Este é um momento monumental”, disse Harry Antonio Jr., governador tradicional do Pueblo de Laguna, ao portal indígena ICT. “Eu tenho orgulho disso.”
Quem é Deb Haaland
Debra Anne Haaland nasceu em 2 de dezembro de 1960, em Winslow, no Arizona. A mãe, Mary Toya, do povo Laguna, serviu na Marinha e trabalhou no Bureau of Indian Affairs, o órgão indigenista federal. O pai, de família norueguesa, foi oficial dos Fuzileiros Navais. Filha de militares, passou por 13 escolas públicas.
A trajetória dela não foi linear. Depois do ensino médio, trabalhou numa padaria. Enfrentou o alcoolismo e está sóbria desde 1988, quando entrou na universidade. O filho, Somáh, nasceu quatro dias depois de ela se formar em Letras na Universidade do Novo México, em 1994. Mãe solo, abriu uma pequena empresa de molhos, dependeu da ajuda de amigos para ter onde morar e, em alguns períodos, de vale-alimentação do governo. Em 2006, formou-se em Direito com foco em direito indígena.
Antes da política partidária, trabalhou como administradora tribal e gerente de cassino no Pueblo de San Felipe e foi a primeira mulher no conselho da Laguna Development Corporation, a empresa do seu povo, que depois chegou a presidir. Presidiu o Partido Democrata do Novo México entre 2015 e 2017. Em 2018, venceu a eleição para a Câmara dos Representantes pelo 1º distrito do estado, a região de Albuquerque.
Linha do tempo
De Winslow a Santa Fe
- 1960Nasce em Winslow, no Arizona
Filha de Mary Toya, do povo Laguna, e de um oficial dos Fuzileiros Navais.
- 1994Forma-se e vira mãe solo
Conclui Letras na Universidade do Novo México; o filho Somáh nasce quatro dias depois.
- 2006Diploma em direito indígena
Formada na Faculdade de Direito da Universidade do Novo México.
- 2015Preside o Partido Democrata no estado
Fica no cargo até 2017.
- 2018Eleita para o Congresso
Uma das duas primeiras mulheres indígenas na Câmara dos EUA.
- 2021Ministra do Interior
Primeira pessoa indígena a chefiar um ministério nos EUA. Lança a investigação sobre os internatos indígenas.
- 2023O Willow é aprovado
O ministério dela autoriza o projeto de petróleo da ConocoPhillips no Ártico do Alasca.
- 2026Eleita governadora
Vence Gregg Hull em 3 de novembro. Toma posse em janeiro de 2027.
Kawaika, o povo de onde ela vem
Na língua keres ocidental, os Laguna chamam a si mesmos e ao seu pueblo de Kawaika. “Laguna” é o nome espanhol, que quer dizer “pequeno lago”. O território fica a cerca de 70 quilômetros a oeste de Albuquerque e tem aproximadamente 2 mil quilômetros quadrados, com seis aldeias principais: Encinal, Laguna, Mesita, Paguate, Paraje e Seama.
A história contada pelos colonizadores diz que o pueblo foi fundado em 1699, ano em que os espanhóis começaram a construir ali a missão de San José. É uma inversão conhecida por nós no Brasil. Os sítios arqueológicos da bacia do rio San José mostram ocupação contínua há milhares de anos. A missão veio depois da Revolta Pueblo de 1680, quando os povos pueblo expulsaram os espanhóis do território por mais de uma década. Na reconquista, refugiados de outros pueblos se juntaram aos Laguna.

No século 20, a invasão mudou de forma. Em 1953, a Anaconda, empresa ligada à petroleira Atlantic Richfield, abriu a mina Jackpile perto da aldeia de Paguate, em terra arrendada do povo Laguna. Por 29 anos, até 1982, funcionou ali a maior mina de urânio a céu aberto do mundo. Foram cerca de 25 milhões de toneladas de minério e mais de mil hectares revirados. Em 2013, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) incluiu a área na lista nacional de locais contaminados prioritários para limpeza.
Mapa
Do urânio ao petróleo
O território Laguna fica a cerca de 70 km de Albuquerque. Toque nos pontos para saber mais.
- Pueblo de Laguna Kawaika: terra do povo Laguna, cerca de 2 mil km² e seis aldeias (Encinal, Laguna, Mesita, Paguate, Paraje e Seama). Foi aqui, no Route 66 Casino Hotel, que Haaland comemorou a vitória.
- Mina Jackpile Perto da aldeia de Paguate, a Anaconda extraiu urânio de 1953 a 1982: a maior mina a céu aberto do mundo. Desde 2013 é área contaminada prioritária da EPA.
- Albuquerque Maior cidade do estado. Haaland representou a região no Congresso de 2019 a 2021.
- Santa Fe Capital do Novo México, onde ela toma posse em janeiro.
- Las Cruces Segunda maior cidade do estado.
- Bacia do Permiano No sudeste do estado fica a parte novo-mexicana da maior região petroleira dos EUA. Impostos e royalties do petróleo e do gás chegam a 25%–30% da receita do caixa geral do estado.
A nova governadora vem, portanto, de um território que conhece na pele o preço da mineração. É uma história parecida com a que a Caipora contou sobre os Guarani e Kaiowá em Terra, veneno e a luta pela existência e sobre os Krenak em Watu Kuem: o rio Doce morreu.
Do Congresso ao Ministério do Interior
Em março de 2021, Haaland deixou a Câmara para assumir o Departamento do Interior no governo de Joe Biden. Foi a primeira pessoa indígena a ocupar um ministério nos EUA, e ficou até janeiro de 2025.
O ato mais marcante da gestão foi a Iniciativa Federal sobre os Internatos Indígenas, lançada em junho de 2021. Por mais de um século, o governo dos EUA arrancou crianças indígenas das famílias e as internou em escolas feitas para apagar suas línguas, religiões e modos de vida. O relatório final, de julho de 2024, documentou ao menos 973 crianças mortas nessas escolas e 74 cemitérios marcados e não marcados em 65 delas. Cerca de 40 internatos funcionaram no próprio Novo México.
O que o relatório encontrou
Os internatos indígenas dos EUA
Relatório final da Iniciativa Federal sobre os Internatos Indígenas, julho de 2024. O próprio relatório diz que o número real de mortes deve ser maior.
“Este trauma não é novo para os povos indígenas, mas é para muitos americanos”, disse ela na divulgação do relatório, segundo a rádio KUNM (tradução livre). “Estamos aqui porque nossos ancestrais resistiram, e é nosso dever contar as histórias deles.”
O paralelo com o Brasil é direto. Aqui, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) aplicou a mesma lógica de “integrar” para apagar, como a Caipora mostrou em O serviço que inventou o “índio” e em O legado de violência do SPI no Sul.
Na mesma gestão, Haaland criou uma unidade para investigar casos de indígenas desaparecidos e assassinados, mandou trocar o nome de cerca de 650 lugares federais que usavam um termo ofensivo contra mulheres indígenas e participou da criação de monumentos nacionais em territórios sagrados, como Baaj Nwaavjo I’tah Kukveni, perto do Grand Canyon.
“Primeira”: o que a palavra esconde e o que revela
A AP e a imprensa dos EUA chamaram Haaland de primeira governadora mulher e indígena do país. A precisão importa. Ela não é a primeira pessoa indígena eleita governadora.
O atual governador de Oklahoma, o republicano Kevin Stitt, no cargo desde 2019, é cidadão da Nação Cherokee. Nos anos 1950, Oklahoma também foi governada por Johnston Murray, filho de mãe Chickasaw, embora sua condição de cidadão Chickasaw seja contestada por parte desse povo.
Antes dela
Indígenas eleitos governadores nos EUA
Filho de mãe Chickasaw; a condição de cidadão Chickasaw é contestada por parte desse povo.
Cidadão da Nação Cherokee. Enfrentou as nações do estado nos acordos de jogos e criticou a decisão McGirt.
Cidadã do Pueblo de Laguna. Primeira mulher indígena eleita governadora.
O caso de Stitt é uma lição. Ser cidadão de uma nação indígena não fez dele um aliado das nações indígenas. No governo, ele tentou renegociar à força os acordos de jogos com os povos de Oklahoma, criticou a decisão da Suprema Corte de 2020 que reconheceu boa parte do leste do estado como terra indígena (caso McGirt) e vetou quase todos os projetos apoiados pelas nações, inclusive um que permitia a estudantes indígenas usar seus trajes tradicionais nas formaturas. Em 2022, os líderes das cinco maiores nações indígenas do estado apoiaram o adversário dele.
Pertencimento é ponto de partida, não garantia. É também a medida pela qual o mandato de Haaland vai ser cobrado.
As contradições: petróleo, Willow e o partido
O Novo México é hoje um dos maiores produtores de petróleo dos EUA. A produção do estado praticamente dobrou durante o governo Biden, de cerca de 1,1 milhão para 2,1 milhões de barris por dia, e chegou a 2,3 milhões em março de 2026, segundo o site E&E News. Impostos e royalties do petróleo e do gás chegam a representar de 25% a 30% da receita do caixa geral do estado.
O estado do petróleo
A produção do Novo México dobrou
Milhões de barris de petróleo por dia (valores aproximados)
No Congresso, Haaland se opôs ao fraturamento hidráulico (fracking) em terras públicas e apoiou o Green New Deal. No Interior, suspendeu temporariamente novos leilões de petróleo em terras federais. Mas foi também o ministério dela que aprovou, em março de 2023, o projeto Willow, da ConocoPhillips, no Ártico do Alasca: um empreendimento de 8 bilhões de dólares, com capacidade para até 180 mil barris por dia. Ambientalistas e organizações indígenas pediram que ela usasse sua autoridade para barrar o projeto. Quem assinou a autorização foi o vice-ministro, e Haaland nunca disse publicamente se concordava. “Não vamos fechar a torneira e dizer que não vamos mais perfurar”, disse na época, segundo o ICT (tradução livre).
Na campanha para governadora, o tom ficou ainda mais cauteloso. O programa fala em energia eólica e solar e em fechar poços de petróleo abandonados, mas não em limitar a produção. “Vou trazer equilíbrio para a nossa política energética”, escreveu ela ao E&E News. A presidente da associação das petroleiras do estado, Missi Currier, disse que o histórico de Haaland “levanta questões importantes”. Hull prometeu “liberar o petróleo e o gás”. Haaland arrecadou cerca de 20,5 milhões de dólares, contra 2,8 milhões do adversário.
No discurso da vitória, ela prometeu baixar o custo de vida, melhorar a educação e “criar um caminho para a saúde universal”. Também defendeu suspender temporariamente a instalação de grandes centros de dados até que o estado tenha regras de proteção, uma questão de água e energia num estado de deserto.
Análise: festa e vigilância
Esta seção é opinião da Revista Caipora.
A eleição de uma mulher Laguna para governar um estado que fica sobre terras pueblo, navajo e apache é uma conquista dos povos originários do Norte, não um presente de partido. Ela vem de décadas de organização das nações indígenas, de quem votou, de quem fez campanha nas aldeias e de quem lembrou, como disse ao ICT a jovem Laguna Shayai Lucero, que o povo pueblo nunca foi removido à força de seu território.
Mas a vitória chega pelo Partido Democrata. O partido se apresenta como a alternativa ao trumpismo, e diante da extrema direita, que nos EUA e aqui ataca territórios, direitos e a própria existência indígena, isso pesa. Só que foi um governo democrata que aprovou o Willow e viu a produção de petróleo do Novo México dobrar. Ser o mal menor não faz de um partido um aliado.
No Brasil, conhecemos esse dilema. Ver Sônia Guajajara assumir em 2023 um Ministério dos Povos Indígenas foi uma vitória do movimento. Ver ao mesmo tempo o Congresso aprovar a lei do marco temporal e o governo hesitar em demarcar ensinou que ocupar o cargo não basta, como mostramos em Marco temporal: a máquina de moer história.
A pergunta que fica para os próximos quatro anos não é se Deb Haaland é indígena. É se o governo dela vai ouvir os 23 povos indígenas do Novo México antes de decidir sobre petróleo, água e território, como manda o princípio do consentimento livre, prévio e informado. Celebramos. E seguimos de olho.
Como fizemos
Esta matéria foi apurada em 4 de novembro de 2026, com a contagem de votos ainda em andamento; o percentual citado é parcial. As falas estão em tradução livre da Revista Caipora, com o veículo que as publicou indicado no texto. Fontes: ICT, Santa Fe New Mexican, Scripps News/AP, E&E News, ICT sobre o Willow, KUNM, Oklahoma Voice e Departamento de Assuntos Indígenas do Novo México.

