O incêndio começou em 30 de agosto na Terra Indígena Paraná do Arauató, do povo Mura, em Itacoatiara, no Amazonas. Em 13 de outubro, mais de 40 dias depois, ainda queimava. Pela estimativa da prefeitura, mais de 3 mil hectares de vegetação já tinham virado cinza. As equipes não conseguiam chegar por terra, e o que havia de combate era uma aeronave da Defesa Civil jogando água sobre os focos, sem previsão de controle, segundo o Portal Marcos Santos. A Polícia Federal apura a origem do fogo. Até a última atualização da reportagem, ninguém tinha sido identificado.
O Paraná do Arauató não foi exceção. De julho a 20 de outubro, o fogo queimou 74,8 mil hectares dentro de terras indígenas no Amazonas, segundo nota técnica da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) citada pelo Instituto Socioambiental (ISA). Na Terra Indígena Sissaíma, também dos Mura, 47,2% da floresta foi queimada.
Quando o ar de Manaus começou a clarear, a fumaça mudou de estado. De 1º a 27 de outubro, o Pará registrou 11.274 focos de calor, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) citados pelo Ministério Público Federal (MPF). É mais do que todo o mês de outubro de 2022, quando o estado teve 7.469 focos, segundo o Greenpeace. Em 27 de outubro, uma estação do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mediu 205 microgramas de partículas finas por metro cúbico de ar em Santarém, quase 14 vezes o limite diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Seis aviões do Ibama não conseguiram decolar por causa da fumaça, segundo o ClimaInfo.
Os números do ano inteiro contam outra história, e ela também é verdadeira. Até 18 de outubro, a área queimada na Amazônia em 2026 somava 3,46 milhões de hectares, 32% abaixo da média de 2012 a 2025, segundo o Boletim do Fogo do Ministério do Meio Ambiente. Não é um ano de recorde como 2024. É um ano em que o fogo se concentrou em poucos lugares, em poucas semanas, perto de cidades grandes e de terras indígenas, e em que boa parte dele foi posta depois do primeiro turno das eleições.
Esta reportagem mostra esse mapa.
Bioma Amazônia · focos de calor
Mais fogo que em 2025, menos que a média
Focos por mês em 2026 (vermelho) contra 2025 ou contra a média de 2010 a 2024 (cinza). Passe o dedo ou o mouse sobre os meses.
de área queimada na Amazônia de 1º de janeiro a 18 de outubro, 32% abaixo da média de 2012 a 2025 (MMA)
de focos em agosto e setembro na comparação com os mesmos meses de 2025 (Inpe, via InfoAmazonia)
dos focos do bioma em setembro estavam a até 300 km de Manaus; de 2021 a 2025, essa fatia ficou entre 1,8% e 6,7%
Fontes: Inpe, boletins Infoqueima de janeiro a agosto de 2026 (satélite de referência). Setembro de 2026 e de 2025 calculados pela Caipora a partir dos dados do Inpe publicados pela InfoAmazonia (21.768 focos em agosto e setembro; +64%) e devem ser conferidos no BDQueimadas. A média histórica de setembro não foi publicada no período. Área queimada: Boletim do Fogo nº 13, MMA.
Revista CaiporaUm ano abaixo da média, uma estação acima do suportável
Foco de calor é o ponto quente que um satélite detecta, não um incêndio: uma queimada pode gerar vários focos, e um fogo rasteiro sob as copas pode não gerar nenhum. Pelos boletins mensais do Inpe, o bioma Amazônia teve 1.374 focos em julho, 74% abaixo da média histórica de 2010 a 2024. Em agosto, 9.206: ainda 61% abaixo da média, mas 51% acima de agosto de 2025, segundo o Infoqueima de agosto. Agosto e setembro juntos somaram 21.768 focos, 64% a mais que no mesmo período do ano passado, segundo dados do Inpe analisados pela InfoAmazonia e citados pela CNN Brasil.
A comparação com 2025 exagera, porque o ano passado teve a menor área queimada na Amazônia desde 1985, segundo o MapBiomas. A comparação com a média esconde, porque a média inclui anos de devastação como 2024. Nenhuma das duas mostra a geografia: em 2026, o fogo mudou de endereço.
Em 2026, Rondônia e Acre tiveram em agosto 88% e 75% menos focos que a média histórica, segundo o Inpe. O fogo foi para outro lugar. Em setembro, os focos num raio de 300 quilômetros de Manaus foram 15,3% de todos os focos do bioma no mês. De 2021 a 2025, essa fatia ficou entre 1,8% e 6,7%, segundo a InfoAmazonia. Em outubro, o centro do fogo passou para o oeste do Pará: Uruará, São Félix do Xingu, Altamira, Portel e Santarém, nessa ordem.
Estados do Norte · focos por mês em 2026
O fogo mudou de endereço
Cada linha é um estado, cada coluna, um mês. No modo “ritmo de cada estado”, as cores mostram quando cada um queimou mais: Roraima no começo do ano, o Amazonas em setembro, o Pará em outubro.
Fontes: Inpe, boletins Infoqueima (jan. a ago.); setembro do Pará via CNN Brasil e do Amazonas via MPF; outubro (*1º a 27/10) via recomendação do MPF de 29/10, noticiada pelo portal O Fato. Células hachuradas: sem dado mensal publicado localizado pela reportagem. Dados por estado político, incluindo a parte do Tocantins no Cerrado.
Revista CaiporaRoraima viveu outra estação, a do lavrado, a savana do norte do estado, que queima de dezembro a abril. De janeiro a 11 de outubro, o estado teve 2.107 focos, mais que os 1.539 de todo o ano de 2025, segundo o Inpe, citado pelo Portal Amazônia. Março sozinho teve 602. O Amapá, que costuma ter poucas dezenas de focos por mês, registrou 790 entre 1º e 27 de outubro.
Por trás de tudo está o clima. Em setembro, cerca de 69% da bacia amazônica teve chuva abaixo da média histórica, segundo boletim da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) noticiado pelo Portal Amazônia. Em Manaus, choveu 1,2 milímetro de 1º a 24 de setembro, quando o normal seria 79, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, citado pela Amazônia Real. A agência americana NOAA estima em 83% a probabilidade de um El Niño de intensidade histórica entre outubro e dezembro.
Mas a seca não acende fósforo. “A única forma natural de ignição para incêndios na Amazônia são os raios”, disse Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam, à Agência Brasil. Os raios respondem por menos de 1% dos incêndios na Amazônia brasileira, segundo Douglas Morton, cientista da Nasa (Nasa). A seca define o tamanho do estrago. O endereço é escolhido por gente.
Setembro: o cerco de Manaus
O Amazonas teve 3.726 focos de calor em setembro, contra 942 em setembro de 2025, alta de 295,5%, segundo o Inpe, citado pelo MPF. De janeiro a 12 de outubro, foram 7.815 focos, mais que o dobro do mesmo período de 2025, mas um terço dos 23.475 de 2024 e 12% abaixo da média desde 1998, segundo a Revista Amazônia.
O fogo não ficou no sul do estado, onde a fronteira agropecuária costuma queimar. Nos 30 dias anteriores a 14 de outubro, Lábrea teve 379 focos e Novo Aripuanã, 311. Mas Autazes, vizinha de Manaus, teve 313; Itacoatiara, 200; Careiro da Várzea, 134; Manacapuru, 133. Em proporção do território, os municípios mais queimados do estado de julho a setembro foram Careiro da Várzea, Autazes e Urucurituba, segundo o ISA. Autazes teve 12% do território queimado.
Autazes é terra Mura, com terras indígenas como Capivara, Murutinga e Tracajá. Na Capivara, o fogo queimou 11,7 mil hectares até 20 de outubro. Na Murutinga-Tracajá, 28,9% da floresta. Nas terras Paiol, Cajual e Palhal, dos povos Mura e Apurinã, 8,3 mil hectares. Os números são da nota técnica do Grupo de Monitoramento Territorial Indígena (Gemti) da Coiab, citada pelo ISA.
A mesma nota lembra que a maior parte do fogo no Amazonas ficou fora das terras indígenas: elas somaram 4,6% da área queimada no estado, que passou de 1,5 milhão de hectares. Mas a Coiab acrescenta que isso “não significa ausência de impactos para os indígenas”. O fogo de fora chega como fumaça, como roça perdida, como caça que foge e como rio que seca. A organização pede verificação em campo dos danos “sobre áreas de uso, alimentação, mobilidade e segurança territorial”.
O fogo de fora “não significa ausência de impactos para os indígenas”.
Coiab, nota técnica do Gemti
Mapa · Amazonas
O cerco de Manaus
Os municípios com mais focos no Amazonas e os territórios indígenas atingidos. Toque nos losangos para ver cada território.
Fontes: focos por município: Inpe, via ClimaInfo/Revista Amazônia (Amazonas, 30 dias até 14/10) e via recomendação do MPF (Pará, 1º a 27/10). Territórios: Coiab/ISA, DSEI Parintins/Sesai, MPF, Funai, Amazônia Real. Círculos proporcionais ao número de focos; os períodos dos dois estados são diferentes. Os territórios são marcados no município, nunca na aldeia. Malha municipal: IBGE.
Revista CaiporaA fumaça na cidade
Em Manaus, o ar virou boletim. Em 23 de setembro, estações da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) registraram partículas finas acima de 286 microgramas por metro cúbico, segundo nota técnica do Ministério Público de Contas do Amazonas. Em 17 de outubro, o monitor Selva, da UEA, marcou 592 microgramas, quase 40 vezes o limite diário de 15 recomendado pela OMS. “Este é provavelmente o pior dia do ano, em termos de fumaça tóxica!”, afirmou o pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, segundo a Amazônia Real. Em outubro, Manaus foi duas vezes a cidade mais poluída do mundo no ranking da plataforma IQAir, segundo o ISA. As aulas foram suspensas em Manaus e Autazes. A Secretaria de Saúde do Amazonas registrou 607 internações por problemas respiratórios só em outubro, segundo o ISA. O Ministério da Saúde instalou uma base da Força Nacional do SUS em Manaus.
A cidade também tem aldeia. No Parque das Tribos, bairro na zona oeste de Manaus onde vivem cerca de 5 mil indígenas de povos como Apurinã, Baré, Mura, Kokama, Tikuna, Sateré-Mawé e Tukano, um incêndio na mata vizinha começou em 19 de setembro. Os moradores fizeram vaquinha para pagar um caminhão-pipa e carregaram água em baldes. A liderança Eliza Sateré-Mawé contou à Amazônia Real que, depois do primeiro atendimento, “o Corpo de Bombeiros não retornou ao local”. Ela suspeita de fogo posto. O Corpo de Bombeiros não respondeu à reportagem da agência.
“O Corpo de Bombeiros não retornou ao local.”
Eliza Sateré-Mawé, liderança do Parque das Tribos, à Amazônia Real
As aldeias do Baixo Amazonas
Rio abaixo, no distrito de saúde indígena de Parintins, que atende cinco municípios do Amazonas e quatro do Pará, 15.463 indígenas de 124 aldeias foram diretamente atingidos pelo fogo e pela fumaça, segundo o boletim epidemiológico nº 11 do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Parintins e da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), noticiado pelo Portal Raiz Digital. As terras indígenas da área tiveram 208 focos em setembro e 501 em outubro, pelo Painel do Fogo do Censipam.
As aldeias mais atingidas, segundo o boletim, ficam em Maués, Barreirinha, Nhamundá e Parintins, no Amazonas, e em Aveiro, no Pará. É território Sateré-Mawé: na Terra Indígena Andirá-Marau, o fogo queimou 12,9 mil hectares, segundo a Coiab. O distrito emitiu alerta de risco epidemiológico, intensificou a vigilância de doenças respiratórias e trabalha com as brigadas do Andirá e do Marau.
Depois do dia 4
Em 4 de outubro, o Brasil foi às urnas no primeiro turno. Nos dez dias seguintes, de 4 a 14 de outubro, o Amazonas teve 5.598 focos de calor, 37 vezes o registrado no mesmo período de 2025, segundo levantamento do Ipam citado pela Sputnik Brasil. “Eu não sei se é uma coincidência ou não, mas as pessoas começaram a usar mais o fogo depois das eleições”, disse Ane Alencar, do Ipam, à Agência Brasil.
O endereço do fogo foi medido. De 1º a 15 de outubro, 79,1% dos 1.639 focos de calor no Amazonas caíram em imóveis rurais privados inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR), segundo levantamento do Inpe. Mais da metade (52,8%) estava em áreas desmatadas nos três anos anteriores. Só 15,9% atingiram vegetação nativa. É o retrato da fase final do desmatamento: a floresta derrubada é queimada para virar pasto.
“Certamente é fogo intencional”, disse a pesquisadora Karla Longo, do Inpe, à Amazônia Real. O presidente do Ibama, Jair Schmitt, afirmou que “praticamente todo incêndio que tem ocorrido aqui no Amazonas é de origem humana” (Amazônia Real). O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, sobrevoou a região em 11 de outubro e disse que os incêndios em floresta preservada evidenciavam ação criminosa. Relatou pessoas em caminhonetes jogando garrafas com combustível na mata à beira de estradas.
O MPF levou a suspeita a uma medida prática. Em 21 de outubro, recomendou à Agência Nacional do Petróleo (ANP) e ao governo do Amazonas suspender a venda de gasolina, etanol e diesel em galões e garrafas em todo o estado durante a emergência, com exceções para comunidades sem posto e serviços essenciais. “Restringir essa venda, com exceções para quem realmente precisa, é a forma mais rápida de dificultar a ação dos incendiários”, afirmou o procurador André Luiz Porreca Ferreira Cunha (MPF).
Amazonas · depois do primeiro turno
37 vezes mais fogo
Cada ponto é um foco de calor detectado no Amazonas entre 4 e 14 de outubro.
Onde o fogo foi posto
Focos no Amazonas de 1º a 15 de outubro (1.639 focos)
Fontes: Ipam (4 a 14/10) e Inpe (1º a 15/10), via Sputnik Brasil e Tribuna do Sertão (21/10). O total de 2025 não foi publicado: é a divisão de 5.598 por 37. As fatias por uso da terra somam 99,3%; o restante não foi detalhado na fonte.
Revista CaiporaQuem foi preso
A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apuram a suspeita de um novo “dia do fogo” combinado por aplicativo de mensagens, como o de agosto de 2019 no Pará. Até 22 de outubro, a Polícia Civil do Amazonas tinha registrado 375 ocorrências ligadas a incêndios, 196 delas em Manaus, com quatro prisões na capital e 26 procedimentos no interior, entre inquéritos, prisões em flagrante e termos circunstanciados, segundo o ISA. Em 18 de outubro, o governo do estado anunciou a prisão de 11 pessoas em Autazes. O Ibama aplicou R$ 2 milhões em multas e autuou 19 pessoas em uma semana em Autazes e Careiro da Várzea.
Em 27 de outubro, a PF fez a Operação Fagulha, com três mandados de busca e apreensão em Manaus, por suspeita de desmatamento, incêndio e poluição numa área rural detectada por satélite, segundo o NC News. Um dos investigados é irmão de Simão Peixoto (MDB), ex-prefeito de Borba. Ele foi preso em flagrante por posse irregular de arma de fogo, segundo o ClimaInfo. A abertura de uma investigação não significa culpa, e não há denúncia formal até agora.
Nenhuma prisão noticiada até 30 de outubro foi apresentada como prova de ação coordenada, e a Revista Caipora não localizou denúncia do Ministério Público contra os responsáveis pelos incêndios que atingiram terras indígenas no Amazonas em 2026.
Outubro: o Pará em chamas
Quando a chuva voltou a Manaus, na segunda quinzena de outubro, o Amazonas viu os focos semanais caírem de mais de 1.200 para 250, segundo o ClimaInfo. O fogo não acabou. Mudou de estado.
O Pará já liderava o país. De janeiro a setembro, tinha somado 11.718 focos, 5.224 só em setembro, segundo o Inpe, citado pela CNN Brasil. Em outubro, o número disparou. Entre 1º e 27 de outubro, foram 11.274 focos no estado, contra 2.173 no Amazonas, 1.705 no Tocantins, 790 no Amapá, 695 no Acre e 361 em Roraima, segundo dados do Inpe reunidos na recomendação do MPF de 29 de outubro, noticiada pelo portal O Fato. Os municípios com mais focos em outubro foram Uruará (886), São Félix do Xingu (842), Altamira (694), Portel (656) e Santarém (519). Entre Santarém e Uruará, numa região conhecida como Chapadão, o governo federal identificou 62 incêndios florestais, segundo a Forbes Brasil.
Mapa · Pará
Outubro no oeste do Pará
Os cinco municípios com mais focos em outubro e as terras indígenas e unidades de conservação que o MPF listou como atingidas.
Fontes: focos por município: Inpe, via ClimaInfo/Revista Amazônia (Amazonas, 30 dias até 14/10) e via recomendação do MPF (Pará, 1º a 27/10). Territórios: Coiab/ISA, DSEI Parintins/Sesai, MPF, Funai, Amazônia Real. Círculos proporcionais ao número de focos; os períodos dos dois estados são diferentes. Os territórios são marcados no município, nunca na aldeia. Malha municipal: IBGE.
Revista CaiporaSantarém sem sol
Santarém decretou emergência por estiagem em 15 de outubro e, em 28 de outubro, emergência ambiental, com a proibição do uso do fogo por 180 dias, “inclusive para limpeza e manejo de áreas”, segundo a prefeitura. Naquele dia, a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) classificou a qualidade do ar como “muito ruim”. Em 19 de outubro, a plataforma IQAir marcou 260 no índice de qualidade do ar da cidade, faixa “muito insalubre”, segundo o Meteored.
A UPA 24 horas de Santarém registrou 423 atendimentos por sintomas respiratórios de 1º a 19 de outubro, mais que os 308 de todo outubro de 2025, segundo a Vigilância Epidemiológica da unidade, em dados publicados pelo g1 e republicados pela Gazeta Carajás. Em Santo Antônio do Tauá, no nordeste do estado, um homem morreu em 21 de outubro depois que a fumaça de um incêndio numa área agrícola vizinha atingiu sua casa. A Polícia Civil investiga, e a causa oficial da morte depende da perícia, segundo O Liberal.
O fogo nas terras do Xingu e do Tapajós
A recomendação do MPF lista as terras indígenas atingidas pelo fogo no Pará em outubro: Parque do Tumucumaque, Cachoeira Seca, Apyterewa, Munduruku e Trincheira Bacajá. Na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, o fogo atingiu 24 comunidades ribeirinhas e expôs 3.150 famílias à fumaça.
Na Terra Indígena Apyterewa, do povo Parakanã, em São Félix do Xingu, o fogo começou antes. Em agosto, uma semana de chamas atingiu uma área usada antes para criação ilegal de gado, de onde os invasores foram retirados pelo governo federal entre 2023 e 2024. A Funai informou ter encontrado “indícios de ação criminosa e outras associadas a práticas tradicionais de queima” e acionou o Ibama, segundo O Liberal. A Apyterewa foi a quinta terra indígena do país com mais focos em agosto, com 155, segundo o Inpe.
Os Parakanã também são alvo de ameaças. Segundo a recomendação do MPF, um caminhão que atende o povo foi incendiado em 1º de outubro em Novo Repartimento. Em 26 de outubro, o fogo chegou à vegetação perto de aldeias à beira da BR-422. No dia seguinte, mensagens de áudio ameaçaram um confronto armado contra os indígenas, por motivos político-eleitorais. Na região de Takuara, perto da BR-163, o conselho indígena Munduruku denunciou ao MPF fogo suspeito desde 22 de setembro, que atribui a grileiros, madeireiros e fazendeiros contrários à demarcação. Na Floresta Nacional do Tapajós, um agente do ICMBio relatou que um fazendeiro teria posto fogo de propósito perto da comunidade de São Jorge, e brigadistas receberam ameaças.
Para o MPF, o impacto desproporcional do fogo sobre povos indígenas e comunidades tradicionais é “racismo ambiental”. O órgão deu cinco dias para que a União, o governo do Pará, o Ibama, o ICMBio e a Funai criem um comitê de crise integrado, e dez dias para que digam se vão cumprir a recomendação. Pede reforço de brigadistas, fiscais e polícias, inclusive nas áreas de conflito, e boletins diários de qualidade do ar.
A fumaça não pede licença
A fumaça é o dano que não aparece no mapa de área queimada. As partículas finas, as PM2,5, entram fundo nos pulmões e chegam à corrente sanguínea. “A gente chama de ameaça invisível, porque está agindo e a gente não consegue ver, mas depois a gente vai sentir os efeitos”, disse Paula Fonseca, pesquisadora da Fiocruz Amazônia, à Sumaúma.
Nas aldeias, quase não há medição. As estações de qualidade do ar estão nas cidades: Manaus, Santarém, Porto Velho. Em 2024, com estimativas do serviço europeu Copernicus, a InfoAmazonia calculou que a aldeia Buriti, na Terra Indígena Kaxarari, chegou a 264 microgramas de PM2,5 por metro cúbico num único dia. Para 2026, os dados de saúde indígena publicados até agora são os do DSEI Parintins. A Revista Caipora não localizou um balanço da Sesai sobre atendimentos respiratórios nos outros distritos do Norte.
Fumaça · partículas finas (PM2,5)
O ar que se respira
Leituras publicadas de partículas finas, em microgramas por metro cúbico. A linha verde marca o limite diário recomendado pela OMS: 15. Cada círculo mostra a densidade de partículas da leitura.
Atenção: são leituras pontuais ou de curtos períodos, de equipamentos diferentes; o limite da OMS se refere à média de 24 horas. Servem para mostrar a ordem de grandeza, não para comparar cidades. A leitura da TI Kaxarari é uma estimativa de modelo para 2024. Fontes: Amazônia Real, MPC-AM, InfoAmazonia, ClimaInfo, Meteored.
Revista CaiporaA fumaça chega junto com outras perdas: roça queimada, caça que foge, igarapé que seca. Em Roraima, o rio Branco desceu a 60 centímetros em 12 de outubro. Fogo, seca e fumaça formam uma só emergência.
Quem apaga
Na linha de frente, muita gente é indígena. As brigadas federais do Ibama, o PrevFogo, contratam brigadistas temporários nas próprias terras indígenas e comunidades tradicionais. No Amazonas, o Ibama mantinha 162 brigadistas em terras indígenas e assentamentos em setembro, e o ICMBio, 46 nas unidades de conservação federais, segundo a Amazônia Real. Na semana de 12 a 18 de outubro, o governo federal tinha 4.359 brigadistas e servidores, 890 veículos, 92 embarcações e 39 meios aéreos mobilizados em todo o país, segundo o Boletim do Fogo do MMA.
Análise. A estrutura cresceu depois que o fogo já estava posto. Em 23 de setembro, o governador do Amazonas, Roberto Cidade, pediu ao governo federal bombeiros de outros estados. Ele dizia ter 25 bases de combate e mais de mil bombeiros, mas o estado tem 62 municípios, e 37 não tinham brigada, segundo a Amazônia Real. A força-tarefa aérea federal começou a operar no Amazonas em 10 de outubro. Até 21 de outubro, 13 aeronaves tinham feito 369 lançamentos e jogado mais de 1,1 milhão de litros de água, segundo o MMA. No Pará, o reforço anunciado em 23 de outubro somou 522 brigadistas, 41 veículos e 13 aeronaves. Em 21 de outubro, o governo editou a Medida Provisória 1.398, com crédito extraordinário de R$ 300 milhões para a Defesa Civil.
“Acionamos a Força Nacional de Segurança para auxiliar no trabalho dos brigadistas”, disse o ministro Capobianco sobre as ameaças no Pará. Sobre a origem do fogo, foi cauteloso: “Não estamos afirmando que há ocorrência direta [de incêndios criminosos], mas isto está sendo investigado”.
A Justiça também cobrou. Em 14 de outubro, a juíza Mara Elisa Andrade, da 7ª Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas, deu dez dias para que a União e os governos do Amazonas e do Pará detalhassem planos, recursos e estruturas de combate ao fogo, numa ação popular que questiona a articulação entre os governos e possíveis omissões, segundo A Crítica. Em maio, segundo o MPF, o Supremo Tribunal Federal já tinha mandado a União e os estados da Amazônia Legal se prepararem para o El Niño.
Linha do tempo · junho a outubro de 2026
O fogo chegou antes do Estado
Os principais fatos da temporada. Use os filtros para ver cada tipo de acontecimento.
Fontes: indicadas em cada item.
Revista CaiporaO fogo que não é crime
Há um fogo que a lei protege. A Lei 14.944, de 2024, proíbe usar fogo para suprimir vegetação nativa (art. 30), mas reconhece o uso tradicional do fogo por povos indígenas e comunidades tradicionais (art. 33). A roça de coivara, pequena, feita no tempo certo e vigiada até apagar, é manejo da floresta há milênios.
Análise. Por isso a frase da Funai sobre a Apyterewa merece cuidado. Falar em “práticas tradicionais de queima” num território de onde o gado ilegal acabou de ser retirado pode, sem prova, inverter a culpa. Os dados de 2026 apontam outro endereço: no Amazonas, oito em cada dez focos de outubro estavam em imóveis privados com CAR, e as terras indígenas tiveram 4,6% da área queimada do estado. No Pará, os municípios campeões de focos são os da fronteira do gado.
A Constituição de 1988, no artigo 231, garante aos povos indígenas o usufruto exclusivo das terras que tradicionalmente ocupam e dá à União o dever de protegê-las. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho obriga o Estado a proteger o meio ambiente dos territórios em cooperação com os povos. Quando o fogo posto do lado de fora entra numa terra indígena, quem falha não é só o incendiário. É também o Estado que chegou depois.
O que vem
A temporada não acabou. Estudos meteorológicos indicam alta probabilidade de que o El Niño se estenda até o início de 2027, segundo o MPF. Em Roraima, a estação do fogo no lavrado começa em dezembro, num estado que já teve em 2026 mais focos que em todo o ano passado. O MPF pediu que as equipes fiquem mobilizadas enquanto os sistemas oficiais emitirem alertas de risco crítico.
Com a chuva, a fumaça vai baixar. O que fica é o território queimado: a floresta de Sissaíma que perdeu quase metade das árvores para o fogo, as roças Sateré-Mawé, as estradas do Pará onde caminhões de indígenas são queimados e áudios prometem tiros. E fica a pergunta que a fumaça faz todo ano: por que o Estado só chega depois?
Território por território
Os nomes do fogo
Terras indígenas, bairros e comunidades atingidos pelo fogo ou pela fumaça em 2026, segundo os dados publicados até 30 de outubro.
Atenção: a lista não é exaustiva. A Coiab fala em 12 terras indígenas atingidas no Amazonas, e a lista completa não foi publicada. Os territórios não são localizados além do município.
Revista CaiporaO outro lado
- Ministério do Meio Ambiente. Afirma que os incêndios de 2026 no Amazonas e no Pará têm origem humana e são investigados como possível ação criminosa. Diz ter mobilizado brigadistas, aeronaves, a Força Nacional e a Polícia Federal, e que os responsáveis serão punidos.
- Funai. Sobre a Apyterewa, afirmou que, “independentemente da origem, o Governo Federal atua em articulação com os órgãos competentes”, e que acionou o Ibama.
- Governo do Amazonas. Diz ter proibido o uso do fogo por 120 dias, ampliado as bases de combate de 11 para 25 e anunciado prisões em Autazes. Afirma que quase todos os incêndios no estado decorrem de atividades humanas.
- Governo do Pará. Declarou à Justiça Federal ter sido notificado e que prestará os esclarecimentos pedidos. Decretou alerta climático e ambiental em agosto.
- Investigados na Operação Fagulha. A PF não divulgou oficialmente os nomes. A Revista Caipora não localizou manifestação da defesa.
Como fizemos esta reportagem
A Revista Caipora reuniu os boletins mensais Infoqueima do Inpe de janeiro a agosto de 2026, o Boletim do Fogo do Ministério do Meio Ambiente, recomendações do MPF no Amazonas e no Pará, a nota técnica da Coiab citada pelo ISA, o boletim epidemiológico do DSEI Parintins e reportagens publicadas até 30 de outubro. Os focos de setembro e outubro vêm de dados do Inpe citados por órgãos públicos e veículos de imprensa, porque o boletim mensal de setembro ainda não tinha sido publicado. O total de setembro do bioma Amazônia foi calculado pela Caipora a partir dos números publicados pela InfoAmazonia e deve ser conferido no BDQueimadas.
Foco de calor não é incêndio nem área queimada. Os períodos dos dados variam e estão indicados em cada número. Os mapas mostram terras indígenas pelo município, nunca pela localização de aldeias. A reportagem não identifica investigados que não foram denunciados, não publica imagens de pessoas indígenas e não usa fotografia de rituais.

